sábado, 18 de janeiro de 2025

Causas da dormência em plantas daninhas


Introdução

A dormência é uma das principais causas da persistência das plantas daninhas nos sistemas agrícolas porque permite que sementes viáveis “esperem” o momento mais favorável para germinar.

Esse traço ajuda a explicar por que o problema continua severo em escala global: uma síntese recente estimou cerca de 1.800 espécies daninhas causando redução média de 31,5% na produção vegetal, enquanto a base internacional da resistência a herbicidas registra, em 2026, 546 casos únicos de resistência em 274 espécies, 168 herbicidas e 76 países. Em culturas específicas, as perdas sem controle ainda podem atingir 72,2% em beterraba sacarina, 55,3% em feijão seco e 23,4% em trigo de inverno na América do Norte. (MDPI)

No campo, a dormência não é apenas um estado de “sono” da semente. Ela resulta da combinação entre fatores internos da semente, como balanço hormonal e estrutura do tegumento, e fatores externos, como temperatura, luz, umidade, enterrio e história ambiental da planta-mãe. Por isso, entender as causas da dormência é essencial para prever a emergência, reduzir o banco de sementes e melhorar o timing do controle. (Springer Nature Link)

1. Balanço hormonal: ABA, GA e o controle fisiológico da dormência

A causa fisiológica mais clássica da dormência é o predomínio de sinais inibidores sobre os promotores de germinação, especialmente o ácido abscísico (ABA) em relação às giberelinas (GA). A revisão de Yan e Chen mostra que temperatura, luz e disponibilidade de nitrogênio alimentam redes de sinalização que convergem para ABA, GA e óxido nítrico, regulando se a semente permanece dormente ou inicia a germinação. (Springer Nature Link)

Esse controle hormonal não é abstrato: ele é detectável em sementes e em seus tecidos de origem. A revisão de Bezodis e Penfield destaca que o ambiente materno altera a fisiologia da progênie e que o efeito pode envolver mudanças de ABA, especialmente quando o suprimento de nitrogênio e as condições térmicas da planta-mãe variam durante o desenvolvimento da semente. Em 2025, Chen e colaboradores mostraram diretamente que a temperatura é percebida em tecidos maternos do fruto e que a mãe transfere ABA para o zigoto, ajustando a dormência da progênie. (Cambridge University Press & Assessment)

Esse resultado ajuda a entender por que duas populações da mesma espécie podem nascer com níveis de dormência diferentes mesmo sob o mesmo clima de germinação no campo. Em Alopecurus myosuroides, a vernalização da planta-mãe aumentou a dormência da progênie, exigindo mais after-ripening e estratificação fria para germinar em temperatura alta, e o efeito foi associado a alterações globais de metilação do DNA. (Cambridge University Press & Assessment)

2. Ambiente materno: temperatura, nitrogênio e memória intergeracional

Uma parte importante das causas da dormência nasce antes mesmo da semente ser dispersa. O ambiente materno funciona como um “programador” da dormência, porque temperaturas mais baixas, variações sazonais e disponibilidade de nitrogênio modulam o tamanho do efeito de dormência na geração seguinte. A revisão de 2024 sobre controle materno da fisiologia da progênie explica que esses efeitos podem ser confundidos com genética pura, mas muitas vezes refletem sinais ambientais recebidos durante a formação da semente. (Cambridge University Press & Assessment)

A evidência mais recente reforça esse mecanismo. Chen et al. concluíram, em 2025, que a preadaptação da progênie ao clima materno ocorre por fluxo intergeracional de ABA, e não apenas por nitrogênio no grão. Em paralelo, outro estudo em 2025 mostrou que a temperatura materna impõe efeito de longo prazo sobre a emergência da plântula, mais forte do que a própria variação genética na dormência em certos contextos. (PubMed)

Em termos práticos, isso significa que a causa da dormência pode estar “fora da semente visível”: ela pode começar no campo onde a planta-mãe cresceu, na estação em que floresceu, e no balanço entre temperatura e nutrição que definiu o nível basal de ABA na progênie. Em plantas daninhas, esse ponto é crítico porque a mesma espécie pode produzir lotes com respostas distintas à germinação em safras diferentes. (Cambridge University Press & Assessment)

3. Estrutura do tegumento: dormência física e barreiras mecânicas

Outra causa importante é a dormência física, quando o tegumento impede a entrada de água e gases. O artigo de Hubert, Leprince e Buitink ressalta que a dormência física decorre de um tegumento duro e impermeável, enquanto a de legumes e outras espécies pode ser combinacional, isto é, física mais fisiológica. Em leguminosas, a revisão de 2024 mostra que a camada cuticular impermeável do tegumento é essencial para essa forma de dormência.

Em Malva parviflora, um exemplo muito útil para a agricultura, a dormência é em grande parte causada por compostos hidrofóbicos, como lignina e ceras, que endurecem o tegumento e reduzem a entrada de água e oxigênio. No mesmo estudo, escarificação mecânica e química aumentaram a germinação, enquanto água quente prolongada reduziu a viabilidade, mostrando que a barreira física é realmente a causa da dormência. (MDPI)

Em peão silvestre, a pesquisa de 2024 mostrou que a dormência física é geneticamente separável da espessura e da rugosidade do tegumento. Isso é importante porque a causa da dormência não se resume à “casca grossa”: a arquitetura da testa, sua permeabilidade e a composição do tecido também entram na determinação do estado dormente. (Frontiers)

4. Pericarpo, embrião e dormência combinada

Nem toda barreira estrutural está no tegumento. Em Tithonia tubaeformis, a escarificação do pericarpo e a excisão do embrião estimularam a germinação, indicando que o pericarpo atua como barreira à germinação. O estudo também mostrou que a adição de ABA e de inibidor de giberelina reduziu a germinação, o que revela combinação entre barreira física e controle hormonal. (Cambridge University Press & Assessment)

Esse é um bom exemplo de dormência combinacional: a semente precisa superar ao mesmo tempo a barreira estrutural e o freio fisiológico. Em espécies assim, uma simples mudança ambiental não basta para quebrar a dormência, porque o embrião precisa receber o sinal correto e a estrutura externa precisa deixar a água e o oxigênio entrarem.

5. Luz, temperatura e nitrato como gatilhos ambientais

Após a dispersão, luz, temperatura e nitrato se tornam os sinais ambientais mais importantes para iniciar ou bloquear a germinação. A revisão de Yan e Chen identificou esses três fatores como os mais críticos na regulação da dormência e da germinação, e mostrou que eles atuam em rede com ABA e GA. Em termos ecológicos, isso significa que a semente “lê” a posição no solo, o tipo de cobertura e a disponibilidade de recurso antes de germinar. (Springer Nature Link)

A luz é especialmente decisiva em sementes pequenas ou muito próximas da superfície. Em Tithonia tubaeformis, escuridão e temperatura constante reduziram a germinação de sementes frescas, enquanto a luz combinada com temperaturas alternadas favoreceu a quebra de dormência. O estudo também mostrou que resíduos de cana podem suprimir a emergência ao reduzir o sinal de luz e a alternância térmica na superfície do solo. (Cambridge University Press & Assessment)

A temperatura atua tanto na quebra quanto na indução da dormência. Em Solanum nigrum, 15 °C e 30 °C favoreceram a germinação, enquanto 10 °C e 35 °C reduziram fortemente o desempenho das sementes. Em Aeschynomene indica, temperaturas elevadas e regimes alternados foram altamente favoráveis, mas a resposta variou com luz, sal, pH, osmose e profundidade, mostrando que a causa da dormência pode estar no limiar térmico da espécie. (MDPI)

6. After-ripening, estratificação e a quebra da dormência

A dormência não é sempre permanente. Muitas sementes de daninhas perdem a dormência com after-ripening, isto é, o armazenamento seco por algum tempo, ou com estratificação fria, quando passam por frio úmido por um período definido. Em Tithonia tubaeformis, a estratificação fria liberou a dormência e permitiu germinação em luz e temperaturas alternadas, enquanto o after-ripening seco não teve o mesmo efeito naquele material. (Cambridge University Press & Assessment)

Esse detalhe é importante porque a causa da dormência varia com a espécie e com o tipo de dormência. Em sementes com dormência fisiológica não profunda, o after-ripening costuma funcionar bem; em sementes com barreira física ou combinacional, a solução pode exigir escarificação, calor, frio ou a combinação de vários tratamentos. Em Malva parviflora, por exemplo, a escarificação mecânica foi muito mais eficiente do que água quente prolongada para quebrar a dormência. (MDPI)

7. Dormência secundária: o ambiente desfavorável “reativa” o bloqueio

A dormência secundária é uma das causas mais importantes da persistência do banco de sementes do solo. A semente já estava madura e, em vez de germinar, volta a ficar dormente quando enfrenta condições desfavoráveis, como baixa luz, temperaturas inadequadas, baixa umidade ou enterrio prolongado. O artigo de Hubert et al. deixa claro que a dormência fisiológica pode ser primária ou secundária, dependendo da ordem cronológica em que é adquirida.

Em Cardamine impatiens, sementes enterradas apresentaram ciclo sazonal de dormência/ não dormência, germinando melhor no outono e no início da primavera e reentrando em dormência condicional durante o inverno. Em Diplachne fusca, a dinâmica anual foi semelhante: o banco enterrado passou por ciclos sazonais, mantendo viabilidade e ajustando a germinação conforme a estação. (ScienceDirect)

A dormência secundária também pode ser acionada por calor sazonal. Em Amaranthus hybridus, temperaturas de verão no solo induziram dormência secundária nas sementes enterradas, reduzindo a emergência posterior. Em Alopecurus myosuroides, o efeito da vernalização sobre a planta-mãe aumentou a dormência da progênie, mostrando que temperatura pode induzir tanto a dormência primária quanto a secundária, dependendo do estágio do ciclo de vida em que atua. (ResearchGate)

8. Enterrio, profundidade e persistência no banco de sementes

A profundidade de enterrio também ajuda a definir a causa da dormência, porque altera o ambiente físico ao redor da semente. Em Eclipta prostrata e em outras espécies estudadas recentemente, a superfície expõe as sementes a luz e alternância térmica, enquanto o enterrio reduz esses sinais e pode manter ou induzir dormência. Em Polygonum aviculare, a quebra de dormência dependeu fortemente de tratamentos que simularam os sinais da superfície do solo. (Cambridge University Press & Assessment)

Esse efeito é um dos motivos pelos quais o banco de sementes não desaparece rapidamente. Em conversão para manejo menos intensivo, a fração persistente do banco pode permanecer enorme, com dezenas de milhares de sementes por metro quadrado, mesmo quando a fração germinável cai. Em estudo recente, o banco persistente chegou a 117.000 sementes m⁻², contra 27.000 sementes m⁻² no banco germinável médio, deixando claro que a dormência é a chave da permanência. (DergiPark)

9. Ambiente materno, genética e epigenética como causas interligadas

Muitas vezes a dormência é resultado de causas que se acumulam: ambiente materno, controle hormonal, epigenética e genética da espécie. Em Alopecurus myosuroides, a vernalização deixou marcas epigenéticas associadas a maior dormência da progênie; em Brassica, a revisão de Brown e colaboradores aponta que a dormência secundária é influenciada por ambiente materno e por herança genética; e, em Tithonia tubaeformis, a própria fisiologia do pericarpo e do embrião se combinou aos sinais de temperatura e luz. (Cambridge University Press & Assessment)

Isso significa que a causa da dormência não deve ser tratada como um único fator isolado. Em uma lavoura, sementes de uma mesma espécie podem diferir porque vieram de mães submetidas a temperaturas diferentes, porque o tegumento é mais impermeável, porque o lote sofreu after-ripening distinto ou porque o solo induziu dormência secundária após a dispersão. (Cambridge University Press & Assessment)

Tabela. Principais causas da dormência em plantas daninhas e sua leitura no campo

Causa principalMecanismo biológicoExemplo recenteImplicação de manejo
Predomínio de ABA sobre GAMantém a semente em estado não germinativoRevisão de Yan & Chen; PNAS 2025 sobre ABA materna (Springer Nature Link)Monitorar janela de quebra de dormência
Ambiente maternoTemperatura e nutrição programam a progênieAlopecurus myosuroides; PNAS 2025 (Cambridge University Press & Assessment)Prever lotes com dormência mais alta
Tegumento impermeávelBloqueio de água e oxigênioMalva parviflora; legumes com dormência física (MDPI)Escarificação e cobertura do solo
Pericarpo/embrião restritivoBarreira física associada a sinal hormonalTithonia tubaeformis (Cambridge University Press & Assessment)Reduzir sinais de superfície do solo
Luz, temperatura e nitratoDisparam ou bloqueiam germinaçãoRevisão 2020; Solanum nigrum; Aeschynomene indica (Springer Nature Link)Cobertura, mulch e controle precoce
Dormência secundáriaReentrada em dormência sob estresseCardamine impatiens, Diplachne fusca, A. hybridus (ScienceDirect)Não confiar em controle único

Conclusões

As causas da dormência em plantas daninhas são múltiplas e interdependentes. Em termos práticos, a dormência surge do equilíbrio entre hormônios, ambiente materno, estrutura da semente e sinais ambientais depois da dispersão. É por isso que sementes da mesma espécie podem germinar em momentos diferentes, permanecer viáveis por longos períodos e reinfestar a área após uma safra aparentemente bem controlada. (Springer Nature Link)

Do ponto de vista do manejo, a mensagem central é clara: não existe uma única causa da dormência, nem uma única forma de quebrá-la em todas as espécies. O melhor controle vem de reconhecer se a dormência é fisiológica, física ou combinada, entender o papel da mãe e do ambiente, e ajustar a estratégia de acordo com a espécie e o sistema de produção.

Recomendações práticas

Na prática, vale mapear a flora daninha da área e classificar as espécies mais importantes quanto ao tipo provável de dormência. Em espécies com forte dormência física, como Malva parviflora e várias leguminosas, a cobertura do solo e a redução da movimentação de sementes na superfície ajudam a evitar a quebra do estado dormente; em espécies com dormência fisiológica e secundária, como Cardamine impatiens, Diplachne fusca e Alopecurus myosuroides, o foco deve ser reduzir o banco de sementes e impedir a produção de novos propágulos. (MDPI)

Também vale integrar o calendário de manejo à ecologia da semente. Falsa semeadura, cobertura vegetal, controle antes da floração, prevenção de seed rain e monitoramento de emergência por ondas são as ferramentas mais consistentes para lidar com dormância e dormência secundária. Quando o ambiente já induziu dormência no banco, a área precisa ser tratada como um reservatório de longo prazo, não como um problema pontual de aplicação. (Cambridge University Press & Assessment)

Referências

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