Introdução
A dormência é um dos traços mais importantes para explicar por que as plantas daninhas continuam causando perdas elevadas na agricultura.
Em culturas como soja, milho e beterraba sacarina, a ausência de controle pode resultar em perdas expressivas de produtividade, e a persistência do problema é reforçada por um cenário global de resistência já documentado em 546 casos únicos, envolvendo 274 espécies, 168 herbicidas e 76 países. Esses números mostram que a dormência não é apenas um detalhe da biologia das sementes: ela é um componente central da sobrevivência, da dispersão temporal da emergência e da dificuldade de manejo. (Weed Science Society of America)Em termos práticos, a dormência mantém sementes viáveis no solo por longos períodos e distribui a germinação em “ondas”, em vez de permitir uma emergência única e previsível. Isso reduz a eficiência de uma intervenção isolada e faz com que o banco de sementes funcione como uma memória biológica da área. Revisões recentes mostram que essa memória pode ser transitória ou persistente, e que muitas daninhas usam dormência justamente para evitar germinar no pior momento possível. (ResearchGate)
1. O que é dormência e por que ela importa
A literatura recente distingue claramente dormência primária e secundária. A dormência primária é estabelecida durante a maturação da semente, antes da dispersão, enquanto a dormência secundária surge em sementes maduras depois da dispersão, quando elas passam por condições desfavoráveis no ambiente. Essa distinção é muito útil para o manejo porque explica se a semente já sai “travada” da planta-mãe ou se volta a ficar dormente depois de ter perdido a dormência inicial.
É importante não confundir essa classificação temporal com os mecanismos de dormência. Primária e secundária dizem respeito ao momento em que a dormência aparece; já mecanismos como dormência embrionária e dormência imposta pelo tegumento descrevem como a dormência é mantida. Essa separação conceitual aparece de forma consistente nas revisões recentes sobre sementes daninhas e ajuda a evitar interpretações simplistas sobre germinação no campo. (ResearchGate)
2. Dormência primária: quando a semente já sai da planta em estado dormente
A dormência primária é a forma mais intuitiva de proteção contra germinação precoce. Sementes viáveis, recém-dispersas, não germinam mesmo quando encontram luz, umidade e temperatura adequadas. Esse comportamento permite que a planta-mãe “agende” a emergência da descendência para um período mais seguro do ponto de vista ecológico e agronômico. (Cambridge University Press & Assessment)
Em canola, por exemplo, a dormência primária e a capacidade de entrar em dormência secundária são influenciadas por fatores genéticos, hormonais, fisiológicos e agronômicos. O resumo mais recente indica que genótipos com maior dormência costumam ter maior concentração de ácido abscísico, e que condições maternas, tempo de colheita e manejo do solo também interferem na intensidade do fenômeno. Isso mostra que a dormência primária não é fixa: ela responde ao ambiente vivido pela planta-mãe. (ScienceDirect)
A revisão de Bezodis e Penfield reforça esse ponto ao mostrar que temperatura, nitrogênio, luz e disponibilidade de água durante o desenvolvimento da semente alteram a fisiologia do embrião e dos tecidos maternos que o acompanham. Em outras palavras, o ambiente da planta-mãe “programa” parte do comportamento germinativo da progênie. Em espécies com dormência imposta pelo tegumento, essa programação também depende fortemente da estrutura da casca e dos tecidos externos. (Cambridge University Press & Assessment)
Um exemplo recente muito claro é o do milk thistle. Nesse caso, sementes recém-colhidas não germinaram em nenhuma condição de teste, mas o ácido giberélico e o after-ripening em armazenamento seco aumentaram a germinação, indicando dormência fisiológica não profunda do tipo 2. O estudo também mostrou que a profundidade de enterrio altera a persistência da semente no solo, com comportamento diferente entre 5 cm e camadas mais profundas. (ScienceDirect)
Outro caso importante é o de Alopecurus myosuroides. A vernalização da planta-mãe aumentou a dormência da progênie, exigindo mais after-ripening e estratificação fria para que as sementes germinassem em temperaturas quentes. Os autores mostram que esse efeito aumenta a heterogeneidade do banco de sementes e reforça a ideia de que a dormência primária pode ser modulada por eventos ocorridos muito antes da dispersão. (Cambridge University Press & Assessment)
3. Dormência secundária: quando a semente madura volta a ficar “travada”
A dormência secundária é particularmente importante em plantas daninhas porque aumenta a persistência do banco de sementes e distribui a emergência ao longo de várias estações. Ela ocorre quando uma semente já madura, não dormente, passa por condições como baixa luz, temperaturas inadequadas, baixa disponibilidade de água ou outros estresses do ambiente e volta a um estado dormente. Esse mecanismo é central para a sobrevivência em solos agrícolas expostos a forte sazonalidade. (ResearchGate)
A revisão sobre Brassica napus mostra que a dormência secundária é especialmente relevante em canola voluntária, porque a semente que entra no banco do solo sob condições adversas pode permanecer viável por mais tempo e escapar do controle. O trabalho também destaca que baixa temperatura e baixa luminosidade são indutores típicos dessa forma de dormência, além de mostrar que a herança genética da característica é alta e que o manejo do solo influencia o problema. (ScienceDirect)
Em Draba nemorosa, a dormência secundária foi observada como parte de um ciclo anual sincronizado: as sementes saem do estado dormente no verão, germinam em janelas favoráveis do outono e do início da primavera e retornam à dormência em condições sazonais menos adequadas. O estudo é importante porque mostra que a dormência secundária não é apenas uma resposta de sobrevivência, mas uma engrenagem fenológica que permite “escolher” quando germinar. (ScienceDirect)
Em Cardamine impatiens, o padrão foi semelhante. As sementes enterradas passaram por um ciclo de dormência e não dormência ao longo do ano, com germinação mais eficiente em outono e início da primavera e menor aptidão para germinar no calor do verão. O trabalho conclui que o ciclo de dormência é um traço adaptativo funcional que controla o timing da emergência para escapar de períodos quentes e desfavoráveis. (ScienceDirect)
Um exemplo ainda mais direto do papel da temperatura veio de Amaranthus hybridus. Temperaturas médias do solo entre 20 °C e 25 °C no verão induziram dormência secundária em sementes enterradas, interrompendo a emergência quando a temperatura cai no outono. Isso mostra como a dormência secundária pode funcionar como uma trava sazonal, protegendo o banco de sementes contra germinação em momentos em que a sobrevivência da plântula seria menor. (ResearchGate)
4. Como a dormência distribui a germinação no tempo
O principal efeito agronômico da dormência é temporal: ela parcela a germinação em diversos momentos, em vez de concentrá-la em uma única onda. Isso aumenta a chance de que parte das sementes escape de um controle único e explica por que muitas espécies infestantes continuam emergindo depois de uma boa dessecação ou capina. Estudos de dormância e de modelagem de emergência convergem ao mostrar que a germinação reflete tanto a biologia da semente quanto a sequência de sinais ambientais recebidos no solo.
A literatura recente sobre modelos de emergência é clara ao apontar dormência e requisitos germinativos como variáveis centrais. A revisão sistemática de 2024 encontrou 98 estudos elegíveis, envolvendo 102 espécies, e mostrou que a previsão do fluxo de emergência depende, em boa parte, de temperatura-base, potencial hídrico-base e da interação entre ambiente e biologia da espécie. Em termos práticos, isso significa que a dormência é um dos principais motivos pelos quais o momento de aplicação pode errar o alvo. (Cambridge University Press & Assessment)
Em ambiente de clima variável, esse efeito tende a ficar ainda mais relevante. Revisões recentes indicam que o aumento de temperatura, a mudança no regime de chuvas e a intensificação de secas podem alterar a quebra de dormência e a indução de dormência secundária em diversas espécies daninhas. Estudos de modelagem com inverno mais quente e seco já mostram que a dinâmica de liberação de dormência e germinação pode ser deslocada, o que dificulta previsões simples baseadas apenas no calendário. (Frontiers)
Essa capacidade de “esperar” condições melhores é um típico mecanismo de bet-hedging. Em vez de apostar toda a descendência em uma única janela favorável, a planta distribui o risco entre vários tempos de emergência. Para o produtor, o resultado é um banco de sementes com persistência prolongada, germinação irregular e maior necessidade de monitoramento repetido ao longo da safra. (Cambridge University Press & Assessment)
5. Consequências para o banco de sementes e para o manejo
A dormência sustenta o banco de sementes persistente. A revisão de Qaderi mostra que muitos bancos são transitórios, mas os bancos persistentes mantêm parte das sementes viáveis por mais de um ano, com carry-over entre safras. É justamente essa persistência que permite que uma área volte a emergir mesmo depois de uma boa limpeza aparente da lavoura. (ResearchGate)
Esse comportamento explica por que o manejo precisa ir além da planta visível. Como as sementes podem permanecer dormentes e viáveis por longos períodos, a meta real é reduzir a reposição do banco, impedir que a dormência seja quebrada em massa por operações mal planejadas e evitar que a população produza sementes novas antes do controle. A revisão de 2026 sobre mecanismos de perda de sementes mostra que estratégias integradas podem reduzir de 20% a 99% do banco anual, dependendo da espécie e do sistema. (Universidade de Valência)
A dormência também ajuda a explicar por que a emergência costuma ser desuniforme. Em vez de uma onda única, a área pode apresentar fluxos sucessivos ao longo de semanas ou meses, especialmente em espécies com ciclagem sazonal. Isso reforça a necessidade de operações escalonadas e de ferramentas preditivas, em vez de uma única aplicação “definitiva”. (ScienceDirect)
Tabela 1. Diferenças práticas entre dormência primária e secundária
| Aspecto | Dormência primária | Dormência secundária |
|---|---|---|
| Momento em que surge | Durante a maturação, antes da dispersão | Depois da dispersão, em sementes maduras |
| Situação da semente | Já nasce dormente | Torna-se dormente novamente após exposição ao ambiente |
| Principais gatilhos de manutenção/indução | Ambiente materno, ABA, tegumento, after-ripening | Baixa luz, baixa temperatura, baixa umidade, enterrio, sazonalidade |
| Papel ecológico | Evita germinação precoce e sincroniza a emergência com a estação adequada | Protege a semente em períodos desfavoráveis e distribui a emergência ao longo do tempo |
| Exemplos recentes | Brassica napus, Silybum marianum, Alopecurus myosuroides | Draba nemorosa, Cardamine impatiens, Amaranthus hybridus |
| Implicação para o manejo | Considerar after-ripening, maternal environment e colheita | Considerar sazonalidade, enterrio e previsões de emergência |
Tabela sintetizada a partir de Qaderi (2023), Bezodis e Penfield (2024), Moradi et al. (2024), Holloway et al. (2025), Yang et al. (2025, 2026) e Royo Simonella et al. (2025). (ResearchGate)
Conclusões
A dormência primária e a secundária são dois lados da mesma estratégia de sobrevivência. A primeira prepara a semente para não germinar cedo demais; a segunda permite que sementes maduras entrem novamente em repouso quando o ambiente deixa de ser favorável. Juntas, elas tornam o banco de sementes do solo uma estrutura dinâmica, capaz de sustentar infestações por vários anos e de produzir germinação desuniforme.
Em termos de manejo, o conhecimento dessas duas formas de dormência muda a forma de decidir quando controlar, quanto tempo monitorar a área e como programar operações como falsa semeadura, dessecação, preparo do solo e rotação de culturas. Quanto melhor o produtor entende a biologia da dormência, maior é a chance de reduzir escapes, esgotar o banco de sementes e evitar o reforço da resistência a herbicidas. (Cambridge University Press & Assessment)
Recomendações práticas
O manejo mais eficiente começa com monitoramento prolongado, porque a dormência distribui a germinação no tempo e inviabiliza respostas únicas e tardias. Em áreas com histórico de emergência escalonada, vale observar mais de uma janela de fluxo e registrar espécies, profundidade de enterrio, cobertura do solo e condições térmicas e hídricas que antecederam a emergência. (Cambridge University Press & Assessment)
A segunda recomendação é reduzir a reposição do banco de sementes. Isso inclui impedir que plantas escapadas produzam sementes, evitar revolvimento desnecessário que possa reativar sementes dormentes e usar estratégias que promovam a perda natural de sementes no sistema. Em culturas e regiões onde modelos de emergência já funcionam bem, o ideal é integrar previsão de emergência com o calendário de controle. (Universidade de Valência)
A terceira é tratar clima e história da área como parte do diagnóstico. Maternal environment, vernalização, after-ripening, temperaturas de verão e secas de inverno alteram o grau de dormência e a distribuição temporal da emergência; por isso, a mesma espécie pode se comportar de forma diferente em áreas distintas. Em um cenário de mudança climática, isso deixa de ser detalhe acadêmico e passa a ser componente direto da tomada de decisão no campo. (Cambridge University Press & Assessment)
Referências
BEZODIS, W.; PENFIELD, S. Maternal environmental control of progeny seed physiology: a review of concepts, evidence and mechanism. Seed Science Research, v. 34, n. 2, p. 48-55, 2024.
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ROYO SIMONELLA, L. A.; FERNÁNDEZ FARNOCCHIA, R. B.; BATLLA, D. Induction of secondary dormancy in Amaranthus hybridus seeds by summer temperatures and its impact on field emergence. Weed Research, v. 65, n. 5, 2025.
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HEAP, I. International herbicide-resistant weed database. 2026.
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