Introdução
O nematoide das lesões radiculares Pratylenchus zeae é um dos principais fitonematoides associados a sistemas agrícolas tropicais e subtropicais, especialmente em culturas como milho, cana-de-açúcar, arroz, soja e sorgo.
Pertencente ao gênero Pratylenchus, esse patógeno caracteriza-se por causar danos diretos aos tecidos radiculares, comprometendo a absorção de água e nutrientes e reduzindo o desenvolvimento das plantas (JONES et al., 2021). Estudos recentes indicam que os nematoides fitoparasitas são responsáveis por perdas superiores a US$ 170 bilhões por ano na agricultura mundial, sendo as espécies de Pratylenchus amplamente distribuídas em sistemas de produção intensivos (GHAREEB et al., 2022; NICOL et al., 2021). No Brasil, Pratylenchus zeae é frequentemente identificado em áreas de monocultivo e sucessão de culturas gramíneas, onde pode alcançar altas densidades populacionais no solo.Biologia e ciclo de vida
Diferentemente de nematoides
sedentários, Pratylenchus zeae é classificado como um nematoide
endoparasita migrador, o que significa que ele se movimenta ativamente
dentro dos tecidos radiculares durante seu ciclo de vida. Tanto juvenis quanto
adultos são capazes de penetrar nas raízes e alimentar-se das células do córtex
radicular (MOENS; PERRY; STARR, 2022). Essa atividade provoca destruição
celular e formação de lesões necróticas nas raízes, característica
típica do ataque desse grupo de nematoides. O ciclo biológico pode ocorrer em
aproximadamente 30 a 45 dias, dependendo das condições ambientais,
permitindo múltiplas gerações durante o ciclo da cultura (ESCUDERO et al.,
2020).
Distribuição e plantas
hospedeiras
Pratylenchus zeae
apresenta ampla distribuição geográfica, sendo frequentemente encontrado em
regiões de clima quente e solos agrícolas intensamente explorados. Essa espécie
possui uma ampla gama de hospedeiros, incluindo diversas gramíneas cultivadas e
espontâneas (NICOL et al., 2021). Culturas como milho, cana-de-açúcar,
arroz, sorgo e algumas espécies de plantas daninhas são consideradas
hospedeiras importantes para a multiplicação desse nematoide. Essa
característica dificulta o manejo, pois mesmo durante períodos de entressafra o
patógeno pode sobreviver e multiplicar-se em plantas voluntárias ou cobertura
vegetal inadequada (CARNEIRO et al., 2022).
Sintomas e danos nas plantas
Os sintomas causados por Pratylenchus
zeae geralmente incluem redução do crescimento das plantas, clorose
foliar, diminuição do vigor e queda na produtividade (DESAEGER; WATSON;
TURECHEK, 2020). No sistema radicular, a presença do nematoide provoca lesões
escuras ou necroses, que comprometem o funcionamento das raízes e reduzem a
capacidade de absorção de nutrientes. Essas lesões também podem facilitar a
entrada de fungos e bactérias patogênicas, agravando ainda mais os danos à
planta. Em culturas como milho e cana-de-açúcar, perdas de produtividade podem
variar entre 10% e 25% em áreas infestadas, dependendo da densidade
populacional e das condições de manejo (GHAREEB et al., 2022).
Diagnóstico e monitoramento
populacional
O diagnóstico de Pratylenchus
zeae deve ser realizado por meio de análises nematológicas do solo e das
raízes, que permitem identificar a espécie presente e estimar sua densidade
populacional (CARNEIRO et al., 2022). A identificação morfológica tradicional
pode ser complementada por técnicas moleculares modernas, como métodos baseados
em PCR, que aumentam a precisão na distinção entre espécies do gênero Pratylenchus
(ESCUDERO et al., 2020). O monitoramento regular das populações no solo é
fundamental para avaliar o risco de danos econômicos e orientar decisões de
manejo antes do estabelecimento das culturas.
Controle químico
O controle químico pode ser
utilizado como parte de um programa integrado de manejo de Pratylenchus zeae.
Nematicidas aplicados no tratamento de sementes ou diretamente no solo podem
reduzir a infestação inicial e proteger o sistema radicular das plantas durante
as fases iniciais de desenvolvimento (GRABAU; NOLING, 2022). Ingredientes
ativos como fluopyram, abamectina e fluensulfone têm sido avaliados em
diferentes culturas e demonstram potencial para reduzir as populações do
nematoide (DESAEGER; WATSON; TURECHEK, 2020). Entretanto, a eficácia do
controle químico depende de fatores como densidade populacional inicial, tipo
de solo e condições ambientais.
Controle físico e cultural
As práticas culturais são
essenciais para o manejo sustentável de Pratylenchus zeae. A rotação
de culturas com espécies menos suscetíveis, associada ao uso de plantas de
cobertura adequadas, pode reduzir significativamente as populações do nematoide
ao longo do tempo (MOENS; PERRY; STARR, 2022). Além disso, o manejo adequado da
matéria orgânica do solo e o controle de plantas daninhas hospedeiras
contribuem para reduzir a multiplicação do patógeno. Sistemas agrícolas mais
diversificados tendem a apresentar maior equilíbrio biológico e menor pressão
de infestação por nematoides.
Controle biológico
O controle biológico tem sido
amplamente estudado como alternativa sustentável no manejo de Pratylenchus
zeae. Diversos microrganismos do solo apresentam capacidade de suprimir
populações de nematoides por meio de parasitismo de ovos, produção de
metabólitos tóxicos ou competição por recursos (SIKANDAR et al., 2021).
Entre os agentes biológicos mais promissores destacam-se fungos e bactérias
como Pochonia chlamydosporia, Purpureocillium lilacinum e espécies do gênero
Bacillus, que têm demonstrado potencial para reduzir a reprodução de
nematoides em diferentes sistemas de cultivo (TOPALOVIĆ; HEUER, 2023). O
aumento da biodiversidade microbiana do solo é um fator importante para
promover a supressividade natural contra fitonematoides.
Conclusão e recomendações
práticas
O nematoide das lesões
radiculares Pratylenchus zeae representa um desafio significativo para
sistemas agrícolas tropicais, especialmente em culturas gramíneas de grande
importância econômica. Seu hábito migrador e ampla gama de hospedeiros
favorecem sua persistência no solo e dificultam o manejo. Dessa forma,
recomenda-se a adoção de estratégias integradas, incluindo diagnóstico
nematológico, rotação de culturas, uso de plantas de cobertura adequadas,
manejo da matéria orgânica do solo e aplicação estratégica de nematicidas ou
agentes biológicos. O avanço das pesquisas em microbiologia do solo e manejo integrado
de pragas indica que sistemas agrícolas mais diversificados e sustentáveis
podem desempenhar papel fundamental na redução dos impactos causados por esse
importante fitonematoide.
Tabela – Características
agronômicas de Pratylenchus zeae
|
Característica |
Descrição |
|
Nome comum |
Nematoide das lesões
radiculares |
|
Nome científico |
Pratylenchus zeae |
|
Tipo de parasitismo |
Endoparasita migrador |
|
Sintoma principal |
Lesões necróticas nas raízes |
|
Ciclo biológico |
30–45 dias |
|
Culturas afetadas |
Milho, cana-de-açúcar, arroz,
sorgo |
|
Tipo de dano |
Destruição celular e redução do
sistema radicular |
|
Manejo recomendado |
Rotação de culturas, controle
biológico e nematicidas |
Referências (formato ABNT)
CARNEIRO, R. M. D. G.; et al.
Identification and distribution of plant-parasitic nematodes in agricultural
soils. Nematology, 2022.
DESAEGER, J.; WATSON, T.;
TURECHEK, W. Nematicides and soil management strategies for plant-parasitic
nematodes. Crop Protection, 2020.
ESCUDERO, N.; et al. Advances in
molecular detection of plant-parasitic nematodes. Frontiers in Plant Science,
2020.
GHAREEB, R.; et al. Global crop
losses due to plant-parasitic nematodes. Agronomy, 2022.
GRABAU, Z.; NOLING, J. Chemical
management of plant-parasitic nematodes in field crops. Plant Disease
Management Reports, 2022.
JONES, J. T.; et al. Top 10
plant-parasitic nematodes in molecular plant pathology. Molecular Plant
Pathology, 2021.
MOENS, M.; PERRY, R. N.; STARR,
J. L. Root-Knot Nematodes. Wallingford: CABI Publishing, 2022.
NICOL, J. M.; et al. Current
nematode threats to world agriculture. Food Security, 2021.
SIKANDAR, A.; et al. Biological
control of plant-parasitic nematodes using microbial antagonists. Biological
Control, 2021.
TOPALOVIĆ, O.; HEUER, H.
Microbial suppression of plant-parasitic nematodes in soils. Soil Biology
and Biochemistry, 2023.
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