terça-feira, 3 de março de 2026

Relação do Nitrogênio vs Nematoides

 

Introdução

A relação entre nutrição mineral e nematoides fitoparasitas deixou de ser vista apenas como um efeito indireto da fertilidade do solo sobre a produtividade e passou a ser entendida como uma interação ecológica e fisiológica mais ampla, que envolve a planta, o patógeno e a qualidade biológica do solo.

Em sistemas agrícolas intensivos, essa interação é decisiva porque nematoides parasitas continuam entre os principais limitantes da produção mundial, com perdas anuais estimadas em US$ 157 bilhões e efeitos particularmente severos em culturas de alto valor e em ambientes onde o solo já opera próximo de limites físicos e químicos desfavoráveis.(MEEL,SAHARAN 2025)

Do ponto de vista agronômico, essa interface é crítica porque a planta não responde ao ataque do nematoide apenas com “mais ou menos crescimento”; ela responde também com mudanças no metabolismo de defesa, na arquitetura radicular e na forma como distribui nutrientes entre raízes e parte aérea. Isso significa que o estado nutricional pode tanto aumentar a tolerância da planta quanto, em alguns cenários, favorecer a exploração do hospedeiro pelo parasita, dependendo da dose, da forma do nutriente e do contexto do solo. Em estudo recente com beterraba, por exemplo, a adubação nitrogenada não apenas melhorou atributos de crescimento, como também reduziu a pressão de Meloidogyne incognita e melhorou a viabilidade celular da planta sob estresse nematoide, mostrando que o efeito do nitrogênio é dose-dependente e contextual, e não uniformemente benéfico ou prejudicial.(SHAKEEL et al., 2022)

Essa complexidade fica ainda mais evidente quando se considera que o desempenho da doença não depende só do nutriente aplicado, mas da arquitetura química e biológica do solo como um todo. Um estudo de 2025 com 28 solos demonstrou que a relação C/N do solo foi o fator mais fortemente associado à severidade da doença e ao desempenho da planta sob infecção por M. incognita; o trabalho também mostrou que a doença seguiu uma resposta em “hump” invertido, com um ponto ótimo em torno de C/N ≈ 8 para minimizar a severidade. No mesmo estudo, a adição de carbono reduziu a doença em solos pobres em C/N, mas pode aumentá-la em solos já ricos em C/N, o que reforça a necessidade de interpretar a nutrição em escala sistêmica, e não apenas como “mais fertilizante = mais proteção”.

Outro aspecto central é que o manejo nutricional altera o ambiente da rizosfera, isto é, a zona de solo influenciada pelas raízes, onde os nematoides localizam o hospedeiro e onde a microbiota do solo pode atuar como aliada ou antagonista. Uma revisão de 2024 destaca que fatores abióticos como pH, textura, estrutura, umidade e o ambiente microbiano modulam fortemente a interação entre plantas e nematoides-das-galhas, e que bactérias promotoras de crescimento podem tanto estimular a nutrição da planta quanto induzir resistência sistêmica e reduzir a suscetibilidade. Em outras palavras, a nutrição não atua isoladamente: ela reorganiza o cenário biológico no qual o nematoide tenta infectar a raiz.

Essa perspectiva também ajuda a explicar por que adubações orgânicas e minerais podem produzir respostas diferentes frente aos nematoides. Em estudo publicado em 2025, adubos orgânicos e fertilizantes minerais alteraram a estrutura da teia alimentar do solo em pepino; a cama de frango fresca foi a que mais reduziu a abundância de nematoides no solo no momento do transplantio, enquanto os fertilizantes minerais de liberação rápida foram os menos eficientes nesse aspecto. O trabalho ainda mostrou que os adubos orgânicos aumentaram a complexidade da teia alimentar, ao passo que fertilizantes minerais aceleraram uma via de decomposição dominada por bactérias e simplificaram a rede trófica, o que pode reduzir a estabilidade ecológica do sistema e alterar a pressão de doença.

Em termos práticos, isso significa que o manejo da fertilidade precisa ser pensado como componente do manejo integrado de nematoides, e não como uma operação separada. Em algumas situações, um nível nutricional bem ajustado fortalece a planta, melhora a cicatrização de raízes e reduz a expressão de sintomas; em outras, um excesso de nitrogênio ou uma relação desbalanceada entre carbono e nitrogênio pode favorecer o patógeno, aumentar a atratividade radicular ou simplificar a comunidade microbiana que ajudaria a suprimir a doença. A literatura recente reforça justamente essa dualidade: o nutriente pode ser ferramenta de proteção, mas também pode se tornar fator de risco quando manejado sem diagnóstico e sem considerar o sistema solo-planta-nematoide.

Por isso, discutir a relação nutricional com nematoides exige abandonar respostas simplistas e adotar uma visão de sistema. Em vez de perguntar apenas “qual nutriente reduz nematoide?”, a pergunta mais útil é: em qual cultura, com qual espécie de nematoide, em qual tipo de solo e sob qual condição de fertilidade aquele nutriente melhora a tolerância da planta e reduz a pressão do patógeno? É exatamente essa combinação de fatores que define se a adubação será um recurso de proteção fisiológica, de modulação ecológica da rizosfera ou, em certos casos, um componente que precisa ser ajustado para não intensificar o problema.

Formas de nitrogênio e efeito sobre nematoides

O nitrogênio está disponível no solo principalmente nas formas nítrica (NO₃⁻) e amoniacal (NH₄⁺), cada uma com efeitos distintos sobre os nematoides (MARSCHNER, 2021).

A forma nítrica está geralmente associada ao aumento do crescimento radicular e pode favorecer a atração e reprodução de nematoides como Meloidogyne spp. (SINGH et al., 2024).

Por outro lado, a forma amoniacal pode apresentar efeito supressivo, devido à liberação de amônia (NH₃), que possui ação tóxica para nematoides (WANG et al., 2023).


Nitrogênio e crescimento radicular

O fornecimento adequado de nitrogênio estimula o crescimento vegetativo e radicular, aumentando a superfície de absorção e a capacidade de exploração do solo (JONES et al., 2022).

No entanto, o crescimento radicular excessivo pode aumentar a área disponível para infecção por nematoides.

Esse efeito ressalta a importância do equilíbrio na adubação nitrogenada.


Influência do nitrogênio na suscetibilidade das plantas

O nitrogênio influencia diretamente a suscetibilidade das plantas aos nematoides. Altas doses podem resultar em tecidos mais suculentos e menos lignificados, facilitando a penetração do patógeno (ESCUDERO et al., 2020).

Por outro lado, níveis adequados favorecem a síntese de proteínas de defesa e aumentam a tolerância ao ataque.

Assim, o manejo adequado do nitrogênio é essencial para equilibrar crescimento e defesa.


Nitrogênio e reprodução de nematoides

Diversos estudos indicam que níveis elevados de nitrogênio podem aumentar a reprodução de nematoides, especialmente em sistemas intensivos (SINGH et al., 2024).

Esse aumento está relacionado à maior disponibilidade de recursos nutricionais nas raízes.

Entretanto, o efeito pode variar conforme a espécie de nematoide e a cultura.


Interação com a microbiota do solo

O nitrogênio também influencia a microbiota do solo, afetando a dinâmica de nematoides. Solos com manejo equilibrado tendem a favorecer microrganismos antagonistas (TOPALOVIĆ; HEUER, 2023).

Por outro lado, o excesso de nitrogênio pode reduzir a diversidade microbiana e favorecer patógenos.

Essa interação é fundamental para o controle biológico natural.


Nitrogênio e metabolismo vegetal

O nitrogênio está diretamente ligado ao metabolismo primário das plantas, influenciando a produção de aminoácidos, proteínas e enzimas (MARSCHNER, 2021).

Esse metabolismo afeta a capacidade da planta de responder ao ataque de nematoides, incluindo a produção de compostos de defesa.

Deficiências de nitrogênio comprometem esses processos.


Impacto econômico do manejo inadequado

O manejo inadequado do nitrogênio pode intensificar os danos causados por nematoides, resultando em perdas superiores a 30–50% da produtividade em condições de alta infestação (NICOL et al., 2021).

Além disso, há aumento nos custos com fertilizantes e menor eficiência de uso.


Tabela – Relação do nitrogênio com nematoides

AspectoEfeito do NitrogênioConsequência
Forma nítricaEstimula crescimentoPode aumentar infestação
Forma amoniacalLiberação de NH₃Efeito supressivo
Altas dosesCrescimento excessivoMaior suscetibilidade
Níveis adequadosEquilíbrio fisiológicoMaior tolerância
Interação microbiotaPode alterar equilíbrioImpacto indireto
DeficiênciaReduz defesaMaior vulnerabilidade

Conclusão e recomendações práticas

O nitrogênio exerce influência decisiva na interação entre plantas e nematoides, podendo atuar tanto como fator de risco quanto como ferramenta de manejo.

O equilíbrio na adubação nitrogenada é essencial para evitar o aumento da suscetibilidade e da reprodução dos nematoides.

Recomenda-se o uso de análise de solo e planejamento da adubação, considerando forma, dose e momento de aplicação.

A integração entre manejo nutricional e controle de nematoides é fundamental para sistemas agrícolas sustentáveis.


Referências (ABNT)

ESCUDERO, N.; et al. Plant–nematode interactions. International Journal of Molecular Sciences, 2020.

GHAREEB, R.; et al. Nutrient effects on nematodes. Agronomy, 2022.

INOMOTO, M. M.; ASSEFA, D. Tropical nematology. Nematology, 2022.

JONES, J. T.; et al. Plant-parasitic nematodes. Molecular Plant Pathology, 2022.

MARSCHNER, P. Marschner’s Mineral Nutrition of Higher Plants. 4 ed. 2021.

MEEL, Swati; SAHARAN, Baljeet Singh. Microbial warfare against nematodes: A review of nematicidal compounds for horticulture, environment, and biotechnology. 2025. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2950194625003255. Acesso em: 21 mar. 2026.

MUKHTAR, T.; et al. Nemical Control, 2021.

SINGH, S.; et al. Nematode ecology. Agriculture, 2024.

TOPALOVIĆ, O.; HEUER, H. Soil biology. Soil Biology aatode management. Agronomy, 2023.

NICOL, J. M.; et al. Global nematode losses. Food Security, 2021.

SHAKEEL, Adnan et al. Nitrogen fertilizer alleviates root-knot nematode stress in beetroot by suppressing the pathogen while modulating the antioxidant defense system and cell viability of the host. 2022. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0885576522000534. Acesso em: 21 mar. 2026.

SIKANDAR, A.; et al. Biological control. Biolognd Biochemistry, 2023.

WANG, K.; et al. Plant–nematode interactions. Plants, 2023.

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