Introdução
A síndrome da haste verde e retenção foliar (SHVRF), também descrita na literatura internacional como green stem and foliar retention syndrome (GSFR), é um distúrbio de maturação que chama atenção no campo porque as vagens e os grãos chegam à maturidade fisiológica, mas a haste, os pecíolos e, em muitos casos, as folhas permanecem verdes por mais tempo do que o normal. Isso atrasa a colheita, reduz a eficiência operacional e pode comprometer a qualidade do grão quando a lavoura precisa esperar para uniformizar o secamento natural.
Em estudos recentes, a síndrome vem sendo associada de forma importante ao nematoide Aphelenchoides besseyi em soja, especialmente no Brasil. (Cambridge Repository)O ponto crítico é que a SHVRF não deve ser tratada como uma anomalia puramente visual. Ela é um sinal de que houve desequilíbrio no enchimento de grãos, na senescência e na alocação de fotoassimilados entre partes vegetativas e reprodutivas. A literatura recente mostra que, em soja, esse quadro pode estar ligado a fatores bióticos e abióticos, o que exige diagnóstico cuidadoso para não confundir a síndrome causada por A. besseyi com outros problemas de “stay-green” fisiológico ou viral. (Jornais de Ciência Analítica)
Na prática brasileira, o problema deixou de ser esporádico. A Embrapa estimou, em 2024, cerca de 6,3 milhões de hectares de soja com risco ou infestação relacionada ao nematoide da haste verde, concentrados em regiões quentes e úmidas do Norte e Centro-Oeste. Em outra linha de evidência, um estudo recente relatou perda econômica de 250 mil sacas e cerca de R$ 15 milhões em uma única propriedade na safra 2018/2019, mostrando que o impacto pode ser severo quando o problema se instala. (Embrapa)
1. Como os sintomas aparecem na planta
O sintoma mais reconhecido é a persistência do verde na haste, mesmo quando as vagens já amadureceram. Em termos visuais, a planta “parece pronta para colher” por cima, mas ainda conserva tecidos suculentos e verdes na haste principal e, muitas vezes, nos ramos laterais. Em relatórios técnicos e artigos recentes, essa aparência é descrita como retenção de folhas e pecíolos verdes, além de atraso de senescência, o que aumenta a dificuldade de colheita mecanizada. (MDPI)
Além da haste verde, muitos casos apresentam folhas com coloração verde-escura persistente, pecíolos ainda firmes, enrugamento, bolhas, distorção foliar e, em quadros mais severos, espessamento de nervuras e aborto floral. Estudos recentes com plantas inoculadas por A. besseyi mostraram também aspecto de mosaico, deformação das folhas jovens e perda acentuada de pegamento de vagens. (MDPI)
Outro conjunto de sinais importantes envolve a parte reprodutiva. É comum observar vagens deformadas, necrosadas, chochas ou sem sementes, além de redução do número total de vagens por planta. Em experimentos de campo, plantas inoculadas apresentaram ainda menor produção de vagens e sementes, com degradação visível da estrutura reprodutiva. Esses sintomas são particularmente úteis para diferenciar SHVRF de um simples atraso de maturação causado apenas por clima. (MDPI)
Em termos de cronologia, a síndrome pode se tornar visível relativamente cedo após a infecção. No estudo de 2025 com 17 cultivares, os primeiros sinais começaram a aparecer por volta de 10 dias pós-inoculação, com sintomas típicos e mais intensos por volta de 18 dias, e quadros muito severos após 60 dias. Em outras palavras, o problema pode estar instalado bem antes de o produtor perceber o dano na lavoura adulta. (MDPI)
Tabela-resumo dos sintomas e do que eles sugerem
| Sintoma observado no campo | Como costuma aparecer | O que isso sugere | Evidência recente |
|---|---|---|---|
| Haste verde persistente | Haste principal e ramos permanecem verdes após a maturação das vagens | Distúrbio de senescência com forte componente fisiológico e, em áreas infestadas, associação com A. besseyi | (MDPI) |
| Retenção foliar | Folhas e pecíolos continuam presos e verdes no fim do ciclo | Alteração na senescência e no fluxo de fotoassimilados | |
| Folhas deformadas e com mosaico | Distorção, espessamento de nervuras, “blistering” e aspecto de vírus | Forte suspeita de causa biótica, especialmente nematoide foliar | (MDPI) |
| Vagens chochas ou deformadas | Menor pegamento, vagens necrosadas ou sem grãos | Redução do enchimento e do rendimento final | (MDPI) |
2. Relação entre o nematoide e a síndrome
Os trabalhos mais recentes reforçam que Aphelenchoides besseyi não fica restrito às raízes. Em soja, ele foi confirmado em raízes, hastes, folhas e sementes, o que explica por que os sintomas se espalham pela parte aérea e por que o problema pode retornar de uma safra para outra via semente contaminada. Em laboratório e campo, o nematoide mostrou capacidade de colonizar tecidos internos e alcançar o sistema foliar superior, reproduzindo o quadro clássico de GSFR. (MDPI)
Essa colonização ajuda a entender a lógica dos sintomas. Se o patógeno compromete tecidos meristemáticos, nós, inflorescências e o fluxo interno de assimilados, a planta perde eficiência em “desligar” os órgãos vegetativos quando os grãos entram em maturação. O resultado é uma planta com senescência desuniforme, em que a parte reprodutiva caminha para o fim do ciclo enquanto a haste e as folhas seguem metabolicamente ativas. (MDPI)
A evidência mais preocupante é a transmissão por sementes. No ensaio de 2025, 17 cultivares de soja avaliadas mostraram infecção intensa, com 100% de infecção das sementes nos materiais testados e emergência muito reduzida em várias cultivares. Isso confirma que o material de plantio pode funcionar como importante fonte de inóculo e que o sintoma observado no campo não é apenas uma consequência visual, mas parte de um ciclo epidemiológico ativo. (MDPI)
3. O que favorece o aparecimento dos sintomas
A expressão da síndrome não depende apenas do nematoide. A literatura recente indica que o fenótipo de “stay-green” em soja pode surgir quando há combinação de estresses ambientais, baixa intensidade de vagens, desequilíbrio nutricional, pestes sugadoras e problemas de manejo, todos capazes de alterar a relação fonte–dreno da planta. Em um estudo transcriptômico de 2025 sobre SGS, por exemplo, os autores reforçam que o quadro de retenção verde pode ser influenciado por vírus, insetos, nutrientes desequilibrados e clima. (MDPI)
Para a GSFR associada a A. besseyi, a condição climática parece ainda mais importante em regiões quentes e úmidas. Revisões recentes apontam que a doença tende a ser mais expressiva em ambientes com altas temperaturas e umidade elevada por vários dias consecutivos, o que ajuda a explicar a concentração de relatos em áreas do Norte e do Cerrado brasileiro. (ResearchGate)
A variabilidade genética também pesa. Em soja, já existem estudos de mapeamento de QTLs para o fenótipo de haste verde, indicando que parte da resposta é controlada pelo genótipo. Em 2024, um trabalho de Breeding Science validou QTLs associados ao caráter, enquanto um estudo em Scientific Reports avaliou 1.553 germoplasmas e encontrou alta herdabilidade para resistência ao stay-green syndrome em um contexto de inoculação natural. Embora esse último trabalho trate de SGS em sentido amplo, ele reforça que o fenótipo é geneticamente modulável e não apenas imposto pelo ambiente. (J-STAGE)
4. Impactos na produtividade e na colheita
Os impactos econômicos aparecem em duas frentes: perda direta de rendimento e perda operacional na colheita. Em casos severos, a literatura recente registra reduções de até 60% em surtos associados a A. besseyi, e há menções de perdas totais em áreas com alta severidade. Mesmo quando o rendimento biológico não cai na mesma proporção, a retenção foliar e a haste verde fazem o produtor perder eficiência de plataforma, aumentar matéria estranha e atrasar a janela ideal de colheita. (Nature)
O problema também afeta qualidade de sementes e uniformidade de maturação. Em estudos de metabolômica e fisiologia publicados a partir de 2020, a GSFR foi tratada como uma síndrome em que os tecidos vegetativos permanecem metabolicamente ativos enquanto o enchimento de grãos é prejudicado, o que ajuda a explicar o aparecimento de sementes e vagens mal formadas, além do menor peso de parte aérea observado em plantas inoculadas. (Jornais de Ciência Analítica)
5. Como diferenciar da haste verde “fisiológica” ou de outras causas
Nem toda planta verde no final do ciclo é GSFR causada por nematoide. O diagnóstico diferencial deve considerar, pelo menos, três grupos de causas: distúrbios fisiológicos de senescência, doenças virais ou bacterianas, e estresses por insetos, nutrição ou clima. Em soja, o stay-green syndrome descrito em outras regiões da Ásia, por exemplo, pode envolver geminivírus, folhas deformadas, aborto de vagens e redução de produtividade, mostrando que o mesmo aspecto visual pode ter etiologias diferentes. (MDPI)
Na GSFR ligada a A. besseyi, a presença de mosaico, distorção foliar, espessamento de nervuras, enrugamento e aborto de flores e vagens fortalece a hipótese de causa biótica. Quando o campo apresenta plantas que “parecem travadas” no verde, mas sem sinais reprodutivos importantes, o problema pode ser mais fisiológico; quando há deformação intensa de folhas e vagens, a suspeita de nematoide sobe bastante. (MDPI)
A fisiologia por trás disso também importa. Em um estudo de 2025, o SGS em soja foi associado a alterações em genes de fotossíntese, metabolismo de amido e sacarose, além de mudanças em hormônios como IAA, ABA, JA e SA. Mesmo sendo um SGS de outra origem, o trabalho é útil porque mostra que o “verde que persiste” geralmente reflete um colapso da sinalização de senescência e do transporte de assimilados, e não apenas uma coloração mais bonita da lavoura. (MDPI)
6. Diagnóstico e monitoramento modernos
O diagnóstico visual continua importante, mas já não é suficiente. Em 2025, um ensaio com CRISPR combinado com RPA permitiu detectar A. besseyi em menos de 30 minutos, com aplicação em 44 amostras de soja com sintomas de GSFR. Isso é relevante porque abre caminho para confirmação rápida em campo ou em laboratório de apoio, reduzindo o erro de diagnóstico em áreas com sintomas parecidos. (Nature)
Outra linha promissora é o uso de sensoriamento hiperespectral e aprendizado de máquina. Estudos recentes mostraram que a infecção por A. besseyi altera a resposta espectral da folha, o que permite discriminar plantas afetadas e selecionar bandas mais sensíveis à doença. Em termos práticos, isso significa que o sintoma pode ser detectado antes de ficar “gritante” aos olhos, especialmente quando há mapeamento de talhões e amostragem dirigida. (ScienceDirect)
A metabolômica também já entrou nesse tema. Desde 2020, os trabalhos com GSFR mostram que há mudanças químicas na planta associadas ao distúrbio, fortalecendo a ideia de que o sintoma visual é a ponta de um processo fisiológico e bioquímico mais amplo. Para o campo, isso ainda não substitui a avaliação clínica, mas aumenta a confiança em diagnósticos integrados e em programas de melhoramento. (Jornais de Ciência Analítica)
7. Recomendações práticas baseadas em pesquisa recente
A primeira recomendação é tratar a semente como ponto crítico do manejo. Como houve comprovação recente de transmissão por sementes e de infecção interna em vários tecidos, lotes oriundos de áreas com histórico da síndrome devem ser avaliados com rigor antes do plantio. Em áreas suspeitas, a amostragem de sementes e de plantas sintomáticas precisa vir acompanhada de confirmação laboratorial, e não apenas de inspeção visual. (MDPI)
A segunda recomendação é reduzir a fonte de inóculo no sistema. Em 2024, Embrapa Soja mostrou que a braquiária ‘Marandu’ não é hospedeira de A. besseyi e pode reduzir sua população quando usada em sucessão à soja. Isso não resolve o problema sozinho, mas é uma pista importante para rotação e sistemas de integração lavoura-pecuária em áreas infestadas.
A terceira recomendação é não confiar apenas em medidas curativas no final do ciclo. Dessecantes e harvest aids podem ajudar a padronizar a colheita quando a lavoura já está madura e o problema é a retenção de material verde, mas eles não eliminam a causa do distúrbio. Um white paper técnico de 2024 destaca que a dessecação pré-colheita é útil quando há folhas e hastes verdes com vagens prontas, principalmente para recuperar eficiência de colheita.
A quarta recomendação é monitorar fatores que intensificam o desequilíbrio fonte–dreno. Onde houver pressão de percevejos, deficiência nutricional, estiagens seguidas de retorno de chuva ou uso de materiais geneticamente mais sensíveis, o risco de sintomas se amplifica. A literatura recente sobre SGS e sobre o nematoide reforça que manejo de estresses, saúde da planta e condição ambiental interferem diretamente na severidade final. (MDPI)
A quinta recomendação é investir em diagnóstico antecipado e em vigilância de área. Onde houver suspeita, o ideal é coletar plantas ainda no período reprodutivo, comparando sintomas em áreas afetadas e não afetadas, e usar ferramentas confirmatórias, como detecção molecular, espectroscopia ou, quando disponível, ensaios baseados em CRISPR-RPA. Quanto mais cedo a confirmação, maior a chance de separar problema de campo, evitar uso de semente contaminada e planejar a sucessão com menor risco. (Nature)
Conclusões
A síndrome da haste verde e retenção foliar em soja é, acima de tudo, um sintoma de descompasso fisiológico grave, que pode ter origem em diferentes fatores, mas que no Brasil tem forte associação com Aphelenchoides besseyi. O conjunto de sinais mais característico é a permanência de hastes, folhas e pecíolos verdes após a maturação das vagens, frequentemente acompanhada de deformações foliares, aborto floral, vagens chochas e forte redução da eficiência de colheita. (MDPI)
Do ponto de vista prático, a mensagem central é clara: diagnóstico correto, semente sadia, redução de inóculo e manejo integrado do sistema são mais importantes do que intervenções tardias. A pesquisa recente já oferece ferramentas promissoras para diagnóstico rápido e estratégias de redução populacional, mas o controle pleno ainda depende de vigilância constante, escolha de áreas e materiais menos suscetíveis e integração com rotação/sucessão adequada. (Nature)
Referências
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