Introdução
Os nematoides parasitas de plantas continuam entre os limitantes mais silenciosos da produtividade agrícola porque atuam abaixo da superfície, quando muitas vezes o problema já está instalado.
A importância do tema é ainda maior em regiões tropicais e subtropicais, onde a diversidade de nematoides e a janela de crescimento das culturas favorecem infestações persistentes. Em 2024, a literatura de biosegurança destacou que a movimentação global de material propagativo, as mudanças climáticas e a intensificação produtiva tendem a ampliar o risco de dispersão e de dano por nematoides parasitas. Para o produtor, isso significa que o manejo precisa ser preventivo, e não apenas corretivo. (Frontiers)
Este artigo sintetiza o que há de mais consistente entre 2020 e 2025 sobre o ciclobutrifluram no controle de nematoides, com foco em sua base biológica, espectro de ação, eficácia, segurança, limites e uso integrado. A ideia não é tratá-lo como solução isolada, mas como uma ferramenta de alta tecnologia que só entrega o melhor quando encaixada em um programa bem desenhado de manejo integrado. (APVMA)
1. Por que os nematoides seguem tão relevantes?
Em escala global, revisões recentes continuam descrevendo os nematoides fitoparasitas como organismos microscópicos, porém extremamente eficientes em reduzir rendimento, qualidade e longevidade das plantas. A estimativa de perdas associadas a restrições bióticas permanece elevada, e revisões recentes de alto nível reforçam que o custo econômico agregado dos nematoides é muito subestimado por ficar oculto no campo e por se confundir com estresses hídricos, nutricionais ou fitopatológicos. (Annual Reviews)
No caso de grupos como Meloidogyne spp., o risco é ainda maior porque a amplitude de hospedeiros é ampla e a capacidade de multiplicação é alta. Em 2025, uma síntese em livro técnico voltou a tratar os nematoides das galhas como um dos grupos mais destrutivos da agricultura moderna, com danos anuais na ordem de dezenas de bilhões de dólares em estimativas consolidadas de literatura. Ainda que os números variem conforme cultura, região e metodologia, a mensagem é estável: o problema é grande, recorrente e caro. (Cabidigital Library)
No Brasil, a dimensão do problema aparece com clareza em levantamentos recentes. Em soja no sul do país, uma pesquisa de 2021 encontrou 10 gêneros de nematoides parasitas, com predominância de Meloidogyne (principalmente M. javanica), Pratylenchus (principalmente P. brachyurus) e Helicotylenchus spp.; as incidências relatadas chegaram a 28,6% para Meloidogyne, 45,1% para Pratylenchus e 91,2% para Helicotylenchus. Esses dados mostram que o manejo no campo raramente lida com uma única espécie, mas com comunidades complexas. (Springer Link)
Outro levantamento brasileiro, com 216 amostras de áreas de soja em plantio direto distribuídas pelas cinco regiões do país, identificou sete gêneros de fitonematoides e apontou Meloidogyne, Pratylenchus, Heterodera e Rotylenchulus entre os mais relevantes. O estudo também mostrou que textura, pH e matéria orgânica modulam fortemente a comunidade nematológica, o que ajuda a explicar por que a mesma tecnologia química não responde igual em todos os talhões. (ScienceDirect)
2. O que é o ciclobutrifluram e como ele funciona?
O ciclobutrifluram é um nematicida e fungicida de nova geração, pertencente à classe das piridina-3-carboxamidas, desenvolvido para aplicação em sementes e no solo. A tecnologia é conhecida comercialmente como TYMIRIUM® e foi desenhada para proteger a zona radicular, onde se inicia o dano de nematoides e de vários patógenos de solo. Sua formulação e desenho químico foram pensados para oferecer mobilidade e eficácia em doses compatíveis com uso agrícola moderno. (APVMA)
O ponto central é o modo de ação: o ciclobutrifluram atua como inibidor seletivo da succinato desidrogenase, o complexo II da cadeia respiratória mitocondrial. Em termos simples, ele interfere na produção de energia das células do nematoide e do fungo, reduzindo a capacidade do organismo de sobreviver, se mover, se alimentar e completar o ciclo de vida. A classificação regulatória e de resistência o coloca no grupo IRAC N-3 para nematicidas e FRAC 7 para fungicidas SDHI. (APVMA)
Um aspecto relevante é que o composto foi otimizado a partir de uma campanha de descoberta orientada por triagem fenotípica e por confirmação do alvo molecular. A literatura de 2025 descreve essa trajetória como um programa de descoberta em etapas, combinando triagem contra nematoides, análises bioquímicas, genética e modelagem estrutural. Isso é importante porque aumenta a confiança de que a atividade observada em campo não é acidental, mas ligada a um alvo biológico bem definido. (ResearchGate)
3. O que os estudos recentes mostram sobre eficácia?
Os dados mais fortes de laboratório e casa de vegetação indicam que o ciclobutrifluram é ativo contra nematoides de alta relevância econômica, especialmente Meloidogyne incognita e Rotylenchulus reniformis. Em estudo de 2024, a exposição curta de juvenis a soluções aquosas do produto reduziu a infecção em raízes de tomate em faixas de concentração muito baixas, com efeito detectável já após uma hora de contato. Isso é um sinal importante de atividade rápida sobre formas móveis e infectivas. (APS Journals)
A descoberta publicada em 2025 reforça essa leitura ao mostrar mortalidade elevada de juvenis infectivos de Meloidogyne incognita e Heterodera schachtii em doses próximas às de campo, além de efeito ovicida em estudos com nematoides isolados. O trabalho também mostra que a relação entre inibição da succinato desidrogenase e potência biológica foi consistente ao longo de dezenas de análogos químicos, o que fortalece a ligação entre o alvo bioquímico e o desempenho nematicida. (ResearchGate)
Em Caenorhabditis elegans, usado como organismo-modelo, o ciclobutrifluram reduziu sobrevivência e fertilidade ao diminuir o número de células germinativas, e a resposta transcriptômica indicou ativação de genes ligados à detoxificação, como citocromos P450 e UDP-glucuronosil transferases. Para pesquisa, isso é valioso porque ajuda a interpretar a resposta fisiológica do nematoide e sugere rotas potenciais de adaptação biológica. (ResearchGate)
Outro detalhe favorável é que o composto não ficou restrito a uma única espécie-alvo. A literatura recente descreve eficácia contra diferentes nematoides economicamente relevantes, incluindo espécies de Meloidogyne e Heterodera, além de aplicações relatadas em tomate, pepino, milho e beterraba. Isso sugere um espectro mais amplo do que o de tecnologias muito específicas para uma única cultura ou patógeno. (ResearchGate)
A leitura mais correta, porém, é que o produto funciona melhor como ferramenta de proteção inicial da raiz do que como “cura” de campo. Em outras palavras, ele reduz a chance de instalação e multiplicação do nematoide logo no início do ciclo, o que tende a preservar área radicular, absorção de água e nutrientes e, por consequência, o potencial produtivo. Essa interpretação é coerente com a lógica de seed treatment e com os estudos recentes de eficácia precoce. (ScienceDirect)
4. Segurança, ambiente e limites práticos
A literatura recente também avançou na avaliação de risco ambiental. Em estudo de 2024, o ciclobutrifluram foi avaliado quanto a minhocas, ácaros do solo e abelhas, e os resultados indicaram ausência de efeitos adversos relevantes nas doses de uso recomendadas, com risco calculado muito abaixo dos níveis de preocupação. Para uma tecnologia aplicada ao solo ou à semente, esse é um ponto decisivo, porque o alvo agronômico está no ambiente edáfico e a margem de seletividade precisa ser demonstrada. (ScienceDirect)
O relatório da APVMA de 2024 vai na mesma direção ao registrar que o produto avaliado foi desenhado para uso como nematicida de grupo N-3 e fungicida de grupo 7, com recomendações de uso integrado e com advertência explícita de que aplicações repetidas e exclusivas podem reduzir o nível de controle. O documento também enfatiza rotação com modos de ação distintos, higiene da área, cultivares resistentes e monitoramento como partes do programa de manejo. (APVMA)
Essa orientação é coerente com o entendimento geral da pesquisa em nematologia: mesmo tecnologias novas e fortes perdem desempenho quando entram em uso repetitivo, sem alternância e sem diagnóstico correto. A revisão de 2024 sobre biosegurança e a de 2024 sobre manejo global reforçam que monitoramento, diagnóstico molecular e IPM são mais eficazes do que depender apenas de um produto químico. (Frontiers)
Do ponto de vista regulatório, o ciclobutrifluram avançou de forma expressiva entre 2024 e 2025. A APVMA descreveu sua avaliação para uso em turf, e a EPA, em 2025, informou a liberação final para produtos com o ingrediente ativo em turf, ornamentais, alface-romana, além de sementes de algodão e soja. No mesmo ano, a EPA estabeleceu tolerâncias para resíduos em algodão, alface e soja, o que indica consolidação regulatória em mercados relevantes. (APVMA)
Tabela 1. Resumo técnico do ciclobutrifluram no manejo de nematoides
| Aspecto | O que a evidência recente mostra | Implicação prática |
|---|---|---|
| Classe e alvo bioquímico | Piridina-3-carboxamida; inibidor da succinato desidrogenase, complex II; IRAC N-3 e FRAC 7. (APVMA) | Exige rotação de modo de ação para reduzir pressão de seleção. |
| Espectro biológico | Atividade contra Meloidogyne incognita, R. reniformis, Heterodera schachtii e outros nematoides economicamente importantes. (APS Journals) | Útil em áreas com comunidades mistas, não apenas em uma espécie. |
| Velocidade de ação | Redução rápida de infectividade e mortalidade de juvenis em curtos períodos de exposição. (PubMed) | Favorece proteção inicial da raiz e do estande. |
| Segurança não alvo | Baixo risco para minhocas, ácaros do solo e abelhas nas doses avaliadas. (ScienceDirect) | Fortalece o uso em programas de agricultura mais sustentável. |
| Situação regulatória | Avaliações e registros avançaram em 2024–2025 em Austrália, EUA e outros mercados. (APVMA) | O uso deve seguir rótulo, cultura e país, sem extrapolações. |
5. O que ainda precisa ser melhor entendido?
Apesar dos bons resultados, ainda existem lacunas importantes. A primeira é que a maioria dos dados públicos recentes concentra-se em laboratório, casa de vegetação e estudos regulatórios, enquanto os ensaios de campo independentes e multiambiente ainda são menos numerosos do que seria ideal para uma recomendação ampla e definitiva. A segunda é que a resposta pode variar bastante conforme espécie de nematoide, textura do solo, matéria orgânica, pH, cultivar e sistema de cultivo. (ScienceDirect)
A terceira lacuna é o risco de manejo “solto”, isto é, usar uma tecnologia forte sem diagnóstico nem integração com cultura, rotação e sanidade. A própria literatura recente em biosegurança e manejo integrado insiste que a identificação da espécie, o histórico da área e o monitoramento de populações são tão importantes quanto a escolha do nematicida. Em áreas com nematoides de galhas, por exemplo, saber se o problema dominante é Meloidogyne, Pratylenchus ou Rotylenchulus muda a estratégia inteira. (Frontiers)
Conclusões
O ciclobutrifluram representa uma das inovações mais interessantes da nematologia aplicada recente porque combina mecanismo bem definido, ação rápida sobre formas infectivas, potencial de uso em semente e solo e uma base regulatória já avançada em 2024–2025. O conjunto das evidências indica que ele pode ser muito útil em programas de proteção inicial de raízes, sobretudo em sistemas com histórico de nematoides de galha, reniformes e cyste-like pests. (ResearchGate)
Ao mesmo tempo, ele não deve ser tratado como ferramenta isolada. A eficácia no longo prazo dependerá da integração com diagnóstico, rotação, cultivares menos suscetíveis, manejo de solo, higiene e alternância de mecanismos de ação. A literatura recente é clara: a melhor resposta contra nematoides vem da combinação de táticas, não da dependência de um único ativo. (Frontiers)
Recomendações práticas
Na prática, o uso mais racional do ciclobutrifluram começa antes da aplicação: faça diagnóstico de solo e raiz, identifique a espécie predominante e avalie o histórico do talhão. Em áreas com comunidades mistas e pressão alta, o produto tende a ter maior valor quando entra como proteção inicial de semente ou no sulco, sempre dentro do programa integrado e respeitando o rótulo local. (Springer Link)
Também vale combinar a tecnologia com rotação de culturas e culturas de cobertura que não mantenham o hospedeiro principal do nematoide no sistema por vários ciclos. A pesquisa brasileira recente mostra que propriedades do solo influenciam a comunidade nematológica, então ajustes em pH, matéria orgânica e estrutura do solo ajudam a reduzir a pressão de inóculo e a melhorar o retorno da proteção química. (ScienceDirect)
Por fim, a regra mais importante é evitar repetição exclusiva do mesmo mecanismo de ação. Rotacionar modos de ação, monitorar níveis populacionais ao longo da safra e revisar a estratégia a cada ciclo são medidas simples que preservam a vida útil da tecnologia e aumentam a chance de resposta econômica consistente. Para estudantes e pesquisadores, o ciclobutrifluram é um caso exemplar de inovação com base molecular sólida; para produtores, é uma ferramenta promissora, mas que funciona melhor quando faz parte de um sistema, não de uma aposta única. (APVMA)
Referências
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