Introdução
Os nematoides fitoparasitas seguem entre os problemas mais caros da agricultura, com estimativas recentes de perdas globais em torno de US$ 157 bilhões por ano e com mais de 4.000 espécies já reconhecidas como parasitas de plantas.
A literatura de 2024–2025 também reforça que o controle químico isolado já não é suficiente como resposta universal, porque a eficácia varia muito com o nematoide, o solo, a cultura e o ambiente regulatório. (ScienceDirect)A prevalência em campo continua alta e heterogênea. Em um monitoramento recente na Croácia, Meloidogyne spp. foi detectado em 61 de 210 amostras, o que equivale a 29% de infestação, com quatro espécies identificadas. Esse tipo de dado mostra que a pressão de nematoides permanece real e regionalmente variável, exigindo soluções que sejam úteis no sistema produtivo e não apenas em laboratório. (MDPI)
É nesse cenário que Priestia megaterium ganha atenção. A espécie é hoje tratada como um microrganismo rizosférico/endofítico relevante para bioinsumos; a própria literatura de 2025 a apresenta como “P. megaterium (formerly Bacillus megaterium)”, ressaltando seu papel em solos e raízes. O interesse agronômico vem de sua combinação de colonização radicular, promoção de crescimento e produção de compostos bioativos, atributos que podem ser aproveitados no manejo de nematoides. (Frontiers)
1. O que a evidência recente mostra contra nematoides
A base direta mais forte até aqui vem da cepa YB-3, isolada da rizosfera do arroz. Em 2024, essa cepa mostrou atividade nematicida clara contra Meloidogyne graminicola: o sobrenadante fermentativo atingiu até 96,0% de mortalidade de juvenis de segundo estádio em ensaio in vitro e 39,2% de inibição de eclosão em 48 horas. Em casa de vegetação e no campo, o tratamento reduziu significativamente índice de galhas, população final de nematoides e número de ovos. (ResearchGate)
O valor agronômico desse trabalho não está só no controle direto do nematoide. A análise por sequenciamento mostrou que YB-3 não alterou de forma significativa a estrutura geral da microbiota da rizosfera, mas enriqueceu grupos potencialmente benéficos, como Acidobacteria, Bacteroidetes e Ascomycota. Os autores atribuíram o efeito à colonização da rizosfera, à indução de resistência da planta e ao aumento relativo de microrganismos úteis. (Springer Link)
Em tomate protegido, outra linha de evidência também apontou para atividade antagônica real. No estudo de 2023 com rhizobactérias nativas isoladas de tomate infectado por Meloidogyne incognita, o isolado IRh10, identificado como Priestia megaterium, reduziu a penetração do nematoide em mais de 50% sob condição de vaso. O mesmo trabalho detectou 30 compostos voláteis, dos quais 19 foram atribuídos a P. megaterium IRh10, incluindo compostos já associados na literatura a efeito nematicida. (Revistas de Pesquisa Agrícola Indianas)
Em 2024, o estudo de rhizobactérias antagonistas de nematoide em tomate protegido reforçou o mesmo quadro. O isolado PmHRh10, também identificado como P. megaterium, apresentou solubilização de fosfato, produção de IAA e de amônia, além de uso de múltiplos substratos; em consórcio com outras rhizobactérias, produziu a maior resposta de promoção de crescimento entre os tratamentos avaliados. Para nematologia, isso importa porque a bactéria não atua só sobre o parasita, mas também fortalece a planta hospedeira. (Ciência Vegetal)
2. Por que a espécie é plausível como bioagente
A plausibilidade biológica de P. megaterium para nematoides vem da própria ecologia da espécie. Um estudo de 2022 desenvolveu primers específicos para quantificação por qPCR e mostrou que P. megaterium é componente comum de alguns inoculantes agrícolas, mas que seu efeito funcional depende da sobrevivência após a introdução no solo. O trabalho também demonstrou rango de detecção de ~5×10² a 1×10⁸ CFU g⁻¹ de solo seco e apontou que o estabelecimento variou bastante entre diferentes solos. (ScienceDirect)
Esse detalhe é decisivo para nematologia aplicada. Se a cepa não coloniza, o efeito cai; se o solo já tem população nativa compatível, a resposta pode ser menor do que o esperado; se a formulação não sustenta viabilidade, o produto falha antes de chegar à raiz. Em outras palavras, o qPCR de 2022 mostra que o sucesso de P. megaterium depende tanto de ecologia do solo quanto de biologia da cepa. (ScienceDirect)
A base genômica também ajuda a explicar o interesse crescente. Em 2024, a análise comparativa da cepa B1 revelou genes ligados a quimiotaxia, motilidade flagelar, formação de biofilme, sistemas de secreção, detoxificação, transportadores e regulação transcricional. Fenotipicamente, a cepa apresentou swarming, swimming e biofilme, além de produção de IAA e sideróforos e solubilização de fosfato e zinco. Para manejo de nematoides, isso sugere uma bactéria apta a se mover na rizosfera, colonizar e modular o ambiente radicular. (HERO)
A química da espécie reforça o ponto. Em 2025, a siderófora da cepa ZS-3 foi caracterizada e associada à melhora do status de ferro e do crescimento em Arabidopsis thaliana. O estudo mostrou aumento de 85,41% e 77,05% na expressão de genes ligados à síntese de clorofila, e de 88,1% e 87,20% em genes de aquisição de ferro, além de ganhos de 132% na massa fresca total e 118% no comprimento de raiz em um dos tratamentos. Sideróforos não “matam” nematoides sozinhos, mas ajudam a construir uma planta menos vulnerável e uma rizosfera mais funcional. (Springer Link)
A plasticidade ecológica da espécie também aparece em seu genoma. Em 2025, o genoma completo da cepa CIMT4, isolada da rizosfera de milho, foi descrito com 5,7 Mb e 37,9% de GC, em um trabalho voltado às características de PGPR. Isso é importante porque mostra que P. megaterium não é uma curiosidade de uma única cepa; ele já vem sendo encontrado e estudado em nichos agrícolas distintos. (ScienceDirect)
3. Evidência em endofitismo e biocontrole mais amplo
Embora o foco aqui seja nematoides, a utilidade da espécie fica mais clara quando se observa o conjunto do gênero. Em 2025, a cepa endofítica KW16 demonstrou biocontrole contra Rhizoctonia solani em canola, com inibição in vitro de até 58% via compostos voláteis e colonização de tecidos internos da planta. Em planta, o tratamento anulou o efeito negativo do patógeno e elevou a biomassa da parte aérea em 216% e a da raiz em 1737% sob solo infectado. Isso mostra que P. megaterium pode operar como endófito funcional, atributo valioso para sistemas sob pressão de nematoides. (MDPI)
No Brasil, a revisão de 2024 sobre bacilos multifuncionais reforça essa direção ao registrar a formulação com B. subtilis BRM 2084 + (Priestia) megaterium BRM 119 como um dos exemplos mais bem-sucedidos de inoculantes com capacidade de solubilização de fósforo, síntese de fitohormônios e facilitação da absorção de nutrientes. A publicação também destaca compatibilidade com outros microrganismos benéficos e ganhos consistentes em milho, soja, feijão e cana-de-açúcar. (MDPI)
Isso ajuda a interpretar a espécie como plataforma biológica e não apenas como “um isolado que mata nematoide”. Em 2025, a revisão sobre microbioma como defesa contra nematoides enfatizou que endófitos e outras BCAs agem por metabólitos, competição e indução de defesa da planta, mas que a adoção em larga escala ainda sofre com desempenho inconsistente em campo e custo de produção. P. megaterium entra exatamente nesse grupo de agentes com boa plausibilidade, porém com necessidade de validação local e formulação adequada. (ScienceDirect)
4. O que isso significa na prática para o controle de nematoides
A leitura mais honesta da literatura recente é que Priestia megaterium já tem evidência direta real contra nematoides, mas essa evidência ainda está concentrada em cepas específicas e em poucos sistemas, principalmente arroz e tomate. O melhor exemplo é YB-3 contra M. graminicola e o isolado IRh10/PmHRh10 contra M. incognita em tomate protegido. Em termos de robustez científica, isso é promissor, mas ainda menor do que o corpo de evidência acumulado para gêneros mais clássicos de biocontrole. (ResearchGate)
A consequência agronômica é clara: o uso de P. megaterium faz mais sentido como parte de um programa integrado do que como solução única. A literatura de 2024 e 2025 sobre nematologia mostra que estratégias ecologicamente amigáveis — rotação, cultivares resistentes, biofumigação, controle biológico, manejo do solo e monitoramento — são o caminho mais consistente para reduzir perdas. O agente microbiano entra como peça de reforço do sistema radicular e da microbiota, não como substituto de todo o manejo. (ScienceDirect)
Tabela-resumo
| Evidência recente | Resultado principal | Leitura prática |
|---|---|---|
| YB-3 em arroz contra Meloidogyne graminicola | Até 96,0% de mortalidade de J2, 39,2% de inibição de eclosão, menor índice de galhas e menor população final no campo. (ResearchGate) | É a evidência direta mais forte da espécie contra nematoides. |
| IRh10/P. megaterium em tomate | Penetração do nematoide reduzida em >50%; 30 VOCs detectados, 19 atribuídos ao isolado. (Revistas de Pesquisa Agrícola Indianas) | Mostra efeito antagônico e potencial de metabólitos voláteis. |
| PmHRh10 em tomate protegido | Solubilização de fosfato, IAA, amônia e maior resposta em consórcio de rhizobactérias. (Ciência Vegetal) | Sustenta uso como promotor de vigor e tolerância ao ataque. |
| qPCR de P. megaterium | Detecção específica e estabelecimento variável entre solos. (ScienceDirect) | A formulação e o solo determinam o sucesso. |
| B1 e ZS-3 | Genes de biofilme, motilidade, IAA, sideróforos e solubilização; melhora do estado nutricional e crescimento. (HERO) | A espécie tem um repertório funcional coerente com biocontrole e bioestimulação. |
Conclusões
Priestia megaterium é hoje uma espécie muito interessante para a nematologia agrícola porque reúne três qualidades importantes: tem cepas com ação direta contra nematoides, tem evidência forte de promoção de crescimento e apresenta capacidade de colonização e adaptação à rizosfera. Em outras palavras, não é apenas uma bactéria “boa para a planta”; ela já mostrou ser um agente plausível de manejo biológico de nematoides em situações concretas. (ResearchGate)
Ao mesmo tempo, a base científica ainda é mais curta e mais cepa-dependente do que o ideal para recomendação ampla. O melhor caminho, neste momento, é tratá-la como uma plataforma biológica promissora, especialmente para sistemas de arroz e tomate protegido, mas que precisa de validação local em cada solo, clima e pressão de nematoide. (ScienceDirect)
Recomendações práticas
Para o produtor rural, P. megaterium faz mais sentido quando aplicado cedo, em tratamento de sementes, mudas ou na linha de plantio, e sempre dentro de um sistema com diagnóstico da espécie de nematoide, rotação de culturas e monitoramento da pressão populacional. Em área muito contaminada, o bioagente ajuda, mas não substitui correções de solo e manejo integrado. (ScienceDirect)
Para o pesquisador, a agenda prioritária é testar cepas específicas contra Meloidogyne spp. e Pratylenchus spp. em diferentes solos, medir colonização por qPCR, comparar formulações e quantificar não só redução de nematoides, mas também vigor, produtividade e persistência da inoculação. O estudo de qPCR de 2022 mostra exatamente por que isso é necessário: a sobrevivência varia muito com o solo. (ScienceDirect)
Para o técnico, a escolha deve privilegiar produtos com cepa identificada, densidade viável demonstrada e evidência de campo. Consórcios podem funcionar muito bem, como sugerem os estudos com tomate protegido e com o inoculante BRM 119 no Brasil, mas a compatibilidade entre microrganismos precisa ser validada antes de se transformar em recomendação rotineira. (Ciência Vegetal)
Referências
AFZAL, Amir; MUKHTAR, Tariq. Revolutionizing nematode management to achieve global food security goals - An overview. Heliyon, v. 10, n. 3, e25325, 2024. DOI: 10.1016/j.heliyon.2024.e25325.
ANDARGIE, Yohannes Ebabuye et al. Complete genome sequence of Priestia megaterium CIMT4 strain isolated from maize rhizosphere. Microbiology Resource Announcements, v. 14, n. 7, 2025. DOI: 10.1128/mra.01124-24.
GOWDA, M. T.; PRASANNA, R.; KUNDU, A.; RANA, V. S.; CHAWLA, G. Characterization and evaluation of native rhizobacteria isolated from Meloidogyne incognita-infected tomato (Solanum lycopersicum). The Indian Journal of Agricultural Sciences, v. 93, n. 2, p. 175-180, 2023. DOI: 10.56093/ijas.v93i2.131227.
KAMINSKY, Laura M.; BELL, Terrence H. Novel primers for quantification of Priestia megaterium populations in soil using qPCR. Applied Soil Ecology, v. 180, art. 104628, 2022. DOI: 10.1016/j.apsoil.2022.104628.
LUTUF, Hanif et al. A comprehensive review of ecologically friendly strategies for managing plant-parasitic nematodes: key issues and future prospects. CAB Reviews: Perspectives in Agriculture, Veterinary Science, Nutrition and Natural Resources, v. 20, n. 1, art. 0039, 2025. DOI: 10.1079/cabireviews.2025.0039.
MAHMOUD, Fatma M. et al. Comparative genomic analysis of strain Priestia megaterium B1 reveals conserved potential for adaptation to endophytism and plant growth promotion. Microbiology Spectrum, v. 12, n. 8, e0042224, 2024. DOI: 10.1128/spectrum.00422-24.
MEEL, Swati; SAHARAN, Baljeet Singh. Microbial warfare against nematodes: a review of nematicidal compounds for horticulture, environment, and biotechnology. The Microbe, v. 9, art. 100557, 2025. DOI: 10.1016/j.microb.2025.100557.
NOWAK, Bożena; CHLEBEK, Daria; HUPERT-KOCUREK, Katarzyna. Priestia megaterium KW16: A novel plant growth-promoting and biocontrol agent against Rhizoctonia solani in oilseed rape (Brassica napus L.)—functional and genomic insights. Agriculture, v. 15, n. 13, art. 1435, 2025. DOI: 10.3390/agriculture15131435.
REHAK BIONDIĆ, Tamara et al. Monitoring of root-knot nematodes (Meloidogyne spp.) in Croatia (2022–2024): occurrence, distribution and species identification. Agronomy, v. 15, n. 11, art. 2492, 2025. DOI: 10.3390/agronomy15112492.
VASQUES, N. C. et al. Increasing application of multifunctional Bacillus for biocontrol of pests and diseases and plant growth promotion: lessons from Brazil. Agronomy, v. 14, n. 8, art. 1654, 2024. DOI: 10.3390/agronomy14081654.
WANG, C. et al. Improvement and tolerance mechanisms of Priestia megaterium to salt ions. Frontiers in Microbiology, v. 16, 2025. DOI: 10.3389/fmicb.2025.1730703.
YE, Shan et al. Biocontrol potential of Priestia megaterium YB-3 against Meloidogyne graminicola and its impact on the rhizosphere microbial community. Journal of Pest Science, v. 97, n. 4, p. 2237-2256, 2024. DOI: 10.1007/s10340-024-01753-6.
ZHU, Xiao-Xia et al. Characterization of the Priestia megaterium ZS-3 siderophore and studies on its growth-promoting effects. BMC Microbiology, v. 25, art. 133, 2025. DOI: 10.1186/s12866-024-03669-8.

Nenhum comentário:
Postar um comentário