sábado, 9 de maio de 2026

Histórico dos nematicidas químicos

 


Introdução

Os nematoides fitoparasitas continuam entre os principais agentes de perda agrícola no mundo, porque atacam o sistema radicular, reduzem a absorção de água e nutrientes e, muitas vezes, avançam de forma invisível até o dano econômico já estar instalado.

Levantamentos recentes indicam perdas globais projetadas de 12,3% e prejuízos anuais estimados em cerca de US$ 157 bilhões a US$ 173 bilhões, o que ajuda a explicar por que o controle químico permaneceu tão importante ao longo da história do manejo. (Nature)

Ao mesmo tempo, a história dos nematicidas químicos não é apenas a história de moléculas mais potentes. Ela também mostra como a agricultura passou de produtos fumigantes de amplo espectro e alta toxicidade para compostos mais seletivos, com melhor perfil toxicológico e maior compatibilidade com manejo integrado. As revisões recentes deixam claro que esse deslocamento foi impulsionado tanto pelo avanço científico quanto pela pressão regulatória e ambiental. (PubMed)

1. As origens: fumigantes e a descoberta do problema

Os primeiros nematicidas históricos foram, na prática, descobertas como fumigantes ou esterilizantes do solo. A revisão de Desaeger, Wram e Zasada mostra que compostos como dissulfeto de carbono, cloropicrina, brometo de metila, formaldeído, 1,3-dicloropropeno, metam sodium e outros marcaram a fase inicial do controle químico, com registros ainda no fim do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Foi justamente essa fase que ajudou a revelar o tamanho real das perdas causadas pelos nematoides. (PMC)

Nessa etapa, o manejo químico tinha um caráter quase “sanitário”: o objetivo era reduzir uma fauna do solo vista como ameaça geral à produção. A mesma revisão lembra que os primeiros testes com nematicidas, na década de 1920, foram decisivos para colocar a nematologia no mapa científico, e que a área cresceu fortemente entre as décadas de 1950 e 1970. Em outras palavras, a história dos nematicidas ajudou a construir a própria história da nematologia agrícola. (PMC)

2. A era dos organofosforados e carbamatos

A segunda grande fase histórica foi dominada pelos organofosforados e carbamatos. A tabela histórica reunida por Desaeger e colaboradores mostra a sequência de entrada de moléculas como fensulfotion, etoprop, aldicarbe, carbofurano, fenamifós, oxamyl e terbufós, sobretudo entre as décadas de 1950 e 1970. Essas moléculas se consolidaram porque ofereciam ação consistente em comparação com muitas alternativas da época. (PMC)

O mecanismo de ação desses compostos foi posteriormente esclarecido com muito mais precisão: eles inibem a acetilcolinesterase, interrompendo a degradação da acetilcolina e provocando excitação neuromuscular contínua, paralisia e, por fim, morte do nematoide. A revisão de 2026 também destaca que, em alguns casos, o efeito comportamental pode ser reversível em vez de letal, o que ajuda a explicar variações de campo quando a dose, o solo ou o alvo biológico não estão bem ajustados. (MDPI)

Essa fase histórica foi extremamente importante do ponto de vista agronômico, mas também trouxe um custo elevado. Muitos desses produtos carregavam sinalizações toxicológicas fortes, e vários passaram a ser classificados como de uso restrito ou foram retirados do mercado ao longo do tempo. A própria literatura recente ressalta que quase todos os nematicidas em uso tradicional foram desenvolvidos antes da consolidação das exigências regulatórias modernas. (PMC)

3. Restrição regulatória e declínio dos clássicos

A mudança de paradigma acelerou quando compostos muito eficazes, mas ambientalmente problemáticos, começaram a ser restritos. A revisão de 2020 destaca que brometo de metila, fenamifós e aldicarbe sofreram forte limitação de uso, enquanto a história do DBCP ilustra um ponto de ruptura importante: um dos nematicidas mais eficazes da história foi banido após preocupações com contaminação de água subterrânea e efeitos tóxicos. (PMC)

Esse processo não foi apenas regulatório; foi também científico e social. A fase-out do brometo de metila, um composto ligado a danos à camada de ozônio, marcou uma virada global no manejo químico. A partir daí, a indústria passou a investir em moléculas com menor toxicidade aguda, menor volatilidade e maior especificidade, porque os antigos fumigantes deixaram de ser viáveis como solução única para sistemas agrícolas modernos. (PMC)

Em paralelo, estudos de campo e revisões recentes mostram que as restrições ambientais atingiram não apenas o produto, mas também o modo de uso. Em tomate protegido, por exemplo, os autores relatam que muitos nematicidas tradicionais foram retirados do mercado ou tiveram o uso restringido nas últimas duas décadas, o que abriu espaço para alternativas mais seguras e para o ressurgimento de estratégias integradas. (Springer Nature Link)

4. A virada para os nematicidas de menor risco

A partir dos anos 2010, a literatura passou a falar em “reduced-risk nematicides”. A revisão de Desaeger, Wram e Zasada sintetiza bem essa transição: os novos produtos são mais seletivos, geralmente menos tóxicos e mais compatíveis com o manejo moderno, ainda que não sejam universais nem resolvam todos os cenários de infestação. (PMC)

A revisão mais recente de Yan, Ghaderi, He, Cao e Wang reforça essa leitura histórica ao classificar as novas moléculas ao lado das classes antigas e ao mostrar que o foco atual está em modos de ação mais específicos, como inibição da respiração, interferência em secreções glandulares, modulação de canais iônicos e alterações metabólicas. O texto também observa que o controle químico continua predominante, mas com uma base tecnológica muito diferente da do passado. (MDPI)

5. Fluopyram, fluensulfone e fluazaindolizina: o novo capítulo

O fluopyram foi um divisor de águas porque se consolidou como o primeiro nematicida com alvo associado à succinato desidrogenase (SDH), aproximando o manejo de nematoides de um modelo mais racional de intervenção bioquímica. A revisão de 2026 afirma que essa molécula se tornou referência em vários cultivos, sobretudo para nematoides de galhas, e destaca que outros inibidores de SDH não mostraram a mesma atividade nematicida, o que sugere seletividade química particular. (MDPI)

A fluensulfone, por sua vez, ganhou relevância por apresentar ação rápida e uma biologia de efeito distinta. A revisão de 2020 descreve a molécula como inibidora da beta-oxidação de ácidos graxos, associada à perda de viabilidade, degeneração tecidual, redução da mobilidade e queda da capacidade de alimentação dos juvenis. Na prática, isso explica por que ela se tornou uma opção importante em programas com alta pressão inicial de Meloidogyne. (PMC)

A fluazaindolizina representou outra mudança importante no histórico dos nematicidas porque ampliou o grupo das moléculas com perfil seletivo e modo de ação ainda pouco convencional. A revisão de Yan et al. destaca que o composto não atua nos alvos clássicos de organofosforados, carbamatos, canais de cloro glutamato ou respiração mitocondrial tradicional, e que seu mecanismo envolve interferência na alimentação e em processos fisiológicos ainda em esclarecimento. (MDPI)

6. Evidência de campo: eficácia real e limites

Os ensaios de campo mais recentes mostram que a história dos nematicidas modernos é uma história de eficiência, mas também de variabilidade. Em tomate industrial na Califórnia, Ploeg, Edwards, Loffredo e Becker avaliaram 10 ensaios de campo e observaram redução média de galhas radiculares e ganhos estimados de produtividade de aproximadamente 21% para fluazaindolizina, 14% para fluensulfone e 15% para fluopyram, em relação ao controle sem tratamento.

Esse mesmo estudo também revela um ponto histórico importante: a redução de galhas não significou, necessariamente, queda na reprodução final dos nematoides durante a safra. Isso mostra que a nova geração de produtos é melhor vista como ferramenta de supressão e proteção da cultura, e não como erradicação completa do patógeno.

A literatura de campo confirma, ainda, que a resposta depende fortemente da espécie. Em tomate, fluensulfone foi o composto mais consistente contra várias espécies de Meloidogyne, enquanto fluopyram e fluazaindolizina tiveram desempenho bom em alguns cenários e menor consistência em outros, especialmente diante de M. enterolobii. Ou seja, a história recente dos nematicidas também é a história da perda da ideia de “um produto para todos os nematoides”.

7. Solo, clima e paisagem mudam a história do produto

A eficácia química também depende muito do ambiente físico do solo. Em cultivos protegidos de tomate na África do Sul, a espécie Meloidogyne foi a mais prevalente, apareceu em todas as seis casas de vegetação avaliadas e apresentou aumento de mais de 10 vezes na densidade média populacional entre a primeira e a terceira safra. O trabalho também mostrou que solos arenosos favoreceram densidades mais altas do nematoide. (Springer Nature Link)

Esse tipo de evidência é fundamental porque ajuda a entender por que nematicidas não se comportam de modo uniforme em qualquer área. Em solos com textura, pH e balanço de cátions diferentes, a disponibilidade do ingrediente ativo, sua retenção e sua movimentação variam bastante. A consequência prática é que formulação, dose, umidade e época de aplicação fazem parte da história do produto tanto quanto o nome comercial. (Springer Nature Link)

Também no nível da paisagem, a distribuição de nematoides ajuda a explicar por que algumas áreas respondem melhor do que outras ao manejo químico. Em Portugal, um levantamento com 406 amostras mostrou que pastagens abrigaram comunidades mais diversas de nematoides fitoparasitas, enquanto florestas tiveram menor diversidade, mas maior heterogeneidade interna. Esse tipo de resultado reforça que o “histórico químico” dos nematicidas sempre precisou ser lido junto com o “histórico ecológico” da área. (ScienceDirect)

8. Prevalência atual, espécies dominantes e complexos de doença

Apesar do avanço tecnológico, a dimensão biológica do problema segue muito grande. A revisão de 2026 resume que os nematoides fitoparasitas somam mais de 200 gêneros e mais de 4.100 espécies, com perdas anuais estimadas em cerca de US$ 157 bilhões. Isso ajuda a explicar por que nematicidas continuam relevantes, mesmo depois de tantas restrições regulatórias. (MDPI)

Os dados mais recentes também mostram que a prevalência é muito concentrada em alguns grupos. Meloidogyne segue entre os mais destrutivos e economicamente importantes, e a literatura de 2024 e 2025 mostra que esse gênero continua dominante em sistemas como tomate protegido e em diversas regiões agrícolas. Em paralelo, Pratylenchus e outros gêneros migradores crescem em importância quando o sistema favorece sua manutenção no solo. (PMC)

A interação com plantas daninhas também pesa muito no histórico do manejo químico. Em áreas recém-reclamadas no Egito, os autores encontraram Meloidogyne, Pratylenchus, Helicotylenchus e Rotylenchulus associados a 28 espécies de plantas daninhas; além disso, o trabalho aponta Meloidogyne incognita como uma espécie capaz de reproduzir em mais de 138 hospedeiros espontâneos ao redor do mundo. Isso mostra que a sobrevivência do nematoide fora da cultura pode sabotar a eficiência do tratamento químico. (Nature)

Os complexos de doença tornam essa situação ainda mais difícil. A revisão de 2024 mostra que nematoides podem amplificar fungos, bactérias e vírus, alterar o microbioma da rizosfera e criar sintomas mais severos do que aqueles produzidos por cada patógeno isoladamente. Historicamente, isso significa que o nematicida nunca foi apenas um “produto para nematoide”; ele sempre precisou entrar em um sistema de manejo mais amplo. (PMC)

Tabela 1. Linha histórica resumida dos nematicidas químicos

PeríodoClasse/composto dominanteMarco históricoLegado técnico
Fim do séc. XIX–1930sFumigantes como dissulfeto de carbono, cloropicrina, brometo de metilaPrimeiros testes que revelaram a importância econômica dos nematoidesAção ampla, porém alta toxicidade e forte impacto ambiental (PMC)
1950s–1970sOrganofosforados e carbamatosConsolidação do controle químico com produtos como aldicarbe, fenamifós, oxamyl, terbufósForte efeito, mas com risco toxicológico elevado e uso cada vez mais restrito (PMC)
1980s–2000sFase de restrição e substituiçãoSaída gradual de brometo de metila, DBCP, fenamifós e outros clássicosInício da transição para moléculas mais seletivas e seguras (PMC)
2010s–2026Reduzido risco / fluorados e novos alvosFluensulfone, fluopyram, fluazaindolizina, tioxazafen, cyclobutrifluramMaior seletividade e melhor perfil ambiental, mas eficácia dependente de espécie, solo e manejo integrado (MDPI)

Fonte: elaboração própria com base em revisões e ensaios recentes sobre a história e a evolução dos nematicidas químicos. (PMC)

9. O que a história ensina para o manejo atual

A principal lição histórica é que o melhor nematicida de uma época pode se tornar inadequado na seguinte. Isso já aconteceu com brometo de metila, DBCP, aldicarbe, fenamifós e outros produtos clássicos, e voltou a acontecer com moléculas que sofreram restrição por toxicidade, volatilidade ou preocupações ambientais. A revisão de 2025 sobre estratégias ecologicamente amigáveis reforça que a química continua central, mas não pode ser a única resposta. (PMC)

A segunda lição é que a seletividade é uma conquista, mas não elimina a necessidade de diagnóstico. Produtos modernos podem ser muito bons contra Meloidogyne e apenas medianos contra Pratylenchus, Belonolaimus ou Xiphinema, e a resposta pode mudar de acordo com o solo, a pressão inicial e o sistema de cultivo. Assim, o histórico dos nematicidas mostra uma evolução de “controle amplo” para “controle direcionado”.

Conclusões

A história dos nematicidas químicos saiu da lógica de esterilização do solo e chegou a uma fase de moléculas mais seletivas, com menos toxicidade aguda e melhor integração ao manejo de precisão. Essa mudança foi motivada por avanço científico, pressão regulatória e necessidade de sustentabilidade, mas os nematoides continuam sendo um desafio econômico de primeira ordem. (PMC)

Hoje, o valor dos nematicidas está menos na ideia de “cura” e mais na capacidade de proteger a cultura em momentos críticos, reduzir o avanço populacional e ganhar tempo para que outras táticas — resistência genética, rotação, sanidade, manejo de plantas daninhas e biológicos — funcionem em conjunto. A literatura recente mostra que essa integração é a única estratégia realmente estável no longo prazo.

Recomendações práticas

Na prática, o primeiro passo é identificar corretamente o gênero e, quando possível, a espécie de nematoide presente antes de escolher o tratamento. Essa decisão importa porque a resposta entre Meloidogyne, Pratylenchus e outros grupos pode mudar muito, e a eficácia aparente de uma molécula em um ensaio não garante o mesmo resultado em outra área. (Springer Nature Link)

O segundo passo é posicionar a aplicação com base nas condições do solo e do sistema de irrigação. Os dados recentes indicam que textura, umidade e ambiente radicular influenciam fortemente o desempenho de compostos como fluensulfone, fluopyram e fluazaindolizina, portanto o manejo químico deve ser planejado como uma operação agronômica, não como uma simples compra de produto. (PMC)

Por fim, o uso de nematicidas deve ser rotacionado e combinado com resistência genética, cobertura do solo, controle rigoroso de plantas daninhas hospedeiras e monitoramento constante da pressão de inóculo. A literatura atual sugere que os melhores resultados vêm quando a química entra como ferramenta de supressão dentro de um programa integrado, e não como eixo único de controle. (PMC)

Referências

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