segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Sobrevivência de nematoides

Introdução

A sobrevivência dos nematoides fitoparasitas é o que transforma uma infestação pontual em problema crônico de lavoura.

Esses organismos conseguem permanecer viáveis no solo, em raízes, em resíduos vegetais e em material de propagação por períodos muito variáveis, e esse “tempo de espera” é justamente o que dificulta a erradicação e favorece a reinfecção safra após safra. Revisões recentes continuam colocando os nematoides entre os patógenos mais onerosos da agricultura, com perdas globais estimadas em torno de US$ 157 bilhões por ano e, em sínteses mais amplas, até US$ 358,24 bilhões ao considerar 40 culturas estratégicas. (ScienceDirect)

A importância do tema cresce porque a sobrevivência não depende apenas da biologia do parasita, mas também do clima, do tipo de solo, da cultura hospedeira, da irrigação e do trânsito de solo e mudas. Uma revisão de biosegurança publicada em 2024 destacou que o comércio internacional e a mudança climática ampliam o risco de introdução e permanência de nematoides, enquanto outra revisão mostrou que temperaturas elevadas podem interferir em mecanismos de sobrevivência como anidrobiose, overwintering e diapausa de ovos. (PMC)

Seção central

1) Formas de sobrevivência: ovos, cistos, juvenis e tecidos contaminados

Entre os fitonematoides, a forma de sobrevivência mais conhecida é o ovo protegido por estruturas resistentes. Nos nematoides-das-galhas e nos nematoides-de-cisto, a proteção física e fisiológica dos ovos aumenta a chance de persistência no solo e de reinício da infestação quando o hospedeiro retorna à área. Em soja, o relatório da DATCP de 2024 enfatiza que o cisto é extremamente durável e pode permanecer no solo por anos, protegendo os ovos até a eclosão. (DATCP)

Nos nematoides-de-cisto, a persistência pode ser ainda mais extrema. Um estudo de 2024 sobre resistência de Globodera pallida e G. rostochiensis informa que os cistos podem sobreviver no solo por 20 a 30 anos aguardando sinais de hospedeiro, como exsudatos radiculares, que disparam a eclosão. Esse comportamento explica por que áreas contaminadas continuam perigosas mesmo quando a cultura não está presente por várias safras. (Springer)

No caso do nematoide-de-cisto da soja, o programa de amostragem da Dakota do Norte mostra que cada fêmea pode produzir 100 a 300 ovos e que esses ovos ficam encapsulados no cisto, permitindo persistência por anos no solo. O mesmo relatório aponta ainda que o patógeno pode completar dois a três ciclos por safra, o que acelera o aumento populacional quando a soja é repetida em sequência. (NDSU)

2) O papel do ambiente na sobrevivência

Temperatura e umidade são os principais filtros ecológicos da sobrevivência. A revisão de biosegurança de 2024 descreve que temperaturas mais altas podem alterar proporções sexuais, reduzir ou desorganizar anidrobiose, overwintering e diapausa de ovos, e em alguns casos inibir espécies específicas. Em outras palavras, o clima pode tanto limitar quanto favorecer o nematoide, dependendo da espécie e da janela de exposição. (PMC)

Há, porém, um efeito paradoxal importante: mesmo quando a reprodução cai em determinadas faixas térmicas, a virulência pode aumentar. O estudo de 2023 com duas espécies fitoparasitas mostrou que temperaturas mais elevadas alteraram a agressividade e o impacto sobre a planta, sugerindo que o aquecimento do solo pode intensificar perdas mesmo sem aumentar linearmente a multiplicação do parasita. (ScienceDirect)

A textura e a condição do solo também influenciam a permanência dos nematoides. Em um levantamento no norte de Portugal, pastagens apresentaram comunidades de nematoides fitoparasitas mais diversas e com maior “pegada herbívora”, mostrando que o uso da terra e o histórico da paisagem moldam a distribuição e a permanência desses organismos. Já a revisão da região MENA destacou que mover solo de áreas estabelecidas para áreas novas é uma prática que acelera a disseminação e a sobrevivência em locais recém-cultivados. (ScienceDirect)

3) Como a sobrevivência se converte em disseminação

A sobrevivência só vira problema regional quando há transporte do inoculo. A revisão de biosegurança de 2024 é clara ao apontar solo aderido a máquinas, pneus, ferramentas, embalagens e mudas como uma das principais rotas de espalhamento. O mesmo trabalho ressalta que nematoides podem ser levados em solas de sapato, em resíduos de colheita e em materiais de embalagem quando a limpeza é deficiente. (PMC)

A água é outro eixo importante. O mesmo artigo mostra que nematoides podem ser transmitidos por água de irrigação, água de lavagem de produtos, rios, canais, drenagem e runoff de áreas infestadas; em casos extremos, enchentes ampliam esse transporte. O texto também registra a presença de nematoides em águas municipais, água de chuva coletada e drenagem de sistemas sem solo, o que faz da água uma via de sobrevivência e redistribuição interna em viveiros e estufas. (PMC)

Material propagativo infectado é talvez a rota mais eficiente de “quase silêncio” epidemiológico. A revisão de 2024 sobre host status de ornamentais mostrou que árvores e arbustos amplamente usados em paisagismo podem ser hospedeiros de Meloidogyne incognita e M. hapla, o que confirma que viveiros e lotes de mudas podem manter nematoides vivos sem sintomas evidentes. Quando essas mudas são transplantadas, o patógeno viaja junto com o sistema radicular e o substrato aderido. (PMC)

4) Prevalência recente e evidências de persistência em campo

Os dados de prevalência mostram que a sobrevivência é um fenômeno estrutural, não exceção. No programa de amostragem da soja em Wisconsin, 8.009 amostras coletadas ao longo de duas décadas mostraram que pelo menos um nematoide fitoparasita estava presente em mais de 97% das amostras e em 98% das fazendas; o gênero Pratylenchus foi o mais frequente, e os nematoides-cisto aumentaram de 16% para cerca de 40% nas propriedades monitoradas. (DATCP)

No Norte da África e Oriente Médio, a pressão também é intensa. Uma revisão sistemática de 2024 mostrou que Meloidogyne ultrapassou em 8 a 14 vezes o limiar econômico global em amostras coletadas, com frequência de ocorrência de 100% nos solos avaliados. O mesmo trabalho destacou que o transporte de solo de áreas produtivas para terrenos recém-abertos aumenta a disseminação e a permanência do problema. (PMC)

Um sinal adicional de sobrevivência persistente é a capacidade de manter população ativa sob condições frias. Em 2025, um estudo sobre o nematoide-cisto da soja em pennycress e solo sob frio concluiu que o sistema de inverno pode atuar como “trap crop”, e observou que os estágios J2 a J4 nas raízes de pennycress não sobreviveram nas condições testadas. O resultado é importante porque mostra que a sobrevivência pode ser quebrada por hospedeiros armadilha, desde que a fenologia e o ambiente estejam bem ajustados.

Tabela-resumo

Forma de sobrevivênciaO que protege o nematoideTempo/escala de persistênciaRisco agronômico principalFonte recente
Cistos com ovosEstrutura corporal da fêmea mortaAnos; em PCN, até 20–30 anosReinfestação mesmo sem hospedeiro por várias safras(Springer)
Ovos em solo e raízesCasca do ovo e tecidos radicularesAnos, com vários ciclos por safra em hospedeiros adequadosAumento rápido da população em monocultivo(NDSU)
Juvenis em água/filme hídricoReservas lipídicas e tolerância a estresseSemanas, conforme espécie e ambienteDisseminação por irrigação, runoff e enchentes(PMC)
Presença em mudas/ornamentaisRaízes e substrato aderidoPersistência oculta em viveirosIntrodução silenciosa em novas áreas(PMC)

5) O que a sobrevivência faz com a sanidade da lavoura

A sobrevivência prolongada não afeta apenas a planta atacada; ela muda o sistema de doença. O relatório da DATCP informa que a injúria causada pelo nematoide-cisto da soja torna as plantas mais suscetíveis a Pythium, Rhizoctonia, Fusarium e Macrophomina. Assim, o nematoide atua como amplificador de complexos de doença, elevando perdas diretas e indiretas. (DATCP)

Além disso, a permanência do parasita no solo sustenta ciclos repetidos de alimentação e reprodução. A revisão sobre interação planta–nematoide em Trends in Parasitology mostrou que a comunicação química entre exsudatos radiculares e sinais do nematoide influencia atração, motilidade, sobrevivência e supressão de defesa da planta, enquanto os nematoides secretam efetores para manter a relação parasitária. Isso ajuda a explicar por que a sobrevivência não é apenas “ficar vivo”, mas continuar apto a infectar. (ScienceDirect)

6) Implicações práticas para monitoramento e tomada de decisão

O primeiro passo para manejar sobrevivência é medir corretamente a população. A revisão de 2024 sobre estratégias de manejo reforça que amostragem, extração, identificação e contagem são pré-requisitos do controle eficiente; sem isso, o produtor trabalha no escuro e só percebe o problema depois que a população já se estabeleceu. O mesmo artigo destaca o uso crescente de qPCR e sequenciamento de alta vazão para identificar e quantificar nematoides em solo e raízes. (MDPI)

O segundo passo é impedir o transporte de solo e material contaminado. A revisão de biosegurança de 2024 recomenda limpeza de equipamentos, com destaque para a lavagem de máquinas e implementos com água sob pressão, além do uso de material propagativo saudável e quarentena quando necessária. Em áreas com histórico de nematoides, isso é mais barato do que tentar “apagar incêndios” depois da instalação da praga. (PMC)

O terceiro passo é usar estratégias que reduzam a sobrevivência entre safras. Em 2025, a rotação com cobertura vegetal mostrou que o efeito supressor sobre o nematoide-das-galhas do arroz ocorre principalmente por enriquecimento da microbiota benéfica e ativação de imunidade da planta, e não por toxicidade direta do resíduo vegetal. Em outras palavras, coberturas e rotações podem “desfavorar” o ambiente para o nematoide e encurtar sua persistência. (PubMed)

7) Recomendações práticas baseadas em pesquisas recentes

A literatura recente converge para um manejo integrado. Cultivares resistentes, rotação com não hospedeiros, limpeza rigorosa de máquinas, controle de plantas daninhas hospedeiras, uso de compostos orgânicos estáveis, biocontrole e monitoramento sistemático são as ferramentas com melhor base atual para reduzir sobrevivência e reinfestação. Revisões de 2024 e 2025 também mostram que compostos orgânicos e agentes biológicos podem criar um ambiente menos favorável à sobrevivência dos nematoides e reduzir sua reprodução. (MDPI)

Em ensaio de campo de dois anos, a aplicação de agentes de biocontrole em área favorável ao nematoide-cisto da soja recrutou microbiota antagonista, reduziu a população do parasita e melhorou a produtividade; já a revisão sobre compostos orgânicos relatou que compostagem e vermicompostagem reduzem a sobrevivência e a reprodução de espécies como Meloidogyne e Globodera. Esses resultados não substituem a resistência genética, mas ajudam a diminuir o banco de inoculo no solo e a prolongar a vida útil do manejo. (ScienceDirect)

Conclusões

A sobrevivência dos nematoides é o eixo que sustenta a persistência da praga na paisagem agrícola. Cistos, ovos, juvenis protegidos por reservas energéticas, raízes contaminadas, água de irrigação e mudas infectadas permitem que o parasita atravesse entressafras, condições adversas e até longas distâncias. Por isso, controlar nematoides não é apenas matar indivíduos; é interromper sua capacidade de permanecer viáveis e de voltar a infectar. (Springer)

A pesquisa recente também deixa claro que clima, solo e manejo moldam essa sobrevivência. Onde há tráfego de solo, irrigação sem controle, viveiros pouco protegidos, rotação curta e ausência de diagnóstico, a persistência é favorecida. Onde há monitoramento, higiene, rotação, cobertura, resistência e biocontrole, a sobrevivência tende a cair e o sistema fica mais estável. (PMC)

Referências

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