Introdução
Os nematoides fitoparasitas seguem entre os maiores componentes do “custo invisível” da agricultura moderna.
Nesse cenário, o gênero Trichoderma ganhou espaço por combinar antagonismo a patógenos, promoção de crescimento e ativação de defesas da planta. Revisões de 2023 e 2025 mostram que o gênero é hoje um dos pilares dos bioinsumos fúngicos, com mais de 370 espécies descritas e múltiplos mecanismos de ação relevantes para doenças de solo e para nematoides. (Frontiers)
Dentro desse gênero, Trichoderma endophyticum chama atenção porque é um fungo endofítico, isto é, capaz de colonizar tecidos internos da planta sem causar doença aparente. Em um estudo de 2023 com espécies endofíticas de Trichoderma em seringueiras amazônicas, os autores destacaram que esses isolados são uma fonte promissora de biocontrole e bioprospecção de compostos bioativos. Em 2024, uma revisão específica sobre Trichoderma endofítico reforçou o potencial desse grupo para controlar pragas e doenças agrícolas. (Frontiers)
A leitura mais honesta da literatura, porém, é esta: nas fontes recentes revisadas aqui, a base direta de T. endophyticum contra nematoides ainda é limitada. O que existe de mais sólido é uma combinação de evidência indireta por gênero, evidência específica da espécie sobre colonização/endofitismo e produção de metabólitos, e evidência aplicada em soja mostrando ganho de crescimento e produtividade. Isso é suficiente para discutir potencial biotecnológico, mas não para tratá-lo como um nematicida consolidado de uso universal. (ResearchGate)
1) O que a literatura recente mostra sobre o gênero Trichoderma em nematologia
As revisões recentes são consistentes ao apontar que Trichoderma atua contra nematoides por vários caminhos ao mesmo tempo: competição no rizosfera, antibiose, micoparasitismo, secreção de enzimas líticas e indução de resistência sistêmica na planta. A revisão de 2025 sobre estratégias de biocontrole com Trichoderma resume exatamente esse conjunto e destaca que os grupos mais estudados são T. harzianum, T. longibrachiatum, T. virens e T. viride, sobretudo contra Meloidogyne, Pratylenchus, Globodera e Heterodera. (MDPI)
Essa mesma revisão informa que mais de 60 investigações já relataram resultados promissores do gênero contra nematoides fitoparasitas, com M. incognita e M. javanica entre as espécies mais estudadas. Em termos práticos, isso é importante porque posiciona Trichoderma não como exceção experimental, mas como uma plataforma biológica já amadurecida para manejo integrado de nematoides. (MDPI)
Em revisões mais amplas, Trichoderma também aparece como um agente multifuncional de saúde vegetal, colonizando rizosfera, endosfera e filósfera, com interação complexa com a microbiota da planta. Essa plasticidade ecológica ajuda a explicar por que o gênero responde bem em ambientes tão diferentes quanto raízes, solo e tecidos internos, e por que ele é tão usado em agricultura sustentável. (Springer)
2) O que há de específico em Trichoderma endophyticum
A espécie T. endophyticum foi descrita em contexto endofítico e continua sendo um candidato interessante porque endófitos de Trichoderma costumam carregar repertório metabólico ampliado. Em 2023, um estudo de genômica comparativa gerou quatro genomas novos de T. endophyticum e mostrou que endófitos do gênero apresentam, em média, mais clusters biossintéticos e degradativos do que isolados não endofíticos, além de diferenças ligadas à plasticidade ecológica. (PLOS)
A espécie também já foi estudada no plano químico. Um trabalho de 2023 relatou a primeira caracterização de peptaibols biossintetizados por T. endophyticum, com 21 novas sequências identificadas por espectrometria de massas, genome mining e predição filogenética. Peptaibols são relevantes porque esse tipo de peptídeo é frequentemente associado a atividade antimicrobiana e a interações bioativas na rizosfera. (PMC)
Do ponto de vista ecológico, o gênero e a espécie fazem sentido em ambientes endofíticos. Em 2023, a amostragem de Trichoderma endofítico em seringueiras amazônicas mostrou que os isolados endofíticos podem representar um reservatório de novas espécies e novos agentes biotecnológicos, com potencial de uso em manejo de doenças. Isso reforça a ideia de que a endofilia de T. endophyticum não é apenas um traço taxonômico; é uma pista funcional importante. (Frontiers)
3) Por que o hábito endofítico é relevante para nematoides
Nematoides fitoparasitas são especialmente difíceis de controlar porque muitos atacam a raiz cedo e passam a maior parte do ciclo protegidos no interior do tecido vegetal ou na interface solo-raiz. Nesse contexto, um fungo endofítico tem vantagem porque já está localizado onde a infecção começa. Revisões de 2024 e 2025 apontam que a colonização do endosfera e da rizosfera permite ativação de defesas, modulação de microbioma e competição por espaço e nutrientes. (Springer)
Essa lógica é coerente com a revisão de 2023 sobre Trichoderma e nematoides, que descreve a ação do fungo como combinação de antagonismo direto e priming de defesa vegetal. A literatura recente também destaca enzimas como proteases, chitinases e glucanases, além de moléculas que afetam mobilidade, reprodução e sobrevivência dos nematoides. Para T. endophyticum, isso sugere potencial, ainda que a prova específica contra nematoides permaneça em construção. (MDPI)
4) O que os dados recentes indicam em culturas agrícolas
Em soja, a espécie já foi avaliada como promotora de crescimento e produtividade. O estudo de 2025 publicado em Ciência Rural indica que T. endophyticum pode melhorar desempenho agronômico da cultura, o que é relevante para nematologia porque raízes mais vigorosas tendem a tolerar melhor o dano causado por parasitas. Não se trata de um ensaio nematológico direto, mas de uma base funcional importante para aplicações em áreas com histórico de nematoides. (ResearchGate)
O gênero, por sua vez, já demonstrou efeito claro contra nematoides em sistemas reais. Em soja infestada por Helicotylenchus dihystera, produtos à base de Trichoderma e Bacillus mataram os nematoides em testes in vitro, com filtrados de Trichoderma e Bacillus superando 85% de mortalidade, e os produtos microbiológicos protegeram a soja em solo infestando. Esse tipo de resultado é muito útil porque mostra que o gênero não atua apenas por crescimento, mas também por produção de compostos tóxicos ao nematoide. (ScienceDirect)
Em Pratylenchus brachyurus, outro ensaio de 2025 com rotação de culturas e bionematicidas mostrou reduções expressivas. Em soja após diferentes coberturas, combinações com P. lilacinum + T. harzianum e com B. subtilis + B. licheniformis + P. lilacinum reduziram a população de nematoides nas raízes e no solo, com valores que chegaram a 64,3% e 76,4% em diferentes cenários. A mensagem prática é que o controle biológico com fungos endofíticos ou associados ao sistema radicular funciona melhor quando o manejo da cobertura e da rotação acompanha a estratégia.
Também há exemplos recentes em Meloidogyne incognita. Um estudo de 2025 com 167 isolados nativos de Trichoderma mostrou que 22 isolados apresentaram forte atividade nematicida, com até 91% de mortalidade de juvenis e redução superior a 90% em galhas radiculares no tomate. Outro estudo de 2024 com mutantes de T. harzianum reforçou que suspensões fúngicas, isoladas ou em combinação com outros agentes, podem reduzir fortemente o fator de reprodução do nematoide em tomate. (ScienceDirect)
5) Como isso se traduz em mecanismo para T. endophyticum
A plausibilidade biológica de T. endophyticum contra nematoides está sustentada por três conjuntos de evidência. Primeiro, o hábito endofítico, que o coloca na interface correta com a raiz. Segundo, o arsenal genômico, que inclui mais clusters biossintéticos e degradativos em endófitos do gênero. Terceiro, a presença de peptaibols e outros metabólitos que podem participar de antibiose e modulação de defesa. (PLOS)
Em Trichoderma de forma geral, a literatura recente também atribui papel importante a enzimas líticas e a proteínas relacionadas a resistência à infeção. A revisão de 2023 sobre o papel do gênero em doenças fúngicas e nematológicas cita a proteína serina protease PR1 como um dos candidatos ligados à inibição de nematoides, além de peptídeos antimicrobianos com efeito nematicida. Assim, a hipótese mais segura para T. endophyticum é a de um agente que combina colonização interna, metabólitos bioativos e ativação de defesa vegetal. (Frontiers)
6) Limitações atuais e o que ainda falta provar
A principal limitação é simples: a literatura recente ainda não mostra, nas fontes revisadas aqui, um pacote robusto de ensaios diretamente desenhados para T. endophyticum contra nematoides fitoparasitas. O melhor que temos hoje é um mosaico convincente — genômica, metabolômica, estudos de crescimento em soja e muita evidência de gênero —, mas não um corpo grande de ensaios específicos da espécie sob pressão de Meloidogyne ou Pratylenchus. (PLOS)
Isso não diminui o valor da espécie; apenas define corretamente seu estágio de maturidade científica. Em termos práticos, T. endophyticum deve ser tratado como candidato promissor para programas de biocontrole e bioestimulação em áreas com nematoides, e não como substituto automático de um nematicida ou de uma estratégia integrada já validada localmente. (Springer)
7) Aplicação prática: o que faz mais sentido hoje
O melhor caminho agronômico para T. endophyticum é o uso em associação com rotação de culturas, cobertura vegetal e diagnóstico da espécie de nematoide. A revisão de 2025 sobre biosegurança em nematoides mostra que medidas avançadas de detecção e manejo integrado podem reduzir a infestação em até 70%, e que abordagens modernas superam métodos tradicionais. Isso significa que qualquer bioagente, inclusive T. endophyticum, tende a funcionar melhor dentro de um sistema e não isoladamente. (Frontiers)
No campo dos bioinsumos, outro ponto decisivo é a qualidade do produto. A comparação de 2025 entre produtos comerciais de Trichoderma mostrou diferenças substanciais entre CFUs declaradas e CFUs reais, além de inconsistências na identidade taxonômica de rótulos. Portanto, para usar T. endophyticum com segurança técnica, o produtor precisa buscar produtos registrados, com identidade de cepa e densidade viável verificável. (Frontiers)
Tabela-resumo
| Aspecto | O que a literatura recente sugere | Implicação prática |
|---|---|---|
| Natureza da espécie | T. endophyticum é um fungo endofítico com potencial biotecnológico e metabólico ampliado. (Frontiers) | Faz sentido como bioinsumo de raiz, não só como antagonista. |
| Evidência específica | Há evidência de crescimento e produtividade em soja, mas pouca prova direta contra nematoides nas fontes revisadas. (ResearchGate) | Encarar como candidato promissor, não como solução consolidada. |
| Base mecanística | Endofitismo, clusters metabólicos e peptaibols sustentam a plausibilidade de ação bioativa. (PMC) | A espécie merece ensaios nematológicos mais direcionados. |
| Evidência de gênero | Trichoderma controla Meloidogyne, Pratylenchus, Globodera e Heterodera por múltiplos mecanismos. (MDPI) | O gênero é uma plataforma válida para manejo integrado. |
| Melhor uso | Integração com rotação, cobertura, diagnóstico e produto de qualidade. | A eficiência tende a crescer quando o sistema está bem manejado. |
Conclusões
Trichoderma endophyticum tem perfil muito interessante para a nematologia aplicada, mas ainda em estágio de consolidação parcial. A espécie é endofítica, metabólicamente rica e já mostrou utilidade como promotora de crescimento em soja, o que a coloca no radar de bioinsumos com potencial para áreas sob pressão de nematoides. (ResearchGate)
Ao mesmo tempo, a melhor evidência direta de controle de nematoides continua no gênero Trichoderma como um todo, especialmente contra Meloidogyne, Pratylenchus e Helicotylenchus. Em outras palavras, T. endophyticum é uma aposta biologicamente plausível e agronomicamente promissora, mas ainda precisa de ensaios específicos de nematologia para atingir o mesmo nível de confiança que algumas espécies mais estudadas do gênero. (MDPI)
Recomendações práticas
Para o produtor, a recomendação mais segura é usar T. endophyticum em programas integrados, preferencialmente em áreas com histórico de nematoides, mas sempre combinado com rotação, cobertura e diagnose da espécie presente. Em solos já biologicamente fragilizados, a integração tende a ser mais importante do que o microrganismo isolado.
Para o pesquisador, a prioridade é testar T. endophyticum diretamente contra Meloidogyne, Pratylenchus e Rotylenchulus, em diferentes solos e culturas, quantificando não só população do nematoide, mas também colonização endofítica, metaboloma e resposta de crescimento. Isso transformaria uma espécie promissora em ferramenta tecnicamente recomendável. (PLOS)
Para o técnico, o ponto de atenção é a qualidade do inoculante. Produtos de Trichoderma variam muito em viabilidade e identidade taxonômica, então a recomendação deve sempre privilegiar produto registrado, com cepa definida e suporte de eficácia. (Frontiers)
Referências
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CASTRO, Gleucinei S. et al. Characterization of peptaibols produced by a marine strain of the fungus Trichoderma endophyticum via mass spectrometry, genome mining and phylogeny-based prediction. Metabolites, v. 13, n. 2, art. 221, 2023. doi: 10.3390/metabo13020221.
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