sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Classificação dos nematoides fitoparasitas quanto à mobilidade: implicações biológicas e agronômicas


Introdução

Os nematoides fitoparasitas representam um dos principais grupos de patógenos do solo que afetam a produtividade agrícola em diversas regiões do mundo. Esses organismos microscópicos parasitam raízes de plantas cultivadas, comprometendo processos fisiológicos fundamentais como absorção de água e nutrientes.

Estima-se que os nematoides causem perdas superiores a US$ 170 bilhões anuais na produção agrícola global, afetando culturas como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e diversas hortaliças (GHAREEB et al., 2022; NICOL et al., 2021). Entre os diversos critérios utilizados para classificar os nematoides fitoparasitas, a mobilidade e o tipo de parasitismo em relação ao tecido vegetal representam fatores importantes para compreender a dinâmica de infecção e estabelecer estratégias eficientes de manejo.

A classificação quanto à mobilidade permite dividir os nematoides em diferentes categorias de acordo com sua capacidade de deslocamento e permanência dentro ou fora do tecido vegetal. Essa abordagem auxilia pesquisadores, estudantes e técnicos a compreender melhor a biologia desses organismos e suas interações com as plantas hospedeiras (JONES et al., 2021).

 

Classificação geral quanto à mobilidade

De forma geral, os nematoides fitoparasitas podem ser classificados em ectoparasitas migradores, ectoparasitas sedentários, endoparasitas migradores e endoparasitas sedentários. Cada grupo apresenta características distintas relacionadas à forma de alimentação, mobilidade no solo ou na planta e tipo de dano causado às culturas (MOENS; PERRY; STARR, 2022).

Essa classificação está diretamente associada à estratégia de sobrevivência do nematoide e ao tipo de interação estabelecida com a planta hospedeira. Nematoides migradores, por exemplo, deslocam-se constantemente em busca de novas células para alimentação, enquanto espécies sedentárias estabelecem sítios permanentes de alimentação no interior das raízes (ESCUDERO et al., 2020).

 

Ectoparasitas migradores

Os ectoparasitas migradores são nematoides que permanecem fora das raízes durante todo o seu ciclo de vida, alimentando-se das células superficiais do tecido radicular por meio de um estilete. Esses organismos mantêm alta mobilidade no solo, movimentando-se entre partículas e raízes em busca de novos locais de alimentação (MOENS; PERRY; STARR, 2022).

Entre os exemplos mais conhecidos desse grupo estão espécies dos gêneros Helicotylenchus, Tylenchorhynchus e Paratylenchus. Embora os danos individuais causados por esses nematoides sejam geralmente menores em comparação com espécies endoparasitas, altas densidades populacionais podem comprometer o crescimento radicular e reduzir o desenvolvimento das plantas (NICOL et al., 2021).

 

Ectoparasitas sedentários

Os ectoparasitas sedentários também permanecem fora das raízes, porém apresentam menor mobilidade após estabelecerem seu local de alimentação. Esses nematoides inserem parcialmente o estilete nas células radiculares e permanecem fixos por longos períodos enquanto se alimentam (ESCUDERO et al., 2020).

Esse grupo inclui espécies menos comuns na agricultura quando comparadas a outros tipos de nematoides, mas ainda assim podem representar riscos em determinados sistemas agrícolas. Seu impacto depende principalmente da densidade populacional e da suscetibilidade da planta hospedeira.

 

Endoparasitas migradores

Os endoparasitas migradores são nematoides capazes de penetrar nas raízes e deslocar-se livremente dentro dos tecidos vegetais. Durante sua movimentação, esses organismos alimentam-se de diversas células, causando destruição celular e formação de lesões nos tecidos radiculares (MOENS; PERRY; STARR, 2022).

Um dos exemplos mais importantes desse grupo é o gênero Pratylenchus, conhecido como nematoides das lesões radiculares. Esses nematoides são amplamente distribuídos em sistemas agrícolas e podem causar perdas significativas em culturas como milho, soja e cana-de-açúcar (JONES et al., 2021). Além disso, as lesões causadas por esses patógenos podem facilitar a entrada de fungos e bactérias no sistema radicular.

 

Endoparasitas sedentários

Os endoparasitas sedentários representam um dos grupos de maior importância econômica na agricultura. Esses nematoides penetram nas raízes durante a fase juvenil e estabelecem sítios permanentes de alimentação, permanecendo fixos durante grande parte do ciclo de vida (ESCUDERO et al., 2020).

Entre os principais representantes desse grupo destacam-se os gêneros Meloidogyne e Heterodera, responsáveis por doenças conhecidas como galhas radiculares e cistos, respectivamente. Esses nematoides induzem alterações fisiológicas profundas nas plantas hospedeiras, como formação de células gigantes ou sincícios, estruturas especializadas utilizadas para alimentação (JONES et al., 2021).

 

Aspectos morfológicos relacionados à mobilidade

A mobilidade dos nematoides está diretamente relacionada a características morfológicas como formato corporal, musculatura e estrutura do estilete. A presença de um corpo alongado e flexível permite que esses organismos se movimentem através dos poros do solo e dos tecidos vegetais (MOENS; PERRY; STARR, 2022).

O estilete, estrutura semelhante a uma agulha localizada na região bucal, desempenha papel fundamental na alimentação e na penetração das células vegetais. Diferenças na estrutura do estilete e na musculatura associada podem influenciar a capacidade de penetração e mobilidade dentro das raízes (ESCUDERO et al., 2020).

 

Aspectos biológicos e ecológicos

Do ponto de vista ecológico, a mobilidade dos nematoides está relacionada à busca por alimento, reprodução e sobrevivência em ambientes variáveis. Nematoides migradores tendem a explorar áreas maiores do solo, enquanto espécies sedentárias dependem mais da formação de estruturas de alimentação estáveis dentro das raízes (NICOL et al., 2021).

Fatores ambientais como temperatura, umidade e textura do solo influenciam diretamente a mobilidade desses organismos. Solos arenosos, por exemplo, geralmente favorecem a movimentação de nematoides devido à maior presença de poros preenchidos por água (GHAREEB et al., 2022).

 

Impactos econômicos na agricultura

A mobilidade dos nematoides influencia diretamente o tipo e a intensidade dos danos causados às culturas agrícolas. Espécies migradoras podem causar lesões extensas nas raízes, enquanto espécies sedentárias alteram profundamente a fisiologia da planta hospedeira (DESAEGER; WATSON; TURECHEK, 2020).

Estudos recentes indicam que infestações severas de nematoides podem provocar reduções de produtividade que variam entre 10% e 40%, dependendo da cultura, da espécie de nematoide e das condições ambientais (GHAREEB et al., 2022).

 

Implicações para o manejo agrícola

A classificação quanto à mobilidade também possui grande importância prática para o manejo de nematoides. Estratégias de controle podem variar dependendo do tipo de parasitismo apresentado pela espécie presente na área (GRABAU; NOLING, 2022).

Por exemplo, nematoides migradores podem ser mais sensíveis a práticas que aumentam a biodiversidade do solo, enquanto espécies sedentárias podem ser mais eficientemente controladas por cultivares resistentes ou rotação de culturas específicas (NICOL et al., 2021).

 

Recomendações práticas de manejo

Pesquisas recentes indicam que o manejo eficiente de nematoides deve ser baseado em abordagens integradas, incluindo diagnóstico nematológico, rotação de culturas, uso de cultivares resistentes, controle biológico e manejo adequado do solo (SIKANDAR et al., 2021).

O monitoramento populacional é essencial para identificar quais tipos de nematoides estão presentes na área e qual estratégia de controle deve ser priorizada. Além disso, sistemas agrícolas diversificados tendem a favorecer microrganismos antagonistas que ajudam a reduzir naturalmente as populações de fitonematoides (TOPALOVIĆ; HEUER, 2023).

Conclusão

A classificação dos nematoides quanto à mobilidade constitui uma ferramenta fundamental para compreender a biologia, o comportamento e os impactos desses organismos na agricultura. A distinção entre ectoparasitas e endoparasitas, bem como entre espécies migradoras e sedentárias, permite compreender melhor os mecanismos de infecção e os tipos de danos causados às plantas.

Do ponto de vista agronômico, esse conhecimento contribui diretamente para o desenvolvimento de estratégias de manejo mais eficientes e sustentáveis. A integração de diferentes práticas de controle, aliada ao monitoramento constante das populações de nematoides, é essencial para reduzir os impactos econômicos desses patógenos e garantir a produtividade dos sistemas agrícolas.

 

Tabela – Classificação dos nematoides quanto à mobilidade

Classificação

Local de alimentação

Mobilidade

Exemplos de gêneros

Tipo de dano

Ectoparasitas migradores

Exterior da raiz

Alta

Helicotylenchus, Tylenchorhynchus

Danos superficiais

Ectoparasitas sedentários

Exterior da raiz

Baixa

Alguns Tylenchidae

Alimentação localizada

Endoparasitas migradores

Interior da raiz

Alta

Pratylenchus

Lesões radiculares

Endoparasitas sedentários

Interior da raiz

Baixa após infecção

Meloidogyne, Heterodera

Galhas ou cistos

 

Referências (formato ABNT)

CARNEIRO, R. M. D. G.; et al. Distribution of plant-parasitic nematodes in agricultural soils. Nematology, 2022.

DESAEGER, J.; WATSON, T.; TURECHEK, W. Nematicides and soil management strategies for plant-parasitic nematodes. Crop Protection, 2020.

ESCUDERO, N.; et al. Advances in molecular detection and management of plant-parasitic nematodes. Frontiers in Plant Science, 2020.

GHAREEB, R.; et al. Global crop losses due to plant-parasitic nematodes. Agronomy, 2022.

GRABAU, Z.; NOLING, J. Chemical management of plant-parasitic nematodes in field crops. Plant Disease Management Reports, 2022.

JONES, J. T.; et al. Top 10 plant-parasitic nematodes in molecular plant pathology. Molecular Plant Pathology, 2021.

MOENS, M.; PERRY, R. N.; STARR, J. L. Plant Nematology. Wallingford: CABI Publishing, 2022.

NICOL, J. M.; et al. Current nematode threats to world agriculture. Food Security, 2021.

SIKANDAR, A.; et al. Biological control of plant-parasitic nematodes. Biological Control, 2021.

TOPALOVIĆ, O.; HEUER, H. Microbial suppression of plant-parasitic nematodes in soils. Soil Biology and Biochemistry, 2023.

 

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