Introdução
Diferentemente de espécies endoparasitas, que penetram e se
desenvolvem dentro dos tecidos radiculares, os ectoparasitas migradores
permanecem no exterior das raízes durante todo o ciclo de vida. Essa
característica influencia diretamente sua dinâmica populacional, dispersão no
solo e estratégias de manejo utilizadas no campo (JONES et al., 2021). Entre os
principais gêneros pertencentes a esse grupo destacam-se Helicotylenchus,
Tylenchorhynchus, Paratylenchus, Belonolaimus e Trichodorus,
frequentemente encontrados em áreas agrícolas tropicais e subtropicais.
Conceito e classificação dos ectoparasitas migradores
Os nematoides ectoparasitas migradores são definidos como
organismos que permanecem fora das raízes e apresentam mobilidade ativa no
solo, deslocando-se continuamente em busca de novos locais de alimentação
(MOENS; PERRY; STARR, 2022). Esses nematoides utilizam um estilete para
perfurar células radiculares superficiais e extrair nutrientes.
A classificação desse grupo baseia-se principalmente no tipo
de interação com o hospedeiro e na mobilidade no ambiente do solo. Como não
estabelecem sítios permanentes de alimentação, esses organismos deslocam-se
entre raízes vizinhas, causando múltiplos pontos de dano ao longo do sistema
radicular (ESCUDERO et al., 2020). Essa característica pode resultar em danos
cumulativos, especialmente em áreas com elevada densidade populacional.
Principais gêneros de nematoides ectoparasitas migradores
Diversos gêneros pertencem a esse grupo, sendo alguns
amplamente distribuídos em sistemas agrícolas.
O gênero Helicotylenchus, conhecido como nematoide
espiralado, é um dos mais comuns em solos agrícolas e frequentemente associado
a culturas como milho, soja e pastagens (CARNEIRO et al., 2022). Outro gênero
importante é Tylenchorhynchus, denominado nematoide lanceolado,
frequentemente encontrado em cereais e gramíneas.
Além desses, os gêneros Belonolaimus e Trichodorus
apresentam relevância agronômica significativa. Belonolaimus longicaudatus,
por exemplo, pode causar danos severos em culturas como algodão e amendoim em
solos arenosos (JONES et al., 2021). Já espécies de Trichodorus e Paratrichodorus
são conhecidas por sua capacidade de transmitir vírus de plantas, ampliando o
impacto econômico desses nematoides (ESCUDERO et al., 2020).
Morfologia dos ectoparasitas migradores
Do ponto de vista morfológico, os nematoides ectoparasitas
migradores apresentam corpo cilíndrico, alongado e flexível, adaptado para
deslocamento entre partículas do solo. O tamanho geralmente varia entre 0,4
mm e 1,5 mm de comprimento, dependendo da espécie (MOENS; PERRY; STARR,
2022).
Uma das estruturas mais importantes é o estilete,
utilizado para perfurar as células vegetais e extrair seu conteúdo
citoplasmático. O estilete desses nematoides costuma ser bem desenvolvido e
associado a músculos que permitem sua movimentação durante o processo de
alimentação (ESCUDERO et al., 2020).
Outras estruturas relevantes incluem o sistema digestório
simples e o esôfago especializado, responsável pela sucção dos nutrientes
obtidos das células vegetais.
Biologia e ciclo de vida
O ciclo biológico dos nematoides ectoparasitas migradores
segue o padrão típico dos nematoides fitoparasitas, incluindo ovo, quatro
estágios juvenis (J1–J4) e adulto (MOENS; PERRY; STARR, 2022). Em muitas
espécies, o primeiro estádio juvenil ocorre dentro do ovo, e a eclosão libera
juvenis já capazes de movimentação no solo.
O ciclo completo pode variar entre 20 e 45 dias,
dependendo da espécie e das condições ambientais. Temperaturas entre 25 °C e
30 °C e solos com adequada umidade favorecem o desenvolvimento populacional
(NICOL et al., 2021).
A reprodução geralmente ocorre por meio de reprodução
sexuada, embora algumas espécies possam apresentar reprodução partenogenética.
Ecologia e fatores ambientais
A mobilidade desses nematoides depende fortemente das
características físicas do solo. Solos arenosos ou de textura média tendem a
favorecer o deslocamento desses organismos devido à presença de poros
preenchidos por água (GHAREEB et al., 2022).
A umidade do solo desempenha papel essencial na movimentação
dos nematoides, pois esses organismos deslocam-se em filmes de água que
envolvem as partículas do solo. Em condições de seca intensa, sua mobilidade e
atividade metabólica podem ser reduzidas.
Outro fator relevante é a presença de raízes hospedeiras. Os
nematoides detectam compostos químicos liberados pelas raízes, conhecidos como exsudatos
radiculares, que orientam seu deslocamento no solo (DESAEGER; WATSON;
TURECHEK, 2020).
Sintomas e danos nas plantas
Os sintomas causados por nematoides ectoparasitas migradores
geralmente estão associados a danos superficiais nas raízes. Entre os sintomas
mais comuns estão:
- redução
do crescimento radicular
- menor
absorção de nutrientes
- plantas
com menor vigor
- sintomas
de deficiência nutricional
Em casos severos, o sistema radicular pode apresentar áreas
necrosadas ou redução significativa no número de raízes laterais (CARNEIRO et
al., 2022).
Embora muitas vezes os danos sejam considerados moderados
quando comparados a nematoides formadores de galhas, altas populações podem
resultar em reduções de produtividade entre 10% e 20% em diversas culturas
agrícolas (GHAREEB et al., 2022).
Diagnóstico e monitoramento
O diagnóstico desses nematoides baseia-se principalmente em análises
nematológicas do solo, nas quais amostras são coletadas e processadas em
laboratório por métodos como centrifugação-flotação ou funil de Baermann
(CARNEIRO et al., 2022).
A identificação das espécies pode ser realizada por meio de
análise morfológica ao microscópio ou por técnicas moleculares modernas, como
PCR e sequenciamento de DNA (ESCUDERO et al., 2020).
O monitoramento regular das populações é fundamental para
determinar se os níveis populacionais atingem o limiar de dano econômico.
Estratégias de manejo cultural
O manejo de nematoides ectoparasitas migradores deve
basear-se principalmente em práticas culturais que reduzam sua população no
solo.
Entre as principais estratégias destacam-se:
- rotação
de culturas com espécies menos suscetíveis
- uso
de plantas de cobertura
- manejo
adequado da matéria orgânica do solo
- controle
de plantas daninhas hospedeiras
Essas práticas contribuem para reduzir a disponibilidade de
hospedeiros e favorecer o equilíbrio biológico do solo (NICOL et al., 2021).
Controle biológico
Diversos microrganismos do solo apresentam potencial para
reduzir populações de nematoides ectoparasitas migradores. Entre os principais
agentes biológicos estudados destacam-se fungos e bactérias antagonistas, como Pochonia
chlamydosporia, Purpureocillium lilacinum e Bacillus spp.
(SIKANDAR et al., 2021).
Esses organismos podem atuar por diferentes mecanismos,
incluindo parasitismo de ovos, produção de metabólitos tóxicos e competição por
recursos no solo (TOPALOVIĆ; HEUER, 2023).
Controle químico
O uso de nematicidas pode ser considerado em situações de
alta infestação, especialmente em culturas de alto valor econômico. Produtos
aplicados no sulco de plantio ou no tratamento de sementes podem reduzir a
população inicial desses nematoides (GRABAU; NOLING, 2022).
Entre os ingredientes ativos mais estudados estão fluopyram,
fluensulfone e abamectina, que apresentam eficácia variável dependendo da
espécie de nematoide e das condições ambientais (DESAEGER; WATSON; TURECHEK,
2020).
Conclusão
Os nematoides ectoparasitas migradores representam um
componente importante das comunidades de fitonematoides presentes em solos
agrícolas. Sua capacidade de movimentação no solo e alimentação externa nas
raízes permite que esses organismos causem danos distribuídos ao longo do
sistema radicular das plantas.
Embora muitas vezes considerados menos agressivos que
nematoides sedentários como Meloidogyne, altas populações podem causar
perdas econômicas significativas. O manejo eficiente desses patógenos deve
basear-se em estratégias integradas, incluindo diagnóstico adequado,
monitoramento populacional, rotação de culturas, controle biológico e manejo
adequado do solo.
A compreensão da biologia e da ecologia desses organismos é
fundamental para o desenvolvimento de sistemas agrícolas mais sustentáveis e
resilientes.
Tabela – Principais características dos nematoides
ectoparasitas migradores
|
Característica |
Descrição |
|
Tipo de parasitismo |
Ectoparasita |
|
Local de alimentação |
Exterior das raízes |
|
Mobilidade |
Alta mobilidade no solo |
|
Estrutura de alimentação |
Estilete |
|
Exemplos de gêneros |
Helicotylenchus, Tylenchorhynchus, Belonolaimus |
|
Tipo de dano |
Perfuração de células radiculares superficiais |
|
Culturas afetadas |
Soja, milho, algodão, pastagens |
|
Estratégias de manejo |
Rotação de culturas, controle biológico, nematicidas |
Referências (formato ABNT)
CARNEIRO, R. M. D. G.; et al. Distribution and
identification of plant-parasitic nematodes in agricultural soils. Nematology,
2022.
DESAEGER, J.; WATSON, T.; TURECHEK, W. Nematicides and soil
management strategies for plant-parasitic nematodes. Crop Protection,
2020.
ESCUDERO, N.; et al. Advances in molecular detection of
plant-parasitic nematodes. Frontiers in Plant Science, 2020.
FASKE, T. R. Seed treatment nematicides for early-season
management of plant-parasitic nematodes. Plant Disease Management Reports,
2021.
GHAREEB, R.; et al. Global crop losses due to
plant-parasitic nematodes. Agronomy, 2022.
GRABAU, Z.; NOLING, J. Chemical management of
plant-parasitic nematodes in field crops. Plant Disease Management Reports,
2022.
JONES, J. T.; et al. Top 10 plant-parasitic nematodes in
molecular plant pathology. Molecular Plant Pathology, 2021.
MOENS, M.; PERRY, R. N.; STARR, J. L. Plant Nematology.
Wallingford: CABI Publishing, 2022.
NICOL, J. M.; et al. Current nematode threats to world
agriculture. Food Security, 2021.
SIKANDAR, A.; et al. Biological control of plant-parasitic
nematodes. Biological Control, 2021.
TOPALOVIĆ, O.; HEUER, H. Microbial suppression of
plant-parasitic nematodes in soils. Soil Biology and Biochemistry, 2023.
DESAEGER, J. Advances in nematode management strategies in
agricultural systems. Annual Review of Phytopathology, 2024.

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