sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Nematoides: Uso de cultivares resistentes

 


Introdução

Os nematoides fitoparasitas constituem um dos grupos de patógenos mais relevantes e desafiadores para a agricultura moderna, tanto pela sua ampla distribuição quanto pela complexidade de suas interações com as plantas hospedeiras. 

Pertencentes ao filo Nematoda, esses organismos microscópicos habitam o solo e colonizam predominantemente o sistema radicular, onde estabelecem diferentes estratégias de parasitismo — desde formas migradoras, que causam lesões nos tecidos, até formas sedentárias, capazes de induzir a formação de estruturas especializadas de alimentação, como galhas e cistos (JONES et al., 2022; ESCUDERO et al., 2020).

A importância econômica desses organismos é amplamente reconhecida. Estimativas recentes indicam que os nematoides fitoparasitas são responsáveis por perdas de 10 a 12% da produção agrícola mundial, o que corresponde a prejuízos superiores a US$ 170 bilhões anuais (NICOL et al., 2021; GHAREEB et al., 2022). Em sistemas tropicais intensivos, como os predominantes no Brasil, esses impactos podem ser ainda mais expressivos, com perdas superiores a 30% em culturas como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, especialmente quando associados a condições favoráveis de solo e clima (SINGH et al., 2024).

No cenário brasileiro, a situação é particularmente crítica. Estudos recentes apontam que mais de 60% das áreas agrícolas apresentam algum nível de infestação por nematoides, com destaque para espécies de elevada agressividade e ampla adaptação, como Meloidogyne incognita, Meloidogyne javanica, Pratylenchus brachyurus e Heterodera glycines (DIAS et al., 2021; INOMOTO; ASSEFA, 2022). Essas espécies apresentam alta capacidade reprodutiva e sobrevivência no solo, mesmo na ausência de hospedeiros, o que dificulta significativamente seu controle.

Além dos danos diretos ao sistema radicular, os nematoides exercem efeitos indiretos relevantes sobre o desenvolvimento das plantas. A degradação das raízes compromete a absorção de água e nutrientes, reduz a eficiência no uso de fertilizantes e torna as plantas mais suscetíveis a estresses abióticos, como déficit hídrico. Adicionalmente, esses patógenos frequentemente atuam em sinergismo com fungos e bactérias de solo, formando complexos patogênicos que intensificam os danos e dificultam o diagnóstico em campo (MUKHTAR et al., 2023).

Outro aspecto que agrava a problemática dos nematoides é a natureza silenciosa dos sintomas. Em muitos casos, os sinais observados na parte aérea — como clorose, nanismo e redução de produtividade — são inespecíficos e facilmente confundidos com deficiências nutricionais ou compactação do solo. Essa característica contribui para a subestimação do problema e para a adoção tardia de medidas de manejo, resultando em perdas acumulativas ao longo das safras (MOENS; PERRY; STARR, 2022).

Nesse contexto, o uso de cultivares resistentes destaca-se como uma das ferramentas mais promissoras e sustentáveis no manejo de nematoides fitoparasitas. A resistência genética atua diretamente na interação planta-nematoide, reduzindo ou impedindo a reprodução do patógeno e, consequentemente, diminuindo sua população no solo ao longo do tempo. Diferentemente de outras estratégias de controle, essa abordagem apresenta alta eficiência, facilidade de adoção e menor impacto ambiental (JONES et al., 2022).

Entretanto, a utilização de cultivares resistentes não é isenta de desafios. A elevada variabilidade genética dos nematoides, aliada à pressão de seleção imposta pelo uso contínuo de uma mesma fonte de resistência, pode levar à adaptação das populações e à quebra da resistência. Esse fenômeno tem sido relatado em diversas regiões produtoras, especialmente em áreas com histórico de monocultura (INOMOTO; ASSEFA, 2022).

Diante disso, torna-se fundamental compreender que a resistência genética deve ser utilizada como parte de uma estratégia mais ampla de manejo integrado. A combinação com práticas como rotação de culturas, uso de plantas de cobertura, manejo da matéria orgânica e controle biológico é essencial para garantir a durabilidade da resistência e a sustentabilidade do sistema produtivo (TOPALOVIĆ; HEUER, 2023).

Assim, aprofundar o conhecimento sobre o uso de cultivares resistentes no manejo de nematoides é essencial para estudantes, pesquisadores e produtores rurais que buscam aumentar a eficiência produtiva, reduzir perdas e promover sistemas agrícolas mais resilientes e sustentáveis.

Fundamentos da resistência genética a nematoides

A resistência de plantas a nematoides está associada à capacidade do hospedeiro em impedir ou limitar o desenvolvimento do patógeno em seu sistema radicular. Esse processo pode ocorrer por meio de barreiras físicas, respostas bioquímicas ou mecanismos moleculares específicos (JONES et al., 2022).

Em muitos casos, a resistência envolve a ativação de genes que impedem a formação de estruturas de alimentação, essenciais para a sobrevivência dos nematoides sedentários como Meloidogyne spp. e Heterodera spp. (ESCUDERO et al., 2020).

Esses mecanismos reduzem significativamente a taxa de reprodução (fator de reprodução – FR), contribuindo para a diminuição da população ao longo das safras (MUKHTAR et al., 2023).

 

Principais fontes de resistência em culturas agrícolas

Diversas culturas apresentam cultivares com resistência genética a nematoides. Na soja, por exemplo, genes derivados de fontes como PI 88788 e Peking têm sido amplamente utilizados no controle de Heterodera glycines (INOMOTO; ASSEFA, 2022).

No algodão, há cultivares com resistência a Meloidogyne incognita, enquanto no milho e na cana-de-açúcar programas de melhoramento têm avançado na incorporação de genes de resistência (SINGH et al., 2024).

Apesar desses avanços, a disponibilidade de cultivares resistentes ainda é limitada para algumas espécies de nematoides, especialmente os de hábito migrador, como Pratylenchus brachyurus.

 

Vantagens do uso de cultivares resistentes

O uso de cultivares resistentes apresenta diversas vantagens agronômicas e econômicas. Entre elas, destaca-se a redução da população de nematoides no solo, o que contribui para a sustentabilidade do sistema produtivo (NICOL et al., 2021).

Além disso, essa estratégia reduz a dependência de nematicidas químicos, diminuindo custos de produção e impactos ambientais (GRABAU; NOLING, 2022).

Outro benefício importante é a facilidade de adoção, uma vez que não exige mudanças significativas no sistema de produção.

 

Limitações e riscos da resistência genética

Apesar das vantagens, o uso contínuo de cultivares resistentes pode levar à seleção de populações de nematoides capazes de superar essa resistência, fenômeno conhecido como quebra de resistência (INOMOTO; ASSEFA, 2022).

Esse processo ocorre devido à alta variabilidade genética dos nematoides e à pressão de seleção exercida pelo cultivo repetido de uma mesma fonte de resistência.

Por isso, recomenda-se a rotação de cultivares com diferentes mecanismos de resistência e a integração com outras práticas de manejo (MUKHTAR et al., 2023).

 

Integração com outras estratégias de manejo

O uso de cultivares resistentes deve ser integrado a outras práticas agronômicas para maximizar sua eficiência. A rotação de culturas, por exemplo, reduz a pressão de seleção sobre os nematoides (NICOL et al., 2021).

O uso de plantas de cobertura, como Crotalaria spp., pode complementar o controle, reduzindo populações no solo (TOPALOVIĆ; HEUER, 2023).

Além disso, o manejo da matéria orgânica e o uso de controle biológico contribuem para aumentar a supressividade do solo (SIKANDAR et al., 2021).

 

Avanços recentes em melhoramento genético

Nos últimos anos, avanços em biotecnologia têm permitido o desenvolvimento de cultivares com resistência mais durável. Técnicas como edição gênica e seleção assistida por marcadores têm acelerado o processo de melhoramento (WANG et al., 2023).

Essas tecnologias possibilitam a combinação de múltiplos genes de resistência, aumentando a eficácia contra diferentes espécies de nematoides.

Além disso, estudos recentes têm explorado a interação planta-nematoide em nível molecular, abrindo novas perspectivas para o controle desses patógenos.

 

Tabela – Uso de cultivares resistentes no manejo de nematoides

Aspecto

Descrição

Implicação prática

Mecanismo de resistência

Inibição da alimentação e reprodução

Redução populacional

Culturas com resistência

Soja, algodão, milho

Aplicação ampla

Benefício principal

Redução de perdas

Maior produtividade

Risco

Quebra de resistência

Necessidade de rotação

Integração

Associar com outras práticas

Maior eficiência

Avanços

Biotecnologia

Resistência durável

 

Conclusão e recomendações práticas

O uso de cultivares resistentes representa uma das estratégias mais eficazes no manejo de nematoides fitoparasitas, oferecendo benefícios agronômicos, econômicos e ambientais.

No entanto, sua eficácia depende da correta identificação das espécies de nematoides presentes na área e da escolha adequada das cultivares.

Recomenda-se evitar o uso contínuo de uma única fonte de resistência, adotando rotação de cultivares e integração com outras práticas de manejo.

O manejo integrado, combinando resistência genética, rotação de culturas, controle biológico e uso racional de nematicidas, é fundamental para garantir a sustentabilidade do sistema produtivo.

 

Referências (ABNT)

DESAEGER, J.; et al. Nematicide modes of action. Crop Protection, 2020.

DIAS, W. P.; et al. Nematodes in Brazilian agriculture. Tropical Plant Pathology, 2021.

ESCUDERO, N.; et al. Plant–nematode interactions. International Journal of Molecular Sciences, 2020.

GHAREEB, R.; et al. Global crop losses due to nematodes. Agronomy, 2022.

GRABAU, Z.; NOLING, J. Chemical control of nematodes. Plant Disease Reports, 2022.

INOMOTO, M. M.; ASSEFA, D. Nematodes in tropical systems. Nematology, 2022.

JONES, J. T.; et al. Plant-parasitic nematodes. Molecular Plant Pathology, 2022.

MOENS, M.; PERRY, R.; STARR, J. Plant Nematology. CABI, 2022.

MUKHTAR, T.; et al. Nematode management strategies. Agronomy, 2023.

NICOL, J. M.; et al. Global nematode threats. Food Security, 2021.

SIKANDAR, A.; et al. Biological control of nematodes. Biological Control, 2021.

SINGH, S.; et al. Nematode ecology and management. Agriculture, 2024.

TOPALOVIĆ, O.; HEUER, H. Soil suppressiveness. Soil Biology and Biochemistry, 2023.

WANG, K.; et al. Advances in nematode resistance. Plants, 2023.

 

 

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