sábado, 21 de fevereiro de 2026

Helicotylenchus dihystera: biologia, impactos e recomendações práticas de manejo em sistemas agrícolas

Fonte : Agrolink  

Introdução

O nematoide Helicotylenchus dihystera (Cobb, 1893), pertencente ao grupo dos nematoides espiralados, tem ganhado crescente atenção na agricultura moderna devido à sua ampla distribuição e capacidade de adaptação a diferentes sistemas de cultivo. Embora historicamente considerado um patógeno secundário, estudos recentes indicam que sua importância agronômica tem sido subestimada, especialmente em áreas tropicais e subtropicais (WANG et al., 2023; SINGH et al., 2024).

Esse nematoide é classificado como ectoparasita migrador, alimentando-se das células do córtex radicular. Sua atividade provoca lesões localizadas que, embora inicialmente discretas, podem evoluir para danos mais expressivos quando associados a altas populações ou à presença de outros patógenos do solo (ESCUDERO et al., 2020; MUKHTAR et al., 2023).

Estudos recentes apontam que espécies do gênero Helicotylenchus estão presentes em mais de 70% das áreas agrícolas avaliadas em regiões tropicais, sendo frequentemente detectadas em culturas como soja, milho, cana-de-açúcar e pastagens (DIAS et al., 2021; GHAREEB et al., 2022). Em condições favoráveis, H. dihystera pode contribuir para perdas de produtividade que variam entre 5% e 15%, especialmente quando associado a outros nematoides ou condições de estresse (NICOL et al., 2021).

Diante desse cenário, compreender a biologia, os fatores que influenciam sua dinâmica populacional e as estratégias de manejo é fundamental para evitar sua evolução de patógeno secundário para problema econômico relevante.

 

Biologia e ciclo de vida

O ciclo de vida de Helicotylenchus dihystera é relativamente curto, podendo ser completado entre 20 e 35 dias, dependendo das condições ambientais, especialmente temperatura e umidade do solo (WANG et al., 2023). Esse ciclo inclui os estágios de ovo, quatro fases juvenis (J1–J4) e adulto.

Diferentemente de nematoides endoparasitas, H. dihystera permanece predominantemente fora das raízes, inserindo seu estilete nas células radiculares para se alimentar. Essa característica dificulta o controle químico direto, pois o nematoide permanece protegido no solo.

A reprodução é majoritariamente sexual, embora haja registros de partenogênese em algumas populações. A alta taxa reprodutiva, associada à ampla gama de hospedeiros, contribui para sua persistência no ambiente (SINGH et al., 2024).

 

Sintomatologia e danos às culturas

Os sintomas causados por H. dihystera são frequentemente inespecíficos, o que dificulta sua identificação em campo. Na parte aérea, observa-se redução do crescimento, clorose e menor desenvolvimento vegetativo.

No sistema radicular, o nematoide provoca pequenas lesões necróticas, redução do volume radicular e menor emissão de raízes secundárias. Esses danos comprometem a absorção de água e nutrientes, tornando as plantas mais suscetíveis a estresses abióticos (ESCUDERO et al., 2020).

Além disso, as lesões radiculares servem como porta de entrada para fungos e bactérias, formando complexos patogênicos que ampliam os prejuízos (MUKHTAR et al., 2023).

 

Distribuição, hospedeiros e importância econômica

Helicotylenchus dihystera apresenta ampla distribuição global, sendo especialmente comum em regiões tropicais. No Brasil, sua presença é frequente em áreas agrícolas intensivas e sistemas de pastagens (DIAS et al., 2021).

Esse nematoide possui ampla gama de hospedeiros, incluindo culturas de grande importância econômica como soja, milho, algodão, café e gramíneas forrageiras.

Embora raramente cause danos severos isoladamente, sua presença em altas populações ou em associação com outros nematoides pode resultar em perdas econômicas significativas (NICOL et al., 2021).

 

Fatores que influenciam a dinâmica populacional

A população de H. dihystera é influenciada por diversos fatores ambientais e de manejo. Solos arenosos favorecem sua mobilidade, enquanto solos com maior teor de matéria orgânica tendem a reduzir sua atividade (TOPALOVIĆ; HEUER, 2023).

Temperaturas elevadas aceleram seu ciclo de vida, aumentando o número de gerações por safra. Sistemas de monocultura também contribuem para o aumento populacional devido à disponibilidade contínua de hospedeiros (SINGH et al., 2024).

A ausência de rotação de culturas e o manejo inadequado do solo são fatores críticos para o aumento da infestação.

 

Estratégias de manejo e controle

O manejo de H. dihystera deve ser baseado em uma abordagem integrada. A rotação de culturas com espécies menos suscetíveis é uma das estratégias mais eficazes para reduzir populações (NICOL et al., 2021).

O uso de plantas de cobertura, como Crotalaria spp., pode contribuir para a redução populacional e melhoria da saúde do solo (TOPALOVIĆ; HEUER, 2023).

O aumento da matéria orgânica do solo favorece a atividade de microrganismos antagonistas, contribuindo para o controle biológico natural (SIKANDAR et al., 2021).

Embora o controle químico possa ser utilizado em situações específicas, sua eficiência é limitada devido ao hábito ectoparasita do nematoide. Assim, seu uso deve ser complementar a outras práticas (GRABAU; NOLING, 2022).

 

Tabela – Características e manejo de Helicotylenchus dihystera

Característica

Descrição

Implicação prática

Tipo de parasitismo

Ectoparasita migrador

Dificulta controle químico

Ciclo de vida

20–35 dias

Rápida multiplicação

Hospedeiros

Ampla gama

Necessidade de rotação

Sintomas

Inespecíficos

Exige diagnóstico laboratorial

Ambiente favorável

Solos arenosos e quentes

Monitoramento intensivo

Manejo

Integrado

Maior eficiência

 

Conclusão e recomendações práticas

Embora Helicotylenchus dihystera seja frequentemente considerado um nematoide de menor importância, evidências recentes demonstram que sua contribuição para perdas agrícolas pode ser significativa, especialmente em sistemas intensivos.

O diagnóstico precoce e o monitoramento populacional são fundamentais para evitar o aumento das populações e a ocorrência de danos econômicos.

Recomenda-se a adoção de práticas como rotação de culturas, uso de plantas de cobertura, aumento da matéria orgânica do solo e manejo integrado.

O controle químico deve ser utilizado de forma estratégica e complementar, enquanto o fortalecimento da saúde do solo representa uma abordagem sustentável a longo prazo.

 

Referências (ABNT)

DESAEGER, J.; et al. Nematicide modes of action. Crop Protection, 2020.

DIAS, W. P.; et al. Nematodes in Brazilian agriculture. Tropical Plant Pathology, 2021.

ESCUDERO, N.; et al. Plant–nematode interactions. International Journal of Molecular Sciences, 2020.

GHAREEB, R.; et al. Global nematode distribution. Agronomy, 2022.

GRABAU, Z.; NOLING, J. Chemical nematode management. Plant Disease Reports, 2022.

INOMOTO, M. M.; ASSEFA, D. Nematodes in tropical agriculture. Nematology, 2022.

JONES, J. T.; et al. Plant-parasitic nematodes. Molecular Plant Pathology, 2022.

MOENS, M.; PERRY, R.; STARR, J. Plant Nematology. CABI, 2022.

MUKHTAR, T.; et al. Nematode management review. Agronomy, 2023.

NICOL, J. M.; et al. Nematode threats. Food Security, 2021.

SIKANDAR, A.; et al. Biological control of nematodes. Biological Control, 2021.

SINGH, S.; et al. Nematode ecology. Agriculture, 2024.

TOPALOVIĆ, O.; HEUER, H. Soil suppression. Soil Biology and Biochemistry, 2023.

WANG, K.; et al. Advances in nematode research. Plants, 2023.

 

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