
Introdução
O nematoide Helicotylenchus dihystera (Cobb, 1893) Sher, 1961, pertencente ao grupo dos nematoides espiralados, é uma das espécies mais amplamente distribuídas em solos agrícolas tropicais e subtropicais. Integrante do gênero Helicotylenchus, esse fitonematoide é classificado como ectoparasita migrador, apresentando hábito alimentar associado à superfície das raízes, onde se alimenta de células epidérmicas e corticais (JONES et al., 2022; MOENS; PERRY; STARR, 2022).
Apesar de historicamente considerado de menor importância econômica quando comparado a nematoides como Meloidogyne spp. e Heterodera spp., estudos recentes têm demonstrado que H. dihystera pode causar impactos significativos em sistemas agrícolas, especialmente quando presente em altas populações ou em associação com outros patógenos do solo (MUKHTAR et al., 2023; SIKANDAR et al., 2021).
Esse nematoide apresenta ampla gama de hospedeiros, incluindo culturas de grande relevância econômica como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e diversas gramíneas forrageiras. Sua alta adaptabilidade a diferentes condições edafoclimáticas contribui para sua ampla ocorrência em áreas agrícolas brasileiras (DIAS et al., 2021; INOMOTO; ASSEFA, 2022).
Embora os danos diretos causados por H. dihystera sejam frequentemente menos evidentes do que aqueles provocados por nematoides endoparasitas, sua presença pode comprometer o desenvolvimento radicular e reduzir a eficiência de absorção de nutrientes, especialmente em solos de baixa fertilidade ou sob estresse hídrico (WANG et al., 2023).
Classificação, morfologia e identificação
Helicotylenchus dihystera pertence à família Hoplolaimidae e caracteriza-se morfologicamente pelo corpo em formato espiralado quando relaxado, característica que dá origem ao nome comum “nematoide espiralado” (JONES et al., 2022).
As fêmeas apresentam comprimento médio entre 0,5 e 0,8 mm, com estilete bem desenvolvido, utilizado para perfuração das células vegetais. A região caudal é arredondada, e o sistema reprodutivo é tipicamente didelfo (com dois ovários) (MOENS; PERRY; STARR, 2022).
A identificação da espécie pode ser realizada por meio de análise morfológica em microscopia óptica, mas técnicas moleculares, como PCR, têm sido cada vez mais utilizadas para aumentar a precisão diagnóstica (WANG et al., 2023).
Ciclo de vida e estratégia de sobrevivência
O ciclo de vida de H. dihystera é relativamente curto, podendo ser completado em aproximadamente 20 a 30 dias, dependendo das condições ambientais, especialmente temperatura e umidade do solo (SINGH et al., 2024).
O desenvolvimento inclui os estágios de ovo, quatro estágios juvenis (J1 a J4) e adulto. A eclosão ocorre no solo, e os juvenis iniciam rapidamente a alimentação nas raízes (MUKHTAR et al., 2023).
Como ectoparasita migrador, esse nematoide não estabelece estruturas permanentes de alimentação, movimentando-se continuamente ao longo da superfície radicular. Essa característica permite explorar diferentes áreas do sistema radicular e sobreviver mesmo em condições adversas.
Além disso, H. dihystera apresenta elevada capacidade de sobrevivência em períodos de entressafra, podendo persistir no solo na ausência de hospedeiros por meio de estados de quiescência (SIKANDAR et al., 2021).
Hospedeiros e distribuição
Uma das principais características de Helicotylenchus dihystera é sua ampla gama de hospedeiros. Ele pode parasitar culturas anuais e perenes, incluindo gramíneas e leguminosas, o que dificulta seu controle por meio de rotação de culturas (INOMOTO; ASSEFA, 2022).
No Brasil, sua ocorrência é frequente em áreas de cultivo de soja, milho, cana-de-açúcar e pastagens, sendo frequentemente encontrado em associação com outros nematoides fitoparasitas (DIAS et al., 2021).
Estudos indicam que esse nematoide está presente em mais de 40% das áreas agrícolas tropicais, embora sua densidade populacional varie amplamente entre regiões e sistemas de cultivo (NICOL et al., 2021).
Danos às plantas e impacto agronômico
Os danos causados por H. dihystera estão relacionados à sua alimentação nas células da epiderme e do córtex radicular, resultando em lesões superficiais e redução da funcionalidade das raízes (ESCUDERO et al., 2020).
Essas lesões podem servir como porta de entrada para outros patógenos, como fungos e bactérias, intensificando os danos por meio de interações sinérgicas (MUKHTAR et al., 2023).
Embora raramente cause sintomas severos isoladamente, populações elevadas podem resultar em redução do crescimento das plantas, menor absorção de nutrientes e queda de produtividade, especialmente em condições de estresse ambiental (SINGH et al., 2024).
Interação com o ambiente e dinâmica populacional
A dinâmica populacional de H. dihystera é fortemente influenciada por fatores ambientais, como temperatura, umidade e textura do solo. Solos arenosos favorecem sua movimentação e dispersão (SIKANDAR et al., 2021).
Temperaturas entre 25°C e 30°C são ideais para seu desenvolvimento, favorecendo ciclos rápidos e aumento populacional (WANG et al., 2023).
Sistemas de monocultura e baixa diversidade vegetal tendem a favorecer a manutenção de populações elevadas ao longo do tempo.
Estratégias de manejo
O manejo de Helicotylenchus dihystera deve ser baseado em estratégias integradas. A rotação de culturas apresenta eficácia limitada devido à ampla gama de hospedeiros, mas ainda pode contribuir para reduzir populações (NICOL et al., 2021).
O aumento da matéria orgânica do solo e o uso de plantas de cobertura podem favorecer a supressividade biológica (TOPALOVIĆ; HEUER, 2023).
O controle biológico, por meio de fungos e bactérias antagonistas, tem mostrado resultados promissores (SIKANDAR et al., 2021).
O uso de nematicidas pode ser considerado em áreas com altas infestações, mas deve ser integrado a outras práticas.
Tabela – Principais características de Helicotylenchus dihystera
| Característica | Descrição | Implicação prática |
|---|---|---|
| Tipo de parasitismo | Ectoparasita migrador | Dano difuso nas raízes |
| Ciclo de vida | 20–30 dias | Rápida multiplicação |
| Hospedeiros | Ampla gama | Difícil controle por rotação |
| Distribuição | Tropical e subtropical | Alta ocorrência no Brasil |
| Danos | Lesões radiculares | Redução de absorção |
| Manejo | Integrado | Necessidade de múltiplas estratégias |
Conclusão e recomendações práticas
Helicotylenchus dihystera é um nematoide amplamente distribuído e adaptado a diferentes sistemas agrícolas, apresentando importância crescente no contexto da nematologia agrícola.
Embora frequentemente subestimado, seu impacto pode ser significativo em condições de alta infestação ou em associação com outros patógenos.
O manejo eficiente deve ser baseado em diagnóstico adequado e adoção de estratégias integradas, incluindo manejo da matéria orgânica, controle biológico e uso racional de insumos.
Recomenda-se o monitoramento contínuo das populações e a adoção de práticas que promovam a saúde do solo, visando reduzir os impactos desse nematoide nos sistemas produtivos.
Referências (ABNT)
DIAS, W. P.; et al. Nematodes in Brazilian agriculture. Tropical Plant Pathology, 2021.
ESCUDERO, N.; et al. Plant–nematode interactions. International Journal of Molecular Sciences, 2020.
GHAREEB, R.; et al. Global nematode damage. Agronomy, 2022.
INOMOTO, M. M.; ASSEFA, D. Nematology in tropics. Nematology, 2022.
JONES, J. T.; et al. Plant-parasitic nematodes. Molecular Plant Pathology, 2022.
MOENS, M.; PERRY, R.; STARR, J. Plant Nematology. CABI, 2022.
MUKHTAR, T.; et al. Nematode management. Agronomy, 2023.
NICOL, J. M.; et al. Global nematode threats. Food Security, 2021.
SIKANDAR, A.; et al. Biological control. Biological Control, 2021.
SINGH, S.; et al. Nematode ecology. Agriculture, 2024.
TOPALOVIĆ, O.; HEUER, H. Soil suppression. Soil Biology and Biochemistry, 2023.
WANG, K.; et al. Advances in nematode research. Plants, 2023.
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