terça-feira, 10 de março de 2026

Manejo do nematoide na síndrome da haste verde e retenção foliar em soja

Introdução

A síndrome da haste verde e retenção foliar (SHVRF), frequentemente associada ao nematoide Aphelenchoides besseyi, transformou-se em um problema de importância prática para a sojicultura tropical porque combina dano biológico, atraso de maturação e perda operacional na colheita. Em termos de impacto econômico, a literatura recente aponta que os fitonematoides podem causar perdas médias de 10–15% na soja e, sob condições favoráveis, superar 30–100%; no caso específico da SHVRF no Brasil, um documento técnico da Embrapa estima cerca de 6,3 milhões de hectares em área com potencial de ocorrência, enquanto um estudo recente relatou perda de 250 mil sacas e cerca de R$ 15 milhões em uma única propriedade. (MDPI)

Esse cenário exige uma mudança de enfoque: o manejo não deve mirar apenas a “redução de população” do nematoide, mas sim a quebra do ciclo epidemiológico, a proteção do material de plantio, o ajuste do sistema de produção e a convivência com um patógeno que pode persistir no ambiente. Uma revisão recente sobre manejo de fitonematoides enfatiza que estratégias integradas são mais eficientes do que medidas isoladas, e outra revisão de 2025 destaca como promissores o melhoramento genético, os agentes biológicos, a biofumigação e o manejo do solo.

1. Por que o manejo da SHVRF é diferente do manejo de nematoides radiculares

Ao contrário dos nematoides clássicos de raiz, A. besseyi coloniza tecidos aéreos e pode ser encontrado em raízes, hastes, folhas e sementes. Em soja, o trabalho de 2025 mostrou sua presença em todos esses compartimentos, confirmando o caráter endoparasítico e a capacidade de alcançar a parte aérea; o mesmo estudo indicou que sementes podem atuar como fonte de inóculo. Isso muda completamente a lógica do manejo: a unidade de controle não é apenas o solo, mas também a parte aérea e o sistema de sementes. (MDPI)

Além disso, o nematoide não depende exclusivamente da planta hospedeira para sobreviver. Documentos técnicos da Embrapa mostram que ele pode viver saprofiticamente no solo, alimentando-se de fungos decompositores, e em condições extremas entrar em anidrobiose e permanecer por meses em restos culturais. A dispersão também ocorre por contato entre folhas com água livre, por vento, por máquinas e por resíduos da colheita, o que explica a dificuldade de erradicação quando a área já está infestada. (Sistema Famato)

Do ponto de vista ambiental, a doença se expressa com maior intensidade em condições quentes e úmidas. A literatura técnica recente associa a SHVRF a temperaturas médias acima de 28 °C e elevada frequência de chuvas, com maior severidade em regiões tropicais do Norte e do Centro-Oeste brasileiros. Isso significa que o manejo precisa ser antecipado antes mesmo de a lavoura entrar no período crítico de enchimento de grãos. (Sistema Famato)

2. Princípios do manejo integrado

O ponto de partida é aceitar que o controle “curativo” isolado raramente entrega resposta suficiente. A literatura de manejo de fitonematoides reúne seis pilares: quarentena e prevenção, manejo cultural, manejo físico, controle químico, controle biológico e resistência genética; quando combinados, esses componentes formam o manejo integrado de nematoides, que é mais estável e mais realista do que confiar em uma única ferramenta.

Na SHVRF, isso se traduz em três metas operacionais: impedir a entrada do nematoide em áreas livres, reduzir a multiplicação onde ele já está presente e diminuir a transmissão entre safras. O manejo deve começar no planejamento da sucessão, passar pela escolha do material de plantio e terminar na limpeza do sistema produtivo, incluindo palhada, plantas voluntárias, invasoras e trânsito de máquinas.

3. Prevenção: semente, diagnóstico e barreiras sanitárias

A prevenção é o componente mais barato e mais eficiente do programa. Em 2025, a Embrapa reforçou que as sementes de gramíneas forrageiras são uma das formas mais eficientes de disseminação do patógeno em sistemas com soja, e o estudo em Life confirmou que sementes de soja podem carregar inóculo viável. Em termos práticos, isso significa que lotes de sementes e material de cobertura precisam ser tratados como risco sanitário e não apenas como insumo agronômico.

Também é essencial que o diagnóstico seja feito com método, não só por aparência. A literatura recente mostrou que plantas infectadas podem permanecer assintomáticas por um período considerável, o que favorece a disseminação antes da identificação visual. Por isso, em áreas suspeitas, a amostragem de parte aérea e o uso de ferramentas confirmatórias são decisivos para separar uma retenção fisiológica de um quadro associado a A. besseyi.

4. Sucessão e rotação: quebrando o ciclo do nematoide

A rotação é a base cultural do controle. Um documento técnico da Embrapa lista como hospedeiras de A. besseyi a soja, algodão, feijão, caupi, gergelim, aveia-branca, centeio, nabo-forrageiro, morango e algumas espécies daninhas, enquanto milho, sorgo, milheto, arroz e Urochloa ruziziensis aparecem como não hospedeiras. A recomendação prática é simples: evitar sucessões com plantas hospedeiras e priorizar espécies não hospedeiras sempre que o sistema permitir. (Sistema Famato)

Dentro dessa lógica, o milho safrinha ganha destaque como opção de segunda safra sempre que viável, porque reduz a continuidade do hospedeiro. Esse tipo de decisão é particularmente importante em regiões quentes e chuvosas, onde o patógeno tende a se multiplicar com mais rapidez e a contaminar a soja da safra seguinte.

Há, porém, uma nuance importante: nem toda forrageira “boa para o sistema” é boa para o nematoide. Em 2024, um resumo expandido da Embrapa mostrou que a braquiária Marandu não foi hospedeira de A. besseyi e reduziu sua população quando usada na sucessão soja-braquiária-soja, mas, ao mesmo tempo, multiplicou intensamente Pratylenchus brachyurus. Ou seja, o desenho da sucessão deve considerar o complexo de nematoides presente na área, e não apenas a SHVRF.

5. Manejo de plantas daninhas, voluntárias e restos culturais

Plantas daninhas e voluntárias precisam ser tratadas como ponte verde para o nematoide. O material técnico da Embrapa destaca hospedeiras daninhas como Commelina benghalensis, Leonotis nepetaefolia, Amaranthus viridis e Synedrellopsis grisebachii, todas capazes de manter a população no sistema entre safras. O manejo deve começar na dessecação pré-plantio e continuar no pós-emergência, para evitar que a lavoura funcione como amplificador biológico.

A palhada também merece atenção. Como o nematoide pode sobreviver em restos culturais e se espalhar por fragmentos movimentados por colhedoras, a limpeza operacional e a redução de fontes de contaminação dentro da fazenda ajudam a diminuir a pressão inicial da safra seguinte. Em áreas de histórico severo, a higiene de máquinas, carretas e implementos não é detalhe: é parte do manejo. (Sistema Famato)

6. Dessecação antecipada e colheita

A antecipação da dessecação é uma recomendação recorrente. O material técnico da Embrapa orienta semear soja sobre palhada totalmente dessecada, com antecedência de 15 a 20 dias, justamente para reduzir contato entre tecido verde infectado e tecidos sadios no início do ciclo. Para o produtor, isso significa trabalhar a janela de semeadura e a qualidade da dessecação como parte do controle sanitário.

Na colheita, o objetivo é reduzir a redistribuição do inóculo. A dispersão por resíduos expulsos pela colhedora e pela ação do vento foi destacada em documentos técnicos recentes, o que reforça a importância de ajustar a altura de corte, evitar áreas com manchas severas primeiro, quando possível, e manter o equipamento limpo ao sair de talhões muito contaminados. (Sistema Famato)

7. Resistência genética: uma frente estratégica ainda em consolidação

A resistência é uma das rotas mais promissoras e também uma das mais difíceis de implementar em escala. Em 2025, um estudo com 17 cultivares de soja identificou Yudou 29 como altamente resistente a A. besseyi, além de classificar outras cultivares como resistentes ou intermediárias. O trabalho mostrou ainda diferenças consistentes entre genótipos quanto à penetração inicial, reprodução do nematoide e severidade dos sintomas. (MDPI)

Para o manejo, isso é uma mensagem clara: programas de melhoramento e triagem de germoplasma precisam ser fortalecidos, porque a resistência genética reduz a dependência de medidas de emergência e cria base durável de manejo. Ao mesmo tempo, a resposta de resistência ainda precisa ser validada em ambientes brasileiros, porque a interação genótipo × ambiente × população do nematoide pode alterar o desempenho no campo. (MDPI)

8. Controle biológico e controle químico: promissores, mas ainda dependentes de posicionamento

As ferramentas biológicas estão avançando, mas ainda não substituem o pacote cultural. Uma revisão de 2025 sobre bactérias, fungos e consórcios microbianos mostra que agentes biológicos podem atuar por antibiose, hiperparasitismo, enzimas líticas, resistência induzida e competição, mas também destaca limitações de formulação, escalabilidade e consistência a campo. Em outras palavras, o potencial existe, porém o desempenho ainda é dependente de contexto e de validação regional. (RSC Publishing)

Para A. besseyi, técnicos da Embrapa destacam que o controle químico ou biológico pode ser mais efetivo porque o nematoide se aloja em partes expostas da planta, como inflorescências e tecidos tenros; porém, a própria fonte ressalta que ainda são necessários mais estudos para definir o posicionamento ideal das ferramentas. A leitura prática é que esses insumos devem funcionar como complemento do manejo integrado, não como solução isolada. (Cultura Cultivar)

9. Nutrição e vigor da planta: apoio ao sistema, não substituto do controle

A nutrição equilibrada não elimina o nematoide, mas ajuda a planta a tolerar melhor o estresse. Em 2022, um estudo da Embrapa indicou que o estado nutricional não altera a infecção por A. besseyi, embora a aplicação de nutrientes continue necessária para o desenvolvimento da soja; em 2025, análises espectrais e transcriptômicas reforçaram que a doença se associa a perturbações em nutrientes e no metabolismo, o que ajuda a explicar a retenção foliar e a mudança na cor dos tecidos. (Tandfonline)

Assim, adubação equilibrada deve ser vista como estratégia de suporte fisiológico. Ela não substitui rotação, sanidade de sementes ou controle de plantas hospedeiras, mas pode reduzir a expressão do dano e melhorar a uniformidade da lavoura em áreas de pressão moderada. (Tandfonline)

10. Monitoramento e diagnóstico de precisão

A SHVRF está deixando de ser apenas um diagnóstico visual de fim de ciclo. Em 2025, um estudo com remote sensing e aprendizado de máquina mostrou que as regiões do infravermelho próximo e de ondas curtas foram as mais úteis para separar níveis de infecção por A. besseyi, com melhor desempenho na segunda metade do ciclo da soja. Isso abre espaço para mapeamento de talhões e intervenções localizadas. (ScienceDirect)

Outra frente promissora é o uso de LIBS combinado com aprendizado de máquina. Um trabalho apresentado em 2025 mostrou acurácia de 95,7% com SVM e 92,9% com MLP para detectar folhas assintomáticas infectadas por A. besseyi, indicando que o patógeno pode ser identificado antes da manifestação visual completa. Para o manejo, isso é relevante porque antecipa decisões de isolamento, colheita e planejamento da próxima safra.

Quadro-resumo dos pontos de manejo

Eixo de manejoO que fazer no campoBase recenteObservação prática
Prevenção sanitáriaUsar sementes com origem conhecida e evitar áreas/endêmicas de forrageiras contaminadas
A semente pode carregar inóculo
Rotação/sucessãoPriorizar milho, sorgo, milheto e não hospedeiras; evitar hostes como algodão e feijão
Reduz a pressão entre safras
Cobertura vegetalAvaliar braquiárias caso a caso; Marandu reduziu A. besseyi, mas elevou P. brachyurus
Não olhar só um nematoide
Daninhas e voluntáriasEliminar hospedeiras alternativas e soqueiras(Sistema Famato)Evita ponte verde
DessecaçãoAntecipar dessecação e semear sobre palhada totalmente seca
Menos contato entre tecidos
Resistência genéticaPriorizar genótipos com reação comprovada(MDPI)A resistência ainda precisa de validação local
Biológicos/químicosUsar como complemento e com posicionamento técnico(RSC Publishing)Mais útil em programa integrado
MonitoramentoAdotar diagnóstico laboratorial e ferramentas de precisão(ScienceDirect)Detecta antes da perda máxima

Conclusões

O manejo da SHVRF exige uma mudança de mentalidade: não se trata apenas de “controlar um nematoide”, mas de administrar um sistema de produção vulnerável à transmissão por sementes, restos culturais, plantas hospedeiras e ambiente favorável. Os dados recentes mostram que A. besseyi invade diferentes tecidos da soja, pode ser disseminado por sementes, encontra sobrevivência em condições adversas e ainda provoca perdas severas, o que explica por que a doença persiste como desafio técnico em áreas tropicais. (MDPI)

Na prática, o programa mais sólido combina prevenção sanitária, rotação com não hospedeiras, controle de daninhas, dessecação antecipada, limpeza operacional, uso de genótipos mais tolerantes quando disponíveis e monitoramento de precisão. A química e o biológico podem ajudar, mas o ganho sustentável vem da integração entre medidas e do ajuste fino ao histórico da área.

Recomendações práticas finais

Em áreas com histórico da síndrome, o produtor deve priorizar semente com sanidade comprovada, evitar sucessão com hospedeiras, avaliar a braquiária com cautela, eliminar plantas voluntárias e daninhas, antecipar a dessecação da palhada e inspecionar a lavoura ainda no período reprodutivo. Para pesquisadores e estudantes, a agenda mais promissora está em três frentes: validação regional de resistência, posicionamento de biológicos e desenvolvimento de diagnóstico rápido e não destrutivo.

Referências

ASMUS, Guilherme Lafourcade. Manejo de fitonematoides: além da redução dos níveis populacionais. Dourados: Embrapa, 2025.

BORDUCHI, Luís Carlos Leva; DAREZZO, Helga Maria; SOUZA, Daniele; MILORI, Debora Marcondes Bastos Pereira. Integrating LIBS and Machine Learning to Identify Aphelenchoides besseyi Infection in Asymptomatic Soybean Leaves. In: SBFoton International Optics and Photonics Conference, 2025, São Pedro. Anais... São Paulo: IEEE, 2025.

DELLA-SILVA, J. L. et al. Evaluation of soybean plants affected by Aphelenchoides besseyi using remote sensing and machine learning techniques. Remote Sensing Applications: Society and Environment, 2025.

ELHAMOULY, N. A. et al. Studies on Host–Parasite Relationship Between Soybean Plants and Aphelenchoides besseyi. Life, v. 15, n. 7, art. 1154, 2025.

EMBRAPA. Nematoide da haste verde afeta 6 milhões de hectares de soja. Brasília: Embrapa, 2024.

EMBRAPA GADO DE CORTE. Doenças forrageiras Urochloa. Campo Grande: Embrapa, 2025.

LORETO, Rafaela Bueno; DIAS, Júlia Pedroso; FAVORETO, Luciany; MEYER, Mauricio Conrado; MORAES, Larissa A. C.; MOREIRA, Adônis. Soybean development under different Aphelenchoides besseyi and Meloidogyne incognita populations. Semina: Ciências Agrárias, v. 43, n. 4, p. 1595-1604, 2022.

LORETO, Rafaela Bueno; DIAS, Júlia Pedroso; FAVORETO, Luciany; MEYER, Mauricio Conrado; MORAES, Larissa A. C.; MOREIRA, Adônis. Nutrient Omission and Aphelenchoides besseyi Interaction in Soybean Plants. Communications in Soil Science and Plant Analysis, v. 54, n. 8, p. 1093-1101, 2022.

PILI, Njira Njira; BAWA MUSA, Nasamu; EBRAHIM, Awol Seid. Chapter 08: Plant-Parasitic Nematodes. Part VII: Management. Nemedussa, 2024.

YADAV, Shashi Prabha; SHARMA, Chhavi; PATHAK, Puneet; KANAUJIA, Anil; SAXENA, Mohan Ji; KALRA, Anup. Management of phyto-parasitic nematodes using bacteria and fungi and their consortia as biocontrol agents. Environmental Science: Advances, 2025.

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