segunda-feira, 9 de março de 2026

Relação do Manganês com Nematoides


Introdução

Os nematoides fitoparasitas seguem entre os patógenos de solo mais custosos e silenciosos da agricultura.

Revisões recentes apontam perdas econômicas anuais que variam de cerca de US$ 157 bilhões a US$ 358,24 bilhões, dependendo do conjunto de culturas e da metodologia utilizada; no caso dos nematoides-das-galhas (Meloidogyne spp.), estimativas recentes ainda indicam aproximadamente 12% de perda global, com valores na ordem de US$ 100 bilhões/ano e hospedeiros em mais de 2.000 espécies vegetais. Esse cenário ajuda a explicar por que a nutrição mineral deixou de ser apenas um tema de fertilidade e passou a ser componente de sanidade radicular e manejo integrado de nematoides. (PMC)

Nesse contexto, o manganês (Mn) merece destaque. Trata-se de um micronutriente essencial, mas com janela estreita entre deficiência e toxicidade; ele participa da fotossíntese, da lignificação, do metabolismo oxidativo e da ativação de enzimas ligadas à defesa. Revisões de 2024 e 2025 mostram que a disponibilidade de Mn no solo é fortemente controlada por pH e estado redox, e que a carência de Mn é frequente em ambientes agrícolas e florestais, afetando diretamente o desempenho fisiológico das plantas. (PubMed)

Manganês, homeostase e arquitetura da defesa

O primeiro ponto para entender a relação Mn–nematoides é a homeostase do metal dentro da planta. A revisão mais recente sobre transporte de Mn mostra que o metal precisa ser levado do solo às células-alvo por famílias de transportadores, com controle pós-traducional e distribuição organelar finamente regulada; quando esse sistema falha, tanto a deficiência quanto a toxicidade prejudicam o crescimento e a imunidade. Em termos práticos, a planta só consegue se defender bem quando a alocação de Mn está no ponto certo. (PMC)

O Mn também é central para a fotossíntese e para a manutenção de estruturas fotoquímicas. A literatura de 2024 resume que o elemento é essencial para o complexo de evolução de oxigênio do fotossistema II e para diversas metaloenzimas, e reforça que ele é um dos micronutrientes mais estudados em relação à resistência a doenças. Assim, quando a planta entra em deficiência, a queda de fotossíntese e de energia metabólica reduz a capacidade de sustentar respostas de defesa após a infecção por nematoides. (MDPI)

Mn, parede celular e compostos de defesa

A ligação entre manganês e defesa vegetal passa fortemente pela parede celular e pelo metabolismo secundário. A revisão sobre nutrição mineral e resistência a doenças mostra que nutrientes adequados podem reforçar barreiras físicas, aumentar lignificação e favorecer a síntese de metabólitos antimicrobianos; no caso do Mn, isso é especialmente relevante porque ele influencia lignina, enzimas oxidativas e vias metabólicas relacionadas à resistência. (PMC)

Em plantas lenhosas, a deficiência de Mn é associada a menor atividade de metabólitos de defesa e maior suscetibilidade a pragas e patógenos. A revisão de 2024 sobre defesa em árvores destaca que baixos teores de Mn estão ligados a alterações em compostos secundários e a maior vulnerabilidade do hospedeiro, reforçando a ideia de que o nutriente é parte da primeira linha de defesa. Para sistemas agrícolas, a extrapolação mais segura é simples: se o Mn cai, a planta tende a ficar menos “armada” para responder ao parasitismo radicular. (PubMed)

Nematoides, percepção de ataque e respostas bioquímicas

A interação planta–nematoide começa na raiz, onde o patógeno precisa superar barreiras físicas e químicas para se estabelecer. Revisões de 2024 mostram que plantas reconhecem nematoides por sinais associados ao dano e ativam respostas que envolvem metabólitos antimicrobianos, espécies reativas de oxigênio, sinalização hormonal e reforço de parede celular. Como o Mn participa justamente dessas respostas bioquímicas, sua disponibilidade influencia a qualidade da reação da planta ao ataque. (Frontiers)

Isso é importante porque os nematoides mais destrutivos, especialmente os do gênero Meloidogyne, têm ampla gama de hospedeiros e enorme capacidade de adaptação. Revisões recentes relatam que mais de 4.000 espécies de nematoides parasitam plantas e que os root-knot nematodes continuam entre os grupos de maior impacto global. Em outras palavras, o problema não é pontual; é estrutural e depende muito da sanidade da rizosfera e do estado nutricional da planta. (PMC)

O que a deficiência de Mn faz na raiz e por que isso importa para nematoides

A deficiência de manganês não afeta apenas a folha; ela começa na raiz. Em um estudo de campo com tamareiras, a limitação de Mn, associada a pH elevado e salinidade variável, reduziu a concentração de Mn nas raízes em cerca de 60%, diminuiu o conteúdo de água radicular em 20%, causou perda de cerca de 80% da clorofila e reduziu o rendimento fotossintético em 26%. O trabalho também mostrou alterações marcantes na arquitetura radicular, com menor comprimento de raízes terciárias, maior diâmetro médio e menor densidade de ramificação, indicando perda de eficiência de absorção. (MDPI)

Para fitonematologia, esse tipo de quadro é crítico. Nematoides dependem de raízes funcionais e metabolicamente ativas para se estabelecerem; se a raiz já está comprometida por deficiência de Mn, o dano biológico tende a ser amplificado. O resultado prático é um sistema radicular menos capaz de cicatrizar, absorver água e sustentar o crescimento, tornando a planta mais vulnerável a nematoides sedentários e migradores. (MDPI)

Evidência direta com nematoides: o que já foi observado

Embora a maioria das evidências seja indireta, há trabalhos recentes conectando Mn e nematoides de forma mais concreta. Em chickpea cultivado com Meloidogyne incognita, um estudo de 2022 avaliou o efeito de Pseudomonas fluorescens na absorção de manganês e relatou aumento de Mn nas raízes em diferentes cultivares infectadas; no tratamento apenas com bactéria, os teores chegaram a 6,44 mg/100 g de raiz em uma cultivar, valores superiores aos observados em plantas apenas infectadas. O estudo também lembra que o nematoide é uma limitação importante à produção de grão-de-bico, reforçando a relevância do manejo nutricional na cultura. (ResearchGate)

Esse tipo de resultado mostra que a relação Mn–nematoide não é apenas “deficiência versus saúde”; ela também envolve a rizosfera e os microrganismos benéficos. A presença de Pseudomonas fluorescens alterando a absorção de Mn sugere que bioagentes podem melhorar o estado nutricional e, ao mesmo tempo, reduzir a pressão de M. incognita, criando uma resposta mais robusta da planta ao parasitismo. (ResearchGate)

Mn, microbiota do solo e biocontrole

A microbiota é peça central nessa história. Revisões recentes sobre biocontrole de nematoides mostram que bactérias e fungos podem suprimir PPNs por antibiose, parasitismo, competição, indução de resistência sistêmica e alteração da rizosfera; em paralelo, outros trabalhos apontam que a nutrição mineral altera exsudatos radiculares e a composição microbiana do solo. Assim, o Mn não deve ser visto isoladamente: sua eficiência depende da comunidade biológica que circunda a raiz. (Frontiers)

Essa interação ficou ainda mais clara nas revisões de 2025 sobre manejo integrado. Abd-Elgawad destaca que nenhum insumo controla nematoides com superioridade em todos os cenários; o sucesso vem de combinações compatíveis, incluindo genótipos resistentes, biocontrole, cobertura do solo, rotação e ajustes nutricionais. Portanto, o Mn entra como parte do “pacote” de manejo de rizosfera e não como solução única. (PMC)

Manganês como sinal de defesa e como alvo de alocação metálica

Uma tendência nova na literatura é tratar metais de transição como parte de uma camada de imunidade vegetal. A revisão de 2025 sobre alocação de metais mostra que plantas podem redistribuir ferro, cobre, zinco e manganês durante a infecção, e que essa redistribuição pode influenciar a multiplicação do patógeno e a ativação da defesa. No caso do Mn, há indícios de acúmulo em locais de infecção em Arabidopsis e videira, sugerindo que a planta tenta usar o metal como parte da resposta ao ataque. (PubMed)

Ao mesmo tempo, a própria revisão ressalta que fertilização com Mn nem sempre aumenta a tolerância. Em Capsicum annuum, por exemplo, a aplicação de Mn não resultou em aumento de tolerância à infecção em um pathosystem citado no artigo. Esse é um lembrete importante para o manejo agrícola: o efeito do Mn é fortemente dependente da cultura, da espécie de nematoide, do solo e do equilíbrio com outros nutrientes. (ResearchGate)

Mn e o “meio-termo” agronômico entre deficiência e toxicidade

O manganês é essencial, mas em excesso torna-se tóxico. A revisão de 2025 sobre Mn-handling destaca que a planta precisa manter o metal dentro de uma faixa estreita, porque tanto a escassez quanto o excesso prejudicam fotossíntese, integridade celular e crescimento. Em solos ácidos, o risco se desloca para toxicidade; em solos muito corrigidos ou com baixa disponibilidade, o risco é deficiência — e ambos podem aumentar a vulnerabilidade a doenças. (PubMed)

Do ponto de vista fisiológico, isso é coerente com o fato de o Mn participar de cerca de 6% dos metaloenzimas de uma célula típica, como lembrado na revisão de 2025 sobre alocação de metais. Essa centralidade metabólica explica por que pequenas mudanças na disponibilidade podem ter efeitos amplos sobre vigor, defesa e tolerância ao estresse, inclusive ao estresse provocado por nematoides. (PubMed)

O que fazer em campo

Na prática, a recomendação mais segura é diagnosticar antes de corrigir. Em áreas com histórico de nematoides e suspeita de deficiência de Mn, a análise de solo deve ser interpretada junto com pH, salinidade, matéria orgânica e laudo nematológico. A literatura recente mostra que o pH elevado e a salinidade podem restringir a absorção de Mn pela raiz, e que sinais precoces de deficiência — como queda de pigmentos e fluorescência — já aparecem antes de sintomas severos. (MDPI)

A segunda recomendação é não tratar Mn como fertilizante “curativo” de nematoides. O melhor uso do Mn é como fator de tolerância e de estabilização da rizosfera: corrigir deficiência confirmada, evitar excessos e integrar o nutriente com biocontrole, matéria orgânica, rotação e genótipos resistentes. A revisão de 2024 sobre progressos em nutrição mineral e doenças resume essa lógica ao mostrar que a nutrição adequada pode reforçar barreiras físicas, ativar defesas bioquímicas, modular sinais moleculares e alterar a microbiota da raiz. (Plant Nutrifert)

Tabela – síntese prática da relação entre manganês e nematoides

Situação de Mn no sistemaEfeito predominante na plantaRepercussão provável no nematoideImplicação prática
Deficiência de MnMenor fotossíntese, lignificação, antioxidantes e vigor radicularPlanta mais suscetível e menos capaz de compensar o danoCorrigir com base em análise de solo/folha e pH
Mn adequadoMelhor defesa bioquímica e maior resiliência radicularMenor severidade do dano e melhor tolerânciaManter em faixa de suficiência, sem excesso
Mn excessivo/toxicidadeEstresse oxidativo e desorganização fisiológicaPode piorar a sanidade da cultura e da rizosferaEvitar acidificação excessiva e aplicações indiscriminadas
Mn + bioagentes (ex.: Pseudomonas)Nutrição melhorada e defesa moduladaPossível redução de pressão de MeloidogyneEstratégia promissora, precisa de validação local
Mn dentro do manejo integradoMantém o hospedeiro funcional e a rizosfera mais estávelSustenta menor impacto econômico do parasitismoIntegrar com resistência, rotação e biocontrole (ResearchGate)

Conclusão

A relação entre manganês e nematoides é, na prática, uma relação entre nutrição, defesa e qualidade da raiz. A literatura recente mostra que o Mn sustenta fotossíntese, lignificação, metabolismo oxidativo e respostas de defesa; quando ele falta, a planta fica mais vulnerável ao parasitismo e perde capacidade de recuperar o sistema radicular. Ao mesmo tempo, o manejo deve ser criterioso, porque o excesso também prejudica o hospedeiro. O caminho mais consistente é integrar Mn, análise de solo, microbiota benéfica e manejo nematológico em um programa de sanidade radicular, em vez de esperar que um único nutriente resolva o problema. (PubMed)

Referências (ABNT)

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