domingo, 29 de março de 2026

Melhoramento genético e busca por fontes de resistência genética no manejo de nematoides

Introdução

Os nematoides fitoparasitas seguem entre os agentes bióticos mais caros para a agricultura, apesar de muitas vezes passarem despercebidos no campo.

Revisões recentes indicam que mais de 4.100 espécies têm capacidade de parasitar plantas e que as perdas anuais globais associadas a esse grupo chegam a cerca de US$ 173 bilhões, enquanto outra revisão recente estima perdas agrícolas acima de US$ 152 bilhões por ano; em paralelo, os nematoides são reconhecidos como parte importante da perda global de 30% atribuída a restrições bióticas. Esses números explicam por que a resistência genética saiu da condição de “opção complementar” para se tornar um eixo central do manejo sustentável. (Annual Reviews)

Nesse contexto, o melhoramento genético busca transformar a planta em um hospedeiro menos favorável ao parasita. A lógica é simples, mas tecnicamente exigente: reduzir penetração, limitar a formação de sítios de alimentação, diminuir a reprodução do nematoide e manter o rendimento mesmo sob pressão de infestação. Revisões de 2024 e 2025 reforçam que a resistência genética é uma das estratégias mais promissoras porque combina eficácia agronômica com menor impacto ambiental quando comparada a abordagens dependentes apenas de nematicidas. (Frontiers)

O desafio é que a resistência não é estática. Populações virulentas, calor excessivo e variações de ambiente podem reduzir a expressão de genes clássicos de resistência, o que obriga os programas de melhoramento a buscar fontes mais estáveis e a combinar mecanismos distintos. A literatura recente é clara ao mostrar que genes úteis hoje podem perder eficiência amanhã se forem usados de forma repetitiva e sem rotação de fontes genéticas. (ScienceDirect)

1. Onde a resistência genética começa: a busca por fontes úteis

A identificação de fontes de resistência continua sendo o ponto de partida do melhoramento. Em muitas culturas, essas fontes estão em landraces, acessos de germoplasma e, principalmente, em parentes silvestres das espécies cultivadas. Uma revisão de 2023 sobre solanáceas frutíferas mostrou que o conhecimento de recursos genéticos cultivados e de parentes silvestres é decisivo para desenvolver variedades e híbridos resistentes a nematoides-das-galhas, e que o avanço de sequenciamento e mapeamento fino acelerou muito essa etapa. (ResearchGate)

Em arroz, por exemplo, o trabalho de 2025 com Meloidogyne enterolobii mostrou que a maioria dos acessos de Oryza sativa era suscetível, enquanto acessos de Oryza nivara apresentaram resistência e forneceram o alelo do gene MG1, validado por superexpressão em arroz suscetível. Em termos práticos, isso ilustra exatamente como a prospecção de fontes em parentes silvestres pode abrir caminho para novos materiais adaptados ao campo. (ScienceDirect)

O mesmo padrão aparece em tomate. O estudo de 2025 sobre Mi-9 clonou uma nova fonte de resistência estável ao calor contra nematoides-das-galhas a partir de um acesso silvestre de Solanum arcanum, mostrando que a variabilidade genética fora do material comercial ainda é um repositório estratégico para o melhoramento. A mensagem para programas de breeding é direta: a base genética da resistência precisa ser ampliada continuamente, porque a fonte clássica pode não bastar em ambientes quentes. (ScienceDirect)

2. Fenotipagem: sem medir bem, não existe resistência confiável

A seleção de fontes resistentes depende de fenotipagem rigorosa. Para nematoides, isso significa avaliar não só sintomas visíveis, mas também parâmetros como galhas, massa de ovos, índice feminino, fator de reprodução e, quando possível, desempenho agronômico sob inoculação controlada. Em feijão-comum, um estudo de 2025 avaliou 354 acessos do USDA contra três HG Types de Heterodera glycines e encontrou 26 linhagens resistentes a todos os três grupos, mostrando como o fenótipo bem medido ainda é o filtro decisivo para qualquer avanço genético. (Frontiers)

Em outra linha, a genética da resistência em feijão-preto ‘Ouro Negro’ contra Meloidogyne incognita mostrou herdabilidades de 0,62 para galhas e 0,54 para massas de ovos, além de indicar que dois ou três genes podem estar envolvidos no caráter. Esses resultados são relevantes porque mostram que, mesmo quando a resistência é parcial ou complexa, ainda há base genética suficiente para seleção consistente. (MDPI)

A qualidade da fenotipagem também influencia o valor das fontes encontradas. Em tomate, a linha MT12 com o gene RRKN1 foi mapeada com marcadores KASP, e o artigo ressalta que a localização em cromossomo específico e o refinamento do intervalo permitem acelerar a seleção em programas de melhoramento. O melhorista, portanto, precisa combinar ensaios biológicos com ferramentas moleculares para evitar introgressões longas e pouco eficientes. (Frontiers)

3. Melhoramento assistido por marcadores: levar a resistência do laboratório para o campo

A seleção assistida por marcadores (MAS) é hoje uma das pontes mais práticas entre a descoberta da resistência e o lançamento de cultivares. A revisão de 2024 “From genes to fields” destaca que MAS é uma abordagem precisa e eficiente para desenvolver cultivares resistentes a nematoides, sobretudo quando combinada com GWAS e validação de campo. O mérito da estratégia está em reduzir o tempo de seleção e aumentar a confiança na presença do alelo desejável. (Roots Press)

No feijão-comum, o estudo de 2025 com GWAS e predição genômica para resistência a Heterodera glycines identificou quatro regiões QTL associadas a HG Type 7, quatro a HG Type 2.5.7 e três a HG Type 1.3.6.7, além de prever resistência com capacidade de predição de 75%. Esse tipo de resultado mostra que a resistência pode ser rastreada por marcadores úteis para o breeding sem depender exclusivamente de ensaios fenotípicos demorados a cada geração. (Frontiers)

Outro ponto importante é que essas ferramentas não servem apenas para “achar um marcador”; elas ajudam a entender a arquitetura genética da resistência. Em feijão, o trabalho apontou diferenças entre os grupos Mesoamericano e Andino, sugerindo que a resistência pode variar entre pools de domesticação. Isso é valioso para o melhoramento porque orienta cruzamentos entre fontes complementares e evita decisões baseadas em um único background genético. (Frontiers)

4. Seleção genômica e resistência quantitativa: quando um gene não basta

Nem toda resistência a nematoides depende de um gene maior. Em vários casos, o caráter é quantitativo e sofre forte influência do ambiente. Nesses cenários, a seleção genômica ganha relevância por usar milhares de marcadores para prever o comportamento de plantas ainda jovens. No feijão-comum, o estudo de 2025 combinou GWAS, predição genômica e heritabilidade genômica e mostrou que o caráter pode ser modelado com boa eficiência estatística, especialmente quando se usa população de treinamento misturada. (Frontiers)

Na prática, isso significa que o melhoramento genético de nematoides está deixando de ser apenas “procurar um gene de resistência” e passando a organizar painéis de elite, treinamento genômico, QTLs estáveis e marcadores funcionais em um único fluxo. Para culturas com ampla base germoplasmática, como soja, feijão e algumas hortaliças, essa mudança é especialmente importante porque a resistência tende a ser poligênica e sensível ao ambiente. (Frontiers)

5. Genes de resistência e genes de suscetibilidade: duas estratégias complementares

A literatura recente mostra duas rotas principais: introduzir genes de resistência e remover genes de suscetibilidade. Em arroz, a mutação do gene de suscetibilidade OsHPP04 por CRISPR/Cas9 aumentou a resistência ao nematoide-das-galhas sem comprometer traços agronômicos, o que é um exemplo claro de que nem sempre o caminho mais eficiente é acrescentar uma defesa nova; às vezes, basta retirar um ponto fraco da planta. (Frontiers)

Em tomate, a abordagem foi ainda mais didática: o artigo de 2025 sobre Mi-9 mostrou que o gene candidato MiC-4 sozinho foi suficiente para conferir resistência estável ao calor, e a própria publicação enfatiza que a combinação de genomics comparativa e edição gênica é uma rota rápida para caracterizar genes complexos. Isso é importante porque resistência a nematoides em ambiente quente é um dos grandes gargalos do melhoramento tropical. (ScienceDirect)

Esse tipo de avanço também ajuda a explicar por que o melhoramento genético precisa dialogar com clima. A edição de um gene pode funcionar bem em condições ideais, mas perder desempenho em altas temperaturas ou sob populações virulentas. Por isso, fontes estáveis ao calor, como Mi-9, e alternativas para ambientes tropicais, como RRKN1 em tomate, são tão estratégicas para a próxima geração de cultivares. (ScienceDirect)

6. O papel dos parentes silvestres e das populações locais

Parentes silvestres continuam sendo um dos recursos mais valiosos para encontrar resistência não disponível em cultivares comerciais. O caso do arroz com Oryza nivara e o caso do tomate com Solanum arcanum mostram que a evolução natural já produziu alelos úteis, muitas vezes em ambientes de pressão intensa de patógenos. A tarefa do melhorista é resgatar esses alelos sem perder produtividade, arquitetura de planta e adaptação agronômica. (ScienceDirect)

Em programas práticos, isso significa ampliar bancos de germoplasma, buscar resistências em acessos regionais e não subestimar materiais “não comerciais”. O estudo de feijão com 354 acessos mostrou que parte importante da resistência estava distribuída entre pools de domesticação diferentes, reforçando que a diversidade genética interna da cultura também precisa ser explorada com cuidado. (Frontiers)

No caso da soja, a mesma lógica vale para Heterodera glycines. A busca por novos genes, como GmERF071, reflete a necessidade de ampliar o repertório genético disponível para genomics-assisted breeding, sobretudo quando novas populações do nematoide começam a pressionar fontes já usadas no passado. (PubMed)

7. Por que a durabilidade importa mais do que a simples presença de resistência

Ter uma fonte resistente não é suficiente; ela precisa permanecer útil por várias safras. O editorial de 2024 e a revisão de 2025 são consistentes ao apontar que alta temperatura e populações virulentas reduzem a eficiência de alguns genes, o que impõe a necessidade de piramidação, rotação de fontes e monitoramento contínuo da pressão de seleção no campo. (Frontiers)

Isso se conecta diretamente com o melhoramento moderno. Quando uma cultivar é lançada com uma fonte única e muito usada, a população de nematoides tende a responder. O manejo genético, portanto, precisa ser pensado como um sistema dinâmico: identificar, introgressar, combinar, validar e reaproveitar fontes de resistência de forma não repetitiva. (ScienceDirect)

A revisão de 2023 sobre solanáceas frutíferas resume bem esse raciocínio ao destacar que conhecimento de recursos genéticos, ação gênica e marcadores associados à resistência é crucial para cultivares e híbridos resistentes. Sem isso, a resistência acaba sendo estreita, difícil de manter e pouco adaptável a contextos tropicais ou de alta pressão do parasita. (ResearchGate)

Tabela-resumo das principais rotas de melhoramento genético para resistência a nematoides

Cultura / alvoFonte ou gene recenteO que a fonte mostraAplicação prática
Tomate / RKNMi-9 / MiC-4Resistência estável ao calor; validação rápida com genômica comparativa + edição gênicaMelhoramento para ambientes quentes e tropicais (ScienceDirect)
Tomate / RKNRRKN1Gene de resistência em alta temperatura com marcadores KASPPyramiding e seleção assistida por marcadores (Frontiers)
Arroz / RKNOsHPP04Edição de gene de suscetibilidade aumentou resistência sem penalidade agronômicaEstratégia para cultivar editado e resistente (Frontiers)
Arroz / RKNMG1 em O. nivaraParente silvestre com resistência validada por superexpressãoFonte para introgressão em arroz cultivado (ScienceDirect)
Soja / SCNGmERF071Novo gene com potencial para genomics-assisted breedingAmpliação da base genética de resistência (PubMed)
Feijão-comum / SCNQTLs + 26 acessos resistentes75% de predição e quatro regiões QTL principaisMAS e seleção genômica em programas de feijão (Frontiers)
Feijão-preto / RKNOuro NegroHerdabilidade moderada e 2–3 genes prováveisMelhoramento quantitativo e validação multiambiente (MDPI)

8. O que os dados de prevalência dizem sobre a urgência do melhoramento

Os levantamentos recentes mostram que o problema não é teórico. Em soja, uma survey de Heterodera glycines registrou aumento de prevalência de 55,4% para 59% em comparação com um levantamento anterior, com densidades populacionais elevadas. Em outra análise de longa duração, a prevalência de cisto aumentou de 16% para 40% em fazendas monitoradas ao longo do tempo. Esses números indicam pressão de seleção real e reforçam que novas fontes genéticas são necessárias com urgência. (APS Journals)

Em nematoides-das-galhas, uma pesquisa oficial de 2025 na Sérvia detectou infestação em 23,7% das amostras, com cinco espécies de Meloidogyne identificadas, e um monitoramento paralelo na Croácia encontrou Meloidogyne em 29% das amostras. Esses dados mostram que a diversidade do complexo de nematoides permanece alta e que o melhoramento genético precisa considerar tanto a espécie predominante quanto a variabilidade regional. (ResearchGate)

9. Recomendações práticas para programas de melhoramento e para o campo

Para pesquisadores e melhoristas, a prioridade imediata é ampliar a prospecção em germoplasma e parentes silvestres, validar a resistência em múltiplas populações do nematoide e sob diferentes temperaturas, e usar MAS ou seleção genômica para reduzir o tempo entre descoberta e lançamento. A resistência mais útil será aquela que permanecer estável em campo real, e não apenas em casa de vegetação. (ScienceDirect)

Para produtores rurais, a mensagem é objetiva: escolher cultivares com resistência comprovada para o nematoide dominante da área, evitar repetir a mesma base genética por muitos ciclos, registrar a evolução dos sintomas por talhão e manter o histórico de infestação para orientar novos materiais. Onde houver tomate, arroz ou soja em sistemas intensivos, vale acompanhar de perto a chegada de novas cultivares derivadas de genes como Mi-9, RRKN1, OsHPP04 editado e GmERF071. (ScienceDirect)

Em sistemas de pesquisa-aplicação, o melhor caminho é unir genética com sanidade de sementes, diagnóstico e monitoramento de população. A literatura recente mostra que a resistência genética é mais forte quando está inserida em um programa integrado de manejo, e não quando usada como ferramenta isolada. (Frontiers)

Conclusões

O melhoramento genético para resistência a nematoides deixou de ser apenas uma estratégia promissora: ele já é uma necessidade agronômica e econômica. O avanço recente em GWAS, seleção genômica, edição gênica e descoberta de fontes em parentes silvestres mostra que há, hoje, um caminho tecnicamente mais curto entre o germoplasma e o campo. (Roots Press)

Ainda assim, a resistência só será durável se o melhoramento continuar buscando diversidade genética, validação ambiental e piramidação de fontes. Os dados de perdas globais e de prevalência recente de Heterodera e Meloidogyne mostram que o problema segue ativo e evolutivo; por isso, a busca por novas fontes de resistência deve ser contínua, estratégica e conectada ao manejo integrado. (Annual Reviews)

Referências

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