segunda-feira, 30 de março de 2026

Principais grupos de nematoides e implicações para o desenvolvimento de cultivares resistentes e a busca por fontes de resistência genética no manejo genético de nematoides

Introdução

Os nematoides fitoparasitas formam um dos conjuntos de patógenos mais relevantes, e ao mesmo tempo mais subestimados, da agricultura moderna.

Revisões recentes indicam mais de 4.000 espécies com potencial de parasitar plantas e perdas globais estimadas em 12,3% da produção e cerca de US$ 173 bilhões por ano, números que justificam o peso crescente da resistência genética nos programas de melhoramento. (Cabi Digital Library)

Quando se fala em manejo genético, a primeira pergunta não é apenas “qual nematoide está presente?”, mas “qual é o grupo biológico dominante e como ele interage com a planta?”. Isso muda completamente a estratégia de breeding, porque nematoides sedentários endoparasitas tendem a exigir genes de resistência com ação específica, enquanto migratórios endoparasitas e semi-endoparasitas frequentemente pedem resistência quantitativa, tolerância e combinação de mecanismos. (Annual Reviews)

A literatura recente destaca três grupos como os mais importantes para a agricultura: nematoides-das-galhas (Meloidogyne spp.), nematoides-dos-cistos (Heterodera/Globodera) e nematoides-das-lesões radiculares (Pratylenchus spp.). Em seguida vêm os reniformes (Rotylenchulus reniformis) e os ectoparasitas vetores de vírus, como Xiphinema, que são decisivos em sistemas perenes e frutíferos. (ScienceDirect)

Seção central

1) Nematoides-das-galhas: o grupo mais amplo e o mais difícil de manejar

Os nematoides-das-galhas são, hoje, o grupo de maior amplitude de hospedeiros e o mais amplamente distribuído em áreas quentes. A revisão de 2025 registra mais de 90 espécies de Meloidogyne, com destaque para M. incognita, M. javanica, M. arenaria e M. hapla, e informa que o grupo ataca mais de 2.000 plantas hospedeiras. (MDPI)

Do ponto de vista fenotípico, são eles que mais frequentemente induzem galhas radiculares, redução de absorção de água e nutrientes, clorose, murcha e queda de produtividade. Em hortaliças, a severidade pode ser muito alta; na literatura recente, perdas relatadas chegam a faixas de 20–90% em feijão, além de reduções expressivas em tomate, pepino e cucurbitáceas. (MDPI)

Para o melhoramento, o grande valor dos RKN está no fato de que já existem fontes clássicas de resistência, mas a durabilidade ainda é um problema. A resistência pode ser controlada por genes dominantes, recessivos ou QTLs, e também pode ser quebrada por altas temperaturas e populações virulentas, o que obriga o uso de piramidação e validação regional. (MDPI)

2) Nematoides-dos-cistos: menor amplitude de hospedeiros, maior valor estratégico em culturas-chave

Os nematoides-dos-cistos, especialmente Heterodera e Globodera, têm espectro de hospedeiros mais restrito do que os RKN, mas o impacto econômico é enorme em culturas como soja e batata. A revisão de 2024 sobre resistência ao PCN na África reforça que a resistência de cultivares é uma das formas mais duráveis, econômicas e ambientalmente corretas de controle. (Springer Link)

Em batata, o melhoramento se apoia fortemente em parentes silvestres, porque eles concentraram grande parte dos alelos de resistência usados historicamente. A revisão de 2024 mostra que mais de 50 espécies silvestres de batata já contribuíram para resistência ao PCN, e que a piramidação de genes, como Gpa IV e Gpa 5, vem sendo usada para aumentar a durabilidade. (Springer Link)

Na soja, a pressão seletiva é clara. O programa de amostragem da Dakota do Norte registrou 6.237 amostras entre 2013 e 2024 e identificou SCN em 25 condados, enquanto o levantamento da Iowa State Extension informa que o SCN está presente em pelo menos 70% das áreas de soja do Iowa e que o estado já tinha 920 variedades resistentes no catálogo de 2025, incluindo 200 com resistência do tipo Peking. Esses números mostram por que a busca por novas fontes não pode parar. (NDSU)

A implicação para o breeder é objetiva: em cistos, o melhoramento precisa equilibrar resistência específica com amplo uso agrícola, para evitar erosão genética. O histórico do uso repetido da fonte PI 88788 no Iowa, seguido de aumento da reprodução do SCN nas áreas cultivadas, mostra que a resistência não é um produto final; ela é um recurso que precisa ser gerido. (Integrated Crop Management)

3) Nematoides-das-lesões radiculares: o grupo migratório mais importante em cereais e sistemas extensivos

Os Pratylenchus são endoparasitas migratórios, capazes de penetrar e sair das raízes, deixando lesões e comprometendo o sistema radicular ao longo de todo o ciclo da cultura. Em revisão de 2025, foram citadas mais de 90 espécies descritas no mundo, e o grupo foi classificado como o terceiro mais importante em perdas econômicas entre os fitonematoides. (Portal de Pesquisa Murdoch)

Na Austrália, os impactos já são muito concretos: os RLNs custam à agricultura extensiva mais de AUD 250 milhões por ano, e em trigo as perdas atribuídas a P. thornei podem chegar a 65% no norte australiano, 28% no sul e cerca de 4,3% da produção anual no cinturão subtropical oriental, equivalendo a aproximadamente AUD 38 milhões. (Portal de Pesquisa Murdoch)

A distribuição recente confirma que o problema é global e regionalmente diverso. Na província de Khuzestan, a prevalência foi de 62% para P. thornei, 18% para P. neglectus e 20% de infestações mistas em trigo, com 37% das áreas de trigo e 42% das de cevada contaminadas. Em outro levantamento, no sudoeste da Austrália, todas as áreas amostradas estavam infestadas, e surgiram novas espécies como P. quasitereoides e P. curvicauda, reforçando a importância de diagnóstico molecular fino. (plantprotection.scu.ac.ir)

Para o melhoramento, a principal lição é que RLN raramente se resolve com um único gene maior. Em trigo, a seleção de tolerância e resistência precisa ser testada separadamente e em ambiente representativo, e um estudo de 2025 mostrou que o método de semeadura em baixa densidade permite selecionar plantas individuais com ambos os atributos, inclusive com uso de índices de vegetação e avaliação in-season. Isso é um avanço importante porque aproxima a seleção do ambiente real do agricultor. (MDPI)

4) Nematoides reniformes e outros semi-endoparasitas: resistência existe, mas é mais complexa

O reniforme (Rotylenchulus reniformis) é um semi-endoparasita sedentário e tem grande importância em algodão, além de aparecer em soja, batata-doce e hortaliças. Em cotton, a literatura recente mostra perdas médias anuais em torno de 2% na última década, com picos de 8% em Mississippi e Alabama e perdas próximas de 50% em campos individuais. (Frontiers)

A genética da resistência em algodão é real, mas complexa. O locus Renbarb2, derivado de Gossypium barbadense GB713, é um dos principais responsáveis pela resistência usada em melhoramento, enquanto acessos de G. arboreum e G. herbaceum também fornecem fontes úteis. A revisão técnica de 2025 relata que a resistência pode ser controlada por um gene dominante, por dois genes recessivos ou por múltiplos QTLs, e que o uso excessivo de uma única fonte pode levar à perda de eficácia. (Frontiers)

Isso explica por que programas modernos de algodão vêm combinando resistência importada, genética local e ferramentas genômicas. O estudo de 2025 em algodão resistente mostrou forte ativação de vias de defesa, reforço de parede celular e genes candidatos dentro do intervalo Renbarb2, indicando que a resistência não é apenas “presença ou ausência”, mas uma rede regulatória que pode ser explorada por melhoristas. (Frontiers)

5) Dagger nematodes, ectoparasitas e os grupos menos abundantes, mas decisivos em sistemas perenes

Os ectoparasitas incluem nematoides como Xiphinema, os chamados dagger nematodes, que são importantes por dois motivos: alimentam-se fora da raiz e podem atuar como vetores de vírus. Em sistemas de fruticultura e videira, isso muda o objetivo do breeding, porque a resistência ideal precisa considerar o nematoide e o complexo de viroses transmitidas por ele. (MDPI)

Em sistemas perenes, o desenvolvimento de cultivares resistentes e, sobretudo, de porta-enxertos resistentes ganha relevância. A revisão de 2023 sobre cultivos solanáceos mostra que o uso de rootstocks resistentes já é uma ferramenta promissora em tomate, pimentão e berinjela, e que o sucesso depende de conhecer os recursos genéticos disponíveis, os marcadores ligados à resistência e a ação gênica em diferentes backgrounds. (ResearchGate)

Implicações para o desenvolvimento de cultivares resistentes

A principal implicação biológica é que cada grupo exige uma “estratégia de resistência” diferente. Em RKN, fontes clássicas como Mi, Mi-9, RRKN1 e outros R genes podem funcionar bem, mas precisam ser checadas em temperatura alta e contra populações virulentas; em SCN e PCN, a resistência pode ser mais durável, mas a pressão de seleção rápida exige rotação de fontes e piramidação; em RLN e reniforme, a arquitetura genética costuma ser mais quantitativa e, portanto, a seleção genômica e a tolerância têm papel maior. (ScienceDirect)

A melhor forma de encontrar novas fontes continua sendo a prospecção em germoplasma amplo, incluindo parentes silvestres e coleções regionais. O tomateiro silvestre Solanum arcanum forneceu o background para a resistência estável ao calor em Mi-9; o arroz silvestre Oryza nivara contribuiu com o gene MG1 para resistência a Meloidogyne enterolobii; e o feijão comum ‘Ouro Negro’ segue como fonte importante para ampliar a base genética contra RKN. (ResearchGate)

A fenotipagem precisa também é decisiva. Em solanáceas, a revisão de 2023 destaca o papel de marcadores moleculares, fine mapping e grafting; em feijão, os estudos de 2025 mostram que a resistência pode ser recessiva e oligogênica; em trigo, a seleção de plantas individuais em baixa densidade permite acelerar a identificação de genótipos tolerantes e resistentes a P. thornei. Esse conjunto de ferramentas reduz o intervalo entre descoberta e lançamento de cultivar. (ResearchGate)

Tabela-resumo dos principais grupos e do que isso muda no melhoramento

Grupo principalBiologia e impactoImplicação para cultivar resistenteFontes recentes úteis
Root-knot (Meloidogyne)Amplo hospedeiro, galhas, alta severidade em hortaliças e grãosResistência muitas vezes monogênica ou por QTL; precisa de validação em calor e com raças virulentasMi-9, RRKN1, Ouro Negro, rootstocks em solanáceas (MDPI)
Cyst (Heterodera, Globodera)Menor amplitude de hospedeiros, grande persistência no soloResistência muito valiosa, mas vulnerável à erosão por uso repetido; piramidação e rotação são essenciaisPCN em batata, SCN em soja, wild potato species (Springer Link)
Lesion (Pratylenchus)Migratório endoparasita, lesões radiculares, perdas severas em cereais e canaResistência/tolerância geralmente quantitativa; seleção precoce e índices de campo ajudam muitoP. thornei, P. neglectus, P. zeae; ULD em trigo (Portal de Pesquisa Murdoch)
Reniforme (Rotylenchulus)Semi-endoparasita, importante em algodão e hortaliçasRequer introgressão de fontes selvagens e análise de QTL; risco de quebra por uso contínuoRenbarb2, GB713, G. arboreum, G. herbaceum (Frontiers)
Dagger e outros ectoparasitasAlimentam-se externamente e podem transmitir vírusO alvo não é só o nematoide, mas o complexo nematoide-vírus; rootstocks e sanidade têm papel maiorXiphinema e vírus de plantas perenes (MDPI)

Conclusões e recomendações práticas

A leitura integrada da literatura recente mostra que o melhoramento genético para nematoides não pode ser genérico. Os nematoides-das-galhas pedem resistência altamente eficaz, porém testada em calor e em populações locais; os cistos pedem resistência durável e vigilância contra erosão; os lesion nematodes exigem seleção quantitativa e, muitas vezes, tolerância; os reniformes demandam introgressão de fontes amplas e validação molecular; e os ectoparasitas vetores pedem estratégias combinadas com sanidade e porta-enxertos. (ScienceDirect)

Para o produtor, a prática mais segura é usar cultivares com resistência comprovada ao grupo predominante na área, evitar repetir a mesma fonte genética por muitos ciclos e exigir do fornecedor informação sobre raça, biotipo ou população-alvo do nematoide. Onde houver histórico de SCN, RKN, RLN ou reniforme, a cultivar certa faz diferença tão grande quanto a dose correta de insumo. (Integrated Crop Management)

Para pesquisadores e estudantes, a agenda mais urgente é combinar prospectar novas fontes em germoplasma e parentes silvestres, usar fenotipagem padronizada, aplicar MAS/GWAS/seleção genômica e testar durabilidade em ambientes quentes e com populações distintas. O melhoramento genético em nematoides avança quando a genética da planta é pensada junto com a biologia do parasita e o ambiente de cultivo, não depois. (ResearchGate)

Referências

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