Introdução
Os nematoides fitoparasitas seguem entre os patógenos mais caros e silenciosos da agricultura.
Sínteses recentes apontam perdas globais superiores a US$ 100 bilhões anuais e, dependendo do conjunto de culturas analisadas, estimativas ainda mais altas; uma revisão de 2025 para 40 culturas essenciais calculou perdas médias de 13,5% e prejuízos de US$ 358,24 bilhões, enquanto outro capítulo de 2025 resume faixas típicas de 5–21% de perda, com média em torno de 13%. Esse cenário ajuda a explicar por que a nutrição mineral deixou de ser apenas tema de fertilidade e passou a ser componente de sanidade vegetal e defesa contra nematoides. (ScienceDirect)O ferro (Fe) é um micronutriente essencial em baixas concentrações e potencialmente tóxico quando em excesso. A literatura recente mostra que o Fe participa de fotossíntese, respiração, homeostase redox e imunidade vegetal, ao mesmo tempo em que se mantém numa faixa estreita entre deficiência e toxicidade. Essa dualidade é particularmente importante em solos agrícolas, porque o estado de Fe da planta pode alterar sua tolerância ao ataque de patógenos e, por extensão, de nematoides. (PMC)
Ferro, homeostase e resistência da planta
A homeostase do ferro é controlada por transportadores, quelantes, reguladores transcricionais e mecanismos de armazenamento, e isso vale tanto para plantas dicotiledôneas quanto para gramíneas. Em plantas de estratégia I, a aquisição envolve acidificação da rizosfera, redução de Fe³⁺ para Fe²⁺ e secreção de moléculas redutoras; em plantas de estratégia II, há liberação de fitoquelatantes/sideróforos e posterior captação do complexo Fe-sideróforo. Essa regulação fina é decisiva porque o mesmo metal que sustenta enzimas e metabolismo pode participar de reações tipo Fenton quando em excesso. (PubMed)
Essa homeostase dialoga diretamente com a imunidade. Revisões recentes mostram que o Fe faz parte de uma “nova camada” de defesa vegetal mediada por metais de transição, ligando nutrição mineral e resposta imune. Em outras palavras, a planta não lida com o ferro apenas como nutriente, mas também como peça da sua arquitetura de defesa contra invasores. (PMC)
A conexão entre ferro e imunidade também envolve hormônios e sinais de estresse. O trabalho de Herlihy, Long e McDowell mostrou que respostas de deficiência de Fe podem ser acompanhadas por ativação imune, com participação de ácido salicílico, etileno, óxido nítrico e fatores como FIT, MYB72 e coumarinas. Isso é relevante para a fitonematologia porque o parasitismo por nematoides depende, justamente, de explorar o balanço entre crescimento e defesa do hospedeiro. (PMC)
O ferro no sistema raiz–apoplasto–parede celular
A raiz é a principal interface entre Fe e o ambiente, e o apoplasto da parede celular funciona como reservatório e filtro do metal. Estudos recentes mostram que pectinas e hemiceluloses retêm Fe no apoplasto e que alterações na composição da parede modificam a mobilização e a reutilização do nutriente. Esse ponto é importante porque o nematoide ataca justamente o tecido radicular, e a qualidade estrutural da parede influencia tanto a penetração quanto a capacidade de a raiz redistribuir Fe para a parte aérea. (ScienceDirect)
Em Arabidopsis, a deficiência de fósforo reduziu a retenção de Fe na hemicelulose da parede e facilitou a reutilização do metal para a parte aérea, melhorando a nutrição em condição de deficiência. Embora o foco fosse a interação P–Fe, o estudo é muito útil para fitonematologia porque mostra que a disponibilidade de Fe não é apenas uma questão de quantidade total no solo, mas de forma química, retenção na parede e capacidade de mobilização pela planta. (ScienceDirect)
Ferro, microbiota da rizosfera e sideróforos
Outra parte da história ocorre na rizosfera. Bactérias promotoras de crescimento vegetal produzem sideróforos, que aumentam a captação de Fe pela planta e, ao mesmo tempo, podem limitar a disponibilidade do metal para microrganismos oportunistas. Além disso, PGPB podem produzir IAA, enzimas líticas e biofilmes que favorecem o crescimento radicular e reduzem a movimentação de nematoides no solo. (Frontiers)
Os sideróforos também funcionam como elicitores de defesa. Em 2025, um estudo com sideróforos produzidos por Bacillus amyloliquefaciens mostrou aumento de POD, PPO, chitinase, fenólicos e genes de defesa em feijão-mungo, reforçando que esses compostos têm dupla função: melhorar a nutrição em Fe e “preparar” a planta para responder melhor ao ataque biótico. Esse mecanismo é altamente relevante para o manejo de nematoides, porque o reforço de defesa sistêmica pode elevar a tolerância da planta ao parasitismo. (Frontiers)
Em sistemas agrícolas, essa interface nutrição–microbioma–defesa é importante porque o Fe também participa do chamado “nutritional immunity”, no qual a planta restringe ou redistribui metais para dificultar o desenvolvimento de invasores. A revisão de 2024 sobre alocação de metais de transição propõe justamente que fertilizantes metálicos e o manejo do estado nutricional podem integrar estratégias de controle de doenças, incluindo patógenos radiculares. (PMC)
Relação direta entre ferro e nematoides
No caso dos nematoides, a lógica é parecida: a planta com Fe adequado mantém melhor fotossíntese, maior atividade antioxidante, paredes celulares mais funcionais e maior capacidade de compensar o dano radicular. Isso não significa que o Fe “mate” o nematoide na dose nutricional normal; significa que o hospedeiro fica mais competente fisiologicamente para suportar a infecção e limitar o prejuízo. Essa leitura é coerente com a literatura recente sobre imunidade mediada por metais e com as revisões sobre defesa frente a nematoides. (PMC)
Os nematoides-das-galhas e os nematoides-de-cisto continuam entre os principais grupos de importância econômica. Revisões recentes relatam que Meloidogyne spp. podem causar perdas de até 60% em tomate, pimenta e soja em sistemas hortícolas, enquanto nematoides-de-cisto podem produzir perdas regionais de 30–80% em soja e batata. Em culturas perenes, como a romã, a pressão pode ser intensa em solos arenosos e ambientes áridos, onde a limitação nutricional e o parasitismo se somam. (MDPI)
Esse contexto fica muito claro no estudo de 2025 com romã. Em pomares do Egito, Meloidogyne javanica foi descrito como o principal problema em Assiut, e o trabalho mostrou que nanopartículas de óxido de ferro (Fe₂O₃) reduziram o número de juvenis, massas de ovos e galhas em plantas infectadas. Em comparação ao tratamento com plantas infectadas sem nanopartículas, a aplicação de Fe₂O₃ por drenagem ou pulverização reduziu juvenis em cerca de 23,81–44,69%, massas de ovos em 14,95–23,13% e galhas em 20,14–25,26%, além de aumentar pigmentos fotossintéticos e antioxidantes. (PMC)
Esses dados mostram que o ferro, em forma nanoparticulada, pode atuar tanto na fisiologia da planta quanto na redução da pressão do nematoide. O mesmo artigo destacou aumento de glutationa, tióis, flavonoides e pigmentos fotossintéticos, com redução de MDA e prolinas relacionadas ao estresse. O efeito sugere que o Fe, quando aplicado em formulações adequadas, pode reforçar a tolerância do hospedeiro e reduzir a expressão do dano radicular. (PMC)
Em tomate, um estudo de 2022 com nanopartículas de Fe₃O₄ recobertas com ácido húmico, cítrico ou EDTA mostrou melhora significativa no uso de ferro e no vigor vegetativo. O melhor desempenho foi observado com Fe₃O₄@HA, que elevou a altura em 31%, a biomassa fresca em 68%, a biomassa seca em 97% e o teor de Fe na parte aérea em 247% em comparação ao controle bulk correspondente. Embora esse trabalho não tenha foco em nematoides, ele mostra como o status de Fe pode ser otimizado para sustentar uma planta mais vigorosa e menos vulnerável ao estresse biótico. (Springer)
Há também evidências diretas com Fe nanométrico contra nematoides. Em 2025, nanopartículas de ferro sintetizadas microbianamente com Pseudomonas stutzeri BB19 foram avaliadas contra Meloidogyne incognita em tomate, mostrando efeito nematicida fraco em laboratório, mas respostas adversas mais claras em condições de casa de vegetação, em concentrações de 10, 20 e 50 ppm. Isso é importante porque indica que o Fe em forma nano pode ser biologicamente ativo contra o nematoide, mas o desempenho depende fortemente da formulação, da dose e do sistema de cultivo. (ResearchGate)
Mecanismos prováveis de ação e limites do manejo
O mecanismo mais plausível para explicar esses efeitos combina três camadas. Primeiro, a nutrição de Fe melhora fotossíntese, proteína, clorofila e antioxidantes, o que ajuda a planta a suportar o ataque. Segundo, as nanopartículas podem interferir no nematoide por contato, alteração de cutícula, estresse oxidativo e perturbação fisiológica. Terceiro, o Fe também pode modular a microbiota da rizosfera e a sinalização de defesa, favorecendo microrganismos benéficos e respostas de imunidade. (Springer)
Mas a literatura também adverte que o excesso de Fe pode ser contraproducente. Em plantas, níveis elevados de metal podem gerar ROS, causar dano oxidativo e comprometer a fisiologia. Por isso, o manejo de Fe precisa respeitar o “equilíbrio fino” entre deficiência e toxicidade. A lógica prática é parecida com outros micronutrientes: não se trata de aumentar indefinidamente a dose, e sim de colocar a planta na faixa funcional correta. (PMC)
Manejo prático em campo
Para o produtor, a primeira recomendação é diagnosticar. Em solos calcários e alcalinos, a deficiência de Fe é comum e pode piorar a tolerância ao parasitismo. A correção deve começar com análise de solo e, quando possível, avaliação foliar, ajustando pH, matéria orgânica e forma de aplicação do Fe. Em sistemas com nematoides, essa decisão precisa ser integrada ao laudo nematológico, porque a eficiência de uma estratégia nutricional depende da espécie presente e do nível populacional. (Springer)
A segunda recomendação é integrar o Fe a uma estratégia mais ampla: rotação, cultivares resistentes, biocontrole e manejo da rizosfera. PGPB e sideróforos surgem como aliados interessantes porque melhoram a absorção de Fe e podem induzir resistência sistêmica; o mesmo vale para estratégias com Trichoderma e outras ferramentas biológicas, que reduzem a dependência de nematicidas sintéticos e melhoram a resiliência do sistema. (Frontiers)
A terceira recomendação é cautela com nanopartículas. Os resultados de 2022 a 2025 são promissores, mas ainda majoritariamente de casa de vegetação ou laboratório. Fe₃O₄ recoberto com humato foi eficiente como nanofertilizante em tomate; Fe₂O₃ reduziu M. javanica em romã; e FeNPs microbianas tiveram efeito variável em tomate. Isso mostra potencial, mas também reforça a necessidade de validação local, dose curta e avaliação de segurança agronômica e ambiental antes de recomendação comercial ampla. (Springer)
Tabela – síntese prática da relação entre ferro e nematoides
| Situação | Efeito do ferro na planta | Efeito provável sobre nematoides | Implicação de manejo | Fonte |
|---|---|---|---|---|
| Deficiência de Fe em solo alcalino/calcário | Menor clorofila, fotossíntese e vigor radicular | Planta tolera pior o parasitismo | Corrigir pH e fonte de Fe | (Springer) |
| Fe adequado na nutrição | Melhor metabolismo redox e reparo de raízes | Maior tolerância ao ataque | Integrar Fe a manejo de sanidade | (PMC) |
| Fe₂O₃ em pomegranate | Aumenta pigmentos e antioxidantes | Reduz juvenis, ovos e galhas de M. javanica | Promissor, ainda requer validação local | (PMC) |
| Fe₃O₄ organocoatado em tomate | Maior biomassa, clorofila e Fe na parte aérea | Indiretamente favorece tolerância | Útil como nanofertilizante experimental | (Springer) |
| FeNP microbiano em tomate | Resposta fisiológica variável | Atividade nematicida fraca no laboratório, mais clara em casa de vegetação | Exige cautela e validação | (ResearchGate) |
| PGPB com sideróforos | Melhora absorção de Fe e defesa | Pode reduzir pressão de RKN | Boa integração com manejo biológico | (Frontiers) |
Conclusão
A relação entre ferro e nematoides é, na prática, uma relação entre nutrição, defesa e ecologia da raiz. O Fe adequado fortalece a fisiologia da planta, melhora o metabolismo antioxidante e pode contribuir para maior tolerância ao parasitismo; em formulações especiais, como óxidos e nanopartículas, ele também pode reduzir a severidade de nematoides. Porém, os resultados são altamente dependentes de dose, formulação, espécie de nematoide e sistema de cultivo. A melhor leitura técnica hoje é tratar o ferro como parte de um programa integrado de sanidade radicular, não como solução isolada. (PMC)
Referências (ABNT)
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