sábado, 7 de março de 2026

Relação nutricional do magnésio com nematoides fitoparasitas


Introdução

Os nematoides fitoparasitas permanecem entre os maiores problemas fitossanitários da agricultura, causando perdas globais estimadas em US$ 173 bilhões por ano e frequentemente produzindo sintomas pouco específicos, que atrasam o diagnóstico e ampliam o prejuízo econômico.

Ao mesmo tempo, o magnésio (Mg) é um nutriente frequentemente subestimado em sistemas intensivos, embora esteja no centro da clorofila, da ativação enzimática, da translocação de fotoassimilados e da própria tolerância da planta a estresses. A literatura recente mostra que a relação entre Mg e doença não é periférica: o estado nutricional pode fortalecer ou enfraquecer as respostas de imunidade vegetal e também influenciar a virulência do patógeno.

Em termos agronômicos, o problema é particularmente relevante porque a deficiência de Mg limita produtividade e qualidade em várias culturas, ao mesmo tempo em que o próprio parasitismo por nematoides compromete a absorção do nutriente. Revisões recentes destacam que o Mg é um macronutriente essencial para fotossíntese, metabolismo energético, uso do nitrogênio, transporte de sacarose e manutenção da homeostase iônica; quando ele é insuficiente, a planta perde vigor e reduz sua capacidade de responder ao ataque biótico.

Magnésio, fotossíntese e vigor da planta

Do ponto de vista fisiológico, o Mg é indispensável para a estabilidade da clorofila e para o funcionamento de enzimas ligadas à fixação de carbono e à produção de energia. Estudos recentes mostram que a deficiência de Mg reduz biomassa, área foliar, clorofila e fotossíntese, enquanto níveis adequados preservam o fluxo de assimilados e a vitalidade do sistema radicular. Em arroz e pepino, por exemplo, foram estimados limiares críticos foliares de Mg para biomassa e fotossíntese, e o indicador mais sensível foi o teor de clorofila a+b, o que reforça seu valor como marcador precoce de desequilíbrio nutricional.

Essa base fisiológica é importante para a fitonematologia porque plantas com fotossíntese deprimida têm menor oferta de carbono para regeneração de raízes, defesa e compensação de tecidos danificados. Em teca-do-chá sob estresse ácido, a deficiência de Mg reduziu clorofila, vitalidade radicular e capacidade antioxidante, enquanto a suplementação elevou a atividade de SOD, POD e CAT e reduziu danos oxidativos medidos por MDA. Esse padrão é coerente com a ideia de que o Mg não “mata” o nematoide, mas aumenta a tolerância da planta ao ataque.

Deficiência de Mg e suscetibilidade a estresses bióticos

A literatura mais recente sobre resistência a doenças reforça que o estado nutricional modula a imunidade vegetal. Uma revisão de 2025 mostra que deficiência ou excesso de nutrientes podem alterar rotas de sinalização imune e o programa de patogenicidade, de modo que o manejo da fertilidade passa a ser parte do manejo de doenças. Para nematoides, isso significa que o Mg, por sustentar a integridade metabólica da planta, influencia a capacidade de resistir à penetração, à formação de sítios de alimentação e à expansão do dano no tecido radicular.

A ponte entre nutrição e defesa passa também pela parede celular. Em 2024, uma revisão sobre resistência mediada pela parede celular mostrou que danos à parede liberam moléculas sinalizadoras que ativam imunidade padrão e respostas de resistência. Como o Mg participa da fisiologia de membranas, da síntese de fotoassimilados e do equilíbrio estrutural da planta, a sua deficiência tende a fragilizar essa primeira barreira, deixando o tecido mais permissivo à ação de nematoides e de outros patógenos de solo.

Relação direta com nematoides: o que a evidência mostra

Em nematoides, a interação com Mg é menos “direta” do que com alguns outros nutrientes, mas a evidência recente é consistente em apontar efeitos sobre a severidade da doença, a arquitetura radicular e a composição do solo. Uma revisão de 2022 sobre biocontrole de nematoides enfatiza que o manejo sustentável depende da integração entre microbiota, nutrição e resistência da planta, porque infecções por nematoides costumam ser subdiagnosticadas e avançar até níveis elevados de população.

Um dado prático e muito útil veio do cultivo protegido de tomate na África do Sul: em casas de vegetação, a proporção I_Ca/I_Mg mostrou associação inversa com a porcentagem de plantas infectadas por Meloidogyne. Em uma safra, a relação I_Ca/I_Mg mais alta foi ligada a 30% de plantas com galhas; em outra, a redução dessa relação acompanhou 57% de plantas infectadas, e uma razão de 150 ou mais se correlacionou com menos de 20% de plantas com galhas. Esse tipo de evidência não prova causalidade isolada do Mg, mas indica que o equilíbrio entre Mg, Ca, K e a acidez do solo é fortemente associado à pressão do nematoide.

Outra evidência vem de experimento em milho com compostos orgânicos e fertilização mineral: a maior abundância de nematoides fitoparasitas foi de 220 indivíduos/100 g de solo, e a menor, 36 indivíduos/100 g, com correlação positiva entre a abundância de PPN e o teor de Mg do solo (r = 0,576). O mesmo trabalho mostrou que fungívoros, onívoros e predadores também se relacionaram positivamente com Mg, Ca e B, sugerindo que o nutriente participa da arquitetura da teia alimentar e, portanto, da supressividade biológica do sistema.

O papel do Mg na resposta oxidativa e na recuperação radicular

A defesa frente a nematoides envolve forte componente oxidativo. Em condições de deficiência de Mg, estudos em folhas de chá e em outras culturas mostraram elevação de MDA, redução da atividade antioxidante e queda de pigmentos, todos sintomas compatíveis com maior vulnerabilidade a estresses combinados. Em chinês-fir, tratamentos com baixo Mg causaram ruptura de tilacóides, danos mitocondriais, queda de atividade de POD e redução de biomassa; já o suprimento adequado melhorou fotossíntese e estabilidade celular. Em tomate, uma análise de 2025 também mostrou que a deficiência de Mg prejudica fortemente o equilíbrio energético e a fotossíntese, especialmente quando combinada com outros estresses ambientais.

Esse comportamento importa porque raízes lesionadas por nematoides precisam ser continuamente reparadas; quando o Mg está baixo, a planta perde parte da capacidade de regenerar tecidos e de sustentar a síntese de compostos de defesa. Em termos práticos, a deficiência de Mg reduz a “resiliência fisiológica” da planta e intensifica o colapso funcional que já é produzido pelo parasitismo radicular.

Antagonismo K–Mg e disponibilidade no solo

A relação entre Mg e nematoides também passa pelo equilíbrio com potássio. Em milho, um estudo de 2025 mostrou que o excesso de K modifica a expressão de transportadores específicos de Mg (ZmMGT10 e MGR6), explicando o antagonismo K–Mg e a indução de deficiência de Mg por alto K. Em linguagem agronômica, isso significa que programas de adubação muito “carregados” em K podem piorar o status de Mg e, indiretamente, aumentar a suscetibilidade das plantas aos nematoides.

Esse ponto é especialmente relevante em áreas intensivas, onde a alta demanda por produtividade leva a desequilíbrios nutricionais. A revisão de 2021 sobre deficiência de Mg ressalta que solos ácidos, lixiviação e baixa reposição do nutriente favorecem o problema, enquanto a melhoria da nutrição altera profundamente a fisiologia e a tolerância ao estresse. Portanto, para nematoides, o K não deve ser avaliado isoladamente: ele precisa ser interpretado junto com Mg, Ca, pH e matéria orgânica.

Microbiota do solo, matéria orgânica e supressividade

O Mg também entra na equação via microbiota do solo. Em 2025, um experimento com compostos orgânicos e fertilização mineral mostrou que a adubação orgânico-mineral alterou de forma consistente as comunidades de nematoides do solo, com efeitos sobre fungívoros, bacterívoros, onívoros e predadores; as correlações positivas entre diversos grupos e Mg indicam que a química do solo influencia a maturidade ecológica da rizosfera. Em paralelo, uma revisão de 2022 sobre biocontrole de nematoides destacou que solos supressivos são fonte importante de microrganismos benéficos e que não existe uma única estratégia capaz de resolver o problema de modo durável.

A mensagem agronômica é clara: Mg deve ser pensado junto com matéria orgânica, pH e atividade biológica. Em sistemas com solo biologicamente ativo, o nutriente ajuda a sustentar raízes vigorosas e, ao mesmo tempo, favorece uma comunidade edáfica mais diversa, o que tende a dificultar a explosão populacional de fitonematoides.

Evidência experimental com MgO nanoparticulado

Embora a adubação convencional de Mg não seja, por si só, nematicida, há resultados promissores com formulações à base de Mg. Em cowpea infectado por Meloidogyne incognita, MgO nanoparticulado aplicado a 100 ppm em tratamento de raiz reduziu fecundidade, número e tamanho das galhas, além de aumentar clorofila, carotenoides, proteína de semente e teores de N em raiz e parte aérea. O estudo observou ainda deformações na cutícula de juvenis tratados com MgO, sugerindo ação direta sobre o nematoide e simultânea promoção de crescimento.

Em tomate, MgO nanoformulado produzido com fungo e combinado com melatonina também mostrou forte potencial: houve inibição de eclosão de ovos, mortalidade de juvenis, redução da população no solo e nas raízes e melhoria de compostos antioxidantes e fenólicos. Esses trabalhos apontam que materiais à base de Mg podem atuar como ferramentas complementares, mas ainda em fase experimental, não substituindo o manejo nutricional convencional nem o manejo integrado.

Diagnóstico nutricional: o que medir e como interpretar

A avaliação do estado de Mg precisa ser feita com ferramentas diagnósticas mais sensíveis do que a simples observação visual. Em arroz e pepino, os limiares críticos foliares de Mg para biomassa, área foliar e fotossíntese variaram de 0,97 a 1,22 mg g⁻¹ DM em arroz e de 3,55 a 4,23 mg g⁻¹ DM em pepino, mostrando que o nível “aceitável” é altamente dependente da espécie. O estudo também indicou que clorofila a+b é o indicador mais precoce de deficiência, útil para monitoramento de lavouras.

Em tomate sob estresse ácido, a suplementação de Mg melhorou clorofila, vitalidade radicular e capacidade antioxidante, reduzindo MDA e aumentando SOD, POD e CAT. Isso reforça a recomendação de que o Mg seja monitorado em conjunto com pH e com a relação entre cátions do solo, especialmente em áreas onde o ataque de nematoides se soma a acidificação ou desequilíbrios de adubação.

Tabela – O que o magnésio faz na relação planta–nematoide

MecanismoComo o Mg atuaEfeito esperado sobre nematoidesImplicação prática
Fotossíntese e energiaSustenta clorofila, Rubisco e ATPPlanta tolera melhor o dano radicularMonitorar Mg foliar e não apenas solo
Defesa oxidativaEleva SOD, POD e CAT, reduz MDAResposta mais rápida ao estresse bióticoEvitar deficiência em áreas infestadas
Parede celular e integridade tecidualMantém metabolismo e reparo celularDificulta progressão do parasitismoCorrigir pH e reposição de Mg
Relação K–MgExcesso de K pode induzir deficiência de MgMaior suscetibilidade da plantaAjustar adubação potássica e Mg em conjunto
Microbiota do soloFavorece ambiente edáfico equilibradoMaior supressividade biológicaIntegrar Mg com matéria orgânica e cobertura
Formulações à base de MgMgO-NPs podem afetar juvenis e galhasRedução experimental de MeloidogyneAinda experimental; não substituir o manejo convencional

Recomendações práticas de manejo

Na prática, o melhor uso do magnésio no manejo de nematoides é como fator de tolerância e estabilidade fisiológica, não como nematicida isolado. Recomenda-se corrigir a acidez do solo, ajustar a relação K/Mg, monitorar Mg foliar em estádios críticos e manter níveis adequados de matéria orgânica para favorecer a microbiota benéfica. Em áreas com histórico de Meloidogyne, a combinação de análise de solo, análise foliar e avaliação nematológica é muito mais eficiente do que aplicar Mg “no escuro”.

Também vale considerar que, em sistemas intensivos, a simples correção mineral pode não ser suficiente se a rizosfera estiver desorganizada. Os dados mais recentes apontam que o Mg funciona melhor quando integrado a manejo de cobertura vegetal, adubação orgânica, cultivares adaptadas e, quando necessário, bioinsumos ou estratégias de supressão biológica. A mensagem central da literatura é que a sanidade radicular depende da combinação entre nutrição equilibrada e ecologia do solo.

Conclusão

A relação entre magnésio e nematoides é mais ampla do que uma simples questão de fertilização: envolve fisiologia da planta, integridade radicular, equilíbrio oxidativo, nutrição mineral antagônica e microbiota do solo. A evidência recente mostra que o Mg melhora a tolerância das plantas ao parasitismo, ajuda a preservar a função fotossintética e pode até participar de estratégias experimentais de supressão de nematoides. Para o manejo agrícola, isso significa que o Mg deve ser tratado como componente central do programa de manejo integrado, especialmente em ambientes tropicais e sob alta pressão de Meloidogyne.

Referências (ABNT)

CHAUDHRY, A. H.; NAYAB, S.; HUSSAIN, S. B.; ALI, M.; PAN, Z. Current understandings on magnesium deficiency and future outlooks for sustainable agriculture. International Journal of Molecular Sciences, v. 22, n. 4, art. 1819, 2021. DOI: 10.3390/ijms22041819.

DÖLGER, J. L.; SAGERVANSHI, A.; PITANN, B.; MÜHLING, K. H. The magnesium-specific uptake and translocation transporters ZmMGT10 and MGR6 are upregulated not only by magnesium deficiency but also by high potassium concentrations in maize. Plant Physiology and Biochemistry, v. 224, p. 109977, 2025. DOI: 10.1016/j.plaphy.2025.109977.

ISHFAQ, M.; WANG, Y.; YAN, M.; LI, X. et al. Physiological essence of magnesium in plants and its widespread deficiency in the farming system of China. Frontiers in Plant Science, v. 13, art. 802274, 2022. DOI: 10.3389/fpls.2022.802274.

LV, X.; KONG, H.; LUO, Y.; DONG, D.; LIU, W.; WU, D.; YE, Z.; MA, J.; LIU, D. The impact of magnesium on the growth, physiology and quality of tea (Camellia sinensis L.) plants under acid stress. Agronomy, v. 14, n. 4, art. 767, 2024. DOI: 10.3390/agronomy14040767.

MARTÍN-CARDOSO, H.; SAN SEGUNDO, B. Impact of nutrient stress on plant disease resistance. International Journal of Molecular Sciences, v. 26, n. 4, art. 1780, 2025. DOI: 10.3390/ijms26041780.

MOLINA, A.; JORDÁ, L.; TORRES, M. A.; MARTÍN-DACAL, M.; BERLANGA, D. J.; FERNÁNDEZ-CALVO, P.; GÓMEZ-RUBIO, E.; MARTÍN-SANTAMARÍA, S. Plant cell wall-mediated disease resistance: current understanding and future perspectives. Molecular Plant, v. 17, n. 5, p. 699-724, 2024. DOI: 10.1016/j.molp.2024.04.003.

OOTA, M.; ISHIKAWA, H.; SAWA, S. Calcium sulfate and calcium carbonate as root-knot-nematode attractants and possible trap materials to protect crop plants. Plant Biotechnology, v. 38, n. 1, p. 157-159, 2021. DOI: 10.5511/plantbiotechnology.21.0511a.

PIRES, D.; VICENTE, C. S. L.; MENÉNDEZ, E.; FARIA, J. M. S.; RUSINQUE, L.; CAMACHO, M. J.; INÁCIO, M. L. The fight against plant-parasitic nematodes: current status of bacterial and fungal biocontrol agents. Pathogens, v. 11, n. 10, art. 1178, 2022. DOI: 10.3390/pathogens11101178.

TAUSEEF, A.; HISAMUDDIN; KHALILULLAH, A.; UDDIN, I. Role of MgO nanoparticles in the suppression of Meloidogyne incognita, infecting cowpea and improvement in plant growth and physiology. Experimental Parasitology, v. 220, art. 108045, 2021. DOI: 10.1016/j.exppara.2020.108045.

TIAN, X.-Y.; HE, D.-D.; BAI, S.; ZENG, W.-Z.; WANG, Z.; WANG, M.; WU, L.-Q.; CHEN, Z.-C. Physiological and molecular advances in magnesium nutrition of plants. Plant and Soil, v. 468, p. 1-17, 2021. DOI: 10.1007/s11104-021-05139-w.

XIE, K.; PAN, Y.; MENG, X.; WANG, M.; GUO, S. Critical leaf magnesium thresholds for growth, chlorophyll, leaf area, and photosynthesis in rice (Oryza sativa L.) and cucumber (Cucumis sativus L.). Agronomy, v. 14, n. 7, art. 1508, 2024. DOI: 10.3390/agronomy14071508.

ZAPAŁOWSKA, A.; JARECKI, W.; SKWIERCZ, A. T.; KUNKA, M. The impact of using compost, vermicompost and mineral fertilization on soil nematode communities and maize grain quality in a pot experiment. Sustainability, v. 17, n. 22, art. 9936, 2025. DOI: 10.3390/su17229936.

ZHENG, Y.; HE, Y.; CUI, X.; WANG, K.; WANG, X.; WANG, Y. Myco-fabricated MgO nanoparticles exhibited synergistic effect with melatonin in enhancing management of Meloidogyne incognita in tomato plants. South African Journal of Botany, v. 171, p. 21-31, 2024. DOI: 10.1016/j.sajb.2024.05.054.

ZHU, Z.; ZHANG, H.; TIAN, H.; CHAI, G.; MUHAMMAD, R.; WANG, Q.; LIANG, B.; WU, X. Comprehensive analysis of the effects on photosynthesis and energy balance in tomato leaves under magnesium deficiency. Plant Physiology and Biochemistry, v. 222, art. 109671, 2025. DOI: 10.1016/j.plaphy.2025.109671.

MATLALA, F. L.; FOURIE, H.; HADDAD, W.; et al. Prevalence of plant-parasitic nematodes in nethouse tomato production in Limpopo Province, South Africa, and relationships with physico-chemical soil properties. Journal of Plant Diseases and Protection, v. 132, art. 140, 2025. DOI: 10.1007/s41348-025-01117-x.

Nenhum comentário:

Postar um comentário