Introdução
Os nematoides fitoparasitas continuam entre os patógenos mais custosos e silenciosos da agricultura. Revisões recentes estimam perdas globais anuais na ordem de US$ 173 bilhões e, em sínteses mais amplas, perdas médias de 5–21%, com cerca de 13% como média para diferentes culturas; além disso, levantamentos recentes reforçam que os fitonematoides estão presentes em praticamente todos os ambientes agrícolas e que mais de 4.000 espécies já foram descritas.
Esse cenário é um dos motivos pelos quais a nutrição mineral passou a ser tratada como parte da sanidade vegetal e não apenas como fertilidade do solo. (Frontiers)
O zinco (Zn) é um micronutriente essencial, porém com faixa estreita entre suficiência e deficiência. Estudos recentes mostram que ele participa de mais de 300 reações enzimáticas, atua na síntese proteica, no metabolismo de carboidratos, na estabilidade de membranas e na resposta a estresses; o nutriente também é regulado por vias específicas de homeostase, incluindo fatores transcricionais como bZIP19 e bZIP23. Em termos agronômicos, isso significa que o estado de Zn pode influenciar o vigor e a capacidade de defesa da planta. (Springer)
Essa relação fica especialmente importante em sistemas tropicais, onde a deficiência de Zn é frequente. Uma revisão de 2025 estima que quase metade dos solos aráveis do mundo seja deficiente em Zn, e levantamentos nacionais na Índia apontam 39% de solos deficientes para produção de culturas, com valores de 48% em Bihar e 33–48% em diferentes áreas de Odisha, além de variações distritais muito amplas. Esses dados ajudam a explicar por que a nutrição zincada é um tema central para a produtividade e para a tolerância das culturas a patógenos de solo. (Springer)
Zn, imunidade vegetal e barreiras de defesa
A literatura recente mostra que o Zn não atua apenas como nutriente estrutural; ele participa diretamente da defesa vegetal. Em revisão de 2023, o elemento foi associado ao funcionamento de enzimas e proteínas como superóxido dismutases, metallothioneins e zinc-finger proteins, além de aumentar sistemas antioxidantes e modular vias de sinalização de defesa, como as vias dependentes de ácido salicílico e de jasmonato/etileno. Em outras palavras, plantas com Zn adequado tendem a responder melhor ao ataque de patógenos e a limitar o dano oxidativo. (ResearchGate)
A revisão de 2025 sobre stress nutricional e resistência a doenças reforça esse ponto ao mostrar que o estado nutricional pode fortalecer ou enfraquecer a imunidade da planta, além de também alterar o programa de virulência do patógeno. Para nematoides, isso é essencial, porque o parasita depende de uma janela de vulnerabilidade do hospedeiro para estabelecer alimentação e expandir lesões radiculares. (MDPI)
Outro aspecto importante é a regulação molecular do Zn. No capítulo de 2025 “Zinc, nematodes, and plant disease: role and regulation”, os autores destacam que o Zn contribui para defesas estruturais, regula respostas em plantas sob estresse por doenças e nematoides e é controlado por fatores de homeostase como bZIP19 e bZIP23. Isso reforça a ideia de que o zinco funciona como um “nutriente de defesa”, e não apenas como um elemento de crescimento. (ScienceDirect)
A relação com nematoides: por que o Zn importa
Os nematoides-das-galhas (Meloidogyne spp.) são especialmente relevantes porque estão entre os parasitas mais destrutivos da agricultura mundial, com ampla gama de hospedeiros e elevada dispersão geográfica. A revisão de 2024 sobre a interação entre nematoides-das-galhas, plantas hospedeiras e bactérias promotoras de crescimento destaca que o juvenil de segundo estádio (J2) é a única fase infectiva, responsável pela penetração inicial nas raízes e pela formação de galhas que reduzem a absorção de água e nutrientes. (Frontiers)
Nesse contexto, o Zn entra como modulador da tolerância da planta. Quando o nutriente está em deficiência, a planta tende a produzir menos pigmentos, menos antioxidantes e menos compostos de defesa, ficando mais suscetível à colonização e ao avanço do parasitismo. A própria revisão sobre deficiência de Zn ressalta que a carência do nutriente prejudica o crescimento, causa folhas pequenas, clorose e baixo desenvolvimento radicular, o que reduz a capacidade da cultura de compensar a perda funcional causada por nematoides. (Springer)
Em termos de biosegurança, a problemática é ainda maior porque muitos produtores não percebem a presença dos nematoides no início. A revisão de 2024 sobre riscos para a segurança alimentar lembra que os fitonematoides são microrganismos microscópicos, de solo, e por isso o dano costuma ser subestimado até que a produtividade já esteja comprometida. Quando a cultura também está carente de Zn, o quadro se agrava porque a planta perde vigor e resposta antioxidante. (Frontiers)
Evidências diretas: ZnO e a supressão de nematoides
A maior parte da evidência direta nos últimos anos vem de formulações baseadas em óxido de zinco (ZnO) e outros nanomateriais, que têm efeito sobre o nematoide e, ao mesmo tempo, podem atuar como indutores de defesa. Em 2022, Elarabi et al. mostraram que nanopartículas de prata e ZnO reduziram a expressão de genes essenciais de parasitismo em Meloidogyne incognita, incluindo Xyl-1, msp-20 e 16D10, além de aumentar a expressão do gene de estresse oxidativo GSTS-1. O estudo concluiu que ambas as nanopartículas apresentam ação nematicida eficiente contra o nematoide-das-galhas. (PubMed)
Em 2025, Mfarrej et al. relataram que zinc oxide nanoaciculates apresentaram toxicidade importante contra Meloidogyne javanica em Phaseolus abyssinicus. A maior eficácia foi observada na dose de 500 mg/L, com mortalidade expressiva de juvenis e melhor desempenho das plantas tratadas, indicando efeito duplo: supressão do nematoide e promoção do crescimento. (PubMed)
No mesmo sentido, o trabalho com ZnO nanoestruturado em forma de “grass-shaped” mostrou toxicidade para juvenis de Meloidogyne incognita e inibição de eclosão de ovos. Em casa de vegetação, o material reduziu a formação de galhas e melhorou os atributos de crescimento do grão-de-bico, com efeito dependente da dose. Isso reforça que o Zn, quando formulado como nanopartícula, pode participar de estratégias anti-nematoides e não apenas de nutrição. (Diretório de Revistas Acesso Aberto)
Outro estudo relevante, publicado em 2024, avaliou nanopartículas de ZnO produzidas com extrato de noz no controle do complexo de doenças envolvendo Meloidogyne arenaria e Macrophomina phaseolina em cowpea. O tratamento reduziu a severidade do complexo radicular, diminuiu índices de podridão e melhorou crescimento e respostas oxidativas das plantas, especialmente em doses mais altas, mostrando que o ZnO pode atuar em sistemas patógeno-complexo, e não apenas contra um único alvo. (ARS USDA)
Em 2025, outra linha de pesquisa reforçou esse potencial com CuO-ZnO nanocomposites em greengram: os materiais apresentaram mortalidade juvenil de 68% a 85%, inibição de eclosão de ovos de 71,5% a 87,1% e redução do índice de galhas, ao mesmo tempo em que aumentaram biomassa, clorofila, proteína e produtividade. Embora essa estratégia esteja além da adubação tradicional, ela demonstra que o Zn possui atividade biológica importante no manejo de nematoides quando associado a nanocompósitos. (ScienceDirect)
O lado da prudência: eficiência, dose e toxicidade
Apesar do potencial, a literatura recente deixa claro que ZnO nanoparticulado não é solução automática. A revisão de 2024 sobre síntese biológica de ZnO para manejo de estresses bióticos enfatiza que os melhores resultados dependem de tamanho, forma, concentração e método de síntese, além de alertar para riscos de toxicidade se o uso não for cuidadosamente ajustado. Para o campo, isso significa que os nanomateriais ainda são mais promissores como tecnologia emergente do que como recomendação ampla e rotineira. (Frontiers)
A mesma prudência aparece na literatura clássica moderna sobre nanomateriais de zinco. O trabalho de Kalia e Abd-Elsalam destaca que os nanomateriais de Zn podem ser úteis para diagnóstico e manejo de doenças, mas os autores ressaltam a necessidade de avaliar biossegurança, ecotoxicidade e efeitos sobre a teia trófica do solo antes de qualquer adoção em larga escala. Isso é crucial para nematologia, porque a biologia do solo é parte do problema e também parte da solução. (PMC)
Zn, rizosfera e microrganismos benéficos
Outro caminho importante é a atuação indireta via microbiota. Uma revisão de 2025 mostra que bactérias solubilizadoras de Zn convertem formas insolúveis em formas disponíveis, aumentam a nutrição da planta, melhoram a saúde do solo e podem favorecer a disponibilidade de micronutrientes essenciais. Em paralelo, o artigo sobre PGPB voltados para nematoides-das-galhas destaca que esses microrganismos podem solubilizar phosphate e zinc, produzir sideróforos, IAA, enzimas hidrolíticas e biofilmes, e assim fortalecer raízes e induzir resistência sistêmica. (Springer)
A revisão de 2024 sobre a interação tripartite entre hospedeiro, nematoide-das-galhas e PGPB é particularmente útil para interpretar o papel do Zn. Os autores mostram que a dinâmica do sistema depende de fatores abióticos, de práticas agrícolas e da própria seleção de microrganismos pela planta. Nesse arranjo, o Zn pode favorecer tanto a nutrição direta quanto a eficiência dos bioagentes, o que é importante porque crop rotation e resistência genética sozinhas podem falhar diante da amplitude de hospedeiros de Meloidogyne e da rápida adaptação do patógeno. (Frontiers)
A literatura recente também enfatiza que práticas agrícolas alteram a relação hospedeiro–nematoide–PGPB. O uso de fertilizantes, a acidez do solo e o manejo de matéria orgânica influenciam a comunidade rizosférica e, portanto, a pressão de nematoides. Em sistemas com melhor estrutura biológica, a ação do Zn pode se combinar com a de microrganismos benéficos para reduzir a severidade dos danos. (Frontiers)
O que isso significa na prática
No campo, a recomendação mais segura é começar pelo diagnóstico. A análise de solo e, quando possível, de tecido vegetal deve orientar o manejo do Zn, porque a deficiência é comum em solos alcalinos/calcários, em áreas com baixo carbono orgânico e em regiões tropicais. O dado de que quase metade dos solos aráveis do mundo pode ser deficiente em Zn, somado aos valores altos observados em estados da Índia, mostra que o problema é amplo e que a correção precisa ser localizada e baseada em evidência. (Springer)
Em áreas com nematoides, o manejo ideal integra Zn com manejo de solo e bioagentes. O Zn melhora vigor, antioxidantes e defesa; os PGPB ajudam a disponibilizar o nutriente e a induzir resistência; e a correção do solo favorece a rizosfera como um todo. Quando houver interesse em nanopartículas de Zn, o uso deve ficar restrito a validações locais ou a programas técnicos bem controlados, pois os estudos ainda são sobretudo de laboratório e casa de vegetação. (ResearchGate)
Tabela – síntese prática da relação entre zinco e nematoides
| Situação nutricional/tecnológica | Efeito principal na planta | Repercussão provável sobre nematoides | Implicação prática |
|---|---|---|---|
| Deficiência de Zn | Menor vigor, menor atividade antioxidante e maior fragilidade de tecidos | Aumenta a suscetibilidade ao parasitismo | Corrigir com análise de solo/folha e fonte adequada de Zn (ResearchGate) |
| Zn adequado | Melhora defesa, estabilidade de membrana e respostas oxidativas | Aumenta a tolerância ao dano radicular | Manter Zn em faixa de suficiência, sem excesso (Springer) |
| ZnO nanoparticles | Podem reduzir parasitismo e eclosão de ovos em estudos recentes | Reduzem galhas e expressão de genes de parasitismo | Promissoras, mas ainda experimentais (PubMed) |
| CuO-ZnO nanocomposites | Melhoram biomassa, clorofila e antioxidantes sob estresse | Alta mortalidade juvenil e menor índice de galhas | Tecnologia emergente; validar localmente (ScienceDirect) |
| Zn solubilized by PGPB | Aumenta disponibilidade de Zn e vigor da rizosfera | Pode reduzir pressão de Meloidogyne por melhor nutrição e ISR | Integrar bioinsumos ao manejo (Springer) |
| Solo com Zn acumulado ou aplicação sem critério | Pode surgir toxicidade e desbalanço | Pode piorar a sanidade do sistema | Evitar aplicações sem diagnóstico e sem validação (Frontiers) |
Conclusão
A relação entre zinco e nematoides é, ao mesmo tempo, nutricional, fisiológica e ecológica. O Zn adequado reforça a defesa da planta, sustenta antioxidantes e melhora a tolerância ao ataque; em formulações especiais, como ZnO e nanocompósitos, também pode reduzir diretamente a pressão de nematoides como Meloidogyne incognita e M. javanica. Ainda assim, o melhor resultado agronômico vem da integração entre diagnóstico, correção nutricional, manejo biológico e estratégia varietal, e não de uma única ferramenta isolada. (ScienceDirect)
Referências
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