quinta-feira, 26 de março de 2026

Uso do Abamectina no Controle de Nematoides

 


Introdução

Os nematoides fitoparasitas continuam entre os agentes bióticos mais caros para a agricultura, com estimativas recentes de perdas anuais variando de US$ 157 bilhões a US$ 358 bilhões; uma revisão de 2024 também aponta mais de 4.100 espécies com capacidade de parasitar plantas e gerar prejuízos expressivos. 

Essa variação entre estimativas não significa contradição, mas reflete diferenças metodológicas, culturas consideradas e escala geográfica analisada. Em qualquer cenário, o impacto é suficientemente alto para justificar estratégias químicas, biológicas e culturais bem integradas. (PubMed)

A relevância prática do tema fica ainda mais clara em levantamentos recentes. Em um estudo de 2019 a 2023 na Flórida, nematoides-das-galhas foram detectados em 81,25% das amostras de raiz e solo, com predominância de Meloidogyne incognita e M. enterolobii (25% das amostras cada), além de outras espécies como M. javanica, M. arenaria e M. hapla. O mesmo trabalho destaca que M. enterolobii é especialmente preocupante por superar genes de resistência em várias culturas, o que reduz a durabilidade de uma das principais ferramentas do manejo.

Outro ponto decisivo é que nematoides raramente agem sozinhos. Revisões recentes mostram que eles participam de “complexos de doença” com fungos, bactérias e vírus, intensificando sintomas e dificultando o diagnóstico e o manejo. Em paralelo, plantas ativam respostas bioquímicas como reforço de parede celular, explosão de espécies reativas de oxigênio e vias hormonais de defesa, o que reforça a necessidade de abordagens integradas, e não de soluções isoladas. (PubMed)

Seção central

1. O que a abamectina faz no nematoide?

A abamectina pertence ao grupo das avermectinas e sua ação clássica em nematoides está associada aos canais de cloreto ativados por glutamato (GluCl). Em termos práticos, isso leva à hiperpolarização, paralisia e redução da capacidade de movimentação e alimentação do parasita. Uma revisão de 2022 sobre receptores de avermectina/milbemicina conclui que há forte evidência de que esses compostos agem via GluCl em nematoides parasitas, embora a composição exata desses receptores varie entre espécies. (ScienceDirect)

Essa variabilidade ajuda a explicar por que a resposta à abamectina não é uniforme em todas as situações de campo. Em ambiente de solo, a distribuição do ingrediente ativo, a adsorção às partículas e o contato real com o estádio juvenil infectivo são tão importantes quanto a toxicidade intrínseca. Em outras palavras, a molécula pode ser “boa”, mas a arquitetura do sistema solo-raiz define quanto dessa eficiência chega ao alvo. Essa é uma inferência consistente com a literatura recente sobre formulação e método de aplicação. (ScienceDirect)

2. Formulação: o mesmo ingrediente ativo pode render resultados muito diferentes

Em estudos com pepino infestado por Meloidogyne spp., diferentes formulações comerciais de abamectina tiveram desempenho desigual. No ensaio in vitro, as formulações SC (2%) e EW foram as mais eficientes na redução da eclosão de ovos, enquanto, no experimento em casa de vegetação, as reduções médias em galhas variaram de 23,05% a 75,23% e a densidade total caiu de 39,24% a 87,08%, dependendo da formulação e da dose. O recado técnico é claro: não basta prescrever “abamectina”; é preciso olhar a formulação. (Nature)

Esse efeito de formulação aparece também em tomate e pepino em estudo de 2025 com produtos registrados na Turquia. A formulação 50 g L⁻¹ SC suprimiu 100% da galhamento em tomate e pepino; a 18 EW ficou em 78% no tomate e 75% no pepino; já a 20 SC foi muito menos eficiente, com 16% e 19%, respectivamente. O estudo ainda observou que a 50 SC teve o melhor efeito sobre o peso úmido de raiz no tomate. Em síntese: dentro da mesma molécula, a tecnologia de formulação altera substancialmente o resultado biológico.

3. O modo de aplicação define o sucesso no solo

A aplicação em solo com incorporação física costuma superar a simples irrigação com calda. Em trabalho de 2023, a aplicação de abamectina em mistura ao solo com aração rotativa, a 750 g i.a. ha⁻¹, 675 L ha⁻¹ de volume de água e 20 cm de profundidade, distribuiu o produto na camada de 0–20 cm, atingiu 72,12% de eficácia contra a doença e resultou em produtividade de 51,93 t ha⁻¹ de pepino. No mesmo estudo, irrigação por raiz e por inundação controlaram apenas 29,28% e 33,43%, respectivamente. (PubMed)

Uma pesquisa de 2025 reforça a lógica: a distribuição do nematicida no solo é frequentemente o principal fator limitante da eficiência, e o manejo por mistura do solo ou por irrigação localizada tende a ser superior às aplicações em que o produto se move pouco na matriz do solo. O próprio estudo observa que os efeitos de toxicidade da abamectina variaram pouco entre origens e regiões dos nematoides testados, sugerindo que, na prática, o gargalo principal não é apenas a sensibilidade do patógeno, mas a entrega do produto ao alvo. (ScienceDirect)

4. A interação com fertilizantes pode ampliar ou distorcer o efeito

Em 2024, um estudo mostrou que o sulfato de amônio reduziu o LC50 da abamectina para M. incognita de 0,17 mg/L para 0,081 e 0,043 mg/L nas doses de 1 e 2 g/L, respectivamente. Em casa de vegetação, o mesmo fertilizante aumentou a eficácia da abamectina em 1,37 vez e ainda favoreceu o crescimento das mudas de tomate sob estresse do nematoide. Ao mesmo tempo, a persistência e a mobilidade da abamectina no solo aumentaram, o que pode prolongar o efeito, mas também exige atenção ao risco ambiental. (PubMed)

Esse resultado é importante porque mostra que o manejo químico do nematoide não deve ser pensado isoladamente. Nutrientes e sais podem alterar a disponibilidade do ingrediente ativo, o contato com o parasita e até a duração da janela de controle. Para o produtor, isso significa que a compatibilidade entre adubação e nematicida precisa ser testada com critério, sobretudo em sistemas protegidos e de alto investimento. (PubMed)

5. Nanoformulações: a rota mais promissora para elevar desempenho e reduzir perdas

As formulações em nanoescala vêm produzindo resultados muito consistentes. Em nanocápsulas responsivas a enzimas, a abamectina apresentou 352 nm de tamanho médio, 92% de eficiência de encapsulação, LC50 de 0,82 mg/L para M. incognita e aumento de 36% no controle da doença em comparação com a formulação EC. O mesmo estudo relatou redução acentuada da toxicidade aguda sobre minhocas e menor impacto sobre comunidades microbianas do solo. (PubMed)

Outra linha de trabalho mostrou que nanocarregadores de lignina responsivos a enzimas elevaram a bioatividade da abamectina em 1,7 vez, com LC50 de 0,68 μg/mL contra 1,32 μg/mL da molécula original, além de permitir melhor penetração nas raízes do tomate. Já uma nanocápsula baseada em resina epóxi manteve estabilidade de armazenamento e aumentou a eficácia de campo em tomate contra nematoide-das-galhas em cerca de 31,28% aos 150 dias após o transplantio. O padrão é coerente: melhor entrega, maior persistência biológica e menor perda por adsorção ou degradação. (PubMed)

Tabela — síntese dos achados recentes sobre abamectina

Estratégia avaliadaResultado recenteLeitura práticaBase
Formulação comercial50 SC: 100% de supressão de galhas em tomate e pepino; 18 EW: 78%/75%; 20 SC: 16%/19%A formulação altera fortemente o desempenho
Mistura ao solo + aração72,12% de eficácia e 51,93 t ha⁻¹ de pepinoMelhor entrega no perfil do solo(PubMed)
Sulfato de amônioLC50 caiu de 0,17 para 0,081/0,043 mg/L; eficácia +1,37 vezInterações com fertilizantes podem ampliar o efeito(PubMed)
Nanocápsulas responsivas+36% de controle e menor toxicidade não alvoCaminho promissor para reduzir perdas(PubMed)
Seed treatment500 ppm sem prejuízo à germinação e melhor redução de parâmetros do nematoideÚtil como proteção inicial de plântulas(PubMed)

6. Tratamento de sementes e proteção inicial de plântulas

O tratamento de sementes com abamectina também merece atenção. Em pepino, três concentrações de 2% SC (250, 500 e 1000 ppm) não reduziram a germinação e a dose de 500 ppm foi a mais eficiente na diminuição da reprodução do nematoide, dos números de galhas e de massas de ovos, sem diferença estatística relevante em relação a 1000 ppm. O efeito é agronomicamente interessante porque protege a fase mais vulnerável da cultura, quando o sistema radicular ainda está se estabelecendo. (PubMed)

Esse tipo de resultado sustenta a ideia de que a abamectina pode ser usada de forma preventiva, sobretudo em ambientes protegidos, transplantio de mudas e sistemas de maior pressão inicial de inóculo. Ainda assim, o tratamento de sementes não substitui o manejo do solo, a rotação de culturas nem a escolha de materiais menos suscetíveis. (PubMed)

7. Abamectina funciona melhor quando entra em um programa integrado

As revisões recentes são convergentes ao apontar que o manejo sustentável de nematoides precisa combinar biocontrole, ferramentas químicas mais seguras e monitoramento do sistema produtivo. Bactérias e fungos benéficos liberam enzimas, metabólitos e compostos voláteis capazes de suprimir nematoides, enquanto moléculas naturais e abordagens ômicas ampliam o pipeline de novas opções. Em paralelo, a defesa bioquímica da planta oferece um alvo importante para compatibilizar estratégias químicas e biológicas. (PubMed)

Isso é especialmente relevante diante de espécies como M. enterolobii, que já se mostrou capaz de romper resistência em várias culturas. Nesses cenários, a abamectina deve ser vista como ferramenta de supressão e proteção, não como solução única. Rotação de culturas, cobertura, diagnóstico prévio, escolha de doses corretas, momento adequado de aplicação e integração com agentes biológicos tendem a produzir resultados mais estáveis.

Conclusões

A abamectina segue tecnicamente relevante no controle de nematoides, sobretudo contra Meloidogyne spp., mas sua eficiência depende menos do rótulo comercial e mais da formulação, da forma de aplicação e do ambiente físico-químico do solo. Os estudos de 2023 a 2025 mostram, de maneira consistente, que a incorporação ao solo, a escolha correta da formulação e a melhoria da distribuição no perfil explorável pelas raízes podem transformar um resultado mediano em controle agronomicamente satisfatório. (Nature)

Ao mesmo tempo, a literatura recente deixa claro que a abamectina não deve ser tratada como resposta isolada para um problema sistêmico. A elevada prevalência de nematoides em áreas comerciais, a presença de espécies agressivas como M. enterolobii e a ocorrência de complexos de doença exigem programas de manejo que combinem quimioterapia racional, biocontrole, práticas culturais e vigilância diagnóstica contínua.

Recomendações práticas

Na prática, a melhor estratégia é usar a abamectina de forma preventiva e direcionada, com atenção à tecnologia de aplicação. Para sistemas em solo, a incorporação física ou o posicionamento que favoreça a distribuição na faixa de 0–20 cm tende a ser superior à simples irrigação com o produto; para viveiros e transplante, o tratamento de sementes ou de mudas pode oferecer proteção inicial importante. Sempre que possível, a formulação deve ser validada em pequena área antes da adoção ampla, porque o desempenho entre produtos é muito desigual. (PubMed)

Também vale integrar a abamectina com adubação e com agentes biológicos de forma criteriosa. O sulfato de amônio, por exemplo, intensificou o efeito em um estudo recente, mas também alterou mobilidade e persistência; já as nanoformulações mostraram ganhos claros de eficiência e segurança, embora ainda exijam avaliação de custo, disponibilidade e registro comercial. Para o produtor, isso se traduz em uma regra simples: usar abamectina com diagnóstico, momento correto, tecnologia de aplicação adequada e plano de rotação de táticas, nunca como tratamento único e repetitivo. (PubMed)

Referências

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