Introdução
Os nematoides fitoparasitas continuam entre os patógenos mais caros e silenciosos da agricultura moderna.
Revisões recentes estimam perdas globais na ordem de US$ 157 bilhões por ano para sojicultura e de US$ 358,24 bilhões anuais quando se consideram 40 culturas essenciais, com média de 13,5% de redução de produção; para nematoides-das-galhas, a literatura recente também aponta perdas anuais de 5–12% da produção global e mais de 2.000 espécies vegetais hospedeiras. Esse cenário mostra por que a nutrição mineral passou a ser tratada como componente de sanidade vegetal e não apenas como correção de fertilidade. (ScienceDirect)
Nesse contexto, o silício (Si) ganhou destaque porque atua em múltiplas camadas da defesa vegetal. Embora não seja classificado como nutriente essencial para todas as espécies, ele é amplamente reconhecido como elemento benéfico, sobretudo em culturas acumuladoras como arroz e gramíneas, onde reforça barreiras físicas, modula respostas bioquímicas e altera a interação da planta com pragas e patógenos. A literatura recente mostra que o Si é absorvido como ácido monossilícico por transportadores específicos, como NIPs e Lsi1/Lsi2/Lsi3/Lsi6, e sua deposição em tecidos cria uma “defesa pré-formada” antes mesmo da penetração do nematoide. (Springer Nature)
Silício, absorção e barreira física contra a penetração
A primeira camada de ação do Si é estrutural. Em plantas tratadas com Si, o elemento se deposita na epiderme e na parede celular, formando uma espécie de revestimento mineral que reduz a suscetibilidade do tecido à degradação enzimática. Em revisão de 2025, essa deposição foi descrita como um reforço da parede epidérmica e da região subcuticular, diminuindo a probabilidade de penetração e a progressão da infecção por nematoides. (Springer Nature)
Esse efeito é particularmente importante contra fitonematoides de hábito endoparasita, como Meloidogyne spp., que precisam romper a raiz para iniciar a infecção. A revisão de 2022 sobre imunidade mediada por silício explica que o Si age como barreira física e está associado à redução da reprodução, da formação de galhas e da severidade da doença. Em outras palavras, o Si melhora a “resistência de entrada” da raiz. (MDPI)
Silício e defesa bioquímica: enzimas, ROS e genes de defesa
Além da barreira física, o Si influencia defesa bioquímica. A literatura recente mostra aumento de enzimas relacionadas à resposta oxidativa e à proteção antioxidante, como peroxidases, catalases e superóxido dismutase, além de maior expressão de genes de defesa. Em tomate infectado por Meloidogyne incognita, nanopartículas de silício aumentaram pigmentos fotossintéticos e elementos bióticos na planta, indicando melhora do estado fisiológico do hospedeiro sob ataque. (PubMed)
Em 2022, outro trabalho com tomate infectado por M. incognita mostrou que nanopartículas de silício aumentaram a atividade de peroxidase, SOD, catalase e reduziram lipoperoxidação nas raízes invadidas. Isso é relevante porque o parasitismo por nematoides induz estresse oxidativo, e o Si ajuda a sustentar a maquinaria antioxidante da planta, reduzindo a intensidade do dano. (PubMed)
Hormônios de defesa e “priming” do hospedeiro
A defesa induzida por Si também envolve hormônios. A revisão de 2025 sobre interações mediadas por silício destaca que a sinalização por jasmonato (JA), ácido salicílico (SA) e etileno (ET) participa da resposta contra antagonistas e que o Si pode modular esse “crosstalk” hormonal. Em termos práticos, o Si não apenas fortalece a planta; ele a “prepara” para reagir mais rápido e com maior eficiência ao ataque do nematoide. (MDPI)
Essa ideia de priming aparece de modo muito claro no estudo de 2023 com complexo nano-silício–ácido salicílico em tomate. O tratamento n-SiSA reduziu em 75,1% a massa de ovos, 46,1% o número de ovos, 64,3% o número de galhas e 48,2% o diâmetro das galhas em comparação com plantas não tratadas. O estudo também mostrou elevação de H₂O₂ e de enzimas como quitinase e protease, indicando ativação de resposta de defesa, enquanto o Si isolado atuou mais fortemente por fortalecimento físico da parede celular. (Springer Nature)
Evidência experimental com compostos e nanopartículas de Si
Os resultados experimentais de 2020 a 2023 reforçam que a formulação importa tanto quanto o elemento em si. No trabalho com beterraba, o uso de dióxido de silício nanoparticulado como seed priming e pulverização foliar reduziu a galha, a multiplicação do nematoide e os índices da doença; o melhor resultado ocorreu com seed priming a 200 mg L⁻¹, que proporcionou a maior redução em galling, multiplicação e severidade. (ScienceDirect)
No tomate, a formulação nano-chelated silicon fertilizer também apresentou efeito positivo contra Meloidogyne javanica. O estudo de 2021 relatou que aplicações via pulverização foliar e drenagem do solo, em diferentes doses, reduziram os índices de população do nematoide e melhoraram a resposta das plantas, mostrando que o Si pode atuar em pré-tratamento e em aplicações de solo, dependendo da estratégia de manejo. (ResearchGate)
A própria revisão de 2022 sobre imunidade mediada por silício reúne vários exemplos coerentes com esses resultados: redução de galhas, menor reprodução, menor severidade e maior tolerância da cultura em diferentes sistemas com SiO₂, SiO₂-NPs, nano-chelated Si fertilizer, sodium silicate e sodium metasilicate. Isso demonstra que o Si pode ser empregado em diferentes plataformas tecnológicas, mas sempre com resposta dependente de cultura, espécie de nematoide e forma de aplicação. (MDPI)
Silício, microbiota da rizosfera e supressividade do solo
Outro eixo importante é a rizosfera. Um estudo em arroz irrigado no Mekong Delta mostrou que o manejo com compostagem e fertilizante silicatado, aliado à redução da intensidade de cultivo, diminuiu a abundância de nematoides fitoparasitas, aumentou a abundância de nematoides bacterívoros e elevou índices de biodiversidade e maturidade da comunidade. Esse resultado é agronomicamente relevante porque indica que o Si também atua pela via ecológica, e não apenas pela defesa da planta. (MDPI)
A revisão de 2024 sobre biochar rico em silício amplia essa visão. Os autores mostraram que “sichars” podem melhorar a absorção de Si, induzir defesas sistêmicas, favorecer microflora benéfica e criar condições físico-químicas do solo menos favoráveis aos nematoides radiculares. Em especial, o trabalho ressalta que a relação entre efeito e benefício depende do tipo de cultura, do tipo de praga e das propriedades do solo. (ScienceDirect)
Si e o “ecossistema” dos antagonistas
A revisão de 2025 sobre interações mediadas por silício mostra que os efeitos do Si não ocorrem de forma isolada. Em situações de ataques simultâneos ou sequenciais, o Si pode alterar a competição entre antagonistas e facilitar ou reduzir a ação de diferentes organismos, inclusive nematoides. Em nível de mecanismo, isso envolve principalmente JA e SA, com crosstalk variável entre estudos. (MDPI)
Isso ajuda a explicar por que o Si é mais útil em programas de manejo integrado do que como ferramenta isolada. A revisão de 2025 sobre integração de medidas contra nematoides enfatiza que nenhum método único é superior em todos os cenários e que as combinações devem ser desenhadas caso a caso, buscando colonização benéfica da rizosfera, persistência de traços favoráveis e antagonismo amplo contra patógenos e pragas. O Si entra exatamente nessa lógica de combinação de ferramentas. (MDPI)
Diferenças entre culturas acumuladoras e não acumuladoras
A resposta ao Si também depende da espécie cultivada. Grasses e cereais tendem a acumular mais silício e, por isso, costumam responder melhor em termos de barreira física e resistência ampliada. A revisão de 2025 destaca que esse acúmulo é mais marcante em gramíneas, enquanto culturas como tomate acumulam menos Si e tendem a responder mais por priming, indução hormonal e fortalecimento parcial da parede celular. (MDPI)
Esse detalhe é fundamental para interpretar resultados de campo. Em arroz, por exemplo, o Si pode atuar de forma mais estrutural e consistente; em tomate e hortaliças, a resposta costuma ser mais dependente da formulação, do momento de aplicação e da interação com outros indutores, como ácido salicílico, bioinsumos e compostos orgânicos. Isso explica por que o complexo n-SiSA foi tão eficiente em tomate: ele combinou barreira física e sinalização de defesa. (Springer Nature)
O que a evidência sugere sobre eficácia e limitações
Apesar do conjunto promissor de dados, a literatura deixa claro que o efeito do Si é dependente de dose, forma química e ambiente. Em várias revisões, os autores destacam que a maior parte dos estudos ainda foi conduzida em laboratório, casa de vegetação ou pequenos ensaios, e que a validação em campo amplo continua sendo uma lacuna importante. Isso vale especialmente para nanopartículas e complexos nanoquímicos, que exigem avaliação de biossegurança, persistência no solo e compatibilidade com outros insumos. (MDPI)
Ao mesmo tempo, a evidência positiva é consistente: SiO₂-NPs, silicato de sódio, nano-chelated Si e silício em biochar rico em Si reduzem galling, multiplicação e severidade em diferentes sistemas; em arroz, o silicato também alterou a comunidade nematológica em favor de grupos não parasitas; e em tomate, a combinação com ácido salicílico elevou a resposta antioxidante e reduziu fortemente os parâmetros de reprodução de Meloidogyne javanica. (ScienceDirect)
Como traduzir isso para manejo agrícola
Na prática, o Si deve entrar no programa de manejo de nematoides como ferramenta de tolerância, prevenção e reforço de defesa, e não como substituto de diagnóstico nematológico. O primeiro passo é identificar a espécie presente e o nível populacional; o segundo é avaliar se a cultura responde bem ao Si; o terceiro é escolher a forma de aplicação mais compatível com o sistema — solo, foliar, seed priming, biochar rico em Si ou formulações nano — sempre com validação local. (MDPI)
Em áreas de arroz e gramíneas, o Si tende a ser mais promissor porque essas culturas acumulam mais o elemento. Já em hortaliças como tomate e beterraba, os melhores resultados têm vindo de formulações específicas e de pré-tratamentos, como seed priming e complexos nano-silício–ácido salicílico. Isso sugere que, para culturas pouco acumuladoras, a escolha da tecnologia é ainda mais importante do que a simples dose aplicada. (MDPI)
Tabela – síntese prática da relação entre silício e nematoides
| Mecanismo | Como o Si atua | Efeito provável sobre nematoides | Implicação prática |
|---|---|---|---|
| Barreira física | Deposita-se na parede celular e sob a cutícula | Dificulta penetração e degradação enzimática | Mais útil em culturas acumuladoras e em pré-tratamentos (Springer Nature) |
| Defesa bioquímica | Aumenta enzimas de defesa e antioxidantes | Reduz severidade e reprodução | Responde bem a SiO₂-NPs e n-SiSA em tomate (Springer Nature) |
| Sinalização hormonal | Modula JA, SA e ET | Melhora priming e resistência sistêmica | Útil em cultivos sob pressão de nematoides e outros antagonistas (MDPI) |
| Rizosfera/microbiota | Favorece microflora benéfica e altera Eh-pH | Diminui PPNs e aumenta nematoides bacterívoros | Forte em sistemas com compostagem e silicato no solo (MDPI) |
| Biochar rico em Si | Libera Si e melhora propriedades do solo | Reduz nematoides radiculares e melhora tolerância | Boa opção em solos com baixa disponibilidade de Si (ScienceDirect) |
| Formulações nano | Aumentam biodisponibilidade e resposta rápida | Reduzem galling, ovos e severidade | Promissoras, mas exigem validação local e biossegurança (ScienceDirect) |
Fontes da tabela: turn848190view0; turn503952view0; turn413313view2; turn748797search0; turn760881view0; turn413313view4; turn653924search1; turn826896search10; turn817397view0.
Conclusão
A relação entre silício e nematoides é uma das mais promissoras interfaces entre nutrição mineral, defesa vegetal e manejo biológico do solo. O Si reforça barreiras físicas, ativa enzimas e genes de defesa, interage com JA/SA/ET, altera a microbiota da rizosfera e pode reduzir galling e reprodução em diferentes espécies de nematoides. A literatura de 2020 a 2025 mostra que os melhores resultados vêm de aplicações estratégicas e integradas, especialmente em culturas acumuladoras e em formulações como SiO₂-NPs, nano-chelated Si, silicato e biochar rico em silício. O manejo mais robusto, portanto, não é o “silício sozinho”, mas o silício como peça de um programa integrado(Springer Nature)
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