quarta-feira, 8 de abril de 2026

Bacillus circulans no controle de nematoides



Introdução

Os fitonematoides continuam entre os maiores entraves fitossanitários da agricultura.

Revisões recentes estimam perdas econômicas globais acima de US$ 80 bilhões por ano, enquanto outra síntese de 2025 lembra que os nematoides parasitas de plantas podem responder por cerca de 40% das perdas anuais de culturas alimentares em escala mundial; entre eles, os nematoides-das-galhas ainda são responsáveis por perdas globais superiores a 5% em muitas situações produtivas.

Nesse contexto, Bacillus circulans passou a chamar atenção não como “solução única”, mas como componente de programas biológicos e de produtos microbiológicos já registrados para alvos nematológicos. O nome aparece em registros oficiais brasileiros e em formulações consorciadas que incluem controle de Meloidogyne spp., Pratylenchus spp. e outros patógenos de solo, o que mostra relevância prática atual, mesmo que a literatura recente sobre a estirpe isolada ainda seja mais limitada do que para B. subtilis ou B. velezensis.

1. Nome, taxonomia e por que isso importa

Na taxonomia consultada pela LPSN, Bacillus circulans permanece como nome correto sob o ICNP, e Niallia circulans aparece como sinônimo homotípico. Essa distinção é importante porque parte da literatura recente e de registros comerciais ainda usa o nome tradicional, enquanto publicações mais taxonômicas podem trazer a nomenclatura revisada.

Para o agricultor, isso significa que o rótulo do produto pode dizer Bacillus circulans, mas a literatura científica pode discutir o mesmo organismo em contextos taxonômicos diferentes. Para o pesquisador, o ponto crítico é rastrear a estirpe e não apenas o nome da espécie, porque a atividade biológica depende fortemente da linhagem, da formulação e do consórcio microbiano associado.

2. Onde B. circulans entra no manejo nematológico

A maior parte da evidência recente localizada entre 2020 e 2025 não mostra B. circulans sozinho como “nematicida clássico”; ela mostra o microrganismo em produtos biológicos, consórcios e programas de manejo integrados. O exemplo mais claro no Brasil é o BIOLUCRO, um produto microbiológico registrado como fungicida e nematicida, cuja composição inclui Paenibacillus azotofixans, Bacillus subtilis, Bacillus licheniformis e Bacillus circulans (isolado CCT0026).

A bula do BIOLUCRO informa alvos nematológicos e modos de aplicação muito concretos: Meloidogyne incognita, M. javanica, Pratylenchus brachyurus, Heterodera glycines, Meloidogyne exigua e Radopholus similis, com uso em sulco de plantio, tratamento de sementes ou drench conforme a cultura e o alvo. Isso é relevante porque coloca B. circulans dentro de uma solução regulatória já disponível e não apenas em uma promessa experimental.

Em 2023, o Ministério da Agricultura e Pecuária destacou o registro de um produto biológico com a mesma mistura de Paenibacillus azotofixans, Bacillus subtilis, Bacillus licheniformis e Bacillus circulans para controle de Macrophomina phaseolina, Meloidogyne incognita, M. javanica e Rhizoctonia solani. A notícia oficial é importante porque confirma que o uso nematológico de B. circulans já entrou no radar regulatório brasileiro.

3. O que os Bacillus podem fazer no sistema solo-raiz

A revisão de 2025 sobre Bacillus no manejo de nematoides destaca mecanismos que fazem sentido para explicar o desempenho de consórcios com B. circulans: produção de compostos nematicidas, indução de resistência sistêmica e degradação de cutícula, além de efeitos indiretos sobre a saúde do solo. Em termos práticos, a lógica do grupo é combinar ataque ao patógeno com melhora do ambiente radicular.

A mesma revisão ressalta que Bacillus spp. atuam por lipopeptídeos, proteases e outros metabólitos que reduzem a mobilidade, a eclosão e a infectividade dos nematoides. Mesmo quando o trabalho não trata de B. circulans isoladamente, ele fornece a base biológica para entender por que um produto multi-microrganismo contendo essa espécie pode funcionar em nematologia agrícola.

Outro ponto importante é que a biocontenção de nematoides por bactérias costuma ser mais robusta em consórcios do que em cepas únicas. A revisão de 2025 sobre consórcios bacterianos e fúngicos mostra que misturas com modos de ação distintos podem ser mais resilientes e multifuncionais, embora o mercado ainda ofereça poucas soluções consorciadas maduras. Isso ajuda a explicar por que B. circulans aparece mais frequentemente em formulações combinadas do que como produto isolado com forte identidade nematicida.

4. Evidência funcional específica de B. circulans

Embora a literatura recente sobre nematoides seja mais abundante para outros Bacillus, B. circulans tem evidência funcional forte como promotor de crescimento e indutor de respostas de defesa, o que é útil em sistemas com nematoides porque plantas mais vigorosas e com raízes mais ativas suportam melhor o dano radicular. Em 2021, a estirpe GN03 alterou a microbiota da rizosfera de algodoeiro, aumentou hormônios ligados ao crescimento e à defesa e elevou a expressão de genes relacionados a resistência, como NPR1 e PR1.

Esse mesmo estudo mostrou aumento de auxina, giberelina, brassinosteroide, ácido salicílico e jasmonato, além de melhora dose-dependente de altura, área foliar, comprimento de raiz e número de folhas. Em termos agronômicos, isso não prova controle direto de nematoides, mas indica que B. circulans pode fortalecer a planta-hospedeira, o que é muito útil em áreas com pressão de fitonematoides.

Em 2022, Bacillus circulans E9 foi descrito como promotor de crescimento por produção de ácido indol-3-acético em meio de baixo custo, com potencial biofertilizante. O próprio resumo informa que a estirpe hoje é tratada como Niallia circulans, reforçando o ponto taxonômico e a capacidade da bactéria de produzir metabólitos úteis ao desenvolvimento radicular.

Também em 2020, o sequenciamento completo do genoma de Bacillus circulans GN03 forneceu a base para entender sua aptidão como rizobactéria benéfica. Em conjunto, esses dados sugerem que, em sistemas com nematoides, a estirpe pode contribuir não apenas por antagonismo indireto, mas também por melhora fisiológica da planta e da comunidade microbiana da rizosfera. Essa inferência é consistente com a literatura recente sobre PGPR e deve ser tratada como suporte biológico, não como prova isolada de nematicida.

5. Onde há evidência de campo com componente B. circulans

Um dos exemplos mais úteis para o manejo em campo vem de um pomar de limão no Egito. Em 2024, o produto Micronema, que continha Serratia, Pseudomonas, Azotobacter, Bacillus circulans e Bacillus thuringiensis, reduziu a densidade de fêmeas de Tylenchulus semipenetrans nas raízes entre 32% e 77% e aumentou a produção de limão em 18% a 33% em médias combinadas.

Esse resultado é valioso porque mostra um cenário real em cultura perene, com efeito prolongado por mais de uma safra e correlação inversa entre rendimento e densidade nematológica nas raízes. O estudo também evidencia que o desempenho de um produto que contém B. circulans depende do consórcio completo e do ambiente, o que reforça a necessidade de leitura integrada do sistema e não apenas do ingrediente microbiano individual.

6. Pressão de inóculo: por que o tema continua relevante

A importância de um bioagente como B. circulans fica mais clara quando olhamos a prevalência dos nematoides-alvo. Um levantamento em hortaliças nos Estados Unidos encontrou nematoides-das-galhas em 60% dos campos amostrados, com densidades entre 10 e 10.400 nematoides por 500 cm³ de solo. Isso mostra como a pressão de inóculo pode ser alta e heterogênea mesmo em áreas tecnicamente bem conduzidas.

Na Croácia, entre 2022 e 2024, Meloidogyne spp. foram detectados em 61 de 210 amostras, equivalente a 29% de infestação geral, com distribuição em 15 condados. Esses dados reforçam que nematoides de galha seguem amplamente distribuídos e que bioinsumos com potencial de reduzir pressão de raiz são tecnicamente relevantes.

Em áreas com esse tipo de pressão, a lógica de uso de B. circulans e outros Bacillus precisa ser preventiva. O estudo de 2025 sobre Bacillus e nematoides ressalta justamente que os melhores resultados tendem a vir da combinação entre antagonismo direto, indução de resistência e manutenção de saúde do solo; em cenário de alta infestação, a ação isolada tende a ser insuficiente.

7. O que a formulação diz ao produtor

A bula do BIOLUCRO mostra que a tecnologia não está só na bactéria, mas também no modo de uso. O produto é indicado para aplicação em sulco de plantio, tratamento de sementes e drench, com doses diferentes conforme o alvo e a cultura. Isso reforça uma regra central em bioinsumos: o sucesso depende de dose, local de aplicação, umidade do solo e sincronização com a biologia do nematoide.

Na prática, isso quer dizer que B. circulans não deve ser comprado como “solução mágica”. Ele faz mais sentido quando o solo já foi diagnosticado, a pressão de nematoides está conhecida e o produto entra no momento em que a raiz ainda está saudável o suficiente para ser colonizada. Essa conclusão é coerente com a revisão de 2025 sobre consórcios e com a revisão de Bacillus spp. no manejo de nematoides.

8. Uma leitura mais técnica do potencial da espécie

Do ponto de vista funcional, B. circulans tem um perfil promissor porque combina traços de PGPR com possibilidade de participação em controle biológico. Os estudos de 2021 e 2022 mostram produção de hormônios vegetais e alterações da microbiota, enquanto o campo regulatório brasileiro já aponta sua presença em formulações nematicidas e fungicidas microbiológicas. Isso faz dele um candidato interessante para sistemas que buscam reduzir a dependência de nematicidas sintéticos.

Há também um elemento de “plataforma tecnológica” aqui: produtos com B. circulans podem operar junto com outros Bacillus, fungos benéficos e bactérias solubilizadoras, ampliando a faixa de mecanismos e a robustez do sistema. A revisão de 2025 sobre biocontrole em consórcio sustenta exatamente essa ideia de resiliência funcional.

Tabela-síntese das evidências recentes

Evidência recenteO que mostraLeitura prática
LPSNBacillus circulans é nome correto; Niallia circulans é sinônimo homotípicoAtenção à nomenclatura em rótulos e artigos.
BIOLUCRO (MAPA/ADAPAR)Produto microbiológico com B. circulans CCT0026 e alvos nematológicos múltiplosB. circulans já está em uso regulado no Brasil.
Cotton GN03Aumentou hormônios e genes de defesa, melhorou crescimento e microbiotaBase para uso em sistemas com pressão de nematoides.
B. circulans E9Produção de IAA e potencial biofertilizanteSuporte fisiológico ao sistema radicular.
Micronema em citrosRedução de 32% a 77% nas fêmeas de Tylenchulus semipenetrans e +18% a 33% de rendimentoEfeito de campo em consórcio contendo B. circulans.
Prevalência recente60% dos campos amostrados com RKN; 29% de infestação em monitoramento europeuPressão de inóculo ainda é alta e justifica uso preventivo.

Conclusões

Bacillus circulans não é, hoje, uma das espécies com maior volume de ensaios isolados contra nematoides, mas sua importância prática é real e crescente dentro de formulações microbiológicas e consórcios. Os registros oficiais brasileiros e o ensaio de campo em citros mostram que o organismo já participa de soluções comerciais ou pré-comerciais com desempenho agronômico mensurável.

A leitura mais segura da literatura recente é esta: o valor de B. circulans vem da soma entre colonização radicular, promoção de crescimento, modulação da microbiota e contribuição para o efeito nematossupressor do consórcio. Assim, ele faz mais sentido como componente de manejo integrado do que como substituto isolado de todas as outras ferramentas.

Recomendações práticas

Para produtores, a melhor estratégia é usar B. circulans em áreas com diagnóstico confirmado de nematoides, seguindo rigorosamente a bula quanto a dose, momento e forma de aplicação. Em situações de alto risco, o uso em sulco de plantio ou tratamento de sementes tende a ser mais coerente do que aplicações tardias, porque favorece a colonização precoce da raiz.

Para pesquisadores e estudantes, a prioridade é testar estirpes e formulações em condições locais, medir não só o número de nematoides, mas também resposta radicular, microbiota e produtividade. A literatura recente mostra que o desempenho varia muito conforme o consórcio e o ambiente, então extrapolar um resultado de uma cultura para outra ainda é arriscado.

Referências

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa registra algumas inovações tecnológicas para o controle de pragas na agricultura. Brasília, 2023.

HAMMAM, M. M. A.; MOHAMED, M. M. M.; DUNCAN, L. W.; ELBORAI, F.; ABD-ELGAWAD, M. M. M. Multi-Season Yield Enhancement Following Citrus Nematode Management in an Egyptian Citrus Orchard. Arab Journal of Plant Protection, v. 42, n. 4, p. 482-488, 2024.

QIN, Lijun et al. Bacillus circulans GN03 Alters the Microbiota, Promotes Cotton Seedling Growth and Disease Resistance, and Increases the Expression of Phytohormone Synthesis and Disease Resistance-Related Genes. Frontiers in Plant Science, 2021.

SARMIENTO-LÓPEZ, L. G. et al. Production of indole-3-acetic acid by Bacillus circulans E9 in a low-cost medium in a bioreactor. Journal of Bioscience and Bioengineering, 2022.

BIOLUCRO – Bula inclusão fabricante/formulador. ADAPAR / MAPA, 2025.

The role of Bacillus species in the management of plant-parasitic nematodes. Frontiers in Microbiology, 2025.

YADAV, S. P. et al. Management of phyto-parasitic nematodes using bacteria and fungi and their consortia as biocontrol agents. Environmental Science: Advances, 2025.

LPSN DSMZ. Bacillus circulans species page. 2025.

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