quarta-feira, 15 de abril de 2026

Bacillus firmus no controle de nematoides

Introdução

Os nematoides fitoparasitas seguem entre os problemas mais caros da agricultura.

Revisões recentes estimam perdas globais anuais em torno de US$ 157 bilhões, e reforçam que o impacto desses organismos vai muito além da redução de produtividade: eles também agravam estresses hídricos e nutricionais e aumentam a vulnerabilidade da planta a outros patógenos. (ScienceDirect)

A dimensão do problema aparece com clareza em levantamentos regionais recentes. No Brasil, um estudo com 216 amostras de soja sob plantio direto identificou sete gêneros fitoparasitas, com destaque para Helicotylenchus dihystera e Pratylenchus sp.; já em Portugal, uma amostragem de 406 solos mostrou que áreas de pastagem concentraram comunidades mais diversas de nematoides fitoparasitas. Esses trabalhos reforçam que a distribuição dos nematoides depende do ambiente, do manejo e do histórico da área. (ScienceDirect)

Nesse cenário, Bacillus firmus ganhou espaço como bioagente porque combina três atributos valiosos: colonização de raiz, produção de metabólitos e enzimas com ação sobre ovos e juvenis, e capacidade de induzir resistência na planta. A literatura de 2020 a 2025 mostra que a espécie não deve ser tratada como uma “solução única”, mas como uma peça importante dentro do manejo integrado de nematoides. (Frontiers)

1. O contexto agronômico: por que B. firmus é relevante

O gênero Bacillus aparece com frequência em revisões recentes sobre biocontrole porque forma endósporos, tolera melhor flutuações ambientais e tende a persistir melhor no solo do que muitos outros microrganismos benéficos. Dentro desse grupo, B. firmus se destaca por sua ação sobre nematoides-das-galhas e nematoides-dos-cistos, além de sua capacidade de atuar também como promotora de crescimento vegetal. (Frontiers)

A própria literatura de revisão de 2025 já registra Bacillus firmus I-1582 como um agente usado comercialmente em programas contra Meloidogyne spp. e Heterodera glycines, o que mostra que a espécie já saiu do campo puramente experimental em alguns sistemas. Isso não significa eficácia universal, mas indica maturidade tecnológica maior do que muitos outros bioagentes ainda em fase inicial. (RSC Publishing)

Ao mesmo tempo, a pressão de espécies continua alta e heterogênea. Em soja brasileira, além de Meloidogyne e Pratylenchus, foram encontrados Heterodera, Rotylenchulus, Scutellonema e Xiphinema; em um monitoramento recente de Meloidogyne na Croácia, a infestação atingiu 61 de 210 amostras (29%), com quatro espécies identificadas. Isso reforça que o uso de B. firmus precisa ser decidido com base na espécie-alvo, e não apenas no nome genérico “nematoide”. (ScienceDirect)

2. Como Bacillus firmus atua sobre nematoides

O estudo clássico de 2020 com a cepa I-1582 mostrou que a bactéria cresce e forma biofilme entre 15 e 45°C, com ótimo a 35°C; também demonstrou degradação de ovos de Meloidogyne, colonização radicular e indução de resistência sistêmica em tomate, embora esse efeito tenha sido dependente da espécie vegetal. Esse é um ponto central: o bioagente não age apenas “matando” o nematoide, mas alterando o ambiente da raiz e a resposta da planta. (Frontiers)

O mesmo trabalho mostrou que a bactéria coloniza melhor o tomate do que o pepino e que a resistência sistêmica não foi igual em todas as culturas testadas. Em tomate, genes relacionados às vias de jasmonato e ácido salicílico foram modulados; em pepino, o padrão foi distinto. Na prática, isso quer dizer que a resposta ao produto é planta-dependente e precisa ser validada por cultura e cultivar. (Frontiers)

A pesquisa de 2021 em Arabidopsis thaliana e Heterodera schachtii reforçou essa lógica. A colonização de raiz por B. firmus I-1582 protegeu a planta contra infecção, mas células mortas e sobrenadante de cultura não foram eficazes, sugerindo que a presença viva e ativa na rizosfera é decisiva para o efeito. O estudo também mostrou desenvolvimento bacteriano estritamente dependente do pH e do tipo de planta. (Nature)

Em 2024, o sequenciamento do genoma da cepa TNAU1 ampliou o entendimento mecanístico. O isolado apresentou 5,37 Mb, 41,16% de GC, 26 homólogos de proteases virulentas para nematoides e quatro clusters de biossíntese de metabólitos secundários ligados a antibióticos e sideróforos; além disso, foram identificados genes ligados à produção de AIA, transporte de nitrato e solubilização de fósforo e potássio. É um conjunto genético coerente com biocontrole e promoção de crescimento. (ScienceDirect)

3. Evidência experimental em tomate, soja e outros sistemas

No tomateiro, a cepa I-1582 demonstrou efeito multimodal em potes e microparcelas contra Meloidogyne luci, reduzindo a contagem de nematoides em 51% no vaso e 53% na microparcela. O mesmo estudo mostrou que imagens hiperespectrais permitiram distinguir plantas tratadas e não tratadas com acurácia acima de 96%, o que abre caminho para monitoramento não destrutivo do efeito de bioinsumos em campo. (MDPI)

Em outra linha de pesquisa, a cepa TNAU1 foi testada contra Meloidogyne incognita em tomate e apresentou 96% de inibição de eclosão de ovos e mortalidade de juvenis in vitro; em casa de vegetação, houve 70% de redução da população de solo e raiz em relação ao controle, além de melhora dos parâmetros de crescimento. Esse é um dos resultados recentes mais fortes para B. firmus como candidato a nematicida biológico. (ScienceDirect)

No sistema soja, um trabalho de 2022 realizado em casa de vegetação com sementes tratadas com um nematicida microbiológico à base de B. firmus I-1582 concluiu que houve redução expressiva das densidades de Meloidogyne spp. e Pratylenchus spp. aos 35 dias, mas não houve boa eficiência contra Heterodera spp. e Helicotylenchus spp. aos 35 e 65 dias. Isso mostra que a resposta é específica por gênero, e não uniforme para todos os nematoides. (Repositório UTFPR)

Essa seletividade é compatível com o que a revisão de 2025 sobre Bacillus e nematoides descreve: a espécie é capaz de suprimir reprodução e desenvolvimento de certos nematoides, mas a eficácia varia conforme o hospedeiro, o genótipo da bactéria, o solo e a temperatura. Em outras palavras, o desempenho de B. firmus é real, mas dependente de contexto. (Frontiers)

4. Mecanismos bioquímicos e fisiológicos mais prováveis

As revisões recentes convergem em três mecanismos principais para B. firmus: produção de enzimas líticas, produção de metabólitos com efeito nematicida e indução de resistência sistêmica. A literatura de 2025 destaca chitinases e proteases como enzimas capazes de romper ovos e cutículas, enquanto outros metabólitos podem interferir na membrana e no desenvolvimento dos juvenis. (Frontiers)

A revisão de 2024 sobre biocontrole por bactérias e fungos reforça que enzimas extracelulares e metabólitos secundários são uma linha de defesa importante contra nematoides. Para B. firmus, isso ajuda a explicar por que a bactéria pode agir tanto no contato direto com ovos e juvenis quanto na proteção indireta por meio da planta. (Frontiers)

Além disso, a capacidade de formar biofilme e de colonizar raízes em temperaturas elevadas é agronomicamente relevante. Em solos aquecidos, especialmente em regiões tropicais, o ótimo de 35°C observado para crescimento e biofilme de I-1582 pode favorecer a bactéria justamente em períodos em que muitas culturas também estão sob forte pressão de nematoides. A mesma condição, no entanto, pode variar de acordo com o solo e com a espécie-alvo, então o ajuste local continua indispensável. (Frontiers)

5. Onde B. firmus entra no manejo integrado

A revisão de 2025 sobre consórcios biológicos mostra que B. firmus aparece com frequência em estratégias combinadas, inclusive em associação com fungos e outras bactérias. O texto cita que, em banana, a combinação de Fusarium oxysporum com Bacillus firmus reduziu populações de nematoides fitoparasitas em 86% sob condições de casa de vegetação. Isso sugere que o melhor uso da espécie é como componente de um sistema, e não como ferramenta isolada. (RSC Publishing)

A mesma revisão registra o produto comercial Poncho Votivo como uma formulação contendo B. firmus I-1582, com uso associado à resistência induzida e colonização, voltada a Meloidogyne spp. e H. glycines. O dado é importante porque mostra que o mercado já reconhece a espécie como ferramenta prática, embora a eficácia dependa fortemente de ambiente e manejo. (RSC Publishing)

O cenário agronômico geral também empurra nessa direção. A revisão de 2025 sobre manejo de nematoides descreve o aumento do uso de biocontrole, consórcios microbianos e abordagens de manejo integrado, enquanto a literatura de 2024 lembra que complexos doença envolvendo nematoides e fungos costumam amplificar os danos. Assim, B. firmus é mais bem interpretado como um “protetor de raiz” dentro de um programa, e não como resposta única. (RSC Publishing)

Tabela-resumo

Evidência recenteResultado principalLeitura prática
I-1582 em tomate, 2020Cresceu entre 15 e 45°C, ótimo a 35°C; degradou ovos, colonizou raízes e induziu resistência sistêmica em tomate. (Frontiers)Útil em áreas quentes e em tratamento precoce da raiz.
I-1582 em A. thalianaH. schachtii, 2021Proteção dependeu de colonização viva; células mortas e sobrenadante não funcionaram; pH influenciou a interação. (Nature)A eficácia depende de sobrevivência e estabelecimento no solo.
I-1582 em tomate, 2020Redução de 51% e 53% em Meloidogyne luci; discriminação por hiperespectral com >96% de acurácia. (MDPI)Há efeito real e também potencial de monitoramento não destrutivo.
TNAU1 em tomate, 202496% de inibição de eclosão/mortalidade in vitro e 70% de redução em casa de vegetação. (ScienceDirect)Uma das evidências mais fortes para a espécie.
Soja, 2022Reduziu Meloidogyne spp. e Pratylenchus spp., mas foi fraco contra Heterodera e Helicotylenchus. (Repositório UTFPR)A resposta é específica por gênero.
Revisões 2024–2025Enzimas, metabólitos, ISR, biofilme e consórcios sustentam o uso de B. firmus. (Frontiers)Melhor encaixe em manejo integrado.

Conclusões

A evidência recente mostra que Bacillus firmus é um dos bioagentes mais consistentes entre as bactérias usadas contra nematoides fitoparasitas. A espécie já demonstrou ação direta sobre ovos e juvenis, indução de resistência sistêmica, colonização de raiz e redução de populações em tomate e soja, com destaque para as cepas I-1582 e TNAU1. (Frontiers)

Ao mesmo tempo, a literatura também deixa claro que a eficiência não é universal. O desempenho depende da espécie do nematoide, do hospedeiro, do pH, da temperatura, da textura do solo e da capacidade da bactéria de se estabelecer na rizosfera. Em termos práticos, B. firmus funciona melhor como peça de um sistema do que como substituto de todo o manejo. (Frontiers)

Recomendações práticas

Para o produtor rural, o uso mais seguro é posicionar B. firmus no tratamento de sementes ou na faixa de raízes jovens, em áreas onde o histórico indique pressão de Meloidogyne ou Pratylenchus, e sempre dentro de um programa com rotação, correção de solo e monitoramento de espécie. Em regiões quentes, o potencial da bactéria pode ser favorecido, mas a validação local continua indispensável. (Frontiers)

Para o pesquisador, a próxima etapa é separar com mais precisão o que é efeito direto sobre o nematoide, o que é efeito sobre a microbiota da rizosfera e o que é benefício fisiológico da planta. Ensaios com quantificação populacional, avaliação de colonização, pH, temperatura, formulação e retorno econômico são os que realmente transformam bioagentes em recomendação agronômica confiável. (Nature)

Para estudantes e técnicos, a síntese mais útil é esta: Bacillus firmus não é apenas um “antagonista de nematoides”, mas um bioinsumo de múltiplas funções, com ação sobre ovos, juvenis e resposta da planta. Ele merece lugar na nematologia aplicada, desde que seja usado com diagnóstico correto e expectativa realista de desempenho. (Frontiers)

Referências

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HUANG, M. et al. Bacillus firmus I-1582 promotes plant growth and impairs infection and development of the cyst nematode Heterodera schachtii over two generations. Scientific Reports, v. 11, art. 14114, 2021. DOI: 10.1038/s41598-021-93567-0.

MESQUITA, A. P. B. de. Uso de Bacillus firmus no controle de nematóides na cultura da soja. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Agronomia) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Dois Vizinhos, 2022.

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