Introdução
Os nematoides fitoparasitas seguem entre os fatores mais caros da agricultura mundial.
Estimativas recentes variam, mas convergem para perdas bilionárias: uma revisão de 2025 aponta cerca de US$ 157 bilhões anuais em perdas globais, enquanto outra síntese recente ainda trabalha com a marca de US$ 125 bilhões/ano e cerca de 14% da produção agrícola mundial comprometida. Ao mesmo tempo, os gêneros Meloidogyne, Heterodera, Globodera, Pratylenchus e Bursaphelenchus permanecem entre os mais destrutivos em diferentes agroecossistemas. (ScienceDirect)
A pressão não é apenas global; ela também é muito dependente do ambiente e do sistema de cultivo. Em amostragem feita no norte de Portugal, 406 solos de diferentes usos mostraram que pastagens concentraram comunidades mais diversas de nematoides fitoparasitas, com maior biomassa e “herbivory footprint”. Em citrus, um levantamento recente na Coreia identificou nematoides fitoparasitas em 82 amostras e mostrou forte predominância de Tylenchulus semipenetrans, que respondeu por 70,68% das áreas avaliadas em uma das regiões amostradas. Esses dados deixam claro que o problema é específico por espécie e por local. (ScienceDirect)
Nesse cenário, o metam-sódico continua relevante porque é um dos fumigantes pré-plantio mais usados para reduzir populações de nematoides, fungos de solo e plantas daninhas em sistemas de alto valor. A literatura recente o descreve como um fumigante líquido, solúvel em água, aplicado antes do plantio, cujo uso se mantém justamente porque consegue atuar em múltiplos alvos ao mesmo tempo. (Wiley Online Library)
1. O que o metam-sódico é e por que ainda importa
Quimicamente, o metam-sódico é tratado na literatura recente como um precursor de atividade fumigante no solo, empregado em pré-plantio para suprimir pragas de solo. O ponto prático é que ele não é um nematicida seletivo: sua lógica agronômica é a de “desinfecção” do solo, o que explica por que ele segue útil em horticultura intensiva, onde nematoides, fungos e ervas daninhas costumam coexistir na mesma área. (Wiley Online Library)
A relevância econômica do produto também vem do fato de que, em algumas cadeias, poucas alternativas entregam controle simultâneo de nematoides e outros alvos. Em tomate, por exemplo, a literatura mostra que, após a saída do brometo de metila, growers passaram a depender de outros fumigantes, entre eles o metam-sódico, porque a pressão de nematoides de galha e de doenças de solo permaneceu alta. (ScienceDirect)
2. Como a pesquisa recente enxerga sua eficácia contra nematoides
A evidência direta de 2023–2025 continua mostrando que o metam-sódico pode reduzir populações de nematoides em diferentes culturas. Em soja e amendoim, um estudo de 2025 observou redução de Pratylenchus brachyurus, Mesocriconema ornatum, Meloidogyne spp. e Heterodera glycines no solo; o mesmo trabalho indica que a cultivar resistente e a sequência de cultivo também alteraram o resultado, mostrando que o fumigante funciona melhor quando encaixado em um sistema de manejo, e não sozinho. (ResearchGate)
Em cucurbitáceas, um estudo de 2023 em estufa com pepino relatou que o metam-sódico foi superior aos demais tratamentos em parâmetros de planta e de nematoides, com perda associada ao nematoide estimada em 3,23 kg por planta em cultivo protegido. Os autores concluíram que a rotação entre fumigantes e não fumigantes pode ser uma estratégia confiável em estruturas altamente infestadas. (kujnsr.com)
Em tomate, a literatura também reforça que o desempenho do fumigante depende da pressão inicial do nematoide e da combinação com outras ferramentas. Num ensaio clássico de manejo integrado em tomate na Flórida, os autores mostraram que a fumigação aumentou a produtividade e reduziu a severidade de Meloidogyne spp., mas o melhor cenário ocorreu com a combinação entre resistência genética e controle químico, em vez de dependência de uma única medida. (ScienceDirect)
3. O mecanismo prático: controle forte, mas não seletivo
A lógica agronômica do metam-sódico é ampla e pouco seletiva. A literatura de 2025 o coloca entre os fumigantes eficazes contra parasitismo por nematoides-das-galhas, mas também ressalta que esse grupo químico vem sofrendo restrições por impactos à saúde pública e ao ambiente. Em outras palavras, ele entrega supressão forte, porém ao custo de um efeito amplo sobre o agroecossistema do solo. (MDPI)
Um relatório técnico de 2024 sobre fumigantes descreve que o metam-sódico se decompõe rapidamente em solo úmido, gerando MITC, o principal agente biocida responsável pela atividade fumigante. Esse ponto é importante porque ajuda a explicar por que a umidade do solo, o fechamento da área e o intervalo entre aplicação e plantio são críticos para o sucesso do tratamento. (Department of Pesticide Regulation)
4. O que acontece com o solo depois da fumigação
A resposta do solo ao metam-sódico não é neutra. Em 2022, um estudo de campo mostrou que o histórico de fumigação com metam-sódico reduziu a diversidade bacteriana do solo e alterou a estrutura das redes microbianas; o trabalho também indicou que a diversidade fúngica e a riqueza microbiana não responderam da mesma forma, reforçando que o impacto é seletivo dentro do microbioma. (Springer Nature Link)
Em 2024, outro estudo em tomate mostrou que fumigantes reduziram a diversidade fúngica, alteraram a composição microbiana e diminuíram a complexidade das redes ecológicas; o efeito sobre a produtividade foi indireto e mediado por mudanças no microbioma. Esse tipo de resultado é importante porque mostra que o controle de nematoides não pode ser dissociado da saúde biológica do solo. (ScienceDirect)
No entanto, a recuperação microbiana é possível. Em 2025, um estudo em tomate com aplicação de metam-sódico sob filme impermeável mostrou que a riqueza e a diversidade fúngica do solo não diferiram significativamente entre tratamentos em nenhum dos tempos avaliados; no solo a granel, a composição tendeu a se recuperar até 210 dias após a aplicação, embora a rizosfera ainda exibisse diferenças. Isso sugere que o efeito do fumigante é real, mas não necessariamente permanente. (ILVO)
Em batata, a resposta também foi variável. Um estudo de 2025 mostrou que o metam-sódico, isolado ou combinado com cultivo de cobertura, aumentou o carbono da biomassa microbiana em até 41% em relação ao controle em alguns arranjos, mas sem efeito consistente sobre a produtividade total. Ou seja, o mesmo produto pode reduzir pragas e, ao mesmo tempo, ter resposta agronômica dependente do solo e do sistema de rotação. (ScienceDirect)
5. Onde o metam-sódico faz mais sentido hoje
A literatura recente aponta que o melhor posicionamento do metam-sódico é em áreas com histórico pesado de nematoides e de doenças de solo, especialmente em horticultura intensiva. Nesses casos, ele funciona como ferramenta de choque pré-plantio, protegendo o estabelecimento da cultura e reduzindo a pressão inicial de parasitismo. Em tomateiros do sul dos Estados Unidos, isso continua sendo coerente com a realidade produtiva, porque a resistência genética isolada não cobre todas as espécies e nem sempre responde bem ao cenário de campo. (ScienceDirect)
Em sistemas de amendoim, a combinação de sequência de culturas, cultivar resistente e metam-sódico foi decisiva. O estudo de 2025 indica que o fumigante reduziu nematoides no solo, mas a resposta de produtividade não foi uniforme para todos os cenários; a conclusão prática é que a eficiência econômica depende de o produto estar integrado a uma estratégia de rotação e de escolha varietal. (ResearchGate)
Em pepino protegido, a mensagem é parecida: o metam-sódico foi o tratamento mais forte para parâmetros de planta e nematoide, mas os autores ainda recomendaram alternância com opções não fumigantes. Isso é especialmente relevante em estufas, onde a pressão de Meloidogyne pode se acumular rapidamente e a repetição do mesmo protocolo aumenta o risco de perda de eficiência e de impacto na microbiota. (kujnsr.com)
6. Limitações: custo, restrição regulatória e sustentabilidade
A principal limitação do metam-sódico hoje não é a falta de eficácia, mas o custo biológico e regulatório do seu uso. Uma revisão de 2025 sobre Meloidogyne afirma que fumigantes como o metam-sódico seguem eficazes, porém estão cada vez mais restringidos ou proibidos em vários países por preocupações ambientais e de saúde pública. (MDPI)
Além disso, uma revisão técnica de 2025 sobre manejo integrado de nematoides observa que alguns nematicidas ainda recomendados, incluindo o metam-sódico, acabam sendo usados por poucos produtores em função do custo e da dificuldade de implementação em sistemas com manejo complexo. Isso ajuda a explicar por que o produto tende a permanecer em nichos de alta pressão econômica, como hortaliças de alto valor e áreas com histórico crônico de infestação.
A consequência prática é clara: o metam-sódico continua útil, mas não deve ser tratado como solução padrão universal. Onde o solo já está biologicamente fragilizado, a fumigação pode entregar o efeito imediato desejado, mas a sustentabilidade do sistema exige reconstrução do solo depois da aplicação, seja com coberturas, rotação ou bioinsumos. (Springer Nature Link)
Tabela 1. Síntese técnica do metam-sódico no manejo de nematoides
| Eixo | O que a literatura recente mostra | Implicação prática |
|---|---|---|
| Natureza do produto | Fumigante líquido, solúvel em água, aplicado em pré-plantio; atua em nematoides, fungos e plantas daninhas. (Wiley Online Library) | Melhor uso é preventivo e antes do estabelecimento da cultura. |
| Eficácia em nematoides | Reduziu Pratylenchus, Meloidogyne e Heterodera em amendoim; foi superior em pepino protegido. (ResearchGate) | Funciona melhor em áreas com alta pressão e diagnóstico correto da espécie. |
| Integração com outras práticas | Em tomate, resistência genética + fumigação produziram melhor resposta do que qualquer ferramenta isolada. (ScienceDirect) | Integrar com cultivares resistentes e rotação. |
| Solo e microbioma | Pode reduzir diversidade bacteriana e alterar redes microbianas, mas parte do microbioma se recupera com o tempo. (Springer Nature Link) | Após a fumigação, investir em reconstrução biológica do solo. |
| Sustentabilidade | Fumigantes seguem eficazes, mas sofrem restrições e pressões regulatórias. (MDPI) | Usar apenas quando o retorno econômico e sanitário justificar. |
Conclusões
O metam-sódico continua sendo uma das ferramentas químicas mais fortes para reduzir nematoides em sistemas agrícolas intensivos. A literatura de 2020 a 2025 mostra que ele pode diminuir populações de Meloidogyne, Pratylenchus e Heterodera, melhorar o arranque da lavoura e, em várias situações, aumentar a produtividade. (ResearchGate)
Ao mesmo tempo, a evidência recente também mostra que seu efeito é amplo, pouco seletivo e com impacto mensurável sobre a microbiota do solo. Por isso, ele não deve ser usado como atalho permanente, e sim como componente de um manejo integrado que inclui diagnóstico, rotação, cultivares resistentes, coberturas e recuperação biológica do solo. (Springer Nature Link)
Recomendações práticas
Para o produtor, o metam-sódico faz mais sentido quando há histórico comprovado de nematoides e quando a área também sofre com fungos de solo e plantas daninhas no arranque da cultura. Nessa situação, a recomendação é posicioná-lo como tratamento pré-plantio e combiná-lo com resistência genética e rotação; em tomate, esse arranjo já mostrou desempenho superior à adoção isolada de uma única medida. (ScienceDirect)
Para áreas protegidas ou hortaliças intensivas, a rotação entre fumigantes e nematicidas não fumigantes parece ser o caminho mais seguro para evitar queda de desempenho ao longo do tempo. Em pepino, essa lógica foi explicitamente recomendada pelos autores; em tomate e batata, a literatura recente reforça que o sucesso depende tanto do controle inicial quanto da recuperação do solo depois da aplicação. (kujnsr.com)
Para pesquisadores e técnicos, a prioridade é medir o sistema inteiro: população inicial de nematoides, espécie predominante, microbioma antes e depois da fumigação, resposta da cultura e custo-benefício. É esse tipo de diagnóstico que separa o uso realmente rentável do uso apenas “forte no papel”. (ScienceDirect)
Referências
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