sexta-feira, 24 de abril de 2026

Bacillus licheniformis no controle de nematoides: evidência recente, mecanismos e aplicação prática


Introdução

Os nematoides fitoparasitas continuam entre os problemas mais caros da agricultura.

Uma síntese de 2023 estimou perdas globais anuais da ordem de US$ 157 bilhões associadas a nematoides, enquanto uma revisão de 2024 reforça que o manejo desses organismos é peça central para a segurança alimentar e para a sustentabilidade dos sistemas agrícolas. Em paralelo, a literatura de 2025 segue apontando os nematoides-das-galhas (Meloidogyne spp.) como um dos grupos mais destrutivos e amplamente distribuídos em culturas de alto valor. (Nature)

No Brasil, a pressão é igualmente relevante e muito dependente do ambiente. Em soja sob plantio direto, 216 amostras coletadas em diferentes regiões revelaram sete gêneros de fitonematoides, incluindo Meloidogyne, Pratylenchus e Heterodera; naquele estudo, pH e teor de argila foram os principais fatores moduladores da comunidade. Em outra pesquisa recente na Europa, uma varredura oficial detectou infestação por nematoides-das-galhas em 23,7% das amostras analisadas, com cinco espécies de Meloidogyne registradas. Esses dados mostram que a pressão é ampla, diversa e sensível ao manejo do solo. (ScienceDirect)

É nesse cenário que Bacillus licheniformis vem ganhando espaço. A espécie já é usada e estudada como rizobactéria promotora de crescimento e agente de biocontrole, e a literatura de 2020–2025 começa a reunir evidências diretas para sua atuação contra nematoides, embora ainda em menor volume do que para outras espécies do gênero Bacillus. O ponto central é este: B. licheniformis não deve ser vista apenas como “uma bactéria benéfica”, mas como uma plataforma biológica capaz de combinar colonização de raiz, produção de metabólitos e estímulo fisiológico da planta. (Frontiers)

1. O que já foi demonstrado de forma direta com Bacillus licheniformis

A evidência mais sólida e diretamente aplicável à nematologia vem do estudo de 2022 com a cepa JF-22. Nesse trabalho, B. licheniformis mostrou potencial para prevenir a infecção por Meloidogyne incognita em tomate em ensaios in vitro e em vaso, além de alterar a comunidade microbiana da rizosfera. O resultado é importante porque mostra que o efeito não se limita à supressão do nematoide, mas envolve remodelação do ambiente radicular. (Frontiers)

Em 2024/2025, a linha avançou para o estudo de biomoléculas. Um trabalho com B. licheniformis MW301654 identificou a nicotinamida mononucleotídeo como molécula com propriedade nematicida contra M. incognita. No bioensaio in vitro, a substância levou a 50% de mortalidade de juvenis de segundo estádio em faixas entre 69 e 93 ppm, dependendo do tempo de exposição, e atingiu 95% de mortalidade em concentrações entre 101 e 213 ppm; também reduziu a eclosão de ovos para 1% em 150 ppm. (Wiley Online Library)

Outro avanço relevante veio em 2025, quando uma protease produzida por B. licheniformis foi testada contra Panagrellus sp., Meloidogyne incognita, Haemonchus spp. e Trichostrongylus spp. O estudo relatou redução significativa em M. incognita em todas as concentrações avaliadas e destacou redução de até 100% para o nematoide-das-galhas em determinados tratamentos, além de forte atividade também contra outros nematoides testados. Isso indica que, em B. licheniformis, enzimas extracelulares podem ser parte importante do efeito biológico. (ScienceDirect)

Há ainda um estudo de 2025 em tomate com B. licheniformis enriquecida com nano-selênio, voltado ao controle de plantas infectadas por nematoide-das-galhas. Embora a leitura pública do resumo seja menos detalhada do que em outras fontes, o próprio título e o resumo disponíveis indicam que a estratégia combinou a bactéria com nano-selênio como abordagem bioativa para reduzir o problema em tomateiro. Esse tipo de formulação reforça uma tendência atual: combinar microrganismos e coadjuvantes tecnológicos para aumentar consistência de campo. (journals.ekb.eg)

2. Por que uma bactéria pode reduzir nematoides sem “matar” o nematoide de forma clássica

A literatura recente sobre Bacillus mostra que o controle de nematoides raramente é um efeito único. Em revisão de 2025, o gênero é descrito atuando por produção de compostos nematicidas, indução de resistência sistêmica, degradação de cutícula e melhora do solo. Em revisão de 2024, o mesmo raciocínio aparece com ênfase em abordagens multi-ômicas, nas quais bactérias e fungos produzem metabólitos e enzimas com ação direta ou indireta sobre o parasitismo. (Frontiers)

Para B. licheniformis, isso faz sentido porque a espécie é reconhecida por produzir enzimas e metabólitos úteis à rizosfera. Na prática, a bactéria pode reduzir a penetração do nematoide, prejudicar o desenvolvimento de ovos e juvenis, reforçar a parede e a fisiologia da raiz, e criar um microambiente menos favorável ao parasitismo. Em outras palavras, o efeito esperado é “desarmar” o sistema de ataque do nematoide, não apenas eliminá-lo no contato inicial. (MDPI)

Isso ajuda a entender por que os melhores resultados com bioagentes quase nunca vêm de uma única variável. Na literatura recente de biocontrole, a eficácia depende de colonização radicular, persistência no solo, compatibilidade com a microbiota nativa e capacidade de induzir respostas de defesa na planta. Em tomate, por exemplo, a comunidade da rizosfera pode mudar o desfecho do parasitismo; esse tipo de resultado foi observado em estudos modernos com Bacillus e outros agentes benéficos. (Frontiers)

3. A contribuição do crescimento vegetal para o manejo de nematoides

Um ponto decisivo é que B. licheniformis não atua apenas no nematoide; ela também favorece a planta. Em tomate, a combinação de B. subtilis e B. licheniformis aumentou massa fresca e seca da parte aérea e do sistema radicular, volume radicular e comprimento de raízes, além de mostrar produção de ácido indol-acético após 48 horas e persistência na rizosfera comprovada por qPCR. Isso é particularmente relevante porque plantas com sistema radicular mais robusto toleram melhor o dano causado por nematoides. (Springer Nature Link)

Esse ganho de vigor ajuda a explicar por que bioinsumos com Bacillus funcionam melhor em programas integrados do que como solução isolada. Quando a bactéria melhora o enraizamento, amplia a absorção de água e nutrientes e reduz o estresse inicial, a planta “compensa” parte do dano parasitário. Em campo, esse efeito costuma ser tão importante quanto a redução direta da população do nematoide. (Springer Nature Link)

Há também um componente de persistência que interessa ao produtor. O trabalho com tomate mostrou que as colônias recuperadas de plantas inoculadas eram compatíveis com as cepas aplicadas, indicando colonização e permanência no sistema radicular. Para manejo de nematoides, isso é valioso porque a proteção precisa estar presente justamente nas fases iniciais, quando a plântula ainda está mais vulnerável à penetração e à formação de galhas ou lesões. (Springer Nature Link)

4. O que a pesquisa recente sugere sobre formulação, enzimas e metabólitos

A transição da “bactéria inteira” para suas moléculas bioativas é uma das tendências mais fortes de 2024–2025. No caso de B. licheniformis, a nicotinamida mononucleotídeo mostrou efeito nematicida claro, enquanto a protease estudada em 2025 confirmou que enzimas extracelulares podem ser altamente letais para M. incognita. Isso sugere que parte do potencial de B. licheniformis está em seu arsenal bioquímico, e não apenas na colonização da planta. (Wiley Online Library)

Essa leitura é coerente com a revisão de 2025 sobre o papel de Bacillus na gestão de nematoides fitoparasitas, que destaca compostos nematicidas, indução de defesa e degradação de cutícula como mecanismos centrais. Em 2025, outro estudo de Bacillus spp. em tomate mostrou que enzimas e metabólitos como proteases, quitinases e moléculas orgânicas diversas reduziram o fator de reprodução de M. incognita e o número de nematoides por grama de raiz. Embora esse artigo não seja exclusivo de B. licheniformis, ele reforça o tipo de mecanismo que a espécie pode explorar. (PubMed)

O estudo de nano-selênio com B. licheniformis se encaixa nessa mesma lógica de formulação avançada. A combinação de bactéria e nanoelemento pode ampliar estabilidade, desempenho e, potencialmente, a interação com a planta e o solo. Ainda assim, a mensagem técnica permanece a mesma: formulações mais complexas precisam de validação agronômica local antes de qualquer recomendação ampla. (journals.ekb.eg)

5. Onde Bacillus licheniformis se encaixa no manejo integrado

A literatura de 2024 e 2025 é muito consistente em um ponto: o manejo de nematoides está migrando para sistemas integrados. Revisões recentes defendem a combinação de cultivares resistentes, práticas culturais, bioagentes e, quando necessário, intervenções químicas pontuais. O objetivo não é substituir tudo por um único produto biológico, mas construir resiliência do sistema. (ScienceDirect)

Nesse contexto, B. licheniformis é mais promissora quando entra cedo no programa, especialmente em tratamento de sementes, sulco de plantio ou inoculação radicular. A própria literatura sobre tomate indica que a bactéria consegue persistir na rizosfera e estimular o crescimento, o que a torna útil no arranque da cultura, fase em que o dano dos nematoides costuma ser mais severo. (Springer Nature Link)

Para áreas com histórico de Meloidogyne incognita ou outros nematoides-das-galhas, isso significa que o bioinsumo pode atuar como uma “primeira linha de defesa”, reduzindo a vulnerabilidade inicial, enquanto a rotação de culturas, o manejo do solo e o monitoramento populacional fazem o trabalho estrutural de longo prazo. Estudos recentes em soja e outras culturas mostram que pH, textura e comunidade microbiana modulam fortemente a ocorrência dos nematoides, então o sucesso do bioagente depende do sistema, não apenas da cepa. (ScienceDirect)

6. Tabela-resumo das evidências recentes

Estudo / fonteO que foi observadoRelevância para nematologia
JF-22 em tomate, 2022B. licheniformis preveniu e controlou M. incognita em vitro e em vaso, alterando a microbiota da rizosfera. (Frontiers)Evidência direta mais forte para a espécie.
NICOTINAMIDE MONONUCLEOTIDE, 2025Biomolécula de B. licheniformis apresentou atividade nematicida com alta mortalidade de juvenis e baixa eclosão de ovos. (Wiley Online Library)Mostra que metabólitos da espécie podem ser o principal ativo.
Protease de B. licheniformis, 2025Redução significativa de M. incognita e de outros nematoides em ensaio in vitro. (ScienceDirect)Confirma o papel de enzimas extracelulares.
Tomate + nano-selênio, 2025A bactéria foi usada em biocontrole de tomate infectado por nematoide-das-galhas. (journals.ekb.eg)Indica avanço em formulação e aplicação.
Tomate, 2023B. licheniformis aumentou crescimento e persistência radicular, com produção de AIA. (Springer Nature Link)Indiretamente aumenta tolerância da planta ao ataque.

Conclusões

A melhor leitura técnica da literatura recente é que Bacillus licheniformis já deixou de ser uma promessa genérica e passou a ter evidência direta real contra Meloidogyne incognita, especialmente em tomate. Os dados de 2022, 2024 e 2025 mostram controle do nematoide, interferência em ovos e juvenis, produção de biomoléculas nematicidas e efeitos benéficos sobre a rizosfera e o vigor da planta. (Frontiers)

Ao mesmo tempo, a espécie ainda precisa consolidar sua posição no campo. A literatura mostra que o melhor desempenho vem quando a bactéria é inserida em um programa integrado e quando o ambiente favorece sua colonização e persistência. A mensagem prática é clara: B. licheniformis é uma ferramenta útil, mas não uma solução isolada para áreas com alta pressão de nematoides. (ScienceDirect)

Recomendações práticas

Para o produtor rural, a estratégia mais segura é usar B. licheniformis em áreas com histórico de nematoides dentro de programas integrados, preferencialmente em sementes, sulco ou início do ciclo, e sempre combinando com rotação, cobertura do solo e diagnóstico da espécie presente. Em solos com pH e textura que favoreçam a multiplicação de nematoides, o bioinsumo tende a funcionar melhor quando o sistema produtivo também é ajustado. (Springer Nature Link)

Para pesquisadores, a prioridade agora é separar três camadas de efeito: ação direta sobre o nematoide, efeito sobre a microbiota da rizosfera e ganho fisiológico da planta. Ensaios com quantificação de população inicial e final, reprodução, massa radicular, colonização e custo-benefício são os que mais ajudam a transformar potencial biológico em recomendação agronômica confiável. (Frontiers)

Para estudantes e técnicos, vale guardar a síntese: B. licheniformis parece atuar menos como “veneno biológico” e mais como uma ferramenta de proteção da raiz, com enzimas, metabólitos e estímulo de crescimento trabalhando juntos. Em nematologia aplicada, esse tipo de solução é mais valioso quando entra cedo, é bem formulado e faz parte de um manejo mais amplo do sistema solo-planta. (Frontiers)

Referências

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AYAZ, M. U. et al. Biocontrol of plant parasitic nematodes by bacteria and fungi: a multi-omics approach for the exploration of novel nematicides in sustainable agriculture. Frontiers in Microbiology, v. 15, art. 1433716, 2024. doi: 10.3389/fmicb.2024.1433716.

DU, J. et al. Bacillus licheniformis JF-22 to control Meloidogyne incognita and its effect on tomato rhizosphere microbial community. Frontiers in Microbiology, v. 13, art. 863341, 2022. doi: 10.3389/fmicb.2022.863341.

ISMAIL, S.; SOLIMAN, G. M. Bio-controlling of root-knot nematode-infected tomato plants using Bacillus licheniformis enriched with nano-selenium. Egyptian Journal of Chemistry, v. 68, n. 11, p. 299-307, 2025. doi: 10.21608/ejchem.2025.358254.11259.

NUNES, P. S. de O. et al. Bacillus subtilis and Bacillus licheniformis promote tomato growth. Brazilian Journal of Microbiology, v. 54, n. 1, p. 397-406, 2023. doi: 10.1007/s42770-022-00874-3.

PARRADO, L. M.; QUINTANILLA, M. Plant-parasitic nematode disease complexes as overlooked challenges to crop production. Frontiers in Plant Science, v. 15, art. 1439951, 2024. doi: 10.3389/fpls.2024.1439951.

REGO BARROS, F. M. do et al. Plant-parasitic nematode community and enzyme activities in soils under no-till soybean crops in Brazil. Rhizosphere, v. 27, art. 100736, 2023. doi: 10.1016/j.rhisph.2023.100736.

SILVA, A. C. et al. In vitro evaluation of Bacillus licheniformis protease on the nematodes Panagrellus sp., Meloidogyne incognita, Haemonchus spp. and Trichostrongylus spp. Next Research, v. 2, n. 2, art. 100308, 2025. doi: 10.1016/j.nexres.2025.100308.

VASANTHA-SRINIVASAN, P. et al. The role of Bacillus species in the management of plant-parasitic nematodes. Frontiers in Microbiology, v. 15, art. 1510036, 2025. doi: 10.3389/fmicb.2024.1510036.

Bacillus species / Bacillus licheniformis related tomato biocontrol and rhizosphere studies cited above were selected only from 2020–2025 sources.

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