Fonte : AEGRO
Introdução
Os nematoides fitoparasitas seguem entre os agentes bióticos mais caros para a agricultura moderna.
Revisões recentes estimam perdas anuais globais entre cerca de US$ 125 bilhões e US$ 157 bilhões, dependendo do método de cálculo, e destacam que o problema tende a crescer com a intensificação agrícola e a mudança climática. Em soja, os grupos mais importantes continuam sendo os nematoides-das-lesões (Pratylenchus spp.) e os nematoides-das-galhas (Meloidogyne spp.), com impacto direto sobre raízes, absorção de água e nutrientes e, em muitos casos, redução expressiva da produtividade. (ScienceDirect)No Brasil, a pressão de nematoides em soja é muito ampla e não se limita a uma única espécie. Em um levantamento nacional em áreas de soja sob plantio direto, foram identificados sete gêneros fitoparasitas, incluindo Meloidogyne, Pratylenchus, Heterodera e Rotylenchulus; outro estudo com soja cultivada em dois biomas brasileiros reforçou que essas comunidades são moldadas por características do solo e do manejo. Esse cenário explica por que soluções isoladas costumam falhar e por que o manejo precisa ser integrado. (ScienceDirect)
É nesse contexto que o tiofanato-metílico aparece como uma ferramenta “de suporte”, e não como resposta única. A literatura recente o classifica como um fungicida benzimidazólico sistêmico, com conversão para carbendazim nas plantas, ação primordialmente antifúngica e mecanismo ligado à interferência na formação de estruturas microtubulares e na divisão celular de fungos. Isso significa que seu papel no manejo de nematoides deve ser entendido, em grande parte, como indireto ou dependente de misturas em tratamento de sementes, especialmente quando há complexos fungo-nematoide no mesmo sistema produtivo. (MDPI)
Seção central
1) O que o tiofanato-metílico é — e o que ele não é
As revisões de 2024 e 2025 sobre fungicidas benzimidazólicos deixam claro que o tiofanato-metílico pertence a uma classe de fungicidas amplamente usada no controle de doenças, mas sujeita a forte pressão de resistência por ser um produto de sítio mais específico. A literatura também aponta que o composto é rapidamente convertido em carbendazim e que sua principal utilidade agronômica é antifúngica, o que ajuda a explicar por que, sozinho, ele não deve ser tratado como um nematicida clássico. (MDPI)
Em termos práticos, a pergunta correta não é “o tiofanato-metílico mata nematoides?”, e sim “em quais sistemas de manejo ele pode contribuir para reduzir o dano associado aos nematoides?”. A resposta mais consistente da literatura recente é: quando usado em associação com outros ativos ou em programas integrados, ele pode participar da proteção inicial da plântula e, em certos arranjos, reduzir a severidade de problemas que envolvem a interação entre fungos de solo e nematoides.
2) Evidência direta em nematoides: efeito existe, mas é dependente da formulação
O estudo de 2021 com soja e Pratylenchus brachyurus é uma das fontes mais relevantes para esse tema. Nele, foram avaliados tiofanato-metílico, piraclostrobina, fipronil, a mistura piraclostrobina + tiofanato-metílico + fipronil e abamectina. O resultado central foi importante: as combinações testadas mostraram efeito antagônico, mas fipronil isolado ou associado ao tiofanato-metílico se destacou no controle de P. brachyurus. Essa é uma evidência forte de que a eficiência não deve ser atribuída ao tiofanato-metílico de forma isolada; a composição da mistura muda o desempenho biológico.
Esse tipo de resultado ajuda a evitar uma interpretação exagerada do produto. Na prática, o tiofanato-metílico parece funcionar melhor como componente de uma estratégia de tratamento de sementes voltada ao estande inicial, ao ambiente da rizosfera e ao controle simultâneo de outros patógenos, do que como agente nematicida principal. Em outras palavras, a evidência recente sustenta mais um papel complementar do que um papel central no controle de nematoides.
3) Por que o manejo integrado é indispensável
Os trabalhos recentes em nematologia convergem num ponto: o manejo químico, sozinho, está perdendo espaço como estratégia dominante. A edição especial de 2025 sobre doenças de nematoides em plantas cultivadas destaca que o controle tradicional, muito dependente de nematicidas químicos, vem sendo gradualmente substituído por abordagens integradas por causa de preocupações ambientais, da saúde do solo e da biodiversidade. A revisão de 2024 sobre o futuro do manejo de nematoides também reforça que a agenda atual combina cultivares resistentes, práticas culturais, controle biológico e intervenções químicas pontuais. (MDPI)
No caso da soja, essa transição é ainda mais clara. O estudo de 2025 com rotação de culturas e bionematicidas mostrou que a combinação de plantas de cobertura e agentes biológicos reduziu P. brachyurus em 73,8% nas raízes e 76,4% no solo em 2022, e em 76,4% nas raízes e 90,7% no solo em 2023, com aumento de produtividade de 43,9% a 65,7% na safra de 2023. Esses números são muito expressivos e mostram que o caminho mais sólido para reduzir danos de nematoides não é apostar em um único ingrediente ativo, mas em sistemas que reforçam o solo e quebram o ciclo do patógeno.
4) O papel do solo, da microbiota e da sanidade do sistema
A literatura recente mostra que a comunidade microbiana do solo pode atuar como fator de supressão biológica. Em 2022, um estudo com soja demonstrou que maior diversidade bacteriana reduziu a densidade de Meloidogyne javanica e sustentou o desempenho das plantas mesmo sob altos níveis de parasitismo por P. brachyurus. Em 2023, outro trabalho em soja no Brasil mostrou que propriedades do solo, como argila e pH, foram os principais moduladores da comunidade de nematoides fitoparasitas. Em 2025, essa linha de pesquisa se expandiu, mostrando novamente que solos mais ácidos tendem a abrigar maiores abundâncias de nematoides fitoparasitas. (ResearchGate)
Esse ponto é decisivo para interpretar o lugar do tiofanato-metílico. Em solos biologicamente mais equilibrados, com boa cobertura, rotação e menor estresse, a dependência de tratamentos químicos tende a cair. Já em sistemas simplificados, com baixa diversidade, áreas arenosas ou com histórico pesado de nematoides, cresce a tentação de recorrer a misturas químicas; ainda assim, a evidência recente mostra que essa rota deve ser cautelosa, porque a resposta pode ser inconsistente e, em alguns casos, antagonizada pelas próprias misturas. (ResearchGate)
5) Complexos fungo-nematoide: onde o tiofanato-metílico faz mais sentido
Uma razão importante para o uso do tiofanato-metílico em programas de sementes é o fato de nematoides e fungos de solo frequentemente caminharem juntos. Revisões recentes sobre complexos fungo-nematoide mostram que o problema não é apenas a presença do nematoide, mas a sinergia entre lesões radiculares e infecções fúngicas subsequentes. Nesses casos, um fungicida como o tiofanato-metílico pode contribuir para proteger a plântula contra o componente fúngico do complexo, ainda que isso não equivale a ação nematicida direta. (Cabidigitallibrary)
A consequência prática é clara: em áreas com histórico de falhas de estande, podridões iniciais e lesões radiculares associadas a nematoides, o tiofanato-metílico pode ter valor dentro do pacote de tratamento de sementes. Ele ajuda a reduzir a janela de vulnerabilidade da planta jovem, mas não substitui medidas mais duradouras, como rotação, escolha de cultivares, cobertura de solo e uso de bioinsumos com ação sobre a rizosfera. (MDPI)
6) Resistência e sustentabilidade: o principal limite do produto
O maior problema estratégico do tiofanato-metílico é a sua natureza de sítio específico. Revisões recentes sobre benzimidazóis destacam que a resistência é um risco real e que o manejo com mistura ou rotação de mecanismos de ação é a forma mais recomendada de preservar a vida útil dessas moléculas. Em fungos agrícolas, mutações em β-tubulina e perda de sensibilidade a benzimidazóis são um padrão bem documentado, o que impõe cautela no uso repetido do produto. (MDPI)
Do ponto de vista do manejo de nematoides, isso significa que o tiofanato-metílico não deve ser usado como “solução única” nem como tratamento recorrente e automático. Em vez disso, ele faz mais sentido quando inserido em uma lógica de redução de risco, em que o objetivo é proteger o estabelecimento inicial da lavoura, preservar o vigor das plantas e ganhar tempo para que medidas estruturais — rotação, bionematicidas e resistência genética — façam efeito. (ResearchGate)
7) Prevalência e pressão de espécies: por que o problema é real no campo
Os dados recentes mostram que a pressão de espécies continua alta em diferentes regiões e sistemas. No Brasil, o levantamento em soja sob plantio direto encontrou sete gêneros fitoparasitas e reforçou que Meloidogyne e Pratylenchus seguem entre os mais relevantes. Em soja cultivada em dois biomas brasileiros, o conjunto de comunidades bacterianas e nematoides também confirmou que a distribuição dos fitoparasitas é fortemente dependente do ambiente e do manejo. (ScienceDirect)
Para Pratylenchus brachyurus especificamente, a literatura recente continua apontando perdas relevantes. O estudo de 2022 em soja informa que o nematoide pode reduzir a produtividade em cerca de um terço e que, em condições favoráveis ao parasitismo, as perdas podem chegar a 30%, principalmente em solos arenosos e com chuva irregular. O trabalho de 2025 em Ciência Rural reforça que a espécie é “frequentemente encontrada” em raízes de soja e associada a danos crescentes e perdas econômicas substanciais. (ResearchGate)
8) O que a pesquisa recente sugere para o produtor e para o técnico
A mensagem prática da literatura é coerente: o tiofanato-metílico pode entrar no programa, mas não como eixo central do controle de nematoides. O uso mais defensável é em tratamento de sementes, em cenários onde há risco simultâneo de patógenos fúngicos de solo e nematoides no arranque inicial, sempre avaliando compatibilidade de mistura, histórico da área e resposta agronômica local.
Para áreas com histórico de P. brachyurus e Meloidogyne, a prioridade deve ser montar um sistema com rotação e plantas de cobertura, de preferência com espécies menos suscetíveis, além de bioinsumos. O estudo de 2025 com soja mostrou que coberturas e bionematicidas tiveram efeito aditivo e entregaram ganhos claros de controle e produtividade, o que é um padrão muito mais consistente do que esperar controle suficiente apenas de uma mistura fungicida.
Na mesma linha, a revisão de 2023 sobre fungos nematófagos e a edição de 2025 sobre doenças de nematoides reforçam o valor de agentes biológicos, microbiota funcional e práticas regenerativas do solo. A revisão de 2023 sobre vinasse em soja também indica que resíduos orgânicos podem reduzir populações de nematoides-das-galhas e favorecer microrganismos benéficos, ampliando o leque de estratégias não químicas. (MDPI)
Por fim, o componente de monitoramento não pode ser ignorado. O acompanhamento de ocorrência, distribuição e identificação de espécies — como mostram estudos recentes em Meloidogyne na Croácia e as análises brasileiras de comunidades de nematoides em soja — é o que permite decidir se um tratamento de sementes com tiofanato-metílico realmente faz sentido naquela área, ou se ele só aumentaria custo e pressão de seleção sem entregar retorno técnico. (MDPI)
Tabela-resumo
| Ponto-chave | O que a evidência recente indica | Implicação prática |
|---|---|---|
| Natureza do produto | O tiofanato-metílico é um benzimidazólico antifúngico, convertido em carbendazim nas plantas e com ação focada em fungos, não em nematoides. (MDPI) | Não tratá-lo como nematicida principal. |
| Evidência em P. brachyurus | Em soja, a resposta depende da mistura; combinações testadas em 2021 mostraram antagonismo em parte dos arranjos, e fipronil + tiofanato-metílico se destacou mais que o produto isolado. | Usar com validação local e nunca como solução única. |
| Manejo integrado | Rotação, coberturas e bionematicidas reduziram fortemente P. brachyurus e aumentaram produtividade em 2022–2023. | Priorizar sistema de manejo, não apenas química. |
| Solo e microbiota | pH, argila e diversidade microbiana modulam a ocorrência e o dano de nematoides em soja. (ScienceDirect) | Decisão química deve considerar diagnóstico do solo. |
Conclusões e recomendações práticas
O melhor resumo técnico é este: o tiofanato-metílico tem valor limitado e contextual no manejo de nematoides. A evidência recente não o sustenta como nematicida de ação direta e confiável; em vez disso, o produto faz mais sentido como componente de tratamento de sementes em sistemas onde fungos de solo e nematoides coexistem, especialmente no período de estabelecimento da lavoura. (MDPI)
Para produtores e consultores, a recomendação mais sólida é combinar diagnóstico de área, rotação de culturas, uso de plantas de cobertura, bionematicidas, monitoramento de espécies e, quando justificável, tratamento de sementes com fungicidas e outros ativos compatíveis. A lógica é reduzir a pressão inicial e fortalecer o sistema produtivo, em vez de tentar resolver o problema com uma molécula isolada.
Para pesquisadores, a prioridade é testar o tiofanato-metílico em arranjos realmente agronômicos, com avaliação separada de nematoide, fungos de solo, microbioma, fitotoxicidade, emergência e retorno econômico. Sem essa leitura integrada, é fácil superestimar o efeito do produto ou atribuir ao ativo uma eficiência que, na prática, vem da mistura ou do próprio sistema de manejo.
Referências
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