Introdução
Os nematoides fitoparasitas seguem entre os agentes mais caros e subestimados da agricultura.
Revisões recentes apontam perdas globais da ordem de US$ 157 bilhões por ano, com mais de 4.100 espécies de nematoides parasitas de plantas descritas, enquanto outra síntese de 2025 estima perdas médias entre 5% e 21%, com cerca de 13% como valor médio em grandes culturas. Esse impacto aparece tanto em sistemas extensivos quanto em hortaliças, fruteiras e culturas de valor agregado, especialmente quando o diagnóstico da espécie é tardio. (ScienceDirect)Ao mesmo tempo, a pressão de campo continua muito heterogênea. Um monitoramento recente de Meloidogyne na Croácia detectou o gênero em 8 de 15 condados, com quatro espécies identificadas entre 2022 e 2024, mostrando como a distribuição dos nematoides depende do histórico da área, do tipo de solo e do sistema produtivo. Em cenários assim, produtos de ação rápida continuam tendo espaço, mas a tendência geral do manejo moderno é migrar para soluções mais seletivas e mais fáceis de integrar a programas sustentáveis. (MDPI)
É nesse contexto que o carbosulfano deve ser lido hoje. A ficha ambiental do IBAMA, aprovada em dezembro de 2024, ainda o classifica como inseticida, acaricida e nematicida, e informa que o primeiro produto contendo o ingrediente ativo foi aprovado no Brasil em 2006. Ou seja, ele permanece como ferramenta regulatória e agronômica em alguns mercados, mas já sob forte escrutínio ambiental e de segurança.
1) Onde o carbosulfano se encaixa na nematologia atual
A revisão de 2025 sobre nematicidas coloca o carbosulfano entre os nematicidas tradicionais que ainda aparecem em uso ou em histórico de uso: compostos neurotóxicos de ação ampla, com atividade sobre nematoides, mas também com limitações sérias de seletividade e de impacto ambiental. O mesmo trabalho destaca que o portfólio antigo de nematicidas, incluindo carbamatos e organofosforados, sofre restrições crescentes por toxicidade, contaminação de água e pressão regulatória. (MDPI)
Em termos funcionais, o carbosulfano pertence ao grupo dos carbamatos de benzofuranila e se comporta como um nematicida neurotóxico de ação sistêmica/locally systemic no contexto do solo e da planta. A leitura mais segura a partir da literatura recente é que ele age pela mesma lógica de outros carbamatos clássicos: interferência na função neuromuscular do nematoide, levando à redução da movimentação, da penetração e da alimentação. Essa explicação é uma inferência de classe, mas é a mais compatível com as revisões modernas sobre nematicidas neuroativos. (MDPI)
2) Evidência recente em cana-de-açúcar
A evidência mais clara de eficácia recente vem da cana-de-açúcar. Em um estudo de campo publicado em 2022, o carbosulfano foi o tratamento químico mais eficiente contra nematoides fitoparasitas na área infestada, reduzindo as populações por pelo menos quatro meses após o plantio; os autores também relataram 11% de aumento de produtividade em relação à testemunha. Esse resultado é relevante porque mostra que, mesmo em um sistema perene e com pressão contínua de nematoides, o produto ainda pode entregar resposta agronômica real. (SciELO Brasil)
A mesma linha de evidência reforça que a superioridade do carbosulfano foi observada sobretudo contra Pratylenchus spp., ou seja, nematoides-das-lesões. Isso é coerente com a realidade da cultura da cana, em que Pratylenchus zeae e P. brachyurus são problemas recorrentes e podem causar perdas importantes na longevidade do canavial. Em campo, portanto, o carbosulfano se comporta mais como uma ferramenta de supressão inicial e de manutenção da sanidade do sistema do que como solução definitiva. (SciELO Brasil)
3) Evidência recente em cardamomo e o que ela ensina
Em cardamomo, um estudo de 2022 mostrou que o carbosulfano foi significativamente melhor do que a testemunha para reduzir os sintomas de nematoides-das-galhas, mas não foi o líder em desempenho agronômico quando comparado aos melhores agentes biológicos. Na parte aérea, o tratamento com carbosulfano reduziu o encurtamento foliar em 67,34% sobre a testemunha; na raiz, o número de galhas caiu 42,25% em relação ao controle. (ResearchGate)
O dado mais importante, porém, veio da análise econômica. O mesmo trabalho mostrou que o carbosulfano teve BCR de 1,52, enquanto combinações biológicas como Purpureocillium lilacinum + neem cake chegaram a 2,99. Em outras palavras, o carbosulfano funcionou, mas o retorno econômico foi inferior ao de sistemas biológicos mais integrados. Isso ajuda a entender o deslocamento recente do produto: eficácia isolada não basta quando o custo ambiental e a sustentabilidade entram no cálculo. (ResearchGate)
4) Evidência recente em turmeric sob coco e a consistência do efeito
Em turmeric cultivado sob coco, um estudo de 2024 também encontrou efeito favorável do carbosulfano. O tratamento padrão com carbosulfano apresentou reduções máximas de 67% no solo e 87% na raiz em relação ao controle, além de registrar produtividade superior à testemunha. O mesmo ensaio, porém, mostrou que o melhor tratamento biológico com Pochonia chlamydosporia foi competitivo ou superior em vários desfechos, reforçando novamente que o carbosulfano é eficiente, mas já não é a opção mais promissora quando se considera desempenho global e sustentabilidade. (Revistas de Pesquisa Agrícola Indígena)
Essa comparação entre químico e biológico é central para a interpretação moderna do carbosulfano. O produto ainda reduz população e galhas, mas a literatura recente aponta que a vantagem relativa vem diminuindo diante de alternativas biológicas, cobertura do solo, manejo integrado e novos nematicidas de perfil mais seletivo. O resultado prático é que o carbosulfano continua útil em janelas específicas, porém perdeu o protagonismo técnico que teve em décadas anteriores. (ScienceDirect)
5) O que há de novo em 2025: o produto ainda responde, mas o cenário muda
Uma evidência recente em forma de preprint de 2025 reforça esse quadro. No sistema de cana-de-açúcar, o carbosulfano foi descrito como o tratamento mais eficiente para Pratylenchus spp., reduzindo as populações nas raízes por pelo menos quatro meses após o plantio. Como o estudo é um preprint, ele deve ser lido com cautela, mas o padrão que emerge é coerente com o trabalho de 2022: o carbosulfano ainda pode segurar a infestação em sistemas com alta pressão inicial. (SciELO Preprints)
Mesmo assim, a direção do mercado e da pesquisa já é outra. Revisões de 2025 mostram que a busca atual está centrada em nematicidas mais seletivos, em biocontrole e em resistência de plantas, porque a tolerância a químicos clássicos, o risco ocupacional e os impactos ecológicos já não são aceitáveis como antes. O carbosulfano, portanto, passa a ocupar uma posição de ferramenta antiga ainda funcional, mas cada vez menos compatível com os objetivos de IPM moderno. (ScienceDirect)
6) Limitações ambientais e de segurança
A ficha ambiental do IBAMA não deixa dúvida de que o ingrediente exige cautela. O documento de 2024 registra o carbosulfano como um composto de uso agrícola com propriedades físico-químicas que demandam avaliação ambiental detalhada, e o próprio perfil o enquadra como ingrediente de classe ampla e persistência relevante no ecossistema. Isso por si só já indica que o produto não deve ser tratado como uma intervenção “neutra” para o solo.
A toxicologia recente reforça esse alerta. Em 2025, Scientific Reports mostrou que o carbosulfano causou mortalidade, alterações comportamentais, lesões histopatológicas e aumento de biomarcadores de estresse oxidativo em Tubifex tubifex, com LC50 de 8,31 mg/L em 96 horas e elevação de CAT, SOD e MDA em doses subletais. Embora o organismo teste não seja um nematoide fitoparasita, o estudo é valioso porque confirma o potencial de dano a organismos não-alvo do solo e da água. (Nature)
7) Situação regulatória: Brasil, União Europeia e comércio internacional
No plano regulatório, o cenário também mudou. A base de substâncias ativas da União Europeia registra o carbosulfano como “Not approved” sob o Regulamento (EC) No 1107/2009, e a atualização de 2025 da Convenção de Roterdã incluiu o carbosulfano no Anexo III, com entrada em vigor em 22 de outubro de 2025. Em termos práticos, isso sinaliza um regime internacional de atenção reforçada e maior restrição ao comércio e ao uso. (European Commission)
Na União Europeia, a tendência de controle de resíduos também é apertada. O relatório EFSA de 2024 sobre resíduos de pesticidas nos alimentos mostrou que, em 2022, 96,3% das amostras ficaram abaixo do LMR e 3,7% excederam o limite; como o carbosulfano não é aprovado na UE, seus LMRs são tratados no nível de quantificação. Isso não é uma recomendação direta sobre o carbosulfano em nematologia, mas ajuda a entender o ambiente regulatório em que esse ingrediente opera hoje. (EFSA Online Library)
Tabela-resumo
| Aspecto | O que a literatura recente mostra | Leitura prática |
|---|---|---|
| Classe e função | Carbosulfano segue classificado no Brasil como inseticida, acaricida e nematicida. | Ainda é uma ferramenta agrícola formal em alguns mercados. |
| Eficácia em cana | Reduziu Pratylenchus spp. por até quatro meses e elevou a produtividade em 11%. (SciELO Brasil) | Útil em áreas com pressão moderada/alta, sobretudo no arranque do cultivo. |
| Eficácia em cardamomo | Reduziu galhas e sintomas, mas teve BCR 1,52, abaixo de opções biológicas. (ResearchGate) | Funciona, mas não é a opção economicamente mais forte em todos os cenários. |
| Turmeric sob coco | Redução de 67% no solo e 87% na raiz; biológico competitivo/superior em vários parâmetros. (Revistas de Pesquisa Agrícola Indígena) | O químico ajuda, mas o biológico ganha espaço. |
| Segurança ecológica | Causou danos e estresse oxidativo em organismo não-alvo de solo/água. (Nature) | Exige uso criterioso e atenção a impactos ambientais. |
| Regulação | Não aprovado na UE e incluído no PIC/Rotterdam em 2025. (European Commission) | Tendência global de restrição crescente. |
Conclusões
A leitura mais honesta da literatura recente é que o carbosulfano ainda controla nematoides, mas já não ocupa o centro da nematologia aplicada. Em cana, cardamomo e turmeric, os trabalhos de 2022 a 2025 mostram redução de população, de galhas e até ganho de produtividade; isso confirma que o ingrediente segue funcional em contextos específicos. (SciELO Brasil)
Ao mesmo tempo, a própria literatura recente e o arcabouço regulatório mostram que o produto pertence a uma classe antiga, pouco seletiva e com maiores riscos ambientais. A combinação de toxicologia para organismos não-alvo, restrições internacionais e avanço de alternativas biológicas e de nematicidas mais seletivos faz com que o carbosulfano seja hoje mais uma ferramenta de transição do que uma solução de futuro. (MDPI)
Recomendações práticas
Para o produtor, o carbosulfano só faz sentido quando há histórico confirmado de nematoides, pressão econômica suficiente e ausência de alternativas mais sustentáveis com desempenho equivalente. Em cana e em algumas culturas especiais, ele ainda pode entrar como ferramenta de supressão inicial, mas a decisão deve ser tomada com diagnóstico da espécie, histórico da área e avaliação de retorno econômico. (SciELO Brasil)
Para o técnico, a recomendação é evitar o uso automático do produto como padrão. A literatura recente mostra que, em vários sistemas, biocontrole e rotação integrada já entregam melhor relação custo-benefício, e que o carbosulfano tende a perder valor quando a pressão do nematoide é média ou quando o sistema de cultivo permite alternativas mais limpas. (ScienceDirect)
Para o pesquisador, a agenda mais útil é comparar o carbosulfano com produtos de nova geração, com bioinsumos e com sistemas de rotação, medindo não só nematoides, mas também microbiota, rentabilidade e impacto ecotoxicológico. É esse tipo de análise que separa um produto “eficaz” de um produto realmente “viável” para a agricultura que vem pela frente. (MDPI)
Referências
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MANDAL, Ahamadul Hoque et al. Carbosulfan-induced physiological, histopathological, and ultrastructural alterations in Tubifex tubifex (Müller, 1774). Scientific Reports, v. 15, art. 26321, 2025. (Nature)
PERVEZ, R.; RAJKUMAR; EAPEN, S. J.; SUREKHA, R. Management of root-knot nematode Meloidogyne incognita infesting turmeric (Curcuma longa) under coconut cropping system. The Indian Journal of Agricultural Sciences, 2024. (Revistas de Pesquisa Agrícola Indígena)
PIC / Rotterdam Convention. Listing of carbosulfan and fenthion in Annex III to the Rotterdam Convention. 2025. (pic.int)
REHAK BIONDIĆ, T. et al. Monitoring of root-knot nematodes (Meloidogyne spp.) in Croatia (2022–2024): occurrence, distribution and species identification. Agronomy, 2025. (MDPI)
SATHYAN, T.; et al. Evaluation of bio-agents, synthetic insecticides and organic amendment against the root-knot nematode, Meloidogyne spp. in cardamom (Elettaria cardamomum (L.) Maton). 2022. (ResearchGate)
TOMAR, P.; THAKUR, D.; KAMTA, S.; SHARMA, S.; NEGI, Y.; KAUR, N.; YADAV, N.; YADAV, A. Integrating plant defense responses in managing nematode threats for agricultural sustainability: a review. 2025. (ScienceDirect)
YAN, D. et al. Recent Advances in Nematicides and Their Modes of Action. Agriculture, v. 16, n. 1, art. 21, 2025. (MDPI)
EUROPEAN COMMISSION. EU Pesticides Database – Active substance details: Carbosulfan. 2025. (European Commission)
EFSA. The 2022 European Union report on pesticide residues in food. 2024. (EFSA Online Library)
LUTUF, H. et al. A comprehensive review of ecologically friendly strategies for managing plant-parasitic nematodes: key issues and future prospects. CABI Reviews, 2025. (Cabi Digital Library)
Khan, M. R. et al. Plant-Parasitic Nematodes Impacting Global Food Security. CABI chapter, 2025. (Cabi Digital Library)
Bionematicides in sugarcane planting. SciELO preprint, 2025. (SciELO Preprints)

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