terça-feira, 28 de abril de 2026

Bacillus paralicheniformis no controle de nematoides



Introdução

Os nematoides fitoparasitas continuam entre os principais agentes de perda de produtividade na agricultura.

Revisões recentes colocam as perdas globais em uma faixa ampla, mas sempre bilionária: cerca de US$ 80 bilhões por ano em uma síntese de 2025 e aproximadamente US$ 125 bilhões anuais, equivalentes a perto de 14% da produção agrícola, em um estudo de 2023/2025 amplamente citado na literatura recente. Esse cenário explica por que biocontrole e manejo integrado ganharam tanta relevância nos últimos anos. (Frontiers)

A distribuição desses nematoides não é homogênea. Em um levantamento regional no norte de Portugal, 406 amostras de solo mostraram que pastagens abrigam comunidades mais diversas de nematoides fitoparasitas do que outros usos do solo. Em tomate protegido na África do Sul, uma avaliação pré-plantio encontrou 56 gêneros de nematoides, com Meloidogyne como o gênero mais prevalente; em algumas áreas, a infestação chegou a 50% das plantas e aumentou fortemente em solos arenosos. Esses dados reforçam que o problema depende do ambiente, do sistema de cultivo e da espécie-alvo. (ScienceDirect)

É nesse contexto que Bacillus paralicheniformis passou a chamar atenção. No Brasil, a Anvisa o enquadra na monografia B60 como nematicida e inseticida microbiológico, com uso autorizado nas culturas onde ocorram os alvos biológicos e sem restrições específicas na monografia. Isso não substitui a necessidade de validação agronômica local, mas mostra que a espécie já ocupa lugar oficial entre os agentes biológicos com potencial de uso prático.

Seção central

1. Onde a evidência direta é mais forte

A base experimental mais robusta para B. paralicheniformis vem da linhagem TB197, isolada de rizosfera do Deserto de Sonora, no México. Em triagem com 100 isolados termotolerantes, o secretoma de TB197 foi o mais ativo, com mais de 95% de atividade nematicida contra Meloidogyne incognita em ensaios in vitro e in vivo. O mesmo trabalho mostrou efeito sobre M. enterolobii em tomate e sobre Radopholus similis em banana. (Frontiers)

Os resultados de campo são particularmente importantes. Em tomateiro, os endósporos de TB197 reduziram em 81% a severidade causada por M. enterolobii em teste de campo aberto e diminuíram em 84% o índice de galhas em casa de vegetação. Em banana, a mesma linhagem reduziu em 81% a necrose radicular causada por R. similis. Em termos práticos, isso indica que a espécie não está restrita ao efeito de laboratório; há sinal consistente de desempenho agronômico. (Frontiers)

2. O papel das lipopeptídeos e do secretoma

A discussão mecanística ganhou força com o estudo comparativo de 2023 entre B. paralicheniformis TB197 e B. subtilis ATCC 21332. O trabalho mostrou que TB197 produz várias famílias de lipopeptídeos — fengycin A, fengycin B, surfactina e lichenisina — e que seu extrato lipopeptídico teve atividade nematicida 2,1 vezes maior do que a de B. subtilis no modelo Caenorhabditis elegans. O ponto mais relevante é que as frações com fengycinas e lichenisinas apresentaram as maiores mortalidades no ensaio. (ResearchGate)

Esse resultado é útil, mas precisa ser interpretado com cautela. C. elegans é um modelo experimental de nematoide, não um fitonematoide de campo. Mesmo assim, a comparação indica que o arsenal bioquímico de TB197 é mais diversificado e mais potente do que o de uma linhagem referência de B. subtilis, o que fortalece a hipótese de uso da espécie em bioinsumos nematicidas. (ResearchGate)

O próprio artigo de 2023 sugere que o secretoma de TB197 contém compostos compatíveis com sideróforos e lipopeptídeos cíclicos, e afirma que esses metabólitos explicam parte da atividade observada. Em outras palavras, a ação da bactéria não parece depender de um único fator, mas de um conjunto de moléculas bioativas que atuam sobre o nematoide e sobre o ambiente radicular. (Frontiers)

3. Como Bacillus spp. agem e onde B. paralicheniformis se encaixa

As revisões recentes sobre Bacillus e nematoides apontam três mecanismos centrais: produção de compostos nematicidas, indução de resistência sistêmica na planta e degradação de cutícula e ovos. Em termos práticos, isso significa que a bactéria pode reduzir a penetração do nematoide, enfraquecer juvenis e ovos, e ainda “preparar” a planta para responder melhor ao ataque. (Frontiers)

A revisão de 2025 também destaca que Bacillus spp. produzem lipopeptídeos, proteases e outras moléculas capazes de afetar raízes e nematoides ao mesmo tempo. No caso de B. paralicheniformis, o que a literatura permite afirmar hoje é uma inferência forte baseada no gênero: a espécie compartilha com outros Bacillus os caminhos bioquímicos que suportam o biocontrole, e TB197 já mostrou, na prática, que esse potencial se traduz em supressão de nematoides fitoparasitas. (Frontiers)

4. Adaptação ao ambiente e consistência de campo

Um ponto favorável a TB197 é sua origem e seu desempenho ecológico. O isolado veio de uma rizosfera de ambiente extremo, e o estudo mostrou que ele se multiplicou com sucesso em diferentes solos rizosféricos, sob climas e culturas distintas. Em biocontrole, isso importa muito: um agente promissor precisa sobreviver, colonizar a raiz e manter atividade em condições de campo, não apenas em laboratório. (Frontiers)

A consistência, porém, ainda é a principal limitação dos bioinsumos. Em tomate nethouse, a severidade de Meloidogyne variou amplamente com textura do solo e com a genética do porta-enxerto, e em solos arenosos a densidade do nematoide foi maior. Em Portugal, o tipo de uso do solo também alterou a diversidade de nematoides fitoparasitas. Isso sugere que a resposta a B. paralicheniformis provavelmente será melhor quando o agente for inserido em sistemas favoráveis de manejo e diagnóstico correto. (Springer)

5. Do laboratório à lavoura: por que o manejo integrado continua obrigatório

A literatura recente sobre complexos de doença mostra que nematoides não agem sozinhos com frequência. Eles podem ferir raízes, facilitar entrada de fungos e bactérias e ainda alterar a microbiota da rizosfera, amplificando o dano final. Isso ajuda a explicar por que um bioagente como B. paralicheniformis tende a performar melhor quando reduz, ao mesmo tempo, o nematoide e o estresse biológico do solo.

A revisão de 2025 sobre manejo de nematoides por Bacillus reforça exatamente esse ponto: o uso mais racional é integrado, combinando resistência genética, práticas culturais, microbiologia do solo e intervenções químicas quando estritamente necessárias. Em agricultura protegida, isso é ainda mais importante porque a pressão de nematoides se acumula com facilidade. (Frontiers)

No Brasil, a monografia B60 da Anvisa ajuda a posicionar a tecnologia no mercado, mas não elimina a necessidade de ajuste local. O fato de o ingrediente ativo estar classificado como nematicida e inseticida microbiológico e autorizado nas culturas onde ocorram os alvos mostra viabilidade regulatória; o fato de os resultados variarem por cultura, solo e nematoide mostra que o uso deve ser técnico e contextualizado.

Tabela-resumo

EixoO que a evidência recente mostraLeitura prática
Evidência diretaTB197 apresentou >95% de atividade nematicida contra M. incognita e reduziu severidade de M. enterolobii e R. similis em ensaios de casa de vegetação e campo. (Frontiers)Há sinal real de eficiência agronômica.
Mecanismo bioquímicoTB197 produz fengycinas, surfactina e lichenisina; fengycinas e lichenisinas mostraram maior mortalidade em nematoide-modelo. (ResearchGate)O efeito parece vir de um pacote de metabólitos, não de uma molécula isolada.
Base de gêneroBacillus spp. atuam por compostos nematicidas, resistência sistêmica e degradação de cutícula. (Frontiers)B. paralicheniformis herda um repertório biológico favorável ao biocontrole.
AmbienteEm solos arenosos e sistemas intensivos, a pressão de nematoides aumenta; em Portugal e na África do Sul, o uso do solo e a textura alteraram fortemente as comunidades. (ScienceDirect)O produto precisa ser encaixado no diagnóstico da área.
RegulaçãoA Anvisa classifica a espécie como nematicida e inseticida microbiológico.Há respaldo regulatório, mas o desempenho deve ser validado localmente.

Conclusões

A leitura mais honesta da literatura recente é que Bacillus paralicheniformis já tem evidência experimental forte, sobretudo para a linhagem TB197, com ação sobre Meloidogyne incognita, M. enterolobii e Radopholus similis. Os dados de campo e de casa de vegetação são consistentes o suficiente para colocá-lo entre os bioagentes promissores contra nematoides fitoparasitas. (Frontiers)

Ao mesmo tempo, a literatura ainda mostra que a espécie está em uma fase em que o potencial é mais claro do que a padronização do uso. A melhor interpretação é tratá-la como uma ferramenta biológica real, mas dependente de cepa, formulação, cultura, solo e pressão do nematoide. Em nematologia aplicada, isso significa promissor, porém não universal. (ResearchGate)

Recomendações práticas

Para o produtor rural, B. paralicheniformis faz mais sentido em áreas com histórico confirmado de nematoides, especialmente onde o diagnóstico mostre Meloidogyne ou nematoides que ferem o sistema radicular. O melhor posicionamento é dentro de um programa integrado, com tratamento de sementes, manejo de solo, rotação e monitoramento populacional. (Springer)

Para o pesquisador, a prioridade agora é ir além do “funciona ou não funciona” e responder três perguntas: quais metabólitos são os mais importantes, como a bactéria coloniza diferentes solos e quais condições de formulação preservam sua atividade. Ensaios comparativos entre cepas, formulações e espécies-alvo são o caminho mais seguro para transformar o potencial em recomendação confiável. (ResearchGate)

Para estudantes e técnicos, a síntese é simples: Bacillus paralicheniformis não é apenas “mais um Bacillus”. A espécie já mostrou capacidade de suprimir nematoides em condições controladas e de campo, produz metabólitos com atividade nematicida e ocupa hoje um espaço regulatório concreto. O passo seguinte é usar essa ferramenta com diagnóstico, integração e prudência agronômica.

Referências

BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. B60 Bacillus paralicheniformis a partir de 09.03.2023. Brasília, 2023.

CARVALHO, Rui P. et al. Distribution of plant-parasitic nematode communities across land-use types in the North of Portugal. Applied Soil Ecology, v. 206, 105852, 2025.

CHAVARRIA-QUICAÑO, Estefany et al. Native Bacillus paralicheniformis isolate as a potential agent for phytopathogenic nematodes control. Frontiers in Microbiology, v. 14, 1213306, 2023.

CHAVARRIA-QUICAÑO, Estefany et al. Nematicidal lipopeptides from Bacillus paralicheniformis and Bacillus subtilis: a comparative study. Applied Microbiology and Biotechnology, v. 107, p. 1537-1549, 2023.

MATLALA, F. L. et al. Prevalence of plant-parasitic nematodes in nethouse tomato production in Limpopo Province, South Africa, and relationships with physico-chemical soil properties. Journal of Plant Diseases and Protection, 2025.

PARRADO, L. M.; QUINTANILLA, M. Plant-parasitic nematode disease complexes as overlooked challenges to crop production. Frontiers in Plant Science, v. 15, 1439951, 2024.

VASANTHA-SRINIVASAN, P. et al. The role of Bacillus species in the management of plant-parasitic nematodes. Frontiers in Microbiology, v. 15, 1510036, 2025.


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