sexta-feira, 3 de abril de 2026

Paecilomyces lilacinus ( Purpureocillium lilacinum ) no controle de nematoides


Introdução

Os fitonematoides seguem entre os principais limitantes da produção agrícola, com perdas globais estimadas em 12,3% da produção anual e impacto econômico que pode chegar a US$ 173 bilhões por ano quando se consideram grandes culturas em escala mundial.

Revisões recentes reforçam que a pressão desses organismos tende a crescer com a intensificação agrícola e as mudanças climáticas, o que torna o manejo biológico uma necessidade prática, e não apenas uma alternativa conceitual.

Nesse contexto, Paecilomyces lilacinus merece atenção porque a literatura recente o trata, na nomenclatura atual, como Purpureocillium lilacinum. A espécie ocorre naturalmente em solo e rizosfera, apresenta ampla tolerância ambiental e já aparece em formulações comerciais e em estudos de campo contra nematoides de diferentes culturas.

1. O que faz desse fungo um agente biocontrolador relevante

O valor de P. lilacinum está no fato de que ele não atua por um único mecanismo. A espécie pode parasitar ovos e estágios juvenis de nematoides, colonizar a rizosfera e ainda contribuir para o vigor da planta, o que ajuda a explicar sua permanência como uma das ferramentas biológicas mais estudadas para nematoides de galha e outros fitonematoides.

A literatura recente também mostra que a espécie é ecologicamente flexível. No estudo com soja e solo de eggplant, o fungo foi descrito como capaz de crescer em ampla faixa de temperatura e pH; em outro trabalho de 2022, isolados de P. lilacinum mantiveram desenvolvimento sob estresse hídrico e térmico, com capacidade saprofítica e, em um dos isolados, colonização endofítica de raízes de tomate. Isso é importante porque biocontrole em campo depende de sobrevivência fora do laboratório.

2. Como o fungo ataca os nematoides

O efeito mais direto é a parasitização de ovos e juvenis. Em eggplant, observou-se microscopia mostrando penetração direta nos ovos e contato com juvenis de Meloidogyne incognita, com redução dose-dependente da eclosão e da sobrevivência. No chickpea, os autores também confirmaram ação sobre juvenis e ovos, reforçando que o fungo não depende apenas de “competição no solo”, mas invade e destrói estruturas do nematoide.

Esse ataque direto é sustentado por enzimas hidrolíticas. Em 2024, um trabalho focado em chickpea mostrou atividade elevada de quitinase e conteúdo proteico em isolado de maior desempenho, além de mortalidade de juvenis de 88,36% e inibição de eclosão de até 93,50% em condições de cultivo da linhagem mais promissora. Esses números ajudam a entender por que alguns isolados performam melhor que outros.

No nível bioquímico, a produção de proteases é um componente central. Um estudo de 2024 em Frontiers in Microbiology mostrou que fontes complexas de carbono e nitrogênio induzem fortemente a secreção de proteases em P. lilacinum e identificou 14 proteases no proteoma, incluindo serinoendopeptidases S8 e aminopeptidase, com maior atividade em relações C:N mais altas. Isso é coerente com a agressividade do fungo contra a cutícula e os tecidos do nematoide.

Além disso, a espécie produz outros metabólitos com efeito antifúngico e nematicida. A revisão de 2024 sobre o fungo destaca a presença de enzimas extracelulares, secundários bioativos e, em alguns isolados, produção de leucinostatinas e outras moléculas associadas ao desempenho biocontrolador. Em termos práticos, isso significa que a ação do fungo pode continuar mesmo antes do contato físico pleno com o alvo.

3. O que os estudos recentes mostram em diferentes culturas

Em eggplant, o efeito foi claro: a inoculação prévia com P. lilacinum reduziu em 62% o número de galhas e em 52% a população do nematoide, além de atenuar as perdas de altura, biomassa e pigmentos fotossintéticos causadas por M. incognita. Esse é um dos argumentos mais fortes a favor do uso preventivo, antes da instalação do patógeno.

Em tomate, o isolado AUMC 10149 apresentou desempenho expressivo: o artigo de 2024 reportou 97,6% de mortalidade de juvenis e 79,8% de inibição de eclosão após 72 horas. A mesma linha de trabalho indica que a aplicação antes do plantio e a inoculação antecipada tendem a melhorar a resposta da cultura, o que reforça a lógica de uso preventivo e não corretivo.

Ainda em tomate, o estudo de 2024 com isolados endofíticos e P. lilacinum mostrou que o fungo reduziu significativamente a reprodução de Meloidogyne incognita, com queda de 84,27% no número de massas de ovos por raiz, 63,10% em J2 por 100 g de solo e 91,01% nas massas de ovos por 100 g de solo. O fator de reprodução caiu para 0,679, e a população ficou abaixo de limiar econômico relevante.

No chickpea, a linhagem IIPR-Pl-11 foi a mais consistente entre os isolados testados: a redução atingiu 41,3 galhas por planta, 28,3 massas de ovos por planta e 284,3 juvenis por 200 cc de solo, com forte produção de quitinase ao longo do tempo. Esse tipo de dado é importante porque mostra que a seleção do isolado é decisiva para a performance do bioagente.

Em formulações práticas, o fungo também foi testado com sucesso como bionematicida. Um estudo de 2024 em tomate e goiaba relatou que doses de 20–40 g por planta ou 7–13 g por kg de solo reduziram populações de juvenis e danos radiculares em tomate, e que a mistura com composto de bromelina foi mais eficaz do que carbofurano em mudas de goiaba. Além disso, o próprio artigo observa estímulo ao crescimento vegetal.

4. Integração com outros agentes e produtos

Os melhores resultados recentes aparecem quando P. lilacinum entra em programas integrados. Em tomate, a combinação do fungo com Pseudomonas fluorescens e Serratia marcescens reduziu massas de ovos, J2 no solo e o fator de reprodução de M. incognita; o tratamento com P. lilacinum sozinho ainda foi muito eficiente, com redução de população abaixo de limiar econômico.

Em outro estudo, a associação de Purpureocillium lilacinum com Bacillus amyloliquefaciens contra Meloidogyne enterolobii em pepino reduziu em 84% o número de ovos por grama de raiz e também diminuiu o índice de galhas. Curiosamente, as aplicações isoladas não se destacaram, o que mostra que a sinergia microbiana pode ser mais importante do que cada agente separadamente.

Há também bons resultados em mistura com nematicidas de menor impacto. No citrus, a combinação de P. lilacinum AUMC 10620 com avermectina alcançou 100% de mortalidade de juvenis e 83,33% de inibição de eclosão em laboratório, e reduziu a população do nematoide em campo em cerca de 70,8%. O desempenho foi comparável a oxamyl em eficiência, com o diferencial de ser uma estratégia mais alinhada ao manejo integrado.

Um ponto prático importante é que o fungo não deve ser visto como solução única e universal. Um estudo de 2025 com um isolado endofítico de planta daninha mostrou redução de cerca de 69% da densidade de nematoides no solo em alface e pepino, mas as reduções de galhas radiculares não foram sempre estatisticamente significativas. O próprio trabalho conclui que o timing da inoculação influenciou o resultado, o que reforça a necessidade de uso preventivo e de validação local.

Tabela-síntese das evidências recentes

Sistema / estudoResposta observadaLeitura prática
Eggplant + M. incognitaGalhas -62%; nematoides -52%; biomassa e pigmentos aumentaramBoa opção preventiva no transplantio.
Tomate + AUMC 10149J2 -97,6%; eclosão -79,8%Isolado muito forte para tomate.
Chickpea + IIPR-Pl-11J2 -88,36%; eclosão até -93,50%; galhas e ovos menoresSeleção de isolado é decisiva.
Tomate + composto de bromelinaMelhor que carbofurano em goiaba; doses de 20–40 g/planta no tomateIntegração com matéria orgânica melhora o sistema.
Pepino + B. amyloliquefaciensOvos por raiz -84%Misturas microbianas podem ampliar o efeito.
Citrus + avermectina100% mortalidade J2; campo ~70% reduçãoIntegração com produto complementar é promissora.

Conclusões

Paecilomyces lilacinus — hoje mais frequentemente tratado como Purpureocillium lilacinum — permanece entre os fungos mais promissores para o controle biológico de fitonematoides porque combina parasitismo direto, produção de enzimas, metabólitos bioativos e, em alguns casos, promoção de crescimento vegetal. Os estudos recentes em tomate, eggplant, chickpea, pepino, goiaba e citrus confirmam que o fungo pode reduzir ovos, juvenis, galhas e populações no solo, com respostas que variam conforme o isolado, a cultura e o momento de aplicação.

A mensagem principal para manejo é simples: o fungo funciona melhor quando entra cedo, em área com pressão ainda controlável, e quando faz parte de um programa integrado. Em áreas muito infestadas, a combinação com compostos orgânicos, bactérias benéficas ou nematicidas de menor impacto tende a entregar resultados mais estáveis do que o uso isolado.

Recomendações práticas

Para o produtor rural, a decisão mais segura é aplicar o bioagente antes do plantio ou no início do ciclo, evitando esperar o sistema radicular já estar altamente danificado. Para pesquisadores e estudantes, a prioridade é comparar isolados sob as mesmas condições de solo, temperatura, umidade e fonte de carbono/nitrogênio, porque a literatura mostra variação real entre linhagens. Onde houver histórico de Meloidogyne, o ideal é combinar o fungo com rotação, matéria orgânica, saneamento de mudas e monitoramento de população ao longo do ciclo.

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