quinta-feira, 30 de abril de 2026

Trichoderma asperelloides no controle de nematoides

Introdução

Os nematoides fitoparasitas seguem entre os problemas mais caros e menos visíveis da agricultura.

Revisões recentes estimam perdas globais entre US$ 80 bilhões e US$ 157 bilhões por ano, com mais de 4.100 espécies de nematoides parasitas de plantas já reconhecidas. Em termos de manejo, isso significa que o dano não se limita à produtividade: ele também afeta custos, estabilidade do sistema e risco de falha em áreas de alto valor. (ScienceDirect)

A distribuição desses nematoides é fortemente influenciada pelo uso da terra e pelas condições edáficas. Em Portugal, um levantamento com 406 amostras de solo mostrou que pastagens abrigam comunidades mais diversas de nematoides fitoparasitas, enquanto em tomate protegido na África do Sul, a pré-amostragem em 26 nethouses revelou 56 gêneros nematológicos, com Meloidogyne como o gênero mais frequente e abundante. Em campo, isso reforça que o problema é altamente contextual e depende do ambiente, do histórico da área e da espécie presente. (ScienceDirect)

No caso do Trichoderma asperelloides, o interesse agronômico é grande, mas a evidência específica para nematoides ainda é mais estreita do que para outras espécies do gênero. A espécie é endofítica e já foi associada a promoção de crescimento, produção de metabólitos voláteis e respostas de defesa em plantas; ao mesmo tempo, uma revisão sistemática de 2025 mostra que, entre 114 artigos de campo sobre Trichoderma revisados para agricultura sustentável, T. asperelloides apareceu apenas uma vez, o que indica que a espécie ainda está sub-representada na prática agronômica e na nematologia aplicada. (MDPI)

1) O que se sabe sobre T. asperelloides e por que ele chama atenção

A base mais sólida para T. asperelloides vem do seu comportamento endofítico e da sua capacidade de produzir compostos bioativos. Em um estudo clássico de 2020 com a cepa PSU-P1, os voláteis emitidos pelo fungo inibiram patógenos fúngicos em uma faixa de 15,92% a 84,95%, aumentaram a massa fresca, o comprimento de raiz e o teor de clorofila de Arabidopsis thaliana, e ainda elevaram a expressão de genes ligados à defesa, como CHI e GLU. (MDPI)

Esses resultados não provam ação nematicida direta, mas explicam por que o fungo é visto como um candidato promissor para manejo de nematoides. Um agente endofítico que melhora o vigor radicular, ativa enzimas de defesa e altera o microambiente da raiz pode reduzir o impacto do parasitismo, especialmente quando o nematoide atua cedo e a planta ainda está em fase de estabelecimento. Essa leitura está em linha com revisões recentes sobre Trichoderma e microbioma vegetal. (MDPI)

Em soja, a espécie já demonstrou utilidade agronômica em escala de campo. O inoculante FT10, à base de T. asperelloides, aplicado na linha de semeadura em 5 g ha⁻¹, aumentou germinação, estande final, biomassa aérea e radicular, número e massa de nódulos, além de elevar a produtividade entre 8,9% e 15,1% em relação ao controle. Para nematologia, esse tipo de ganho é relevante porque sistemas radiculares mais robustos tendem a suportar melhor a pressão de nematoides fitoparasitas. (ResearchGate)

2) A evidência direta contra nematoides ainda é limitada

A literatura recente sobre Trichoderma e nematoides mostra que o gênero é, de fato, um dos bioagentes mais promissores para esse fim. A revisão de 2025 em Journal of Fungi destaca T. harzianum, T. longibrachiatum, T. virens e T. viride como as espécies mais estudadas contra Meloidogyne, Pratylenchus, Globodera e Heterodera, atuando por parasitismo, antibiose, competição na rizosfera, enzimas líticas e modulação de defesa vegetal. (MDPI)

Nessa mesma revisão, T. asperelloides aparece como um dos táxons testados em uma lista de espécies avaliadas contra Meloidogyne incognita em chili, mas o destaque de atividade mais forte naquele conjunto ficou com os metabólitos de T. virens, não com T. asperelloides. A mensagem é importante: a espécie entra no radar nematológico, mas ainda não é a líder de evidência direta. (MDPI)

Uma leitura semelhante aparece na revisão de 2025 sobre agricultura sustentável e desafios de eficiência do Trichoderma. Os autores mostram que a eficácia em campo depende de cepa, cultura, solo e ambiente, e recomendam caracterização detalhada de linhagens nativas e testes em condições reais. Nessa revisão, a presença de T. asperelloides em campo é pequena quando comparada às espécies mais tradicionais, o que ajuda a explicar por que a sua posição ainda é mais de candidato promissor do que de solução consolidada. (MDPI)

3) Mecanismos que tornam a espécie plausível para o manejo de nematoides

O raciocínio mecanístico para T. asperelloides se apoia no que já se conhece do gênero Trichoderma. Revisões recentes descrevem o papel de enzimas hidrolíticas, metabólitos secundários, VOCs e indução de resistência sistêmica como componentes centrais da biocontenção. Em termos simples, o fungo pode ocupar espaço na raiz, competir por recursos, liberar compostos bioativos e “preparar” a planta para reagir melhor ao ataque. (MDPI)

A revisão de 2024 sobre mecanismos de promoção de crescimento mostra que Trichoderma produz sinais com atividade semelhante a hormônios, como IAA e VOCs, além de favorecer a absorção de nutrientes e água. Isso importa para a nematologia porque nematoides reduzem o sistema radicular funcional; um microrganismo que aumenta raiz, clorofila e defesa tende a amortecer o dano mesmo quando não reduz drasticamente a população do parasita. (ScienceDirect)

Os VOCs de T. asperelloides PSU-P1 reforçam essa ideia. O estudo de 2020 identificou compostos como 2-metil-1-butanol, 2-pentilfurano, ácido acético e 6-pentil-2H-piran-2-ona (6-PP), todos ligados a efeitos antifúngicos e de promoção de crescimento. Em A. thaliana, esses VOCs aumentaram biomassa e raiz e elevaram as atividades de POD, CHI e GLU, sugerindo ativação de defesas que também pode ser útil contra nematoides, sobretudo no nível de resistência induzida. (MDPI)

Há ainda um ponto prático: o interesse recente em Trichoderma saiu da lógica da cepa isolada e avançou para inoculantes multicomponentes. A revisão de 2024 sobre inoculantes com Trichoderma mostra que combinações com outros microrganismos, como Bacillus e Pseudomonas, podem ampliar a eficiência do biocontrole e da promoção de crescimento, embora a compatibilidade deva ser testada caso a caso. Para uma espécie como T. asperelloides, isso abre caminho para uso mais consistente em sistemas de manejo integrado. (Springer)

4) O que os dados de campo e de biodiversidade sugerem para a prática

A ecologia do nematoide ajuda a decidir onde um bioagente como T. asperelloides pode funcionar melhor. No norte de Portugal, pastagens exibiram comunidades de nematoides fitoparasitas mais diversas, e o estudo conclui que variáveis de uso da terra e propriedades do solo mudam fortemente a estrutura dessas comunidades. Em tomate protegido na África do Sul, Meloidogyne ocorreu em todos os seis nethouses avaliados, teve a maior densidade média populacional e foi acompanhado por quatro espécies diferentes, inclusive M. enterolobii, mostrando que áreas intensivas podem acumular pressão múltipla de fitonematoides. (ScienceDirect)

Na prática, isso significa que um agente endofítico e rizocompetente como T. asperelloides tende a fazer mais sentido quando aplicado cedo, antes de a pressão populacional explodir, e em sistemas onde a saúde do solo ainda pode ser modulada. A revisão de 2025 sobre agricultura sustentável e eficácia contextual de Trichoderma é clara ao apontar que os melhores resultados em campo dependem de solo, genótipo da cultura e desempenho da cepa em ambiente real, não apenas em teste de bancada. (MDPI)

A mesma lógica aparece no Canadá. O levantamento em 94 campos de pulse crops nas pradarias canadenses encontrou altas densidades de Pratylenchus, Paratylenchus, Helicotylenchus e Telotylenchinae, além de Ditylenchus weischeri em 20 campos e D. dipsaci em apenas um campo. Esse tipo de dado reforça a necessidade de diagnóstico específico: o nematoide presente no sistema muda a resposta esperada de qualquer bioagente.

Tabela-resumo

EixoO que a evidência recente mostraLeitura prática para T. asperelloides
Importância do problemaPPNs causam perdas bilionárias e são distribuídos em mais de 4.100 espécies. (ScienceDirect)Há espaço real para bioinsumos com ação radicular.
Prevalência em campoMeloidogyne dominou nethouses de tomate na África do Sul e Pratylenchus / Helicotylenchus foram comuns em pulse crops no Canadá. (Springer)O diagnóstico da espécie-alvo é obrigatório.
Evidência específicaT. asperelloides ainda aparece pouco em ensaios de campo; em uma revisão de 114 estudos de campo, surgiu apenas uma vez. (MDPI)É uma espécie promissora, mas subtestada para nematoides.
Mecanismos plausíveisVOCs, enzimas de defesa, crescimento radicular e indução de resistência são consistentes em T. asperelloides e no gênero Trichoderma. (MDPI)O efeito tende a ser indireto e sistêmico.
Estratégia de usoInoculantes multicomponentes e testes de compatibilidade são recomendados. (Springer)Melhor uso dentro de manejo integrado.

5) Como posicionar T. asperelloides no manejo integrado

O melhor posicionamento técnico hoje é tratar T. asperelloides como um bioagente de suporte ao sistema radicular, e não como nematicida isolado de choque. Em soja, o inoculante FT10 mostrou que a espécie pode entregar ganhos agronômicos mensuráveis em campo; em Arabidopsis, VOCs da cepa PSU-P1 ativaram crescimento e defesa; e na revisão de 2025 sobre Trichoderma contra nematoides, o gênero aparece como ferramenta de integração com rotação, extratos vegetais, adubação orgânica e variedades resistentes. (ResearchGate)

A recomendação agronômica mais segura é usar cepas identificadas e validadas localmente, preferencialmente em tratamento de sementes ou aplicação no sulco, e sempre com monitoramento do nematoide presente na área. A revisão de 2025 sobre sustentabilidade do Trichoderma insiste que a disparidade entre ambiente controlado e campo é grande e que o desempenho melhora quando há caracterização da cepa, conhecimento do solo e testes de escala. (MDPI)

Quando houver possibilidade de consórcios, a literatura recente é favorável, mas com prudência. Trichoderma pode ser combinado com outros fungos e bactérias benéficas, como Bacillus e Pseudomonas, porém o arranjo ideal depende de compatibilidade biológica e do alvo do manejo. Em outras palavras, a mistura pode ampliar a resposta, mas também pode anular ganhos se as cepas não forem compatíveis. (Springer)

Conclusões

Trichoderma asperelloides é uma espécie promissora para a agricultura sustentável, com sinais consistentes de promoção de crescimento, endofitismo e produção de VOCs e enzimas relacionadas à defesa. No entanto, quando o assunto é controle de nematoides, a literatura de 2020–2025 ainda mostra uma base mais indireta do que direta: o gênero Trichoderma tem evidência robusta, mas T. asperelloides ainda aparece pouco em ensaios nematológicos específicos. (MDPI)

Por isso, a leitura técnica mais segura é esta: T. asperelloides deve ser visto como um candidato de alto potencial para programas integrados de manejo de nematoides, especialmente onde o objetivo é fortalecer raiz, induzir defesa e melhorar a tolerância da planta. Ele não deve, por enquanto, ser vendido conceitualmente como “o” nematicida biológico definitivo, mas sim como uma peça útil de um sistema maior. (Springer)

Recomendações práticas

Para o produtor rural, o uso faz mais sentido em áreas com diagnóstico prévio de nematoides e dentro de um programa com rotação, cobertura do solo e análise da espécie presente. O momento de aplicação deve ser cedo, idealmente no estabelecimento da cultura, porque o ganho de vigor e de defesa da raiz é mais valioso antes que a população do nematoide se multiplique. (ResearchGate)

Para o pesquisador, a prioridade é aumentar o número de ensaios específicos com T. asperelloides contra Meloidogyne, Pratylenchus e Ditylenchus, em diferentes solos e sistemas de cultivo, medindo simultaneamente população do nematoide, vigor da planta, colonização endofítica e compatibilidade com outros bioinsumos. Isso é o que faltará para sair do potencial para a recomendação consolidada. (MDPI)

Para o técnico, a regra é simples: escolher cepa identificada, validar em escala local, medir o nematoide-alvo e não esperar que o produto resolva sozinho um sistema já muito contaminado. Em solos com alta diversidade de fitonematoides e histórico intenso de cultivo protegido, a melhor resposta continua sendo integrada, combinando biologia, rotação, manejo de solo e monitoramento. (ScienceDirect)

Referências

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