domingo, 10 de maio de 2026

Classificação dos nematicidas químicos

Introdução

Os nematoides fitoparasitas continuam entre os problemas mais caros e subestimados da agricultura porque atuam abaixo da superfície, reduzindo o vigor radicular, a absorção de água e nutrientes e, em muitos casos, abrindo caminho para complexos de doenças com fungos, bactérias e vírus.

Revisões recentes estimam mais de 4.100 espécies descritas de nematoides fitoparasitas e perdas anuais globais na ordem de US$ 157 bilhões, o que explica por que os nematicidas químicos permanecem estratégicos mesmo em sistemas agrícolas mais sustentáveis. (MDPI)

A classificação dos nematicidas é importante porque o termo “nematicida” reúne produtos muito diferentes entre si: alguns são fumigantes voláteis e de amplo espectro, outros são inseticidas reaproveitados para nematoides, e há ainda moléculas novas com modo de ação mais seletivo. Classificar corretamente ajuda a escolher a molécula certa, a definir o momento de aplicação e a evitar falhas associadas a solo, espécie-alvo e pressão de seleção. (PMC)

1. A base mais útil: fumigantes e não fumigantes

A primeira forma prática de classificar nematicidas químicos é separar os produtos em fumigantes e não fumigantes. Os fumigantes atuam como gases ou geradores de gases no solo, com ação ampla e histórica, enquanto os não fumigantes dependem mais do contato, da absorção radicular ou da movimentação no volume de solo tratado. Essa distinção continua sendo útil porque traduz, de imediato, diferenças em mobilidade, persistência, janela de aplicação e risco operacional. (PMC)

Historicamente, os fumigantes foram os primeiros a dominar o manejo químico: carbon disulfide, cloropicrina, brometo de metila, formaldeído, 1,3-dicloropropeno, metam sodium, DBCP, DMDS e outros marcaram a fase inicial do controle químico. O próprio histórico mostra que quase todos os nematicidas clássicos foram descobertos primeiro como esterilizantes de solo, fumigantes ou inseticidas, e não como produtos “pensados” especificamente para nematoides. (PMC)

Esses fumigantes são importantes na classificação porque têm perfil de ação multissítio ou presumidamente multissítio, o que explica seu amplo espectro e também o motivo de terem sido alvo de forte restrição regulatória ao longo do tempo. O brometo de metila, por exemplo, tornou-se um símbolo da transição histórica por ter sido eficaz, mas ambientalmente insustentável, enquanto 1,3-D, cloropicrina e metam-based products continuaram, em vários países, como referências técnicas do grupo fumigante.

2. O grupo clássico dos inibidores de acetilcolinesterase

Outra classificação essencial é a baseada no modo de ação. Nessa lógica, organofosforados e carbamatos formam o grupo dos inibidores da acetilcolinesterase (AChE), com efeito sobre a transmissão neuromuscular do nematoide. O IRAC organiza esses compostos no grupo N-1, subdividido em N-1A (carbamatos) e N-1B (organofosforados), incluindo exemplos historicamente relevantes como aldicarb, carbofuran, oxamyl, fenamiphos, fosthiazate, terbufos e outros.

Na história da agricultura, esse grupo foi decisivo porque trouxe controle consistente em uma época em que as opções eram poucas e a biologia dos nematoides era ainda pouco compreendida. A literatura recente, porém, deixa claro que muitos desses produtos foram restringidos ou banidos por toxicidade aguda, risco ocupacional e impactos ambientais, o que empurrou o setor para alternativas mais seletivas. (PMC)

Do ponto de vista técnico, carbamatos e organofosforados ainda são úteis para entender a evolução dos nematicidas porque representam a fase em que o manejo químico era, sobretudo, um manejo de choque. Hoje, eles aparecem menos como solução de rotina e mais como referência histórica e, em alguns locais, como ferramentas pontuais sujeitas a registro e restrições específicas.

3. A transição para moléculas mais seletivas

A mudança de paradigma começou quando a agricultura passou a exigir moléculas com menor toxicidade e maior seletividade. A revisão de Desaeger, Wram e Zasada mostra que os novos nematicidas diferem dos antigos porque tendem a mirar mais o nematoide, com menor impacto em organismos não alvo, ainda que permaneçam dependentes de boa tecnologia de aplicação. (PMC)

Na classificação contemporânea, isso levou à valorização de moléculas como fluopyram, fluensulfone, fluazaindolizine, tioxazafen, spirotetramat e cyclobutrifluram. O ponto principal não é apenas “novo versus antigo”, mas sim o fato de que essas moléculas ocupam classes químicas e fisiológicas distintas, o que permite organizar programas de rotação e reduzir a repetição do mesmo tipo de pressão sobre a população de nematoides. (MDPI)

4. SDHI, moduladores de canais e inibidores de lipogênese

Entre as classes mais importantes da nova geração está o grupo dos inibidores da succinato desidrogenase, representado pelo fluopyram. No esquema do IRAC, ele entra no grupo N-3, ligado à inibição do transporte de elétrons no complexo II mitocondrial. Esse enquadramento é valioso porque conecta nematicidas e fungicidas sob uma mesma lógica de modo de ação, algo relevante para resistência e para manejo integrado.

Outro grupo relevante é o das moléculas que afetam canais de cloro regulados por glutamato, tradicionalmente associadas aos avermectinas, como abamectin/ivermectin. No poster do IRAC, esse grupo aparece como N-2, e a literatura recente o mantém como referência para compreender os nematicidas derivados de compostos originalmente desenvolvidos para outras finalidades, mas reaproveitados por sua atividade sobre nematoides.

Também merece destaque o grupo dos inibidores de síntese lipídica e regulação de crescimento, representado por spirotetramat e colocado pelo IRAC no grupo N-4. Em termos históricos, ele mostra como a classificação dos nematicidas deixou de ser puramente “fumigante versus não fumigante” e passou a integrar a biologia do alvo, a fisiologia do composto e o risco de resistência.

5. As moléculas novas com modo de ação menos convencional

Fluensulfone, fluazaindolizine, tioxazafen e cyclobutrifluram representam a fase mais recente da classificação química. A revisão de 2025 organiza essas moléculas como parte de uma nova geração com alvos bioquímicos distintos e, em vários casos, ainda parcialmente elucidados. O próprio artigo destaca que a compreensão de seus mecanismos, espectros de atividade e segurança ainda está em consolidação. (MDPI)

A fluensulfone tem sido associada à inibição da beta-oxidação de ácidos graxos e à paralisação rápida dos nematoides. Na revisão de 2020, ela aparece como um dos compostos mais promissores da transição histórica, com perfil de ação mais seletivo do que fumigantes e carbamatos clássicos. (PMC)

A fluazaindolizine aparece como um nematicida não fumigante de amplo espectro, mas com mecanismo ainda classificado como “desconhecido” ou insuficientemente definido em parte da literatura e na própria classificação IRAC. O importante, do ponto de vista de manejo, é que ela ocupa um espaço de rotação diferente dos inibidores de AChE e dos SDHI, o que a torna útil em programas com maior diversidade química.

Tioxazafen também é relevante para a classificação porque foi desenvolvido para uso em sementes e se enquadra em um comportamento mais sistêmico/endereçado, com mecanismo ainda listado como desconhecido na revisão histórica. Cyclobutrifluram, por sua vez, aparece na classificação IRAC como representante de uma nova frente química, reforçando que a categoria “novos nematicidas” não é homogênea. (PMC)

6. A classificação por comportamento no solo

Além do modo de ação, a classificação por comportamento físico no solo também é muito útil. Na tabela da revisão de 2020, fumigantes aparecem com solubilidade e meia-vida curtas, enquanto moléculas como fluopyram têm persistência longa no solo, e fluazaindolizine, fluensulfone e spirotetramat ocupam faixas intermediárias ou curtas, dependendo da formulação e do contexto. Isso afeta mobilidade, residual e risco de lixiviação. (PMC)

Em termos práticos, essa diferença explica por que alguns produtos exigem incorporação, aplicação em faixas, drench, chemigation ou manejo muito cuidadoso de umidade. O IRAC ressalta que a complexidade do solo reduz persistência, mobilidade e biodisponibilidade, o que significa que a classe química não pode ser avaliada isoladamente do ambiente de aplicação.

Tabela-resumo da classificação dos nematicidas químicos

Classe principalGrupo / lógica de classificaçãoExemplos citados na literatura recenteCaracterística centralBase científica
FumigantesAção por volatilização / multissítio1,3-D, cloropicrina, metam sodium, DMDS, brometo de metila, DBCP, methyl iodideAmplo espectro, ação rápida, maior restrição regulatória(PMC)
Inibidores de AChEIRAC N-1A / N-1BAldicarb, carbofuran, oxamyl, fenamiphos, fosthiazate, terbufosInterferem na transmissão neuromuscular
AvermectinasIRAC N-2Abamectin / ivermectinModuladores de canais de cloro glutamato
SDHIIRAC N-3FluopyramInibição da respiração mitocondrial (complexo II)
Lipogênese / crescimentoIRAC N-4SpirotetramatInibição da acetil-CoA carboxilase
Novas moléculas / alvo ainda em consolidaçãoIRAC N-UN / grupos correlatosFluensulfone, fluazaindolizine, tioxazafen, cyclobutrifluramMaior seletividade e boa perspectiva de rotação

7. O que a classificação diz sobre resistência e reaplicação

O poster do IRAC traz uma observação muito importante: a resistência em condições naturais de campo ainda é considerada não confirmada e teoricamente pouco provável, em parte porque os nematicidas costumam ser usados com menor frequência do que outros pesticidas e porque o ambiente do solo reduz a exposição contínua das populações-alvo. Ao mesmo tempo, o documento alerta para biodegradação microbiana acelerada, que pode derrubar a eficácia aparente sem que haja resistência biológica verdadeira.

Isso significa que a classificação também serve para manejo de risco. Mesmo que a resistência de campo seja considerada baixa, a rotação entre classes químicas continua recomendada quando são necessárias múltiplas aplicações no mesmo ciclo ou em ciclos sucessivos. Na prática, a “classe” importa tanto quanto a marca comercial.

8. Evidência de campo: a classificação precisa conversar com a espécie-alvo

A classificação só é útil quando encontra a biologia real da área. Em tomate sob condições de estufa na Geórgia, Poudel e colaboradores avaliaram fluazaindolizine, fluensulfone, fluopyram e oxamyl contra espécies recentes de Meloidogyne e mostraram que fluensulfone suprimiu a reprodução em mais de 90% em todas as espécies, enquanto fluopyram foi menos eficaz contra M. enterolobii. Esse tipo de resultado mostra que a classe química ajuda a prever resposta, mas não substitui o diagnóstico da espécie. (ResearchGate)

Em tomate industrial na Califórnia, Ploeg e colaboradores relataram que fluazaindolizine, fluensulfone e fluopyram reduziram galhas radiculares e elevaram a produtividade estimada em diferentes graus, com resposta dependente do ensaio e da espécie. Esse padrão é típico dos nematicidas modernos: bons resultados médios, mas forte dependência do contexto agronômico. (SciELO)

Um segundo exemplo importante veio do sistema de rotação pimentão-abóbora sob plasticultura. Nnamdi, Grey e Hajihassani observaram que 1,3-D + cloropicrina e os não fumigantes fluopyram, fluensulfone, fluazaindolizine e oxamyl integraram-se ao manejo do Meloidogyne incognita em diferentes etapas do sistema, reforçando que fumigantes e não fumigantes não competem entre si, mas ocupam papéis complementares. (ScienceDirect)

9. A classificação também depende da paisagem e dos complexos de doença

A classificação dos nematicidas químicos precisa ser lida junto com a ecologia do solo. Parrado e Quintanilla destacam que nematoides participam de complexos de doença com fungos, bactérias e vírus, o que altera a severidade dos sintomas e torna o manejo químico mais ou menos efetivo conforme o contexto biológico da área. (PMC)

Além disso, a literatura recente mostra que plantas daninhas e hospedeiros alternativos sustentam a sobrevivência dos nematoides no campo. Isso é decisivo porque um nematicida pode ser quimicamente “correto”, mas fracassar se houver reinfestação contínua por hospedeiros fora da cultura. A classificação, portanto, não substitui o manejo da área; ela apenas organiza melhor a escolha do produto dentro do sistema. (PMC)

Conclusões

A classificação dos nematicidas químicos evoluiu de uma visão simples, baseada em fumigantes versus não fumigantes, para um sistema muito mais técnico, que integra modo de ação, comportamento no solo, persistência, seletividade e risco de resistência. Essa evolução reflete a própria história da nematologia agrícola: dos esterilizantes de solo aos compostos de menor risco e maior especificidade. (PMC)

Hoje, os grupos mais importantes para uso prático são os fumigantes multissítio, os inibidores de AChE, os moduladores de canais de cloro glutamato, os inibidores da SDH e as moléculas novas com modo de ação ainda em consolidação. Em conjunto, eles formam uma base de classificação suficiente para orientar rotação, posicionamento e escolha da estratégia mais adequada ao sistema de cultivo.

Recomendações práticas

Para o campo, a recomendação mais segura é começar pelo diagnóstico da espécie e pela densidade populacional, porque a resposta a fluensulfone, fluopyram e fluazaindolizine pode variar muito entre espécies de Meloidogyne. Quando a espécie não está bem definida, a escolha de classe química deve ser conservadora e integrada a outras táticas, especialmente rotação, resistência genética e manejo de hospedeiros alternativos. (ResearchGate)

A segunda recomendação é usar a classe química como critério de rotação, e não apenas a marca comercial. Em áreas que exigem mais de uma aplicação por ciclo ou aplicações repetidas ao longo dos anos, alternar entre grupos distintos reduz a chance de perda de desempenho por biodegradação microbiana acelerada e preserva melhor a utilidade da tecnologia.

A terceira recomendação é respeitar o comportamento do produto no solo. Fumigantes exigem muito mais rigor operacional; moléculas de persistência longa, como fluopyram, precisam de especial atenção ao ambiente; e compostos mais novos, como fluensulfone e fluazaindolizine, tendem a funcionar melhor quando a aplicação está bem sincronizada com a fase inicial da infestação e com a umidade adequada do solo. (PMC)

Referências

DESAEGER, Johan; WRAM, Catherine; ZASADA, Inga. New reduced-risk agricultural nematicides - rationale and review. Journal of Nematology, v. 52, e2020-91, 2020. DOI: 10.21307/jofnem-2020-091.

INSECTICIDE RESISTANCE ACTION COMMITTEE (IRAC). Nematicide mode of action classification. Poster Edition 2.2. March 2024.

NNAMDI, Chinaza; GREY, Timothy L.; HAJIHASSANI, Abolfazl. Root-knot nematode management for pepper and squash rotations using plasticulture systems with fumigants and non-fumigant nematicides. Crop Protection, v. 152, art. 105844, 2022. DOI: 10.1016/j.cropro.2021.105844.

PARRADO, L. M.; QUINTANILLA, M. Plant-parasitic nematode disease complexes as overlooked challenges to crop production. Frontiers in Plant Science, v. 15, art. 1439951, 2024. DOI: 10.3389/fpls.2024.1439951.

PLOEG, A. T.; EDWARDS, S.; LOFFREDO, A.; BECKER, J. O. Efficacy of fluorinated nematicides for management of root-knot nematodes in California processing tomatoes. Journal of Nematology, v. 56, art. e2024-0034, 2024. DOI: 10.2478/jofnem-2024-0034.

POUDEL, N.; TORRES, L.; DAVIS, R. F.; JAGDALE, G. B.; MCAVOY, T.; CHOWDHURY, I. A. Effect of non-fumigant nematicides on reproduction of recently detected Meloidogyne species in Georgia under greenhouse conditions in tomato. Horticulturae, v. 11, n. 1, art. 36, 2025. DOI: 10.3390/horticulturae11010036.

YADAV, H.; ROBERTS, P. A.; LOPEZ-ARREDONDO, D. Combating root-knot nematodes (Meloidogyne spp.): from molecular mechanisms to resistant crops. Plants, Basel, v. 14, n. 9, art. 1321, 2025. DOI: 10.3390/plants14091321.

YAN, D.; GHADERI, R.; HE, J.; CAO, A.; WANG, Q. Recent advances in nematicides and their modes of action. Agriculture, Basel, v. 16, n. 1, art. 21, 2026. DOI: 10.3390/agriculture16010021.

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