segunda-feira, 11 de maio de 2026

Modo de ação dos nematicidas

Introdução

Os nematoides fitoparasitas seguem entre os agentes mais onerosos da agricultura porque atacam o sistema radicular, reduzem absorção de água e nutrientes e frequentemente permanecem invisíveis até que a lavoura já tenha perdido potencial produtivo.

Revisões recentes estimam mais de 4.100 espécies de nematoides fitoparasitas descritas e perdas globais anuais em torno de US$ 157 bilhões, o que mantém o controle químico como componente central do manejo, apesar das restrições crescentes ao uso de moléculas antigas. (MDPI)

Compreender o modo de ação dos nematicidas é essencial porque esse grupo reúne moléculas muito diferentes entre si: fumigantes de amplo espectro, inibidores de acetilcolinesterase, moduladores de canais iônicos, inibidores de respiração mitocondrial e compostos mais novos com alvos ainda em consolidação. A literatura recente mostra que a fase atual do manejo nematicida é marcada justamente pela transição de produtos broad-spectrum para químicas mais seletivas e melhor integradas ao manejo sustentável. (MDPI)

1. A lógica da classificação por alvo fisiológico

O IRAC organiza os nematicidas por grupos de modo de ação, e essa classificação é a maneira mais útil de entender o que o produto faz no nematoide e como rotacioná-lo em campo. No esquema mais recente, aparecem grupos para inibição de AChE, modulação de canais de cloro glutamato, inibição do complexo II mitocondrial, regulação do crescimento/lipogênese e grupos com alvo ainda incerto.

Essa mudança conceitual foi importante porque o manejo deixou de ser apenas “fumigante versus não fumigante” e passou a considerar fisiologia, seletividade, persistência e risco de resistência. Em termos práticos, isso permite ligar a escolha do produto ao estágio do nematoide, ao sistema de cultivo e ao histórico da área. (MDPI)

2. Inibidores de acetilcolinesterase: carbamatos e organofosforados

Os carbamatos e organofosforados formam a classe clássica dos inibidores de acetilcolinesterase. Ao bloquear essa enzima, eles causam acúmulo de acetilcolina, desorganização da transmissão nervosa, paralisia e perda da capacidade de invadir e se alimentar. O efeito protetor sobre a planta decorre menos de erradicação do nematoide e mais de impedir sua ação parasitária. (MDPI)

A literatura recente também destaca que parte desse efeito pode ser reversível em certas condições, sobretudo em exposições curtas ou em concentrações mais baixas, o que explica por que a resposta de campo nem sempre é linear. Assim, carbamatos e organofosforados devem ser vistos como ferramentas de supressão, não como solução definitiva. (MDPI)

3. Avermectinas: modulação de canais de cloro glutamato

As avermectinas, com destaque para a abamectina, atuam como moduladores alostéricos dos canais de cloro regulados por glutamato, exclusivos de invertebrados. O efeito fisiológico é hiperpolarização neuronal, parada de movimento, bloqueio de alimentação e, em consequência, morte ou incapacidade de parasitismo. (MDPI)

Em tomate e pepino, estudos recentes mostram que diferentes formulações de abamectina reduzem a eclosão, a mortalidade larval e a densidade populacional de Meloidogyne em graus variáveis, o que confirma a utilidade da molécula, mas também a dependência da formulação e do posicionamento agronômico. (Nature)

4. Inibidores de respiração: fluopyram e cyclobutrifluram

O fluopyram marcou uma virada histórica porque foi o primeiro nematicida com ação comprovada sobre a succinate dehydrogenase (SDH) em nematoides. O estudo mecanístico de 2022 mostrou que ele é um inibidor potente de SDH em nematoides, mas não em mamíferos, insetos e minhocas, o que ajuda a explicar sua seletividade em nível molecular. (Nature)

A mesma lógica se estende ao cyclobutrifluram. A literatura de 2024 e 2025 o classifica como SDHI e mostra que ele compartilha, com o fluopyram, a inibição do complexo II mitocondrial. Em ensaios com Bursaphelenchus xylophilus, reduziu fortemente a sobrevivência, a postura e a eclosão, reforçando o papel da respiração mitocondrial como alvo de alto valor para o controle químico. (MDPI)

5. Fluensulfone: um modo de ação distinto e metabolicamente amplo

A fluensulfone ocupa uma posição especial porque o seu modo de ação é considerado distinto dos anticolinesterásicos e das lactonas macrocíclicas. Revisões recentes descrevem ação por contato, paralisação rápida, cessação da alimentação em cerca de uma hora e forte redução da capacidade de infectar e ovipositar. (MDPI)

Em nível fisiológico, a molécula afeta rotas metabólicas amplas, com impacto sobre armazenamento lipídico, viabilidade celular, degeneração tecidual e enzimas do ciclo do ácido cítrico. Em Globodera pallida, ensaios comparativos mostraram que a inibição da eclosão pode ser reversível em doses baixas, mas se torna irreversível em concentrações maiores, com necrose e perda estrutural dos juvenis. (MDPI)

Um estudo transcriptômico em Meloidogyne incognita confirmou que fluensulfone altera fortemente a expressão gênica ligada à β-oxidação de ácidos graxos, reduzindo a capacidade do nematoide de metabolizar lipídios. Esse resultado ajuda a entender por que a molécula não se encaixa perfeitamente nos alvos clássicos de nematicidas antigos. (Nature)

6. Fluazaindolizine: alvo ainda pouco definido, mas com perfil bioquímico distinto

A fluazaindolizine é uma das moléculas mais importantes da nova geração porque oferece amplo espectro e bom encaixe em programas de manejo, embora o alvo molecular exato ainda permaneça em consolidação. A revisão de 2025 destaca que ela não apresenta atividade sobre alvos tradicionais como acetilcolinesterase, transporte mitocondrial clássico, receptores nicotínicos nem canais de cloro glutamato, mesmo em concentrações elevadas, o que sustenta a ideia de um mecanismo novo. (MDPI)

Os dados transcriptômicos mostram que fluensulfone e fluazaindolizine foram as moléculas que mais alteraram genes da β-oxidação de ácidos graxos em M. incognita, com grande sobreposição de genes diferencialmente expressos. Em teste pot com Xiphinema index, a fluazaindolizine apresentou efeito comparável ao oxamyl e ao fluopyram, ainda que parte do efeito observada em exposições curtas seja reversível. (Nature)

7. Tioxazafen: inibição de função ribossômica

A tioxazafen representa outra categoria relevante porque se afasta dos alvos neurotóxicos e respiratórios clássicos. A revisão de 2025 a classifica como um nematicida sistêmico aplicado em tratamento de sementes, com ação sobre a atividade de ribossomos do nematoide, o que a coloca como um grupo mecanisticamente distinto. (MDPI)

Além disso, o composto tem baixa solubilidade em água e pode permanecer ativo por até 75 dias em raízes, com potencial para cobrir duas gerações de nematoides em algumas situações. Na prática, isso ajuda a explicar seu papel como tecnologia de proteção inicial da cultura, mais do que como produto de choque. (MDPI)

8. Spirotetramat: crescimento e biossíntese lipídica

A spirotetramat, embora seja mais conhecida como inseticida, aparece na classificação moderna como inibidora da acetil-CoA carboxilase, ligada à biossíntese lipídica e à regulação do crescimento. Em nematoides, a inibição dessa enzima afeta lipídios de reserva, composição de ácidos graxos e desenvolvimento. (MDPI)

A própria revisão de 2025 alerta, porém, que o alvo é menos atraente do que SDH ou GluCl por causa da semelhança estrutural entre a ACCase do nematoide e a da planta, o que aumenta o risco de seletividade limitada. Isso mostra que a classificação por alvo também ajuda a avaliar o potencial de descoberta de novas moléculas. (MDPI)

9. Fumigantes: ação multissítio e papel histórico

Os fumigantes continuam sendo classificados à parte porque seu efeito é presumido como multissítio, com forte dependência de volatilidade, difusão e geração de isotiocianatos ou outros gases reativos no solo. Nessa categoria entram cloropicrina, 1,3-dicloropropeno, metam sodium, dazomet, dimetil dissulfeto, brometo de metila e análogos.

A importância histórica desses produtos é enorme, mas a literatura recente reforça que sua utilidade atual está limitada por toxicidade, volatilidade, impacto ambiental e restrições regulatórias. Por isso, eles deixaram de ser “a base do sistema” e passaram a atuar como ferramentas especializadas em áreas e culturas específicas. (MDPI)

10. Como o solo altera o modo de ação na prática

O modo de ação no laboratório nem sempre se traduz exatamente em campo, porque o solo interfere na disponibilidade do ingrediente ativo, no tempo de contato e na mobilidade. O IRAC ressalta que processos microbianos do solo podem variar entre classes químicas e reduzir a eficácia aparente da aplicação, o que torna a rotação de tipos de nematicidas uma medida prudente.

Esse ponto é coerente com o comportamento observado para moléculas modernas: fluensulfone depende fortemente de contato; fluopyram e cyclobutrifluram estão associados à respiração; e tioxazafen e spirotetramat dependem de posicionamento adequado no sistema radicular. Em outras palavras, o solo não é apenas o meio de aplicação, mas parte do efeito biológico do produto. (MDPI)

11. Prevalência atual e importância de espécie-alvo

Os dados recentes confirmam que Meloidogyne segue como gênero dominante em várias situações agrícolas. Em tomate protegido na África do Sul, o gênero ocorreu em todas as seis casas avaliadas e sua densidade média aumentou mais de 10 vezes entre a primeira e a terceira safra. (Springer Nature Link)

Em outra escala, um levantamento em Portugal mostrou que o uso da terra influencia a estrutura das comunidades de nematoides fitoparasitas, com pastagens apresentando maior diversidade e biomassa herbívora do que florestas. Isso reforça que a pressão de nematoides e a resposta a nematicidas variam conforme histórico de uso, ambiente e hospedeiros disponíveis. (ScienceDirect)

A presença de plantas daninhas também muda o cenário. Em áreas recém-reclamadas no Egito, Pratylenchus, Meloidogyne e Rotylenchulus foram associados a diferentes espécies infestantes, e os autores concluíram que as daninhas funcionam como reservatórios importantes, aumentando a incidência e a severidade do risco nematoide. (Nature)

Tabela-resumo dos principais modos de ação

Grupo / classeExemplosAlvo fisiológico principalEfeito típico no nematoideImplicação prática
Inibidores de AChEcarbamatos e organofosforadosacetilcolinesteraseparalisia e perda de alimentaçãoúteis para supressão, mas com histórico regulatório restritivo (MDPI)
Avermectinasabamectinacanais de cloro glutamatohiperpolarização e imobilidadebom efeito sobre movimento e alimentação (MDPI)
SDHIfluopyram, cyclobutrifluramcomplexo II mitocondrialqueda da respiração e da energiaforte seletividade, útil em rotação (Nature)
Metabólicos distintosfluensulfonealvo não totalmente definido; forte ação metabólicaparalisação, bloqueio alimentar e dano metabólicomuito útil em Meloidogyne e Globodera (MDPI)
Alvo ainda em consolidaçãofluazaindolizine, tioxazafenesôfago/gânglios e ribossomos, respectivamenteredução de alimentação e desenvolvimentoboa opção em IPM e tratamento de sementes (MDPI)
Crescimento/lipogênesespirotetramatacetil-CoA carboxilaseatraso de desenvolvimentopromessa, mas com seletividade biológica mais sensível (MDPI)

12. Recomendações práticas baseadas na literatura recente

Na lavoura, a primeira recomendação é sempre identificar o gênero e, quando possível, a espécie de nematoide. A resposta a fluensulfone, fluopyram, fluazaindolizine e abamectina pode mudar bastante entre Meloidogyne incognita, M. enterolobii, Xiphinema index, Pratylenchus e Heterodera, então a decisão por classe química deve partir do diagnóstico e não do hábito de uso. (ScienceDirect)

A segunda recomendação é tratar o modo de ação como critério de rotação, não apenas como detalhe acadêmico. O IRAC destaca que a rotação entre classes diferentes e a redução da frequência de aplicações podem diminuir a perda aparente de eficácia associada à degradação microbiana e à exposição repetida do alvo.

A terceira recomendação é posicionar o produto de acordo com seu comportamento no solo. Fumigantes exigem manejo rigoroso; fluensulfone depende de contato e de boa distribuição no volume tratado; fluopyram e cyclobutrifluram pedem atenção à persistência; e fluazaindolizine e tioxazafen funcionam melhor quando o sistema favorece proteção inicial e pressão moderada de inóculo. (MDPI)

Conclusões

O modo de ação dos nematicidas químicos deixou de ser uma simples curiosidade de laboratório e passou a ser a base da tomada de decisão em campo. Hoje, as classes mais importantes se distribuem entre AChE inibidores, avermectinas, SDHIs, compostos com alvo metabólico distinto, moléculas com alvo ainda indefinido e fumigantes multissítio. (MDPI)

A principal lição da literatura recente é que nematicida bom não é apenas o mais potente, mas o que melhor se encaixa na espécie-alvo, no solo, no sistema produtivo e no programa de rotação. A química continua fundamental, mas funciona melhor quando inserida em manejo integrado, com diagnóstico, rotação de classes e redução de hospedeiros alternativos. (MDPI)

Referências

ABDELRAZEK, Ghena Mamdouh; BALAH, Mohamed Abdelaziz. Associate plant parasitic nematodes to weed species in some newly reclaimed lands. Scientific Reports, v. 13, art. 21923, 2023. DOI: 10.1038/s41598-023-49357-x.

CARVALHO, Rui P.; GUERRA, Carlos; CANO-DÍAZ, Concha; MENDES, Susana; COSTA, Sofia R. Distribution of plant-parasitic nematode communities across land-use types in the North of Portugal. Applied Soil Ecology, v. 206, art. 105852, 2025. DOI: 10.1016/j.apsoil.2024.105852.

FEIST, Emily; KEARN, James; GAIHRE, Yogendra K. et al. The distinct profiles of the inhibitory effects of fluensulfone, abamectin, aldicarb and fluopyram on Globodera pallida hatching. Pesticide Biochemistry and Physiology, v. 165, art. 104541, 2020. DOI: 10.1016/j.pestbp.2020.02.007.

INSECTICIDE RESISTANCE ACTION COMMITTEE (IRAC). Nematicide Mode of Action Classification. Poster Edition 2.2, March 2024.

LIU, Wenyi; SHAO, Hudie; QI, Danni; HUANG, Xiaofang; CHEN, Jing; ZHOU, Lifeng; GUO, Kai. The new nematicide cyclobutrifluram targets the mitochondrial succinate dehydrogenase complex in Bursaphelenchus xylophilus. International Journal of Molecular Sciences, v. 25, n. 13, art. 6914, 2024. DOI: 10.3390/ijms25136914.

MATLALA, Francinah Lesego; FOURIE, Hendrika; HADDAD, Wiam; DE WAELE, Dirk; DANEEL, Mieke Stefanie. Prevalence of plant-parasitic nematodes in nethouse tomato production in Limpopo Province, South Africa, and relationships with physico-chemical soil properties. Journal of Plant Diseases and Protection, v. 132, art. 140, 2025. DOI: 10.1007/s41348-025-01117-x.

POUDEL, N.; TORRES, L.; DAVIS, R. F.; JAGDALE, G. B.; MCAVOY, T.; CHOWDHURY, I. A. Effect of non-fumigant nematicides on reproduction of recently detected Meloidogyne species in Georgia under greenhouse conditions in tomato. Horticulturae, v. 11, n. 1, art. 36, 2025. DOI: 10.3390/horticulturae11010036.

TZORTZAKAKIS, Emmanuel A.; THODEN, Tim C.; CHATZAKI, Anastasia. Investigation of fluazaindolizine as a potential novel tool to manage Xiphinema index. Crop Protection, v. 180, art. 106636, 2024. DOI: 10.1016/j.cropro.2024.106636.

WRAM, Catherine L.; HESSE, Cedar N.; ZASADA, Inga A. Transcriptional changes of biochemical pathways in Meloidogyne incognita in response to non-fumigant nematicides. Scientific Reports, v. 12, art. 9875, 2022. DOI: 10.1038/s41598-022-14091-3.

YAN, Dongdong; GHADERI, Reza; HE, Jizheng; CAO, Aocheng; WANG, Qiuxia. Recent advances in nematicides and their modes of action. Agriculture, v. 16, n. 1, art. 21, 2026. DOI: 10.3390/agriculture16010021.


Nenhum comentário:

Postar um comentário