Introdução
O fósforo ocupa posição central na fertilidade do solo porque é indispensável para a fotossíntese, respiração, divisão celular, formação de raízes, enchimento de grãos e regulação do crescimento, mas sua disponibilidade na solução do solo é normalmente muito menor do que a demanda das culturas.
Em solos tropicais, a limitação é agravada pela forte retenção do P em superfícies reativas, principalmente óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio, além da contribuição de pH, textura e matéria orgânica para a fixação ou liberação do nutriente. Isso faz com que o manejo fosfatado seja uma das áreas mais desafiadoras da fertilidade do solo contemporânea. (AIMS Press)O objetivo deste artigo é sintetizar a evolução recente do conhecimento sobre o fósforo no solo, destacar sua importância para produtividade e sustentabilidade, descrever sintomas e causas de deficiência, e discutir práticas de correção e manejo com base em evidências publicadas entre 2020 e 2026. Também são indicados pontos para inserção de figuras explicativas e reunidos dados quantitativos recentes que ajudam a traduzir o conhecimento científico em decisão agronômica. (Nature)
Contexto histórico
Entre 2020 e 2021, consolidou-se a percepção de que o fósforo disponível no solo representa apenas uma fração pequena do P total e que o restante permanece em formas sorvidas, precipitadas ou organicamente complexadas. A revisão de Hanyabui et al. (2020) sintetizou os principais mecanismos de adsorção em solos tropicais e mostrou que a precipitação e a sorção em superfícies minerais são os processos dominantes em ambientes altamente intemperizados. No mesmo ano, Pavinato et al. (2020) demonstraram que o Brasil acumulou grande estoque de “legacy P” em solos agrícolas e que esse capital fósforado pode ser estrategicamente explorado para reduzir o uso de fertilizantes, desde que o manejo aumente sua disponibilidade. (AIMS Press)
De 2021 a 2023, a pesquisa avançou da descrição das formas de P para a compreensão dos controles biológicos e moleculares de sua aquisição pelas plantas e do papel da matéria orgânica no sistema. de Bang et al. (2021) mostraram que os sintomas de deficiência mineral são a expressão final de desequilíbrios de nutrição, e Madison et al. (2023) detalharam as respostas ao estresse por escassez de fosfato, com alterações de arquitetura radicular, sinalização e remobilização interna. No mesmo período, Jindo et al. (2023) demonstraram que a matéria orgânica do solo interfere no P por mecanismos bióticos e abióticos, e Silva et al. (2023) reforçaram que microrganismos solubilizadores passaram a ser tratados como peças centrais da sustentabilidade fosfatada. (Portal de Pesquisa WUR)
Entre 2023 e 2024, a literatura brasileira e tropical passou a integrar especiação química, fracionamento sequencial e avaliação de manejo de longo prazo. O estudo em Oxisols do Cerrado mostrou que, sob plantio direto e preparo convencional, o P labial foi a menor fração, enquanto o P permaneceu majoritariamente sorvido a goethita, hematita e gibbsita, com fitoato predominando na fração orgânica. Em paralelo, da Silva et al. (2024) mostraram que fontes alternativas podem competir agronomicamente com o superfosfato triplo em condições tropicais específicas, embora a resposta dependa fortemente do tipo de solo e do teor de argila. Fu et al. (2024) ampliaram o papel dos fungos solubilizadores, e Iftikhar et al. (2024) destacaram que o desempenho de microrganismos solubilizadores depende de pH, temperatura e disponibilidade de nutrientes. (CentAUR)
Em 2025 e 2026, ganhou força a ideia de que o fósforo precisa ser manejado em escala de sistema e não apenas por dose de adubo. Jahan et al. (2025) enfatizaram a reciclagem, o aproveitamento do P legado e tecnologias de recuperação; Korzeniowska et al. (2025) mostraram que o pH altera de forma decisiva a eficiência do fertilizante fosfatado em solo arenoso; García-Berumen et al. (2025) e Lei et al. (2025) reforçaram o valor dos microrganismos solubilizadores para a saúde do solo e a redução de perdas; e Duarte-Monzón et al. (2026) evidenciaram que os sistemas de recomendação de P no Brasil e no Paraguai ainda são divergentes, o que reforça a necessidade de harmonização técnica. (Springer Nature Link)
Importância
O fósforo é crítico porque sua deficiência reduz o crescimento radicular, a formação de tecidos reprodutivos e a eficiência fotossintética, comprometendo diretamente a produtividade e a qualidade dos grãos. Além disso, a disponibilidade de P condiciona a resposta da planta a outros nutrientes, já que uma planta limitada em P não expressa plenamente o potencial de nitrogênio, potássio e micronutrientes. Em termos de fisiologia, o P integra ATP, ADP, fosfolipídios e ácidos nucleicos, de modo que sua limitação afeta processos básicos do metabolismo vegetal e o ajuste a estresses ambientais. (PMC)
Em escala agrícola, a importância do P é dupla: ele é indispensável para a produção, mas também concentra perdas econômicas e ambientais. Jahan et al. (2025) destacam que a disponibilidade de P é restringida por reservas naturais finitas, baixa eficiência de recuperação do fertilizante e risco de eutrofização. Johnes et al. (2022) reforçam que o excesso de P é um fator central de degradação da qualidade da água. Em outras palavras, o mesmo nutriente que sustenta a produtividade pode, quando mal manejado, tornar-se vetor de contaminação difusa e desequilíbrio ambiental. (Springer Nature Link)
No Brasil, a questão é ainda mais estratégica porque há grande estoque de P legado em sistemas agrícolas. Pavinato et al. (2020) estimaram 33,4 Tg de P acumulado nos solos agrícolas brasileiros, com potencial de economizar até 31,8 Tg até 2050 caso estratégias de melhor aproveitamento sejam adotadas. Esse estoque é uma oportunidade agronômica, mas também um risco ambiental caso continue sendo ampliado sem limites de interpretação e sem manejo baseado em balanço. (Nature)
Tabela 1. Indicadores quantitativos recentes associados ao fósforo no solo
| Indicador | Valor reportado | Significado agronômico | Fonte |
|---|---|---|---|
| P legado acumulado em solos agrícolas brasileiros | 33,4 Tg | Capital fertilizante ainda pouco explorado | Pavinato et al. (2020) (Nature) |
| Potencial de P economizado até 2050 | 31,8 Tg | Redução expressiva da dependência de fertilizante | Pavinato et al. (2020) (Nature) |
| Valor econômico associado à economia de P | US$ 20,8 bilhões | Relevância econômica do manejo do P legado | Pavinato et al. (2020) (Nature) |
| Eficiência de uso de P em soja e milho no Brasil | 50% e 72% | Culturas com maior uso relativo do legado P | Pavinato et al. (2020) (Nature) |
| Fração de P removida pelas culturas em solos tropicais brasileiros | 30–60% do total aplicado | Grande parte do P fica no solo após a safra | da Silva et al. (2024) (Nature) |
| P remanescente após quatro anos | >70% acumulado no solo | Reforça a importância do residual e da eficiência | da Silva et al. (2024) (Nature) |
| Redução da fração lábil de Pi em mudança de uso na Amazônia colombiana | 31,1% | Menor disponibilidade imediata para as plantas | de et al. (2022) (MDPI) |
| Redução de estoques moderadamente/não lábeis | 6,1% | Esgotamento de reservas do solo sob exploração | de et al. (2022) (MDPI) |
| Limite ambiental proposto em Mato Grosso | P-threshold = 13 + 0,5 × %argila | Ferramenta para reduzir risco de perda para água | Silva et al. (2023) (ResearchGate) |
Deficiências
A deficiência de fósforo costuma aparecer primeiro como crescimento lento, menor expansão foliar, sistema radicular reduzido e atraso no florescimento e maturação. Em muitas espécies, folhas mais velhas tornam-se escuras, arroxeadas ou avermelhadas, com posterior clorose e senescência precoce. Isso ocorre porque o P é móvel na planta e é remobilizado para órgãos jovens quando a oferta externa é insuficiente. Em paralelo, a deficiência reduz a fotossíntese, o acúmulo de biomassa e a capacidade de estabelecimento inicial da cultura. (Frontiers)
No solo, a deficiência quase nunca é apenas “falta de adubo”. Ela emerge de um conjunto de causas: adsorção intensa em óxidos de Fe e Al, precipitação em compostos pouco solúveis, pH inadequado, baixa matéria orgânica, baixa mobilidade do P, baixa atividade biológica e descompasso entre aplicação e demanda da planta. Em solos muito intemperizados, como Oxisols e Ultisols tropicais, a retenção do nutriente pode ser tão forte que a maior parte do P aplicado não se torna imediatamente acessível. Hanyabui et al. (2020) e Jindo et al. (2023) mostram que as interações com argilas, óxidos e matéria orgânica explicam boa parte dessa dinâmica. (AIMS Press)
Cuidados e manejo
O manejo eficiente do fósforo começa pelo entendimento de que o nutriente se move pouco no solo e, por isso, a estratégia mais racional é concentrá-lo na zona de maior exploração radicular e sincronizar a oferta com os estágios iniciais de maior demanda. Isso é particularmente importante em solos tropicais, nos quais a fixação é elevada e a resposta à adubação depende da saturação dos sítios de adsorção, da calagem e do teor de argila. Em solos arenosos, por outro lado, o risco de perda por lixiviação e o menor tamponamento reforçam a necessidade de doses e fontes mais criteriosas. (AIMS Press)
A calagem tem papel decisivo porque corrige acidez e altera a atividade dos óxidos e da solução do solo, modificando a adsorção e a disponibilidade de P. O estudo de Korzeniowska et al. (2025) mostrou que a eficiência do fertilizante fosfatado mudou conforme o pH do solo arenoso, com resposta diferenciada de rendimento e acúmulo de P após a colheita. Em termos práticos, isso confirma que não existe dose “universal”: a fertilização fosfatada precisa ser interpretada à luz do pH, textura e histórico de manejo. (IDEAS/RePEc)
Outra frente é o uso de fontes alternativas e recicladas. da Silva et al. (2024) mostraram que fontes alternativas podem apresentar desempenho agronômico relevante em solos tropicais brasileiros, embora o superfosfato triplo ainda tenha sido superior em vários atributos. Ramos et al. (2025) também avaliaram fosfatos naturais e recuperados em solo tropical com acidez corrigida, reforçando o valor do ambiente edáfico na escolha da fonte. Jahan et al. (2025) e Serrano-Gomez et al. (2025) defendem uma agenda de economia circular, com recuperação de P a partir de resíduos e redução da pressão sobre rochas fosfáticas. (Nature)
Os microrganismos solubilizadores de fósforo são uma ferramenta complementar promissora. Silva et al. (2023), Iftikhar et al. (2024), García-Berumen et al. (2025) e Lei et al. (2025) descrevem que bactérias e fungos solubilizadores liberam P por acidificação, produção de ácidos orgânicos, fosfatases, fito-hormônios e interação com a rizosfera, favorecendo o aproveitamento do P pouco solúvel e reduzindo perdas. Entretanto, a eficácia em campo é variável e depende do ambiente, da compatibilidade com a cultura, da fonte de P e do manejo do solo; por isso, inoculantes não devem ser tratados como substitutos automáticos da adubação, mas como componentes de um sistema integrado. (MDPI)
A interpretação ambiental do P também precisa entrar no manejo. Silva et al. (2023) propuseram um limiar ambiental baseado em argila no Mato Grosso, enquanto estudos no Rio Grande do Sul já haviam mostrado que a sobrecarga de P e esterco aumenta o risco de transferência para a água. Na prática, isso significa que a análise de solo não deve servir apenas para definir adubação de safra, mas também para prevenir acúmulo excessivo e proteger cursos d’água. (ResearchGate)
Tabela 2. Práticas recomendadas para manejo do fósforo no solo
| Prática | Efeito principal | Limitação | Fonte |
|---|---|---|---|
| Calagem criteriosa | Aumenta eficiência do P e reduz fixação em solo ácido | Exige diagnóstico correto do pH e da saturação por bases | Korzeniowska et al. (2025) (IDEAS/RePEc) |
| Aplicação localizada | Concentra P na zona radicular | Pode não resolver limitação em sistemas muito exploratórios | Hanyabui et al. (2020) (AIMS Press) |
| Uso de fontes alternativas | Pode ampliar acesso a fontes regionais e recicladas | Resposta varia com solo e solubilidade | da Silva et al. (2024); Ramos et al. (2025) (Nature) |
| Inoculação com PSM | Solubiliza P e favorece a rizosfera | Desempenho depende de ambiente e inoculante | Silva et al. (2023); Lei et al. (2025) (MDPI) |
| Manejo do P legado | Reduz dependência de fertilizante novo | Requer monitoramento do solo e da exportação | Pavinato et al. (2020); Duarte-Monzón et al. (2026) (Nature) |
| Definição de limiares ambientais | Diminui risco de eutrofização | Exige calibração regional | Silva et al. (2023) (ResearchGate) |
Desenvolvimento e análise crítica da literatura
A literatura recente converge para um ponto importante: a maior parte do P agrícola não está “faltando”, mas sim armazenada em formas de baixa disponibilidade. Em Oxisols do Cerrado, o fracionamento combinado com 31P NMR e XANES mostrou que o P labial é o menor compartimento e que o nutriente se encontra sobretudo ligado a óxidos de Fe e Al; em sistemas sob mudança de uso na Amazônia colombiana, a fração lábil caiu 31,1%, o que confirma que o manejo altera a labilidade do P ao longo do perfil. Esses resultados mostram que o diagnóstico moderno precisa integrar forma química, profundidade e histórico de uso, e não apenas o teor extraído por um método rotineiro. (CentAUR)
Há também uma mudança de paradigma em relação à matéria orgânica. Jindo et al. (2023) argumentam que a SOM interfere no P por competição por sítios de sorção, complexação com cátions e mineralização microbiana; portanto, o aumento de carbono do solo não é apenas benéfico para a estrutura, mas também para a bio-disponibilidade de P. Esse ponto é reforçado pelos estudos recentes com sistemas conservacionistas e agroflorestais, nos quais a fração orgânica do P e a atividade enzimática passam a exercer papel mais relevante do que em sistemas intensivos convencionais. (Portal de Pesquisa WUR)
Outro avanço é o reconhecimento de que a eficiência do P depende da interação entre fonte, pH, textura e ambiente. da Silva et al. (2024) mostraram que fontes alternativas podem liberar P de modo competitivo em alguns solos, enquanto Korzeniowska et al. (2025) demonstraram que o pH altera a resposta do fertilizante em solo arenoso. Isso reforça uma interpretação essencial: a eficiência fosfatada não é uma propriedade fixa do fertilizante, mas uma propriedade do sistema solo-planta-manejo. (Nature)
A fronteira mais promissora está na integração entre fertilidade, microbiologia e circularidade. Os trabalhos de Silva et al. (2023), Fu et al. (2024), García-Berumen et al. (2025) e Lei et al. (2025) convergem para a mesma ideia: microrganismos solubilizadores podem aumentar a fração disponível de P e reduzir perdas, mas sua adoção só será consistente se vier acompanhada de escolha adequada de fonte, cobertura do solo, balanço nutricional e monitoramento ambiental. Em paralelo, a discussão sobre reciclagem de resíduos e recuperação de P deixa de ser periférica e passa a integrar a estratégia de fertilidade de longo prazo. (MDPI)
O fósforo no solo é um eixo estratégico da fertilidade porque sustenta produtividade, qualidade e estabilidade dos sistemas agrícolas, mas seu manejo permanece limitado pela forte fixação em solos tropicais, pela baixa eficiência relativa das fontes convencionais e pelo risco ambiental associado ao excesso. A literatura recente mostra que o P deve ser tratado como um recurso finito, parcialmente acumulado no solo em formas ainda pouco aproveitadas, e que o manejo eficiente exige integração entre análise de solo, correção da acidez, escolha da fonte, posicionamento do fertilizante, aproveitamento do P legado, uso de microrganismos e observância de limiares ambientais. (Nature)
As principais lacunas continuam sendo a calibração regional dos sistemas de recomendação, a validação de fontes alternativas em larga escala, a consolidação de bioinsumos com desempenho estável em campo e a mensuração de fluxos de P em sistemas tropicais sob diferentes usos da terra. O caminho mais consistente é combinar precisão agronômica, reciclagem de nutrientes e proteção ambiental, transformando o fósforo de limitante crônico em componente central de uma agricultura mais eficiente e resiliente. (ResearchGate)
Referências
DA SILVA, Lucas Jónatan Rodrigues et al. Evaluating the agronomic efficiency of alternative phosphorus sources applied in Brazilian tropical soils. Scientific Reports, v. 14, art. 8526, 2024. DOI: 10.1038/s41598-024-58911-0.
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JAHAN, N.; MAHMUD, U.; KHAN, M. Z. Sustainable plant-soil phosphorus management in agricultural systems: challenges, environmental impacts and innovative solutions. Discover Soil, v. 2, art. 13, 2025. DOI: 10.1007/s44378-025-00039-2.
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