quarta-feira, 13 de maio de 2026

Fungos no controle de nematoides

Introdução

Os nematoides fitoparasitas continuam entre os problemas mais caros da agricultura porque atacam o sistema radicular, reduzem a absorção de água e nutrientes e, muitas vezes, passam despercebidos até que o dano já esteja consolidado.

A literatura recente mantém a estimativa de mais de 4.100 espécies de nematoides fitoparasitas descritas e perdas globais em torno de 12,3% da produção agrícola, equivalentes a cerca de US$ 157 bilhões por ano. Em regiões tropicais e subtropicais, o efeito costuma ser ainda mais severo, sobretudo em hortaliças, frutíferas e sistemas intensivos de produção. (Frontiers)

Nesse cenário, fungos passaram de “alternativas promissoras” para uma frente concreta de pesquisa aplicada. A razão é dupla: de um lado, a limitação crescente dos nematicidas químicos clássicos; de outro, o avanço de estudos que mostram fungos capazes de parasitar ovos, capturar juvenis, produzir metabólitos tóxicos aos nematoides e induzir resistência na planta. Revisões de 2020 a 2025 apontam especialmente os gêneros Trichoderma, Pochonia/Metacordyceps, Purpureocillium, fungos predadores e alguns endófitos como os grupos mais estudados. (Frontiers)

1. Quais fungos entram nesse grupo e por que eles importam

A pesquisa recente não trata “fungos” como um bloco único, porque os mecanismos biológicos variam muito entre os grupos. Trichoderma costuma atuar na rizosfera e na indução de defesa; Pochonia chlamydosporia é conhecida pelo parasitismo de ovos; Purpureocillium lilacinum também apresenta forte ação ovicida e efeitos promotores de crescimento; fungos predadores capturam juvenis livres no solo; e fungos endofíticos ou micorrízicos podem reduzir a severidade do dano de forma indireta. Essa diversidade é uma das razões pelas quais os fungos ganharam espaço como base de manejo integrado, e não apenas como substitutos de um produto químico. (Frontiers)

Entre 2020 e 2025, revisões e estudos de síntese deixaram claro que esse conjunto de fungos oferece algo que os nematicidas sintéticos nem sempre entregam: persistência biológica, adaptação ao ambiente do solo e potencial de colonização radicular. Ao mesmo tempo, a eficácia é mais dependente de ambiente, formulação e espécie-alvo do que em um tratamento químico de choque, o que explica por que os resultados podem variar bastante entre laboratório, casa de vegetação e campo. (Frontiers)

2. O ataque direto ao nematoide: ovos, juvenis e fêmeas

O mecanismo mais direto e mais estudado é o parasitismo de ovos. Pochonia chlamydosporia é um bom exemplo: a literatura recente a descreve como fungo nematófago capaz de parasitar ovos de nematoides das galhas e de cistos, com ação direta sobre ovos e ação indireta por indução de defesa da planta. Em ensaios com berinjela infectada por Meloidogyne javanica, o fungo reduziu a eclosão, diminuiu galhas e massas de ovos e ainda melhorou parâmetros de crescimento e pigmentos fotossintéticos. (PMC)

Em outro estudo recente, P. chlamydosporia aplicado em quiabeiro reduziu o índice de galhas de 5,45 para 1,45, diminuiu a população do nematoide em 52,34% e aumentou a produtividade em 30,05%. Esse tipo de resultado é particularmente relevante porque mostra que o fungo não atua apenas “segurando a infestação”, mas também recuperando desempenho produtivo em condições de campo. (Acta Scientific)

Purpureocillium lilacinum também vem recebendo atenção crescente. Em berinjela infectada por Meloidogyne incognita, o fungo reduziu significativamente a eclosão de ovos e a sobrevivência de juvenis de segundo estádio, penetrando diretamente nos ovos e entrando em contato com os juvenis, o que confirma o parasitismo como mecanismo central. No teste em vasos, a população do nematoide e o número de galhas também caíram, enquanto o crescimento das plantas melhorou. (ResearchGate)

Esse tipo de ação explica por que os fungos egg-parasitic aparecem com tanta frequência em programas de manejo de Meloidogyne. O ponto mais forte é que eles interferem exatamente nas fases que sustentam a multiplicação do patógeno, isto é, ovos e juvenis infectivos. O ponto fraco é que sua performance depende da capacidade de colonizar a zona radicular e de encontrar ovos ou juvenis em condições favoráveis no solo. (MDPI)

3. Fungos predadores e a captura física dos nematoides

Outra linha importante é a dos fungos predadores ou “nematófagos de captura”. Eles formam anéis constritores, estruturas adesivas ou redes hifais capazes de aprisionar juvenis móveis no solo, antes que eles alcancem a raiz. Revisões recentes destacam que esses fungos se inserem bem em estratégias ecológicas de manejo, embora ainda encontrem limitações de competição saprofítica no ambiente. (ScienceDirect)

A literatura de 2023 sobre fungos-trapadores mostra que diferentes espécies podem reduzir a severidade de Meloidogyne incognita em níveis moderados, com quedas relatadas na faixa de 45,3% a 53,4% em raízes, fêmeas, ovos e juvenis, dependendo do fungo e do sistema de aplicação. Isso é importante porque indica que, mesmo sem erradicar o nematoide, esses agentes podem reduzir a pressão inicial e proteger a cultura durante a fase crítica de estabelecimento. (ScienceDirect)

4. Trichoderma: antagonismo, enzimas e defesa induzida

Trichoderma é o grupo fúngico mais versátil no controle biológico de nematoides. A revisão de 2025 resume os principais mecanismos: micoparasitismo, antibiose, competição por espaço na rizosfera, produção de enzimas líticas e modulação de defesas da planta. Ela também destaca as espécies mais estudadas, como T. harzianum, T. longibrachiatum, T. virens e T. viride, principalmente contra Meloidogyne, Pratylenchus, Globodera e Heterodera. (MDPI)

No nível mecanístico, Trichoderma produz metabólitos antinematoides e enzimas como proteases, chitinases, glucanases e lipases, capazes de degradar ovos, cutícula e estruturas de penetração do nematoide. A mesma revisão documenta parasitismo direto sobre ovos e juvenis, com formação de hifas que imobilizam e hidrolisam o alvo. Em vários estudos compilados, isso se traduziu em redução de ovos, galhas e juvenis por grama de raiz, além de aumento de vigor das plantas. (MDPI)

Um estudo de campo e casa de vegetação em quiabeiro com complexos nematoide-fungo mostrou a força desse grupo: os filtrados de cultura de Trichoderma causaram 95% de mortalidade de juvenis após 72 horas, e a redução de galhas e da severidade da doença foi acompanhada de melhoria dos caracteres anatômicos e produtivos da planta. O trabalho ilustra um ponto central da pesquisa recente: Trichoderma não atua só sobre o nematoide, mas também sobre o sistema hospedeiro. (Nature)

5. Defesa sistêmica e promoção de crescimento: o efeito indireto que faz diferença

A segunda grande contribuição dos fungos é indireta. Em Trichoderma, a indução de resistência sistêmica tem sido associada a sinais hormonais como ácido jasmônico, etileno e ácido salicílico, além de alterações na expressão de genes de defesa. A revisão de 2020 já colocava Trichoderma, micorrizas e fungos endofíticos como indutores de resistência capazes de atuar como BCAs duráveis contra nematoides. (Frontiers)

Esse componente é especialmente útil quando a população do nematoide não pode ser “zerada”. O fungo melhora a tolerância da planta por meio de raízes mais funcionais, maior absorção de água e nutrientes, e resposta de defesa mais rápida. Em Purpureocillium lilacinum, a revisão de 2024 também destaca produção de sideróforos, solubilização de fósforo, produção de fitohormônios e promoção de crescimento, o que amplia o valor agronômico do agente para além do controle do nematoide. (MDPI)

A pesquisa com Pochonia chlamydosporia em Phacelia tanacetifolia mostrou exatamente essa lógica de efeito sistêmico. O fungo não apenas reduziu a multiplicação de Meloidogyne hapla, como também intensificou sinais transcriptômicos de defesa vegetal, indicando uma interação sinérgica entre o fungo e o nematoide que “prepara” a planta para responder melhor ao ataque. (Frontiers)

6. O que os estudos multi-ômicos acrescentaram

A partir de 2024, a pesquisa passou a usar muito mais transcriptômica, proteômica e metabolômica para entender como os fungos funcionam. A revisão de Ayaz e colaboradores mostra que essas abordagens estão ajudando a descobrir novos compostos nematicidas e a mapear interações na rizosfera que eram invisíveis por métodos clássicos. (Frontiers)

Em Meloidogyne incognita, estudos transcriptômicos mostraram que fluensulfone e fluazaindolizine alteram fortemente vias ligadas ao metabolismo de lipídios e energia, e isso oferece um exemplo útil de como a ciência vem tentando ligar o fenótipo de controle à biologia molecular do alvo. Para os fungos, a consequência é similar: cada vez mais se busca entender quais genes e quais metabólitos estão por trás da ação ovicida, da colonização radicular e da indução de resistência. (MDPI)

7. Evidência prática em culturas comerciais

Na prática agrícola, tomate, berinjela, quiabo, pepino e culturas de cobertura são alguns dos sistemas mais estudados. Em berinjela, Purpureocillium lilacinum reduziu a eclosão dos ovos e o dano radicular; em quiabo, Pochonia chlamydosporia reduziu o índice de galhas e elevou a produtividade; e em tomate, o fungo egg-parasitic e os isolados de Trichoderma vêm mostrando supressão consistente em diferentes sistemas. (ResearchGate)

Em tomate protegido e em outros ambientes intensivos, o valor dos fungos fica ainda mais evidente quando há pressão contínua de Meloidogyne e presença de hospedeiros alternativos. A literatura recente mostra que espécies de Meloidogyne podem sobreviver em muitas plantas daninhas, e M. incognita já foi associada a mais de 138 hospedeiros espontâneos, o que ajuda a explicar por que o biocontrole precisa ser combinado com manejo de plantas daninhas e rotação. (Nature)

Outro ponto importante é o manejo de complexos de doença. Em okra, a coexistência de Meloidogyne javanica com Fusarium solani piorou o quadro fitossanitário, e os filtrados de Trichoderma e outros fungos reduziram simultaneamente o nematoide e o fungo de solo. Isso mostra que os fungos de biocontrole podem ser especialmente úteis quando o problema de campo não é apenas o nematoide, mas o complexo de patógenos. (Nature)

8. Limitações reais: ambiente, formulação e consistência

Apesar do potencial, os fungos não funcionam de forma uniforme em qualquer área. A eficácia depende da umidade do solo, temperatura, textura, matéria orgânica, microbiota nativa, compatibilidade com práticas agronômicas e qualidade da formulação. A revisão de 2025 sobre biocontrol fungal agents enfatiza justamente que o desempenho em ambientes diferentes ainda exige melhor formulação e métodos de aplicação mais consistentes. (ScienceDirect)

Além disso, fungos de biocontrole variam muito entre isolados. O mesmo gênero pode apresentar cepas com bom parasitismo de ovos, outras com maior efeito de defesa induzida e outras com desempenho fraco em campo. Por isso, a pesquisa recente vem valorizando isolados locais, coleções regionais e testes em ambiente real antes da liberação comercial. (ResearchGate)

Há também o problema da reinfestação. Se a área mantém hospedeiros alternativos, o fungo até reduz a população inicial, mas o nematoide volta a crescer a partir de ovos remanescentes e raízes de plantas daninhas. Em outras palavras, fungo bom sem manejo do agroecossistema reduz parcialmente o problema, mas não encerra o ciclo. (Nature)

Tabela-resumo das principais estratégias fúngicas

Grupo fúngicoMecanismo principalMelhor alvo biológicoForça práticaLimitação mais comum
Pochonia chlamydosporiaparasitismo de ovos + defesa da plantaovos de Meloidogyne e cistosreduz eclosão, galhas e populações; pode elevar produtividadedepende da colonização da rizosfera e do ambiente do solo (PMC)
Purpureocillium lilacinumparasitismo de ovos/juvenis + promoção de crescimentoMeloidogyne incognita e afinsreduz hatching, juvenis e galhas; pode estimular crescimentoresposta varia entre isolados e culturas (ResearchGate)
Trichoderma spp.enzimas, antibiose, competição e ISRnematoides das galhas, lesionadores e de cistobom encaixe em manejo integrado; aumenta vigor e defesadesempenho muito dependente da cepa e da formulação (MDPI)
Fungos predadorescaptura física de juvenisjuvenis livres no soloútil para reduzir pressão inicialcompetição saprofítica e persistência irregular (ScienceDirect)
Endófitos/micorrizasresistência induzida e melhoria nutricionalefeito indireto sobre a plantaaumenta tolerância e vigor radicularefeito menos imediato e mais variável (Frontiers)

Fonte: elaboração própria com base em Poveda et al. (2020), Rigobelo et al. (2024), Khan e Tanaka (2023), Contreras-Soto et al. (2025), Könker et al. (2025), Parveen et al. (2025), Trivedi et al. (2025) e revisões correlatas. (Frontiers)

As pesquisas de 2020 a 2025 mostram que fungos são hoje uma das bases mais sólidas do controle biológico de nematoides. Eles atuam por múltiplos caminhos: parasitam ovos, imobilizam juvenis, produzem compostos tóxicos, ativam defesas sistêmicas e melhoram a performance da planta. Esse conjunto de ações torna os fungos especialmente valiosos em sistemas intensivos e em áreas com restrições ao uso de nematicidas químicos. (Frontiers)

Ao mesmo tempo, a literatura é clara ao mostrar que não existe fungo universal nem resultado garantido em qualquer condição. A eficácia depende de espécie-alvo, cepa, formulação, ambiente do solo e integração com outras medidas. Por isso, o futuro do uso de fungos no controle de nematoides está menos na promessa de substituição total e mais na construção de programas integrados, tecnicamente ajustados à realidade de cada sistema produtivo. (MDPI)

Recomendações práticas

Para produtores e técnicos, a primeira recomendação é identificar corretamente o nematoide predominante antes da escolha do fungo. A segunda é priorizar isolados com histórico de desempenho para o alvo local, preferindo materiais testados em casa de vegetação e campo. A terceira é combinar o fungo com rotação de culturas, manejo de plantas daninhas hospedeiras, correção do solo e, quando necessário, outras ferramentas biológicas e químicas compatíveis. Em áreas com alta pressão, esse encaixe costuma ser mais eficiente do que apostar em um único agente de controle. (Nature)

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