quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Danos oriundos da infecção dos nematoides

Introdução

A infecção por nematoides fitoparasitas é um dos problemas mais subestimados da fitossanidade agrícola porque o dano começa abaixo da superfície e, muitas vezes, só se torna evidente quando a planta já perdeu boa parte do seu potencial produtivo. 

Esses parasitas atacam raízes, alteram o funcionamento fisiológico do hospedeiro e comprometem a absorção de água e nutrientes, o que reduz vigor, produtividade e estabilidade da lavoura. Revisões recentes reforçam que os sintomas podem ser difusos e facilmente confundidos com déficit hídrico ou nutricional, o que atrasa o diagnóstico e amplia as perdas. (Nature)

A importância econômica continua muito alta. Sínteses recentes estimam perdas globais de 12,3% a 12,6% da produção, com impactos financeiros em torno de US$ 157 bilhões a US$ 173 bilhões por ano, dependendo da metodologia e do conjunto de culturas analisado. Em culturas como tomate, soja, batata, arroz e cana, os nematoides seguem entre os patógenos mais limitantes, especialmente em sistemas com alta pressão de hospedeiro e baixa diversidade de rotação. (Nature)

No Brasil, a relevância é igualmente expressiva. Uma análise nacional em soja apontou perdas estimadas em US$ 10 bilhões por ano para o agronegócio brasileiro associadas a nematoides fitoparasitas, enquanto um estudo recente sobre Meloidogyne enterolobii relatou redução de 70% na produção de goiaba ao longo de sete anos, com perda direta estimada em US$ 61 milhões. Esses números mostram que o problema não é pontual; ele é estrutural e recorrente em várias cadeias produtivas. (ScienceDirect)

Seção central

O dano começa na raiz. No caso dos nematoides-das-galhas, os juvenis de segundo estádio (J2) penetram o tecido radicular e induzem a formação de galhas e de células gigantes; em outros grupos, como os lesionadores, o dano ocorre pela migração contínua entre células, deixando lesões e necroses sucessivas. Em ambos os casos, a raiz deixa de cumprir plenamente seu papel de absorção e sustentação da parte aérea. (PMC)

Esse comprometimento radicular se traduz em queda de crescimento, redução de vigor e menor exploração do solo. A literatura recente descreve sintomas como murcha, atrofiamento, descoloração foliar, deformação das raízes, lesões, necrose e queda precoce do desempenho produtivo. No tomate, por exemplo, a infecção por Meloidogyne provoca formação de galhas e células gigantes, reduzindo a capacidade da planta de absorver água e nutrientes e, por consequência, o rendimento da cultura. (PMC)

Um dos efeitos mais importantes é a perda de eficiência da planta na captação de água e nutrientes. Estudos recentes mostram que os nematoides invadem a raiz e desorganizam a arquitetura radicular, o que limita o acesso a camadas mais profundas do solo e reduz o fluxo de recursos para a parte aérea. Em termos fisiológicos, isso ajuda a explicar por que plantas infectadas exibem sintomas semelhantes aos de estresse hídrico e deficiência mineral, mesmo quando a adubação está tecnicamente correta. (Frontiers)

Há também impacto direto na nutrição biológica da planta. Em pigeon pea, uma revisão recente destacou que a infecção por Meloidogyne incognita reduz a nodulação radicular, comprometendo a fixação biológica de nitrogênio e alterando vias bioquímicas essenciais ao crescimento. Esse é um ponto crítico porque o dano nematológico passa a afetar não apenas absorção, mas também o próprio equilíbrio interno de nitrogênio da cultura. (Springer)

Outra consequência relevante é o enfraquecimento das defesas da planta. Os nematoides secretam efetores que reprogramam células vegetais e suprimem respostas de defesa, facilitando a instalação do parasita e ampliando a suscetibilidade a outros patógenos. Revisões recentes também destacam que a infecção por nematoides favorece complexos de doenças com fungos, bactérias e vírus, seja por ferimentos na raiz, seja por alterações na fisiologia e na microbiota da rizosfera. (Frontiers)

Esses complexos de doenças têm efeito econômico multiplicador. O nematoide não age sozinho: ele amplia a severidade de murchas vasculares, podridões radiculares e outras doenças de solo, elevando o custo de controle e reduzindo a eficiência de qualquer medida isolada. Em síntese recente, os nematoides são descritos como agentes que funcionam como “porta de entrada biológica” para outros microrganismos oportunistas, o que agrava as perdas e dificulta o diagnóstico de campo. (Frontiers)

As perdas qualitativas são tão importantes quanto as perdas de rendimento. Em tomate, o ataque por nematoides-das-galhas pode comprometer o tamanho das plantas, o pegamento e a uniformidade dos frutos; em frutíferas como goiabeira, o efeito é ainda mais severo porque a redução do sistema radicular afeta a longevidade da planta e a produtividade acumulada ao longo de vários anos. O caso de M. enterolobii na goiaba ilustra bem esse dano crônico e de alto custo. (Frontiers)

Em termos de distribuição e prevalência, os dados recentes mostram que o problema está amplamente disseminado. No estudo nacional em soja sob plantio direto no Brasil, foram analisados 216 pontos e identificados sete gêneros fitoparasitas, com maior abundância de Helicotylenchus dihystera e Pratylenchus sp.; solos mais ácidos apresentaram maior abundância de nematoides, o que indica que a condição química do solo influencia fortemente o risco de dano. (ScienceDirect)

Em Wisconsin, um levantamento de 8.009 amostras ao longo de duas décadas mostrou que a presença de nematoides-praga é extremamente comum: pelo menos um nematoide foi recuperado em mais de 97% das amostras e 98% das fazendas, com Pratylenchus sendo o gênero mais prevalente e os nematoides-cisto aumentando de 16% para cerca de 40% em propriedades monitoradas. Esse tipo de dado reforça que infecção por nematoides é frequentemente um componente estrutural do sistema produtivo, não um evento excepcional. (PMC)

No cinturão sojicultor de Delaware e Maryland, uma survey recente recuperou oito espécies/gêneros em 311 amostras, com nematoides-cisto, nematoides-das-galhas e lesionadores entre os principais grupos detectados; o relatório técnico destacou ainda recuperação de Meloidogyne em 18% das amostras. Esses levantamentos ajudam a explicar por que, em áreas de soja, perdas podem variar muito conforme histórico da área, rotação e densidade populacional inicial. (Universidade de Delaware)

No caso dos lesionadores em cereais, a situação também é grave. Um estudo recente sobre Pratylenchus em cereais da Austrália apontou custo anual estimado em AUD 250 milhões para a agricultura extensiva, além de confirmar que todas as áreas amostradas estavam infestadas. Isso mostra que nem todo dano é visível como galha ou cisto; às vezes ele aparece como queda silenciosa de vigor e produtividade. (MDPI)

A tabela abaixo resume os principais tipos de dano observados em lavouras e o que eles significam no campo.

Tipo de danoMecanismo biológicoSintomas e efeitos práticosExemplo recente
Raiz galhadaJ2 penetra e induz células gigantesGalhas, raiz deformada, menor absorção de água e nutrientesTomate com Meloidogyne spp. (Frontiers)
Raiz lesionadaMigração entre células e destruição de tecidosLesões, necrose, estresse progressivo e maior entrada de patógenosPratylenchus em cereais e soja (MDPI)
Raiz com cistosFormação de cisto com ovos resistentesPersistência do inoculo no solo por vários ciclosSoja em regiões dos EUA (PMC)
Dano indiretoSupressão de defesa e doença complexaMaior severidade de murchas, redução de qualidade e produtividadeComplexos nematoide-fungo/bactéria/vírus (Frontiers)

O diagnóstico correto é o primeiro ponto de controle. Como os sintomas se confundem com deficiência hídrica ou mineral, a amostragem de solo e raízes deve ser feita antes do plantio e no início do ciclo, com identificação do gênero e, quando possível, da espécie. Essa etapa é decisiva para evitar que áreas com alta infestação sejam tratadas como simples problema nutricional. (Nature)

A prevenção, na prática, continua sendo a estratégia de maior retorno. Rotação com culturas não hospedeiras, uso de cultivares resistentes, limpeza de máquinas e controle de plantas daninhas hospedeiras reduzem a manutenção do inoculo e quebram o ciclo de alimentação e reprodução. O estudo em plantas daninhas nas áreas recém-reclamadas mostrou exatamente isso: algumas espécies espontâneas funcionam como reservatório e precisam ser manejadas com rigor. (Nature)

O manejo biológico também avançou bastante. Uma revisão de 2024 mostrou que bactérias e fungos do solo podem suprimir nematoides por antibiose, enzimas líticas, competição e indução de resistência sistêmica, além de produzir metabólitos e compostos voláteis com ação nematicida. Em tomate, nematicidas microbiológicos foram capazes de reduzir populações de Meloidogyne em plantas enxertadas e aumentar a produção por planta, mostrando que biocontrole e resistência genética podem atuar de forma complementar. (Frontiers)

A associação com micorrizas arbusculares também merece destaque. Em experimento recente com tomate e Meloidogyne incognita, diferentes fungos micorrízicos melhoraram a absorção de fósforo, aliviaram o dano do nematoide e reduziram o número de massas de ovos por galha em parte dos tratamentos. Em termos práticos, isso indica que solo biologicamente ativo e programas que favoreçam simbioses benéficas tendem a reduzir a severidade dos danos oriundos da infecção.

Por fim, a condição física e química do solo interfere diretamente na intensidade do dano. O levantamento brasileiro em soja mostrou maior abundância de nematoides em solos ácidos e relação clara com textura e pH; isso significa que manejo de acidez, matéria orgânica e estrutura do solo não são medidas “indiretas”, mas parte do controle do problema. Em sistemas intensivos, a sanidade radicular precisa ser tratada junto com fertilidade e conservação do solo. (ScienceDirect)

Conclusões

Os danos oriundos da infecção por nematoides são simultaneamente físicos, fisiológicos e econômicos. Eles começam com a penetração e a alimentação na raiz, avançam para a perda de água, nutrientes e capacidade fotossintética, e terminam em queda de produtividade, redução de qualidade e maior suscetibilidade a doenças de solo. Quando o manejo ignora a biologia do parasita, o prejuízo tende a se repetir a cada safra. (PMC)

A literatura recente mostra que os maiores prejuízos ocorrem quando há hospedeiro suscetível, solo favorável, rotação curta e ausência de monitoramento. Em contraste, o uso combinado de diagnóstico, resistência genética, rotação, higiene, biocontrole e melhoria da saúde do solo reduz a pressão do parasita e diminui a chance de perdas acumuladas. (Frontiers)

Recomendações práticas

Na rotina de campo, a medida mais segura é amostrar solo e raízes antes do plantio, identificar o grupo de nematoides presente e cruzar essa informação com histórico da área. Áreas com sintomas de murcha, amarelecimento, baixa resposta à adubação ou falhas de desenvolvimento devem ser tratadas como suspeitas até que o laudo confirme ou descarte o problema nematológico. (Nature)

Em áreas já diagnosticadas, a prioridade deve ser quebrar o ciclo de dano: rotação com não hospedeiras, eliminação de plantas daninhas reservatório, uso de mudas e máquinas limpas, escolha de cultivares resistentes e integração com agentes biológicos. Onde houver alta pressão de Meloidogyne ou Pratylenchus, o uso isolado de uma única ferramenta tende a falhar; o melhor desempenho vem da combinação de táticas. (Nature)

Em sistemas com solos ácidos, compactados ou pobres em matéria orgânica, vale priorizar correção de pH, conservação de cobertura e estímulo à biologia do solo. Esses ajustes não eliminam o parasita, mas reduzem a favorabilidade do ambiente e ajudam a diminuir a intensidade do dano, especialmente quando combinados com microrganismos benéficos e genótipos tolerantes. (ScienceDirect)

Referências

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