Introdução
A síndrome da haste verde e retenção foliar, frequentemente chamada de GSFR ou “soja louca II”, é um dos quadros mais importantes de diagnóstico em soja quando o problema está na parte aérea e a planta “não termina” como deveria. A literatura recente confirma Aphelenchoides besseyi como o agente causal na soja e destaca que, em situações severas, as perdas podem chegar a 100%; um estudo de 2025 ainda registrou perdas de 250 mil sacas, avaliadas em R$ 15 milhões, em uma única propriedade, o que mostra a dimensão econômica do problema. (MDPI)
Esse tema é especialmente relevante porque o nematoide não se limita ao solo. Ele invade raízes, caule, nós, folhas e estruturas reprodutivas, produzindo um conjunto de sintomas que podem ser confundidos com desordens climáticas, nutricionais ou até virais. Em revisão recente, os autores destacam que o problema é emergente, ainda subestimado em várias regiões, sem fontes amplamente consolidadas de resistência genética e com controle ainda difícil a campo. (ResearchGate)
Seção central
O primeiro grupo de sinais aparece nas folhas novas e no dossel superior. Em vez de amarelar e secar de forma normal ao final do ciclo, as plantas afetadas mantêm coloração verde-escura por mais tempo, com distorção foliar, blistering, estrangulamento do limbo, espessamento de nervuras e aparência semelhante a virose. Em sintomas descritos em 2025, as folhas jovens foram as primeiras a mostrar deformação e distorção, e em algumas cultivares os sintomas lembravam mosaico viral. (MDPI)
Um detalhe importante é que a retenção foliar não significa ausência de dano. Na prática, a planta continua verde, mas o tecido já está fisiologicamente comprometido, com alterações precoces detectáveis em estudos metabólicos e espectrais. O trabalho de LIBS mostrou diferenças nutricionais entre folhas sadias e infectadas, enquanto o estudo de 2025 com sensoriamento remoto confirmou que a assinatura espectral das folhas infectadas muda de forma detectável, sobretudo nas bandas do infravermelho próximo e de ondas curtas. (ScienceDirect)
Nos caules e nós, o sintoma clássico é o engrossamento e a tortuosidade dos entrenós, além de nós mais salientes e retorcidos. A literatura recente também descreve que os tecidos do caule podem permanecer verdes por longo período, mesmo com a planta já em fase avançada de maturação. Em campo, isso faz a lavoura parecer “travada” no final do ciclo, com aspecto visual irregular e, muitas vezes, em manchas. (MDPI)
As estruturas reprodutivas são fortemente afetadas. Em 2025, foram descritos aborto de flores, necrose em botões e inflorescências, deformação de vagens, espessamento e lesões corticosas marrons, além de grande redução no número de grãos por planta. O estudo em soja de 2022 também mostrou queda de número de vagens, número de grãos e rendimento quando A. besseyi esteve presente, especialmente em combinação com Meloidogyne incognita. (MDPI)
Nas folhas, o quadro pode se tornar mais intenso com o avanço da infecção. A cronologia observada em 2025 mostrou que, por volta do 10º dia após a inoculação, muitas cultivares já exibiam folhas verdes com descoloração e deformação; por volta do 18º dia surgiram necroses em botões e trifólios imaturos; e por volta do 22º dia apareceram hastes distorcidas, nós engrossados e folhas torcidas. Em 60 dias, os sintomas eram severos e o impacto sobre a massa fresca e a arquitetura da planta era evidente. (MDPI)
Esse encadeamento temporal ajuda muito no diagnóstico. No começo, a planta pode parecer apenas “atrasada”; depois, a combinação de verde persistente, deformação foliar, encurtamento ou tortuosidade de internódios, aborto floral e vagens mal formadas fecha o quadro típico. Em termos práticos, o sintoma não é apenas a cor verde: é o conjunto entre atraso de senescência, deformação de órgãos e falha reprodutiva. (MDPI)
A infecção também pode partir de sementes. O estudo de 2025 mostrou 100% de infecção em sementes inoculadas em várias cultivares, e as plântulas emergidas já carregavam sintomas severos de GSFR. Isso é decisivo porque a semente deixa de ser apenas um veículo de genética e passa a ser uma fonte potencial de inóculo, o que muda completamente a interpretação de lotes oriundos de áreas com histórico da doença. (MDPI)
Outro ponto relevante é que os sintomas podem aparecer em diferentes tecidos da parte aérea, não apenas em folhas. O estudo de 2025 mostrou o nematoide alcançando xilema, nós e mesófilo foliar já a partir do 3º dia após a inoculação, e ovos foram observados a partir do 7º dia em raízes e parte aérea. Isso explica por que a doença evolui rápido e por que o produtor muitas vezes percebe o problema já quando o ciclo está avançado. (MDPI)
A síndrome também pode ser confundida com problemas não nematológicos. A revisão de 2025 lembra que condições climáticas, desbalanço nutricional e até infecções virais podem produzir sintomas parecidos de “stay-green”, o que exige cautela antes de fechar diagnóstico apenas visual. Assim, folhas verdes no fim do ciclo não bastam; é preciso procurar a combinação de distorção foliar, nós engrossados, aborto floral e, quando possível, confirmar o nematoide em laboratório. (MDPI)
As descrições em outros hospedeiros ajudam a reconhecer o padrão. Em feijão-comum, foram observadas folhas deformadas, nervuras alteradas, lesões necróticas marrons a avermelhadas, haste deformada com nós aumentados e necrose em vagens e nós; em feijão-caupi, a infecção de campo causou manchas foliares escuras, com 20% a 50% das plantas afetadas na área avaliada. Isso mostra que A. besseyi não é um patógeno “da soja apenas”, mas um foliar nematoide com sintomas vegetativos e reprodutivos bem marcados. (PubMed)
A distribuição em campo também pode variar bastante. O review de 2023 informa que plantas sintomáticas podem aparecer em manchas, ao longo de linhas ou até uniformemente, o que reforça a necessidade de amostragem cuidadosa e leitura contextual da área. Em regiões quentes e úmidas, a doença tende a ter maior expressão, e o estudo com populações de arroz indicou que áreas infestadas e tropicais podem servir como fontes de inóculo para a soja. (ResearchGate)
| Parte da planta | Sintomas mais comuns | Significado agronômico |
|---|---|---|
| Folhas jovens | Verde-escuro persistente, blistering, distorção, espessamento de nervuras | Indica infecção ativa na parte aérea (MDPI) |
| Hastes e nós | Engrossamento, torção, entrenós irregulares | Sugere colonização sistêmica e atraso de maturação (MDPI) |
| Botões e inflorescências | Necrose, aborto floral, redução de racemos | Reduz diretamente o potencial produtivo (MDPI) |
| Vagens e grãos | Vagens deformadas, lesões marrons, grãos poucos ou sem sementes | Compromete rendimento e qualidade comercial (MDPI) |
| Sementes | Infecção e baixa emergência | Fonte de disseminação para a próxima safra (MDPI) |
Na produção, os sintomas se traduzem em perdas porque a planta deixa de investir corretamente em enchimento de grãos e senescência normal. O estudo de 2022 mostrou redução de altura, massa aérea, massa de raízes, número de vagens, número de grãos e produtividade quando os nematoides estavam presentes, e a pesquisa de 2025 reforçou que o dano aumenta com a progressão dos sintomas.
O diagnóstico moderno já vai além da observação visual. Um ensaio de 2025 com CRISPR e RPA mostrou detecção visual de A. besseyi em menos de 30 minutos, o que é muito útil para triagem rápida. Em paralelo, o uso de sensores hiperespectrais e modelos de aprendizado de máquina mostrou que a doença altera a resposta da folha e pode ser discriminada em níveis de infecção, especialmente na metade final do ciclo. (Nature)
Do ponto de vista prático, o erro mais comum é esperar “secagem” para então avaliar a área. Em GSFR, a planta pode permanecer verde justamente porque a senescência foi desorganizada, e isso vem acompanhado de aborto floral, lesões, deformações e queda de rendimento. Por isso, a leitura correta é feita ao longo do ciclo, com atenção especial às plantas jovens no início da reprodutiva e às áreas que historicamente mantêm reboleiras. (MDPI)
Conclusões
A síndrome da haste verde e retenção foliar é um quadro sintomático complexo, mas bastante reconhecível quando o diagnóstico é bem feito. Em soja, o padrão típico reúne verde persistente, deformação de folhas jovens, espessamento de nós, aborto floral, vagens deformadas e redução de grãos; em outros hospedeiros, o mesmo nematoide também provoca lesões foliares, deformações de haste e comprometimento reprodutivo. (MDPI)
A mensagem central da literatura recente é que os sintomas não devem ser vistos isoladamente. Eles precisam ser lidos junto com o histórico da área, a origem da semente, o estágio da lavoura e, sempre que possível, a confirmação laboratorial. Em áreas com suspeita, o diagnóstico precoce ainda é o melhor caminho para reduzir perdas e evitar a multiplicação do problema. (ResearchGate)
Recomendações práticas
Em campo, vale observar primeiro as folhas novas e o topo da planta, depois hastes, nós, inflorescências e vagens. Quando houver sintoma, a coleta deve incluir tecido foliar e, se possível, material de semente ou plântula, porque o nematoide pode estar presente na parte aérea e na semente ao mesmo tempo. Para confirmação, o laboratório continua essencial, mas ferramentas moleculares rápidas já podem acelerar a decisão. (MDPI)
No manejo, a prioridade é evitar que a lavoura entre em contato com fonte de inóculo: usar sementes de origem segura, reduzir hospedeiros alternativos, manejar restos culturais e considerar áreas de risco com histórico de clima quente e úmido. Em áreas já afetadas, o melhor resultado vem do diagnóstico cedo e da redução da disseminação, porque sintomas severos quase sempre chegam tarde para “salvar” a safra. (ResearchGate)
Referências
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ELHAMOULY, Neveen Atta et al. A novel assay incorporating CRISPR with RPA in a single pot for visual and accurate detection of Aphelenchoides besseyi in soybean. Scientific Reports, v. 15, art. 21217, 2025. DOI: 10.1038/s41598-025-04315-7.
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