Introdução
Neste texto, tomo a soja como cultura de referência, porque é nela que a síndrome da haste verde e retenção foliar está melhor documentada e onde o impacto econômico tem sido mais bem quantificado.
Na literatura recente, o quadro é associado principalmente a Aphelenchoides besseyi, nematoide foliar que no Brasil ficou conhecido como agente da “soja louca II”. Revisões e relatórios técnicos publicados entre 2020 e 2025 reforçam que se trata de um problema emergente, ainda subestimado em vários sistemas produtivos.A importância prática é grande porque a síndrome afeta diretamente a fase final da cultura, quando o produtor já investiu quase todo o custo da lavoura. Estudos recentes relatam perdas de até 100% em áreas severamente atacadas, enquanto um artigo de 2025 cita um surto de 2017 com redução de até 60% e outro trabalho registrou 250 mil sacas perdidas em uma única propriedade, avaliadas em R$ 15 milhões. (PubMed)
Além do dano direto, o tema ganhou mais peso porque o nematoide deixa de ser uma “suspeita visual” e passa a ser um alvo de diagnóstico molecular, sensoriamento remoto e modelagem por aprendizado de máquina. Isso mostra que a síndrome não é apenas um sintoma de fim de ciclo; ela pode ser rastreada, confirmada e monitorada com ferramentas modernas. (PMC)
1. O que é a síndrome e por que ela confunde o diagnóstico
A síndrome da haste verde e retenção foliar descreve plantas que completam o enchimento de grãos, mas mantêm hastes e folhas verdes por mais tempo do que o normal. Em soja, isso se manifesta com engrossamento de nós, folhas mais escuras e deformadas, aborto de flores, baixa formação de vagens e grãos que permanecem verdes ou apodrecem no final do ciclo.
O ponto diagnóstico mais delicado é que a síndrome pode lembrar outros distúrbios de “stay-green”, inclusive aqueles ligados a clima, nutrição, vírus e percevejos, especialmente em regiões onde a terminação do ciclo é irregular. A revisão de 2025 sobre a relação hospedeiro-parasita mostra justamente essa semelhança com quadros virais e sintomas de mosaico, vein thickening e distorção foliar, o que exige cautela na leitura a campo. (MDPI)
Em termos biológicos, A. besseyi é um nematoide facultativo, capaz de sobreviver em restos culturais e até associado a fungos saprofíticos na ausência da planta hospedeira. Isso ajuda a explicar por que a doença reaparece em áreas já contaminadas e por que o manejo isolado de um único ciclo raramente resolve o problema. (MDPI)
2. Como o nematoide chega à parte aérea e causa o dano
A literatura recente mostra que o ciclo na soja não fica restrito ao solo. Em um estudo de 2025, o nematoide foi detectado na raiz já no primeiro dia após inoculação, alcançou o caule no terceiro dia e passou a ser encontrado em folhas e mesófilo foliar também por volta do terceiro dia; ovos surgiram em diferentes tecidos a partir do sétimo dia. Isso confirma que o patógeno invade rapidamente a planta e se desloca internamente para a parte aérea. (MDPI)
Esse comportamento é agronomicamente relevante porque o ataque não se limita à absorção de água e nutrientes pelas raízes, como ocorre com muitos nematoides de solo. No caso de A. besseyi, os tecidos preferidos são os mais tenros e ricos em fotoassimilados, como folhas jovens e racemos florais, o que explica o abortamento de flores, o encurtamento dos entrenós e a má formação de vagens.
O resultado final é um conjunto de sintomas acima do solo que muitas vezes aparece quando a lavoura já está entrando em maturação. A planta parece “não secar”, permanece verde e retém folhas; ao mesmo tempo, os grãos podem ficar reduzidos, verdes, chochos ou apodrecer. Em outras palavras, o problema é tanto de aparência quanto de produtividade e qualidade.
3. Sintomas, severidade e efeito sobre rendimento
No campo, os sinais mais típicos incluem folhas de coloração verde-escura, menor pilosidade, limbo estreitado e bolhoso, além de lesões necróticas angulares pardo-avermelhadas. Nas hastes, observam-se nós engrossados, caneluras e retorção dos entrenós apicais; nas estruturas reprodutivas, ocorre abortamento de flores, rosetamento de racemos, redução de vagens e deformações com necrose.
A severidade varia com o momento da infecção. O estudo de 2025 em campo natural mostrou que os sintomas começam discretos, tornam-se evidentes por volta de 10 dias após a inoculação e se agravam fortemente até cerca de 60 dias, com lesões em folhas novas, nó elongado, necrose de gemas e forte redução de produção de flores e vagens. (MDPI)
Na prática, isso afeta diretamente os componentes de rendimento. O ensaio de 2022 mostrou que a combinação de A. besseyi com Meloidogyne incognita reduziu altura de planta, massa fresca aérea, massa de raiz, número de vagens, número de grãos e rendimento; a combinação de 500 indivíduos de A. besseyi com 8.000 de M. incognita foi a mais agressiva no experimento.
Tabela-síntese das informações-chave
| Etapa/tema | O que observar | Leitura agronômica | Base recente |
|---|---|---|---|
| Sintoma inicial | Folhas mais escuras, deformadas e com menor pilosidade | Forte suspeita de GSFR | |
| Parte aérea | Nós engrossados, entrenós retorcidos, aborto floral | O nematoide já alcançou tecidos acima do solo | |
| Fase reprodutiva | Vagens deformadas, grãos verdes ou apodrecidos | Perda direta de rendimento e qualidade | |
| Agravamento | Infecção precoce e/ou coinfecção com M. incognita | Maior dano aos componentes de produção |
4. Disseminação, hospedeiros e risco de reintrodução
A dispersão do problema ocorre por sementes, contato entre plantas, água de chuva, orvalho, irrigação e, em colheita, pelo deslocamento de resíduos vegetais pelas colhedoras. Além da soja, a literatura recente aponta algodão, feijão, feijão-caupi e várias plantas daninhas como hospedeiros ou reservatórios que ajudam a manter a população ativa na área.
Essa informação muda a lógica de manejo. Se sementes oriundas de áreas sintomáticas podem carregar o nematoide, então a sanidade do lote passa a ser tão importante quanto a cultivar usada. Em um estudo de 2025, sementes de soja inoculadas mostraram 100% de infecção em vários genótipos, e as cultivares que emergiram também exibiram GSFR severo, o que reforça o papel do sementeiro como possível fonte de inoculum. (PMC)
A distribuição da doença também não é uniforme. A revisão de 2024 descreve A. besseyi como um parasita emergente e ainda pouco reconhecido em várias culturas economicamente importantes, com risco para soja, algodão e feijão, e destaca que, no Brasil, ainda não há nematicidas químicos registrados nem fontes amplamente conhecidas de resistência genética para esse nematoide. (bsppjournals.onlinelibrary.wiley.com)
5. Diagnóstico: do campo ao laboratório e às ferramentas rápidas
No diagnóstico tradicional, a coleta precisa ser feita com foco em plantas sintomáticas e em tecidos relevantes, especialmente parte aérea quando a síndrome está instalada. A interpretação ganha confiabilidade quando a amostra é processada rapidamente e com conservação adequada, porque o nematoide pode perder viabilidade se houver atraso, aquecimento ou dessecação da amostra.
Uma das mudanças mais interessantes dos últimos anos é o salto em diagnóstico molecular portátil. Em 2025, um ensaio single-pot com CRISPR e RPA conseguiu detectar A. besseyi em menos de 30 minutos, com alta sensibilidade e especificidade, e foi testado em 44 amostras sintomáticas de soja. Para campo, isso abre a possibilidade de triagem rápida antes mesmo da confirmação laboratorial convencional. (PMC)
Outra frente promissora é o sensoriamento remoto. O estudo de 2025 mostrou que bandas do infravermelho próximo e do infravermelho de ondas curtas foram as mais úteis para discriminar níveis de infecção, e que regressão logística teve o melhor desempenho entre os modelos testados. O próprio artigo indica que a melhor fase para discriminação foi a metade final do ciclo da soja, quando a assinatura espectral da doença fica mais nítida. (ScienceDirect)
Também vale notar que a metabolômica já mostrou alterações rápidas na planta antes mesmo da colheita. Em 2020, o perfil de raízes inoculadas revelou aumento de flavonoides e substâncias como genisteína, genistina, glicitina e neobavaisoflavona, compostos associados à defesa contra nematoides. Isso significa que o efeito do patógeno começa cedo, mesmo quando os sintomas visuais ainda estão pouco claros. (PubMed)
6. Interpretação agronômica: o número sozinho não basta
A leitura do laudo nematológico deve integrar espécie, densidade, estádio da cultura, histórico da área e nível de sintoma. O erro mais comum é tratar qualquer presença de nematoide como sinônimo de dano econômico imediato; na verdade, o impacto varia com cultivar, ambiente e época da infecção.
No caso específico da GSFR, o momento da infecção pesa muito. O trabalho de 2025 mostrou que inoculações precoces geram sintomas mais severos e que há diferenças claras entre cultivares quanto à susceptibilidade. Em ambiente natural, por exemplo, Yudou 29 foi a mais resistente entre as avaliadas, enquanto Williams 82 foi a mais suscetível. (MDPI)
Esse ponto ajuda a separar diagnóstico de decisão. A presença de A. besseyi em uma amostra é um alerta técnico; a recomendação de manejo, porém, depende de sintomas, fase da lavoura e potencial de recontaminação da área. É uma interpretação contextual, não automática. (bsppjournals.onlinelibrary.wiley.com)
7. Manejo: o que a pesquisa recente sustenta
A melhor estratégia disponível continua sendo o manejo integrado. A revisão de 2023 ressalta que, no Brasil, não há nematicidas químicos registrados para A. besseyi e não existem fontes amplamente consolidadas de resistência genética; por isso, rotação, higiene e prevenção são mais importantes do que medidas curativas tardias. (ResearchGate)
No componente cultural, a recomendação técnica da Embrapa é semear sobre palhada completamente morta, com dessecação 15 a 20 dias antes do plantio, controlar plantas daninhas desde o início e evitar sucessão com hospedeiros. A mesma orientação sugere o milho na segunda safra, quando viável, para reduzir a continuidade do hospedeiro na área.
A sanidade de sementes também merece prioridade. Como a literatura recente mostrou infecção de sementes e disseminação por tecidos acima do solo, a inferência prática mais segura é evitar usar sementes de áreas com histórico severo, testar lotes suspeitos e reduzir ao máximo a movimentação de resíduos de lavouras doentes. Essa recomendação é uma inferência direta da evidência de transmissão por semente e por restos culturais. (PMC)
Conclusões
A síndrome da haste verde e retenção foliar na soja é um problema nematológico real, emergente e economicamente relevante. A evidência recente confirma Aphelenchoides besseyi como agente causal, mostra sua capacidade de colonizar rapidamente a parte aérea e demonstra que a doença pode comprometer severamente flores, vagens, grãos e produtividade. (MDPI)
Para o manejo, o recado é claro: diagnóstico cedo, sementes e áreas sob controle, eliminação de hospedeiros, atenção ao período de semeadura e uso de ferramentas modernas de confirmação. Quando o produtor entende que GSFR não é apenas “planta verde no final”, mas um quadro parasitário com transmissão, colonização sistêmica e recontaminação por sementes e resíduos, a resposta técnica passa a ser muito mais eficiente. (PMC)
Recomendações práticas
Na prática, o caminho mais seguro é monitorar áreas de risco, coletar material sintomático da parte aérea e de sementes quando houver suspeita, confirmar em laboratório com o método disponível e, depois, ajustar o manejo com foco preventivo. Em áreas com histórico da síndrome, vale redobrar o cuidado com dessecação antecipada, plantas daninhas hospedeiras e uso de sementes sem origem duvidosa.
Referências
ABD-ELGAWAD, Mahfouz M. M. Optimizing sampling and extraction methods for plant-parasitic and entomopathogenic nematodes. Plants, v. 10, n. 4, art. 629, 2021. DOI: 10.3390/plants10040629.
DE SOUZA, Victor Hugo Moura et al. An emergent plant-parasitic nematode in Brazil: Aphelenchoides besseyi. Current status and research perspectives. Plant Pathology, v. 73, p. 478-491, 2024. DOI: 10.1111/ppa.13829.
DELLA-SILVA, João Lucas et al. Evaluation of soybean plants affected by Aphelenchoides besseyi using remote sensing and machine learning techniques. Remote Sensing Applications: Society and Environment, v. 37, art. 101461, 2025. DOI: 10.1016/j.rsase.2025.101461.
ELHAMOULY, Neveen Atta et al. Studies on Host–Parasite Relationship Between Soybean Plants and Aphelenchoides besseyi. Life, v. 15, n. 7, art. 1154, 2025. DOI: 10.3390/life15071154.
ELHAMOULY, Neveen Atta et al. A novel assay incorporating CRISPR with RPA in a single pot for visual and accurate detection of Aphelenchoides besseyi in soybean. Scientific Reports, v. 15, art. 21217, 2025. DOI: 10.1038/s41598-025-04315-7.
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Tecnologias de produção de soja 2020. Londrina: Embrapa Soja, 2020. (Sistemas de Produção, 17).
LORETO, Rafaela Bueno et al. Soybean development under different Aphelenchoides besseyi and Meloidogyne incognita populations. Semina: Ciências Agrárias, v. 43, n. 4, p. 1595-1604, 2022. DOI: 10.5433/1679-0359.2022v43n4p1595.
MOURA DE SOUZA, Victor Hugo et al. An emergent plant-parasitic nematode in Brazil: Aphelenchoides besseyi. Current status and research perspectives. Plant Pathology, 2024. DOI: 10.1111/ppa.13829.
ZANZARIN, Daniele Maria et al. Metabolomics of soybean green stem and foliar retention (GSFR) disease using mass spectrometry and molecular networking. Rapid Communications in Mass Spectrometry, v. 34, suppl. 3, e8655, 2020. DOI: 10.1002/rcm.8655.
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