segunda-feira, 6 de abril de 2026

Dazomet no controle de nematoides

 

Introdução

Os fitonematoides continuam entre os organismos mais onerosos da agricultura. Uma revisão recente estimou perdas anuais em torno de US$ 157 bilhões e destacou que, além do impacto produtivo, os nematoides agravam o sistema de doenças de solo em culturas hortícolas e perenes.

Outra monitoração recente mostrou que, em áreas agrícolas da Croácia, Meloidogyne spp. foi detectado em 29% das 210 amostras analisadas entre 2022 e 2024, chegando a 67,6% nas amostras de hortaliças, o que ilustra a relevância do grupo em sistemas intensivos. (ScienceDirect)

Nesse contexto, o dazomet — frequentemente confundido em grafias como “dazomete” — permanece como um dos fumigantes de solo mais importantes para pré-plantio. A literatura recente o descreve como um fumigante de amplo espectro, de boa eficiência e relativamente baixa toxicidade quando comparado a alternativas mais antigas, com uso registrado para nematoides em culturas como tomate, gengibre, morango e tabaco. (MDPI)

O interesse atual pelo produto não vem apenas da eficácia, mas da necessidade de encaixá-lo em sistemas mais sustentáveis. Os estudos de 2023 a 2025 mostram que o melhor desempenho do dazomet ocorre quando ele é integrado a outros fumigantes, a biocontroles ou ao manejo físico-químico do solo, em vez de ser usado como solução isolada. (Springer)

1. Como o dazomet funciona no solo

O dazomet atua como precursor do metilisotiocianato (MITC), que é a fração biologicamente ativa liberada após contato com água no solo. A eficiência depende da hidrólise e da distribuição uniforme do produto na camada tratada, porque é o MITC que alcança nematoides, fungos e sementes de plantas daninhas. Em termos práticos, trata-se de um fumigante de pré-plantio cujo sucesso depende tanto do ingrediente quanto do manejo físico do solo. (MDPI)

A conversão em MITC é muito sensível ao ambiente. O estudo de 2022 mostrou que temperatura e umidade elevadas aceleram a degradação e a liberação do MITC, e que a granulometria influencia a velocidade de ação: partículas menores degradam mais rápido, enquanto partículas maiores podem alongar o efeito, mas também atrasar a liberação. O trabalho recomenda grânulos entre 100 e 300 μm, cerca de 25 °C e aproximadamente 30% de umidade do solo logo após a aplicação para maximizar eficácia e reduzir fitotoxicidade. (MDPI)

Esse ponto é agronomicamente decisivo porque a aplicação não se resume a “jogar o produto no solo”. Em solos muito secos, frios ou com distribuição irregular do granulado, a liberação de MITC cai e a eficiência sobre nematoides pode ser insuficiente; em condições muito favoráveis à degradação descontrolada, há risco maior de perda precoce do ativo e de falha no controle. (MDPI)

2. Eficácia em campo e em casa de vegetação

Em tomate, os resultados recentes são consistentes. No estudo de 2024 em três ensaios de campo, a aplicação combinada de dazomet + 1,3-dicloropropeno reduziu Meloidogyne spp. em pelo menos 94%, com índices de galhas muito baixos e produtividade superior à testemunha. Em alguns cenários, o desempenho do tratamento combinado se aproximou do brometo de metila, reforçando o valor da estratégia como alternativa de pré-plantio. (Nature)

O mesmo trabalho mostrou que a combinação também reduziu fortemente os patógenos de solo associados à requeima e à murcha, como Fusarium e Phytophthora, o que interessa muito a áreas de replantio, onde o problema raramente é “um único organismo”. A eficiência no tomate veio acompanhada de ganhos de rentabilidade, com destaque para os tratamentos fumigados em comparação com a área não tratada. (Nature)

Em gengibre, a combinação de dazomet + Rhodopseudomonas palustris PSB-06 produziu um resultado também forte: 80% de redução da população de nematoides-das-galhas e 37,37% de aumento de rendimento. O estudo mostrou ainda mudanças favoráveis na microbiota da rizosfera, com aumento de bactérias benéficas e redução de fungos fitopatogênicos, o que sugere que o dazomet pode funcionar melhor quando seguido de inoculação microbiana adequada. (Frontiers)

A integração com biocontrole não é uma exceção, mas um padrão recente. Em 2023, a pré-tratamento com dazomet aumentou a eficiência de Purpureocillium lilacinum contra Meloidogyne incognita, tanto em ensaio in vitro quanto em vaso, indicando que a fumigação pode abrir nicho ecológico para o agente biológico atuar depois. Essa linha de trabalho reforça que o manejo pode ser sequencial: primeiro reduzir o inóculo com fumigação, depois restaurar a atividade biológica benéfica. (Springer)

3. Efeitos sobre solo, microbiota e recuperação

Nem todo efeito do dazomet é “apenas” supressão de pragas. Em Panax notoginseng, um ensaio de dois anos mostrou que a fumigação aumentou nitrogênio total, fósforo e potássio disponíveis, promoveu melhor crescimento e elevou a produtividade em 2,83 a 3,81 vezes, além de aumentar o teor total de saponinas em 24,06%. Embora não seja um estudo de nematoides em sentido estrito, ele ilustra como a fumigação pode alterar o sistema solo-planta de forma ampla. (Frontiers)

Ao mesmo tempo, a literatura recente mostra que o impacto microbiológico inicial é real e deve ser levado a sério. Em morango com cultivo contínuo, a fumigação com dazomet reduziu riqueza e diversidade bacteriana e fúngica, mas a adição posterior de Trichoderma harzianum elevou novamente a diversidade e aumentou grupos benéficos como Bacillus, Flavobacterium e Cladorrhinum, enquanto reduziu gêneros patogênicos como Monilinia, Ilyonectria e Fusarium. (MDPI)

Um estudo complementar de 2025 mostrou que a adição de agentes microbianos após fumigação também pode melhorar a estrutura da comunidade microbiana em morango, confirmando que o “pós-dazomet” é um momento agronomicamente estratégico. A mensagem prática é clara: o fumigante pode abrir a área, mas a reconstituição biológica ajuda a reduzir a chance de reocupação por patógenos oportunistas. (MDPI)

Do ponto de vista da recuperação do solo, a dinâmica não é instantânea. Em um estudo de 2025 sobre o resistoma e a comunidade bacteriana após uma única fumigação, os efeitos foram descritos como fásicos e recuperáveis: diversidade e abundância microbiana foram afetadas nas primeiras semanas, e o sistema retornou ao estado basal por volta de 50 dias. Isso não significa que todo sistema agrícola precise esperar exatamente esse intervalo, mas mostra que a recuperação ecológica exige tempo e manejo, não acontece “automaticamente” no dia seguinte. (ScienceDirect)

4. Como usar melhor: dose, ambiente e combinação

A pesquisa recente converge para uma ideia simples: o dazomet funciona melhor quando o solo é preparado para ele. A granulometria do produto, a umidade logo após a incorporação e a temperatura de aplicação mudam a velocidade de liberação do MITC e, portanto, a eficiência final. Em solo com manejo ruim, a variabilidade de distribuição pode levar tanto à fitotoxicidade localizada quanto a falhas de controle. (MDPI)

Outra lição prática é que o produto ganha força quando entra em programas combinados. Em tomate, o uso com 1,3-D reduziu Meloidogyne spp. em mais de 94% e melhorou rendimento; em gengibre, a associação com uma bactéria promotora de crescimento também elevou a produção; em morango, o retorno de microrganismos benéficos após fumigação favoreceu a estabilidade do sistema. Isso mostra que o dazomet é mais bem entendido como um “reset” parcial do ambiente do solo, e não como solução final e isolada. (Nature)

Também vale ressaltar que o produto deve ser orientado pelo diagnóstico. Onde predominam Meloidogyne spp., a combinação com fumigantes complementares ou com biocontrole tem boa base experimental; onde o problema é misto, com fungos de solo, o valor da estratégia aumenta ainda mais. Em sistemas sem diagnóstico preciso, o risco é gastar mais do que o necessário e ainda assim deixar parte do inóculo intacta. (Nature)

Síntese prática das evidências recentes

Situação estudadaResposta observada com dazometLeitura prática
Tomate + 1,3-DRedução de Meloidogyne spp. ≥ 94%; galhas muito baixas; maior produtividadeForte opção de pré-plantio em áreas com nematoides e patógenos de solo. (Nature)
Gengibre + R. palustris PSB-06Redução de 80% de nematoides e +37,37% de rendimentoCombinação fumigante + microbiologia pode ampliar o retorno. (Frontiers)
P. notoginsengCrescimento 2,83–3,81x e +24,06% de saponinasMostra efeito amplo no sistema solo-planta. (Frontiers)
Morango contínuo + T. harzianumRecuperação de diversidade e aumento de grupos benéficos após fumigaçãoPós-fumigação com inoculantes pode acelerar a restauração biológica. (MDPI)
Resistoma após fumigaçãoComunidade bacteriana e ARGs recuperaram por volta de 50 diasA recuperação ecológica leva tempo. (ScienceDirect)

Conclusões

O dazomet continua tecnicamente relevante no controle de nematoides porque alia potência de pré-plantio, versatilidade e boa compatibilidade com estratégias integradas. A literatura recente confirma sua eficiência sobre Meloidogyne spp., sobretudo quando associado a 1,3-dicloropropeno ou a agentes biológicos, e destaca que seu desempenho depende fortemente de condições de solo e de formulação. (Nature)

Ao mesmo tempo, o uso responsável exige olhar para além da morte do nematoide. O produto altera a microbiota do solo, afeta a diversidade inicial e demanda reconstituição biológica posterior. Por isso, a melhor leitura agronômica é enxergá-lo como uma ferramenta de desinfestação pré-plantio que deve ser seguida por manejo de recuperação do solo e monitoramento do inóculo remanescente. (MDPI)

Recomendações práticas

Em área com histórico de nematoides, a estratégia mais segura é aplicar o dazomet como medida pré-plantio, com incorporação uniforme, umidade adequada e temperatura compatível com a liberação do MITC. O produto não deve ser tratado como substituto de diagnóstico, rotação ou higiene de área; ele funciona melhor quando encaixado em um programa integrado. (MDPI)

Depois da fumigação, vale planejar a reintrodução de microrganismos benéficos, especialmente em sistemas de cultivo contínuo. Os estudos com morango mostram que Trichoderma e outros inoculantes podem acelerar a recuperação da microbiota e reduzir a chance de recolonização por patógenos, enquanto o trabalho com gengibre sugere que a sequência fumigação + inoculante pode ser muito mais eficiente do que qualquer uma das medidas isoladas. (MDPI)

Referências

MEEL, Swati; SAHARAN, Baljeet Singh. Microbial warfare against nematodes: A review of nematicidal compounds for horticulture, environment, and biotechnology. The Microbe, v. 9, art. 100557, 2025. DOI: 10.1016/j.microb.2025.100557.

MAO, Liangang et al. Soil application of dazomet combined with 1,3-dichloropropene against soilborne pests for tomato production. Scientific Reports, v. 14, art. 83182, 2024. DOI: 10.1038/s41598-024-83182-0.

NIE, Haizhen et al. Pre-treatment with Dazomet enhances the biocontrol efficacy of Purpureocillium lilacinum to Meloidogyne incognita. BMC Microbiology, v. 23, art. 244, 2023. DOI: 10.1186/s12866-023-02978-8.

WANG, D. et al. Effects of dazomet combined with Rhodopseudomonas palustris PSB-06 on root-knot nematode Meloidogyne incognita infecting ginger and soil microorganisms diversity. Frontiers in Microbiology, 2022. DOI: 10.3389/fmicb.2022.1021445.

LIN, Y. et al. Dazomet fumigation modification of the soil microorganism community and promotion of Panax notoginseng growth. Frontiers in Microbiology, v. 15, art. 1443526, 2024. DOI: 10.3389/fmicb.2024.1443526.

WU, R.; LI, Y.; MENG, J.; HAN, J. Effects of Dazomet Fumigation Combined with Trichoderma harzianum on Soil Microbial Community Structure of Continuously Cropped Strawberry. Horticulturae, v. 11, n. 1, art. 35, 2025. DOI: 10.3390/horticulturae11010035.

WU, R.; LI, Y.; MENG, J.; HAN, J. Effects of the Addition of Microbial Agents After Dazomet Fumigation on the Microbial Community Structure in Soils with Continuous Cropping of Strawberry (Fragaria × ananassa Duch.). Microorganisms, v. 13, n. 6, art. 1178, 2025. DOI: 10.3390/microorganisms13061178.

WU, H.; CHEN, S.; DENG, Y.; SHEN, J.; XU, Y.; WEN, T.; YUAN, J.; SHEN, Q.; XUE, C. Dynamics of antibiotic resistance genes and the bacterial community after stress from a single Dazomet fumigation. Environmental Pollution, v. 372, pt. D, art. 126048, 2025. DOI: 10.1016/j.envpol.2025.126048.

ZHANG, D. et al. The Appropriate Particle Size of Dazomet Can Ensure the Soil Fumigation Effect from the Source. Agriculture, v. 12, n. 11, art. 1832, 2022. DOI: 10.3390/agriculture12111832.

REHAK BIONDIĆ, Tamara; MILANOVIĆ, Jasna; POJE, Ivan; POPOVIĆ, Luka; BRMEŽ, Mirjana; GERIČ STARE, Barbara. Monitoring of root-knot nematodes (Meloidogyne spp.) in Croatia (2022–2024): occurrence, distribution and species identification. Agronomy, v. 15, n. 11, art. 2492, 2025. DOI: 10.3390/agronomy15112492.

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