sábado, 18 de abril de 2026

Trichoderma harzianum no controle de nematoides

 


Introdução

Os fitonematoides seguem entre os patógenos mais caros e subestimados da agricultura.

Revisões recentes estimam perdas globais anuais da ordem de 12,3% da produção e valores econômicos que chegam a US$ 358,24 bilhões em 40 culturas estratégicas; em paralelo, levantamentos de campo continuam mostrando alta presença de nematoides-das-galhas, com 60% dos campos de hortaliças amostrados em partes dos Estados Unidos positivos, além de monitoramentos recentes na Croácia (29% das amostras) e na Sérvia (23,7%). Esse cenário mantém a busca por biocontrole como prioridade técnica e econômica. (Nature)

Dentro das alternativas biológicas, Trichoderma harzianum ocupa uma posição de destaque porque combina colonização radicular, promoção de crescimento e supressão de patógenos de solo. Revisões de 2025 apontam T. harzianum como uma das espécies mais estudadas do gênero contra nematoides e descrevem sua integração com rotação, emendas orgânicas, extratos vegetais e cultivares resistentes como parte do manejo integrado. (MDPI)

1. Como T. harzianum atua

A literatura recente converge para um conjunto de mecanismos complementares. T. harzianum pode competir por espaço e nutrientes na rizosfera, parasitar estruturas de outros microrganismos, produzir enzimas líticas e modular a defesa da planta. No caso dos nematoides, as revisões destacam enzimas como quitinases, proteases, lipases e glucanases, além de metabólitos capazes de afetar mobilidade, reprodução e sobrevivência dos parasitas. (MDPI)

A produção de metabólitos secundários é uma frente cada vez mais forte. Uma revisão bibliométrica de 2025 mostrou crescimento exponencial da pesquisa sobre metabólitos de Trichoderma, com pico em 2023, e destacou quatro blocos principais de investigação: atividade antifúngica, regulação gênica, produção de metabólitos e biossíntese. Isso é relevante porque parte da atividade nematicida de T. harzianum parece depender justamente desse repertório químico. (Frontiers)

Além disso, Trichoderma não age apenas no patógeno. Revisões recentes mostram indução de resistência sistêmica com participação de jasmonato, etileno, ácido salicílico e auxinas, o que ajuda a explicar por que as plantas tratadas frequentemente mostram maior vigor, tolerância ao estresse e menor severidade de galhas. (MDPI)

2. Evidência direta em tomate

O estudo clássico mais consistente recente em tomate mostrou que T. harzianum conseguiu suprimir Meloidogyne incognita em 61,88%, com aumento de metabólitos secundários e da atividade de enzimas de defesa em Solanum lycopersicum. Esse trabalho é importante porque conecta o efeito no nematoide à resposta fisiológica da planta, e não apenas à redução do parasita. (ScienceDirect)

Em outro contexto de tomate, a combinação de T. harzianum com outros microrganismos e chitosana foi ainda mais expressiva. Em 2024, a aplicação de mutantes irradiados de T. harzianum e Bacillus velezensis em tomate reduzindo Meloidogyne javanica mostrou queda de 94% no fator de reprodução quando combinada com chitosana, e redução adicional de 65–76% quando o manejo foi ajustado à dinâmica da infecção. Isso reforça que a espécie funciona melhor quando entra em estratégias combinadas. (Nature)

3. Evidência em banana

A banana é um caso importante porque o manejo nematológico ainda é mais limitado do que em hortaliças. Em 2022, dois isolados de T. harzianum reduziram a população de Meloidogyne javanica nas raízes de bananeira em até 55,2% e 67,9%, enquanto a atividade de quitinase e glucanase aumentou nos tratamentos mais promissores. O estudo também mostrou que, apesar da redução do nematoide, o ganho em crescimento não foi uniforme, o que lembra que controle biológico nem sempre se traduz diretamente em maior biomassa. (ScienceDirect)

Essa variabilidade é útil para interpretação de campo. O fato de T. harzianum ser eficiente contra M. javanica em banana não significa que a resposta produtiva será idêntica em todos os ambientes ou cultivares. A literatura recente sobre o gênero reforça exatamente isso: desempenho depende de cepa, cultura, método de aplicação, solo e intensidade da infestação. (MDPI)

4. Ensaios com isolamento nativo e metabólitos

O avanço mais forte de 2025 foi mostrar que a seleção de isolados faz diferença. Em uma triagem com 167 isolados de Trichoderma, 22 apresentaram atividade nematicida forte contra M. incognita, com mortalidade de juvenis acima de 70% em 72 horas; os melhores reduziram galhas em 90,4% e a população de J2 no solo em 67,7% em casa de vegetação. Embora o trabalho tenha destacado principalmente outras espécies do gênero, ele confirma que o pool de isolados nativos continua sendo uma fonte relevante de ferramentas para nematologia. (ScienceDirect)

Ainda mais específico para T. harzianum, um estudo de 2025 sobre metabólitos secundários mostrou que quatro isolados diferentes geraram respostas muito distintas contra M. incognita. Os mais potentes produziram >75% de inibição da eclosão e >93% de mortalidade de juvenis em 168 horas, com predominância de ésteres de ácidos graxos como metil palmitato e metil oleato, sugerindo ação por desorganização de membranas e forte dependência do perfil metabólico do isolado. (SmUJO)

Em outras palavras, não basta dizer “T. harzianum funciona”; é preciso dizer qual isolado, qual metaboloma e qual sistema de entrega. Essa precisão é cada vez mais valorizada porque a literatura recente vem migrando da simples observação de antagonismo para a caracterização molecular e metabolômica dos agentes biológicos. (Frontiers)

5. Formulação e microbioma

A estabilidade da formulação é um dos grandes gargalos para transformar o potencial de laboratório em resultado consistente no campo. Em 2025, um estudo de co-inoculação com Burkholderia vietnamiensis B418 e T. harzianum T11W reduziu a infestação de Meloidogyne incognita em tomate e alterou a estrutura e a função do microbioma da rizosfera, com redução de 71,42% no índice da doença na combinação. Isso mostra que o efeito pode ser ampliado quando T. harzianum entra em consórcio. (MDPI)

A formulação também pode aumentar muito a persistência do fungo. Um estudo de 2024 mostrou que microcápsulas com alginato, nanocelulose e quitosana mantiveram 100% de viabilidade de conídios de Trichoderma por dois meses a 37 °C, com eficiência de encapsulação acima de 92%. Embora o trabalho tenha usado T. longibrachiatum, ele é altamente relevante para T. harzianum, porque demonstra como tecnologias de encapsulação podem proteger fungos biocontroladores de estresses ambientais. (Frontiers)

A bibliometria de 2025 também sugere que a pesquisa em Trichoderma está se deslocando justamente para metabolitos, regulação gênica e aplicações em consórcios. Isso combina com a realidade de campo: produtos com múltiplos microrganismos e formulações mais estáveis tendem a ter mais chance de funcionar em solos complexos e em sistemas de produção intensiva. (Frontiers)

6. Limitações e leitura crítica

Apesar do avanço, ainda há limites claros. Uma revisão de 2024 lembra que Trichoderma coloniza sobretudo as camadas mais externas da raiz, melhora o crescimento e induz defesa, mas pode causar efeitos indesejados se atingir tecidos vasculares; a mesma revisão aponta possíveis interações com outros organismos do ecossistema, o que pede cautela na expansão indiscriminada do uso. (ScienceDirect)

Outra limitação é que a resposta varia muito entre espécies de nematoide e entre sistemas de cultivo. A própria revisão de 2025 sobre estratégias de biocontrole destaca que a eficácia de Trichoderma depende da cepa, da técnica de aplicação e das condições do solo, e recomenda validação de longo prazo e uso em integração com rotação, emendas orgânicas, extratos e resistência genética. (MDPI)

Tabela-síntese das evidências recentes

EstudoCultura / alvoResultado principalLeitura prática
Yan et al., 2021Tomate / M. incognitaSupressão de 61,88% e aumento de enzimas de defesaBoa evidência de ISR e ação direta. (ScienceDirect)
Almeida et al., 2022Banana / M. javanicaRedução de até 67,9% nas raízesPotencial para banana, mas resposta produtiva variável. (ScienceDirect)
Wang et al., 2024Amendoim / estresse bióticoQT20045 com 78,51% de biocontrole e maior crescimentoMostra mecanismo fisiológico robusto do gênero. (Frontiers)
Rostami et al., 2024Tomate / M. javanicaRF reduzido em 94% com mutantes + chitosanaConsórcios e formuladores podem elevar a eficácia. (Nature)
Jaiswal et al., 2025Tomate / M. incognita22 isolados com forte atividade; melhor galha reduzida em 90,4%Prospeção de isolados nativos continua valiosa. (ScienceDirect)
Pradana et al., 2025M. incognita / isolados de T. harzianumInibição de eclosão >75% e mortalidade >93%Metabolitos de T. harzianum são muito promissores. (SmUJO)
Jiang et al., 2025Tomate / M. incognitaCo-inoculação com Burkholderia + T. harzianum reduziu o índice da doença em 71,42%O desempenho cresce em consórcio e com microbioma favorável. (MDPI)

Conclusões

Trichoderma harzianum se consolidou como uma das ferramentas biológicas mais promissoras para o manejo de nematoides porque combina ação direta sobre ovos e juvenis, ativação de defesas da planta, melhoria do vigor radicular e boa integração com outros agentes e insumos. A melhor evidência recente vem de tomate, banana e estudos metabolômicos, com resultados que vão de redução de galhas e reprodução até melhora de enzimas de defesa e do microbioma da rizosfera. (ScienceDirect)

O ponto decisivo para o uso prático é que a eficácia depende fortemente de isolado, formulação, ambiente e momento de aplicação. Onde o manejo é preventivo, integrado e sustentado por boa formulação, T. harzianum entrega mais; onde se tenta usar tarde demais ou de forma isolada, a resposta tende a ser bem mais irregular. (MDPI)

Recomendações práticas

Para o produtor, a melhor estratégia é usar produtos registrados com T. harzianum antes da instalação forte do nematoide, de preferência em tratamento de sementes, sulco ou drench, sempre com diagnóstico prévio da espécie-alvo e do nível populacional. Para o pesquisador, a agenda mais útil é testar isolados locais, medir não só galhas e população final, mas também enzimas de defesa, metabolitos e microbioma, e comparar uso isolado versus consorciado. (MDPI)

Em áreas com histórico pesado de nematoides, o melhor ganho costuma vir da soma de estratégias: T. harzianum + matéria orgânica + rotação + resistência genética + boa saúde do solo. É essa arquitetura integrada, e não uma solução isolada, que a literatura recente aponta como caminho mais confiável para uma nematologia agrícola mais estável e sustentável. (MDPI)

Referências

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